Estafa

Hermione estava em seu escritório, o relógio quase marcava o horário de sua saída e suas mãos pálidas seguravam fracamente alguns pergaminhos, nos quais se via escrito todas as regras para a redefinição das leis. Os olhos cansados passeavam pelas letras escritas com tinta preta, mas o cérebro não conseguia mais raciocinar sobre o que ela estava lendo. Estava exausta.

Ponderou quanto tempo levaria até reler todas as coordenadas que estavam nos pergaminhos: muito tempo, mas de qualquer maneira, precisava das informações contidas neles. A oportunidade era perfeita para ela mesma impor algumas mudanças nas leis para que as mesmas facilitassem seu trabalho.

Jogou os pergaminhos na mesa, passando as mãos no rosto e tentando por meio desse gesto espantar o sono. Era segunda-feira e ainda teria uma semana completa de trabalho. Ela não havia voltado para casa, e isso catalisou seu cansaço. Sentia falta de sua banheira e de sua cama.

Seus pensamentos foram cortados quando Archie entrou em sua sala. Parecia cansado também, mas com um pouco de atenção, ela conseguiu ver certa preocupação por parte dele. O que estava acontecendo?

Archie percebeu que ela estava fitando-o. O vestido que ela usava era o mesmo que usara no jantar, mas era esperto demais a ponto de não comentar algo com ela. Sentou-se em uma cadeira que ficava em frente à mesa dela e juntou as mãos.

— Cansada?

Hermione assentiu, tombando o corpo na poltrona macia em que estava sentada, e apontando para os pergaminhos que cobriam a mesa.

— Essa redefinição de leis está ocupando boa parte do meu tempo, Archie, para não dizer tempo integral.

Archie sorriu para ela, ajeitando-se na cadeira.

— É sobre isso que preciso conversar com você.

Ela fitou o chefe, atenta a tudo. Se cancelassem o projeto, poderia ter mais tempo para ela, mas consequentemente não teria a oportunidade de reescrever leis mais rigorosas.

— O Departamento está precisando de uma pessoa, Hermione. E eu acho que você é a pessoa ideal para escolher tal ocupante.

Ela vincou a testa. Não se lembrava de ninguém sendo demitido ou deixando algum cargo.

— A pessoa ideal? – perguntou, não entendendo de imediato a importância da sua participação.

— Sim, essa pessoa irá te ajudar, Hermione. – Dessa vez, Archie cortou o contato visual, fitando com um interesse exagerado um tinteiro prata que estava na mesa da garota. Ela semicerrou os olhos, tentando descobrir o porquê da preocupação do chefe.

Archie sabia que ela era uma das funcionárias mais competentes do Departamento e, se ele um dia tivesse que deixar o emprego, confiaria o cargo à garota. Mas também sabia que ela poderia ver a sugestão com maus olhos, assim como fez.

— Você está me chamando de incompetente?

Ele afrouxou a gravata roxa, que de repente começou a sufocá-lo, e olhou para ela. Enquanto explicava, gesticulava muito com as mãos. Hermione soube imediatamente que o chefe estava nervoso.

— Com esse projeto do Ministério, você vai ficar com uma carga maior de trabalho, precisaremos de alguém para ajudá-la nisso. Não estou dizendo que você não dá conta, mas o Ministro precisa das leis reformuladas o mais rápido possível.

Hermione o mirou, os olhos castanhos praticamente perfurando cada célula dele. Depois de alguns segundos, ela suspirou, dando de ombros e revirando os olhos.

— Tudo bem. Acharei alguém.

Archie estava azul, mas quando ela não explodiu na sua frente, respirou fundo e voltou à cor normal. Antes que ela mudasse de ideia, agradeceu, colocando em pauta que ela era a melhor do Departamento e saindo apressadamente de sua sala.

Quando ela viu que estava sozinha novamente, levantou-se da poltrona e pegou os pergaminhos jogados na mesa, colocando-os dentro da pasta. Era impressionante como seu tempo parecia encurtar a cada ano: por mais que trabalhasse, sempre sobrava algo para terminar em casa.

Archie lhe dera carta branca para mexer nas multas mais complicadas. Multas que envolviam os bruxos da Inglaterra, e consequentemente, do mundo inteiro. Multas que, para seu cargo, eram essenciais.

Ela sorriu. Se conseguisse modificar as leis que queria de acordo com que estava planejando, muitos bruxos iriam para Azkaban antes do esperado. Só rezava a Merlin que Malfoy não interferisse nisso.

Saiu de sua sala, pensando nas possibilidades das pessoas que poderia contratar. Não poderia chamar Harry, sabia que o amigo estava ocupado demais sendo chefe dos Aurores. Talvez Rony? Se Hermione conseguisse fazer Rony desistir de trabalhar com dragões para se enfiar em um escritório, Molly lhe daria uma medalha. Sabia que o emprego do amigo era perigoso, mas se era sua paixão, não tinha por que ela fazer a oferta que estava pensando.

Hermione estava quase no elevador quando sua assessora a chamou. Ela se virou e percebeu que Rose estava ofegante, como se tivesse corrido para alcançá-la.

— Ainda bem que te achei. Estão te chamando na sala de Archie.

— Peça para Michael cuidar disso, eu estou indo para casa agora.

— Ele já está na sala de Archie, mas disse que você acharia certo te avisar.

Ela assentiu, entregando a bolsa e a pasta para Rose. Sabia que Michael não a chamaria por motivos tolos. Com passos decididos, caminhou em direção à sala de Archie e abriu a porta sem bater. O chefe estava quieto, mas ficou tenso ao ver Hermione entrar. Parte de sua equipe estava presente, e Michael sorriu ao vê-la.

— Espero que esteja calma.

Com isso, ele pegou o braço dela e ela sentiu a sensação familiar do gancho a puxando.

Quando abriu os olhos, percebeu que estava na fronteira da Inglaterra. O restante da sua equipe enrolava grandes tapetes, colocando cordas ante-magia em cada ponta para que eles não se abrissem novamente.

Hermione trancou o maxilar, seu corpo esquentando levemente.

— Tapetes voadores?

Michael assentiu com a cabeça e gesticulou para um integrante da equipe, que segurava um pergaminho sujo e caminhou em direção à Hermione, entregando-o para ela. Ela correu os olhos castanhos pela folha.

— Beco Diagonal?

Ele assentiu novamente, sorrindo para Hermione, que não entendeu o motivo do sorriso. Não achava a situação engraçada. Aliás, aquilo já estava acabando com o pouco de paciência que tinha. Já era a quinta vez que ela interceptava a mesma carga, com o mesmo destino. A única diferença era que o número de tapetes crescia gradualmente.

— E posso saber do que está rindo?

Michael gesticulou para outro ajudante e o humor de Hermione se alterou em um segundo quando ela viu um bruxo sujo se contorcer em cordas. Sorriu, aproximando-se do homem e o fitando com atenção. Parecia que havia algo de familiar nele, mas não perdeu muito tempo pensando nisso.

— Ele já falou algo?

— Ainda não – ele respondeu e o contrabandista fez uma cara feia. Hermione sorriu ainda mais e entregou o pergaminho para Michael, limpando a mão em um lenço e o fitando.

— Mande-o para a sala de interrogatório. Sabe que eu não lido com isso, isso é trabalho para Lewis.

Michael ficou surpreso. Achou que Hermione ficaria contente em fazer algumas perguntas, mas deu de ombros. Ela começou a andar, seu cérebro brilhante trabalhando com rapidez. Mesma carga, mesmo destino. Mesmo modo de contrabandear. Quem estava por trás do contrabando, com certeza era apenas uma pessoa, e ela estava ávida para descobrir quem era.

Sabia que a pessoa que procurava era esperta, mesmo que tivesse interceptado várias cargas, muitos tapetes haviam chegado ao destino. Já ouvira relatos de alguns bruxos do Ministério por causa disso e o Departamento de Execução das Leis da Magia estava a pressionando para resultados melhores.

Respirou fundo, fitando as pequenas casas que havia na vila próxima à fronteira. A voz de Michael chamou sua atenção.

— E se ele não falar nada?

Ela continuou a fitar a bela paisagem à sua frente. Era uma pena, sempre quando via os lugares mais bonitos estava em missões de trabalho.

— Mande-o para Azkaban. A prisão bruxa serve para isso.

Michael não respondeu, mas ela pôde escutar um gemido por parte do homem que estava preso. Sorriu, no mesmo momento que fechava os olhos e aparatava de volta para o Ministério.

[...]

Quando Archie fitou a garota que havia aparecido em sua frente, percebeu que já era hora de Hermione ir embora, e descansar devidamente.

Ela se sentou na cadeira que ficava perto da porta, fitando o chefe. Os olhos cansados denunciavam que precisava de uma folga.

— Hermione, vá para casa.

Ela assentiu e se levantou. Quando sua mão tocou a maçaneta dourada, Archie disse algo que a fez ficar satisfeita.

— Tire dois dias de folga. Vai fazer cinco anos que Você-Sabe-Quem foi derrotado. Isso deveria ser feriado para você.

Ela olhou para o chefe, que esboçava um sorriso. Retribuiu o gesto e o agradeceu. Merlin, precisava dessa folga. Saiu da sala de Archie e encontrou Rose, pegando seus pertences e caminhando em direção ao elevador. Se dependesse dela, não sentiria nem o cheiro do Ministério por dois dias.

[...]

— Olá, Aiki.

A coruja negra lhe bicou a mão com carinho enquanto Hermione abria a carta que fora entregue. O animal era o oposto de Edwiges, mas sustentava a mesma elegância da coruja que fora de seu amigo, anos atrás. Não precisava ler o remetente para saber de quem era, a letra era bonita e feminina demais para ser de Harry.

Mione,

Como vai? Espero que esteja bem, já que não temos notícias suas desde semana passada. Harry está aqui, ao meu lado, pedindo para eu te perguntar se você estrinchou por esses dias, deixando cada pedaço do seu corpo em um canto do mundo. Mas ele é apenas um bobo...

O que queremos dizer é que estamos com saudade e queremos vê-la em breve.

Harry diz que você trabalha demais e dessa vez eu concordo com ele. Por que não passa aqui em casa essa semana para um jantar? Espero resposta, Aiki não vai sair de seu apartamento enquanto não tiver uma carta no bico. Ordens do Harry.

Com amor,

Ginny.

Hermione revirou os olhos, sorrindo. Harry realmente era um palhaço quando queria. A ave negra a olhava com ternura, mas os olhos estavam determinados. A garota suspirou, entregando-lhe um pedaço de pão enquanto escrevia a resposta.

Teria dois dias de folga. Amanhã seria terça, e faria cinco anos desde que Harry derrotou Voldemort: era o dia perfeito para visitá-los. Poderia colocar a conversa em dia e provar aos amigos que estava inteira. Por que não? Poderia muito bem tirar o outro dia para descansar e reler os pergaminhos que Archie havia lhe entregado durante a semana.

Respirou fundo, escrevendo na carta que estaria no dia seguinte na casa dos amigos. Selou com um feitiço e entregou a Aiki, que enfiou o resto do pão na boca, como se temesse que Hermione tirasse o alimento no momento em que ela pegasse a carta.

A garota riu, vendo a coruja peculiar voar para fora da janela com a resposta no bico. De vez em quando, a coruja lhe lembrava Rony...

Ela espreguiçou, decidindo por tomar um banho e dormir. Era a única opção, considerando o cansaço que estava sentindo. No dia seguinte poderia ler um pouco, ou assistir algum filme, sentia falta disso, e de seus pais também.

Olhou para seu apartamento grande e bem mobiliado. Se Hermione fosse uma bruxa como todas as outras, ela se sentiria só no momento em que visse o espaço enorme vazio. Estava sozinha ali, sem ninguém para compartilhar os pequenos luxos que seu apartamento oferecia.

Mas não era como todas as bruxas. Era única. E gostava demais de sua própria companhia para gastar seu precioso tempo pensando nessas bobagens.

Com essa conclusão, ela se levantou da cadeira, caminhando em direção ao quarto a fim de fazer o que traçara segundos antes.