Obsession
19 Inferno
Inferno
Hermione abriu as pálpebras, que pareciam pesar cinco toneladas naquele momento. Piscou algumas vezes para que os olhos se acostumassem com a claridade. A mobília do seu quarto entrou em foco no mesmo momento, e a garota sentiu-se mais segura.
Porque ele não estava ao lado dela.
A condição que ela havia imposto foi uma das ideias mais inteligentes que havia tido. Não sabia se conseguiria suportar acordar diariamente ao lado dele. Sabia que se isso acontecesse, a primeira coisa que veria ao abrir os olhos seria o sorriso jocoso do homem nos lábios. E, para falar a verdade, definitivamente isso não era algo bom para começar o dia.
Espreguiçou-se no colchão macio de sua cama e olhou para o relógio que ficava ao lado. Dez horas da manhã. Assustou-se. Sabia que havia dormido muito por causa da claridade no quarto, mas não pensou que tinha sido tanto.
Lembrou-se da noite anterior e de como fora para o quarto, exausta. Seu rosto se esquentou levemente, no mesmo momento em que ela saía da cama e caminhava para o banheiro a fim de tomar um banho quente e demorado.
Ligou o chuveiro, esperando a água morna escorrer por sua pele. Era uma manhã de quinta-feira, e infelizmente Hermione não tinha que ir ao Ministério para trabalhar. Poderia ter essa desculpa para se focar em outra coisa que não fosse seu casamento de mentira. Mas infelizmente, aparecer no Ministério no primeiro dia de sua possível lua-de-mel traria suspeita até aos mais lerdos.
A garota respirou fundo e fechou os olhos, deixando a água correr para que lavasse os últimos vestígios dele. O cheiro dele. Perguntou-se mentalmente se aquilo iria ficar frequente. Não queria acordar todo dia e ter que tomar um banho para tirar o homem de sua pele.
Fechou a torneira e embrulhou-se na toalha felpuda, caminhando para o espelho, observando de forma relutante o seu reflexo. Não tinha olheiras, havia dormido tempo o suficiente para que elas sumissem. Hermione se surpreendeu com esse fato. Estava acostumada a se ver sempre cansada. Porém, o que a incomodava não era a falta de olheiras e o vigor repentino, e sim a marca arroxeada que estava em seu pescoço.
Fechou os olhos, contando até dez para conter a vontade de atravessar o corredor e matar o homem que estava dentro do outro quarto. Lembrava-se perfeitamente do momento em que ele havia a mordido. Mas, por Merlin, não pensou que ficaria marca daquilo.
Hermione largou a toalha na bancada da pia e enrolou-se em um roupão, saindo do banheiro, pegando a varinha e apontando diretamente para o pescoço. Murmurou o feitiço correto e sentiu o local marcado arder, para depois esfriar-se. Sabia que a marca havia sumido, mas infelizmente ela já havia visto tudo aquilo para se esquecer.
Bufou, saindo do quarto. Bichento veio ao seu alcance no mesmo instante. Roçou entre as pernas da dona para depois segui-la em direção à cozinha. Ela acenou com a varinha e os pratos e frigideiras começaram a fazer o seu café da manhã, enquanto ela se sentava no balcão de mármore claro e tamborilava os dedos. O gato subiu no balcão, olhando a dona com a linguinha para fora. Hermione acariciou a cabeça do gato, virando-se vez ou outra para trás.
Ele ainda estava dormindo, e ela podia jurar que ele ficaria dentro do quarto uma boa parte do tempo. Ela sabia que o snatcher nunca havia dormido em uma cama como aquela. E se agora ele tinha um emprego garantido e podia dormir até na semana seguinte, ele faria.
Hermione travou o maxilar, no mesmo momento que uma torrada voava em sua direção, sendo acompanhada de sua geleia preferida. Passou a pasta na torrada e mordiscou um pouco. Correu os olhos pelo relógio que ficava na cozinha. Dez e meia. Já estava passando da hora de tomar a sua poção anticoncepcional.
Caminhou até o armário e tirou um frasquinho com um conteúdo roxo dentro. Não sabia dizer ao certo quando começou a preferir os meios contraceptivos dos bruxos aos meios dos médicos trouxas, mas definitivamente a poção era mais forte do que a pílula. E não engravidar era tudo o que ela precisava no momento.
Tirou a tampa do frasquinho e tomou de um só gole a poção.
– Você sabe que um dia terá que parar de tomar essa poção.
Hermione se virou para o homem que estava atrás dela. Estava vestido, e ela agradeceu-o mentalmente por isso. Pelo menos ele tinha um pouco de noção. Seu corpo estava coberto apenas por uma calça verde escura, que parecia com as calças de moletom que os trouxas usavam.
Bichento fez um barulho estranho e pulou do balcão, correndo para a sala e subindo na sua poltrona preferida. Enrolou-se em uma bolinha e, de costas, dormiu. Scabior apenas acompanhou a criatura com os olhos, arqueando as sobrancelhas e virando-se para a bruxa quando o animal saiu da cozinha.
– Acho que o seu gato não gosta muito de mim.
Hermione passou por ele e voltou a se sentar no balcão, dando mais atenção à sua torrada.
– Bichento sempre foi inteligente em suas escolhas. Ele gosta de pessoas que gostam de mim.
Mordiscou a torrada enquanto Scabior a observava, sorrindo de forma divertida com o comentário dela. Ele se sentou em frente a ela e pegou uma torrada sem pedir permissão, dando uma mordida grande.
– Quanto à poção. Eu terei um ano para engravidar...
Ele revirou os olhos e continuou a comer. Se existia uma pessoa mais enjoada do que a garota que estava à sua frente, ele teria que conhecer. Seria um caso do St. Mungus. Poderia até virar um livro. Ficaria na sessão restrita da biblioteca de Hogwarts. “A garota que sentia prazer em discordar de tudo” ou “Hermione Granger: genialidade ou problema?”. Hermione o olhou de forma intensa e pigarreou. Scabior voltou seus olhos azuis para ela.
– Acho que está passando da hora de você saber como terá que trabalhar.
Ele não queria aquilo. Havia acabado de acordar. Tudo o que queria era tomar o seu café da manhã, que estava provando ser um dos melhores que havia tomado, e quem sabe tentar irritá-la um pouco mais. Ou poderia gastar o seu tempo tentando-a. De todas as formas. Apenas um pensamento disso fez com que Scabior reprimisse um sorriso.
Porém, por mais que ele soubesse o quão chato aquilo seria, tinha que reconhecer que sim, estava passando da hora dele saber as regras do trabalho. Porque no momento em que soubesse das regras, ele poderia pensar em um jeito de burlá-las.
Em vez de reclamar, ele assentiu. Ela começou a falar.
– Como meu assistente, você trabalhará diretamente comigo, e apenas comigo. Não faça isso.
Scabior estava prestes a mergulhar um pedaço de torrada no pote de geleia, mas parou de chofre e voltou a pousar as mãos no balcão. Hermione empurrou uma espécie de espátula para ele e o olhou de forma determinada. Ele podia jurar que a garota lhe lançaria uma Maldição da Morte se ele tentasse não usar a faquinha. Ele a pegou.
– Porém, você não sairá do Ministério para me acompanhar nas inspeções que fazemos nas fronteiras. Você mexerá praticamente com a papelada, contornando a burocracia e facilitando a minha vida.
Ela continuou a falar e Scabior enfiou o pedaço de torrada com geleia na boca de forma mal-humorada. Não havia gostado daquilo. Realmente gostaria de acompanhá-la nas fronteiras. Poderia descobrir de forma mais direta como ela trabalhava para impedir que ele ganhasse mais dinheiro.
– Claro que eu não darei acesso aos pergaminhos mais importantes para você. Esses ficam em um local secreto que apenas eu tenho acesso. De qualquer forma, os pergaminhos que terá em mãos são protegidos com feitiços antiassinaturasfalsas.
O humor de Scabior já estava se esvaindo. Ela o olhava de forma calma, e ele estava ficando inquieto com isso. Claramente estava faltando algo. Algo que haviam combinado, e ela não estava cumprindo, e parecia ter consciência disso.
– E você começa a me ajudar quando?
Perguntou para a garota e ela apenas sorriu, jogando os cabelos longos e volumosos para trás com um movimento de mão.
– Quando eu quiser.
Scabior se inclinou automaticamente em direção a ela, olhando-a de forma ameaçadora.
– Não me faça de burro. Você sabe que eu sei fatos que ninguém sabe.
Hermione não sentiu o mesmo medo que sentia sempre quando ele a ameaçava. O que ele realmente sabia dela? Que ela havia se entregado para ele? Eles agora eram casados, ela poderia usar esse fato para anular esses acontecimentos desagradáveis. Poderia dizer que foi assim que se apaixonou pelo que hoje era o amor de sua vida. Forçou-se a ficar séria, pensando daquela forma, seria até engraçado.
– Se começar a me ameaçar, eu vou te demitir e você passará o resto da sua vida tentando contrabandear Tapetes Voadores para a Inglaterra!
Quase gritou, mas se segurou para não fazê-lo. O rosto de Scabior perdeu momentaneamente a cor, mas ele se recuperou rápido. Foi pego de surpresa, pela primeira vez a garota estava com a vantagem, e percebeu tarde demais o motivo dela tê-lo pedido em casamento.
Ele havia deixado a razão de lado e seguido o seu desejo. O desejo de tê-la sempre encurralada por ser a sua mulher. Mas percebeu que isso não seria tão agradável se ela o tivesse nas mãos. E ela o tinha, naquele momento.
Hermione percebeu a raiva crescente do homem e esboçou um sorriso de vitória. Ele não conseguiu se conter, levantou-se de uma vez do banco em que estava sentado no balcão e inclinou-se em direção a ela. Ficaram a poucos centímetros e ela pôde sentir o cheiro peculiar e masculino do homem. Tentou focar-se no momento, em vez de ser guiada pelos instintos.
– Cuidado.
Ele a alertou, mas ela apenas ergueu um pouco mais a cabeça, cruzando os braços em frente ao corpo, meio que por proteção. O homem que estava à sua frente não parecia tranquilo, e a cada segundo que se passava, ele parecia aberto à violência.
De repente ele quebrou o contato com os olhos e se afastou, mas ainda estava de pé.
– Vai sair para algum lugar?
Hermione perguntou sem conseguir se conter ao vê-lo se afastando do balcão da cozinha. Scabior apenas sorriu, voltando a se aproximar. Enfiou completamente o dedo no pote de geleia e colocou o dedo na boca.
O corpo dela se esquentou de fúria. Incrivelmente, já era a segunda vez que ele fazia aquilo em sua casa, e a garota odiava aquele tipo de atitude.
– Acho que vou ficar em casa hoje.
Ele sorriu para ela novamente e caminhou em direção à sala, sentando-se de forma relaxada no sofá. Bichento correu para dentro do quarto de Hermione no mesmo momento que o homem entrou na sala. Ela ignorou o pote de geleia e foi em direção ao cômodo também.
Ele estava deitado, e girava uma de suas almofadas preferidas nas mãos. Estava perigosamente perto de um objeto de cristal que sua mãe havia lhe dado no Natal do ano passado. Um enfeite tipicamente trouxa, mas lindo e caro demais para ser quebrado por um homem igual aquele.
Mas ela se conteve em xingá-lo. Sabia que aquele era o objetivo do homem. Irritá-la.
Ele girava a almofada e olhava para ela, desafiando-a. Hermione bufou, não conseguindo conter os seus olhos, que correram pelo corpo dele. A calça que o homem usava não deixava muito para a imaginação. O tecido era fino demais e mostrava todo o conteúdo que ela teria que esconder. Ela desviou os olhos daquela parte e focou-os no teto da sala, respirando fundo novamente.
Havia se esquecido completamente de que estava partilhando o seu querido apartamento com aquele homem. E poderia jurar que ele faria de tudo para infernizá-la o resto da semana. Olhou-o uma última vez, e o sorriso que ele deu para ela a confirmou disso.
[...]
Hermione estava sentada em sua cama. Alguns pergaminhos estavam jogados de forma displicente no colchão, rodeando o seu corpo. Já havia escurecido, e a garota estava em seu quarto desde depois do almoço.
Realmente não havia aguentado um dia inteiro com ele. Felizmente o snatcher havia caído no sono depois de algum tempo a importunando. Poderia aguentar a forma como ele deitava em seu sofá, fazendo com que todas as almofadas caíssem no chão. Poderia aguentá-lo indo para a sala de televisão e mexendo no controle remoto como se aquilo fosse algo perigoso. O aparelho ligou, e depois que ele descobriu que Hermione odiava alguns canais e como aumentava o volume, aí sim ela havia perdido a paciência.
Então estava no quarto por horas, mas seu corpo já estava cansado. Mesmo que não tivesse trabalhado, não aguentava mais estudar o mapa da Inglaterra. Ela passou a mão no rosto e esfregou os olhos.
– Não sei como eles ainda conseguem enfiar essas mercadorias no país.
Disse para si mesma.
– Acho que você não está pensando direito.
A voz masculina chegou aos seus ouvidos, indicando que ele havia acordado. Hermione travou o corpo. Ela o olhou. O homem estava apoiado no batente da porta. Estava totalmente vestido, com a mesma calça preta e uma blusa em um tom arroxeado. Usava botas. Hermione franziu o cenho para esse fato.
Ele a olhava de forma divertida. Ela sabia o motivo disso, mas era orgulhosa demais para perguntar o que ele queria dizer com aquilo. Ou para pedir ajuda. Merlin, ela nunca pediria ajuda para alguém como ele. Ele entrou no quarto.
– Eu estive pensando. Acho que prefiro ficar apenas com a papelada.
A declaração dele pegou Hermione desprevenida. Ela sabia que ele estava com algo em mente, e vindo dele, isso não seria algo bom. Mas não disse nada, estava cansada demais para perguntar sobre o interesse súbito dele pelos pergaminhos. De qualquer maneira, ela duvidava que ele responderia às suas perguntas.
Scabior se aproximou da cama da garota, que era idêntica à sua. Apoiou-se com as duas mãos no colchão e percebeu que esse era mais macio do que o dele. Por que mulheres gostavam tanto de cama com dossel?
– O que está fazendo?
Ela perguntou de forma relutante e ele apenas sorriu, aproximando-se ainda mais dela. Sentiu o corpo de garota tenso. Ele capturou os lábios rosados dela de forma calma e beijou-os por um instante.
– Eu preciso sair.
Disse de forma calma e passou as mãos nos cabelos de Hermione. Saiu do quarto e Bichento no mesmo momento entrou, o rostinho do animal estava emburrado. Parecia que o gato estava com problemas para dormir por causa do snatcher perambulando pela casa.
Hermione passou os dedos levemente pelos lábios. Sentia-se atordoada. E não sabia dizer se o motivo disso era porque ele claramente havia dito que precisava sair, ou se era o beijo leve e tranquilo que ele havia dado nela. O que ele pretendia fazer? Não soube responder, e sentia-se curiosa. Mais ainda porque o gosto dos lábios masculinos ainda estava nos seus, e de alguma forma isso os deixava um pouco aquecidos.
Fale com o autor