Obsession
15 Gato e Rato
Gato e Rato
Hermione fitava fixamente com os olhos castanhos a sua caneca de leite. Era uma manhã de domingo, estava fazendo frio, mesmo que o inverno ainda não tivesse chegado. Estava sentada em sua cama, a carta da Lei de Casamento estava aberta em frente a ela, mas ela evitava a todo custo pousar seus olhos no pergaminho.
Já havia o relido inúmeras vezes.
Podia dizer todas as palavras que estavam ali escritas, sua mente sempre inteligente definitivamente estava tendo dificuldades para bolar um plano para aquela situação. Não acreditava que uma bruxa que ajudou a derrotar Voldemort poderia ter medo de apenas um pedaço de pergaminho. Mas ela tinha.
Ela suspirou, começando a ficar inquieta. Não queria ficar em casa, e sabia que mesmo se quisesse, não conseguiria. Ela tinha que resolver alguns assuntos.
Poderia ir para o Ministério adiantar seu trabalho? Archie não ficaria satisfeito ao perceber que ela estava usando o seu direito de aparatar diretamente em sua sala em uma manhã de domingo, mas a garota duvidava que seu chefe estivesse no lugar naquele dia para lhe pegar de surpresa.
Archie devia estar tomando o café da manhã com a sua família, como qualquer pessoa normal no mundo estaria fazendo no momento. Afinal, ele não precisava procurar uma mulher, ele já era casado. E mesmo que não fosse, ele não tinha um snatcher atrás dele tentando acabar com a sua vida.
Um barulho soou por perto e Hermione apenas virou a cabeça para fitar Bichento. Os olhos ariscos do gato estavam fixos na dona, a língua passava pelos bigodes, depois o gato olhou para a caneca dela com fome. Mas se recusou a subir na cama, o que ela achou muito estranho.
Ela arqueou uma sobrancelha e olhou novamente a carta. Bichento miou em protesto, mas Hermione foi irredutível, o gato tinha acabado de comer, não daria leite para ele. Ela respirou fundo, sentindo o cheiro do homem que tanto odiava entrar pelo seu nariz. Infelizmente algumas horas de sono do snatcher foram o suficiente para que o cheiro dele ficasse por todo o cobertor dela.
Pensar nele fez com que ela desviasse o rumo dos seus pensamentos para o próprio sem conseguir se conter. Precisava tirar o trunfo dele, precisava achar alguma maneira de fazê-lo desistir da ideia de chantageá-la. Ela precisava cortar de uma vez o jogo que ele estava ganhando.
Olhou novamente para a carta que trazia em seu conteúdo a Lei de Casamento. Hermione era obrigada a se casar com um sangue-puro, por ser filha de pais trouxas. Onde poderia achar um sangue-puro?
Ela já sabia a resposta, mas queria desviar suas certezas a todo custo. Meneou a cabeça com lentidão e voltou a respirar fundo.
O snatcher usava a sua entrega como chantagem, e ela não podia deixar de pensar que ele tinha um belíssimo e perigoso trunfo na mão. Se alguém, qualquer pessoa, soubesse que ela havia se entregado para um homem como aquele, sua carreira seria arruinada.
Afinal, o que uma pessoa igual a ela estaria fazendo na Travessa do Tranco? Pior, por que uma pessoa igual a ela estaria compartilhando a cama com um homem como aquele?
Se Hermione conseguisse achar um motivo para que todos pensassem que ela tinha algum laço com ele, o snatcher não poderia mais usar o motivo de sua chantagem. Rita Skeeter não iria trabalhar em cima de uma garota que se entregou para um possível ladrão. No máximo a repórter falaria de um relacionamento estranho e suspeito.
Muito estranho e muito suspeito, para dizer o mínimo.
Hermione travou o maxilar. Teria que dar um jeito de contornar esse obstáculo. De qualquer maneira, uma matéria dizendo sobre um caso estranho seria mais vantajosa do que uma matéria dissertando sobre a entrega de uma pobre garota. Ela não tinha muitas escolhas, para falar a verdade.
A mente esperta começou a trabalhar de forma rápida novamente, uma luz bem fraca piscando no fundo do seu subconsciente, mas que se tornava mais forte cada vez que ela arquitetava com mais calma e frieza o seu plano.
Ela se levantou da cama, pousando a caneca de leite vazia no criado mudo. Bichento saltou até o móvel, mas logo fez uma careta e desceu para o chão, constatando que sua dona havia bebido tudo.
Começou a se arrumar, colocando uma calça jeans e botas. Colocou uma blusa de malha leve e preta com mangas compridas, e apenas para se prevenir, pegou um casaco dentro do armário. Mesmo não estando na época do inverno, o domingo parecia bastante frio.
Caminhou para o banheiro, arrumando o cabelo e escovando os dentes. Olhou-se no espelho, vendo o reflexo com uma fisionomia um pouco cansada, mas determinada.
– Você vai resolver dois problemas de uma só vez, Hermione.
Disse para si mesma, antes de sair do banheiro e pegar a bolsa e a varinha em cima da cama, caminhando para a sala a fim de entrar na lareira.
Sabia exatamente para onde ir.
[...]
Scabior estava deitado na cama, os olhos focados na mulher que estava à sua frente. Não diziam nada um para o outro, mas ele gostava exatamente disso depois de tudo: silêncio.
A mulher ainda colocava as roupas íntimas, que eram minúsculas mesmo para o seu corpo escultural. Os cabelos estavam desgrenhados, mas Scabior sabia que ela lançaria um feitiço nos fios antes de sair pelas ruas da Travessa do Tranco, antes de começar novamente o seu trabalho com outro cliente.
Ela começou a se vestir, apertando o espartilho. Estava de costas para ele, e ele fez uma careta de impaciência ao vê-la recolocar todas as roupas. Era uma manhã de domingo, ela havia dormido no seu quarto. Scabior detestava compartilhar sua cama com mulheres, odiava quando elas dormiam com ele, como se fossem donas do lugar.
Ela terminou o que estava fazendo e virou-se para ele, dando um sorriso falso e pegando as moedas bruxas que estavam jogadas na beirada do colchão. Saiu pela porta do quarto sem dizer nada, e quando ele ouviu a porta do seu pequeno apartamento ser fechada, espreguiçou-se e olhou para o teto.
Valeria a pena se casar com uma prostituta?
Focava-se nessa pergunta como se a alternativa fosse realmente válida. Com certeza teria que pagá-la anualmente, ou mensalmente. Ou diariamente, dependendo da maldita mulher. Travou o maxilar. Dias atrás, nunca se imaginaria fazendo as contas de quanto custaria uma prostituta pelo resto da vida.
Pelo menos elas sabiam ser boas de cama.
Um ronco em seu estômago o alertou da fome que seu corpo sentia. Normalmente não fazia ideia de quando estava com fome, o álcool nunca deixava o seu corpo sentir tal sensação. Mas agora ele estava claramente protestando a falta de comida.
Scabior respirou fundo, pensando nas possibilidades que a Travessa do Tranco poderia oferecer. Não era exigente, mas sabia que as melhores refeições estavam no Caldeirão Furado e no Beco Diagonal. Infelizmente não sentia a mínima vontade de ir para tais lugares.
O som de uma batida na porta ressoou pelo quarto e ele xingou baixinho a camareira. Já havia pedido inúmeras vezes para que não batessem em sua porta pela manhã, mas já havia percebido que as camareiras eram trasgos o suficiente para nunca entenderem um pedido.
Levantou-se da cama e caminhou em direção à porta de entrada de forma irritada, abrindo-a com violência e raiva. E o que viu lhe deixou muito surpreso.
A garota estava na sua frente, mas não ficou ali por muito tempo, logo entrou no cômodo sem pedir licença ou autorização. Scabior não gostou disso, mas ela não lhe deu tempo para qualquer reação.
Hermione correu os olhos pelo lugar onde esteve semanas atrás, não conseguindo se desviar dos pensamentos e imagens que inundaram sua mente. O mesmo lugar onde ela havia se entregado pela primeira vez. O sofá em que ele havia a tomado, o chão que fora coberto por suas roupas, a porta no fundo que dava para o quarto dele, onde ela havia sucumbido ao sono. O rosto dela começou a se esquentar.
Ela respirou fundo, sentindo o cheiro de perfume barato entrar pelo seu nariz. Uma mulher esteve ali, antes dela, isso era inquestionável. Algo dentro de Hermione se remexeu inquieto, mas ela não deu atenção a essa sensação.
O cheiro de sexo estava por toda a parte, como se o snatcher tivesse acabado de usar a cama. Quem era ela? Hermione não encontrou ninguém pelo corredor, e ao julgar pelo cheiro tão forte, não havia muito tempo desde que saíra.
Meneou a cabeça para tirar esses pensamentos de sua mente.
Virou-se para encontrar o homem, que estava fechando a porta. Ela percebeu pela primeira vez que ele estava coberto apenas por uma boxer preta. O rosto dela esquentou-se mais um pouco.
– O que você quer?
Scabior perguntou de forma direta, realmente não entendendo a presença súbita da garota no local onde ele vivia. Ela apenas travou o maxilar, correndo novamente os olhos castanhos pelo corpo do homem.
– Você pode se vestir?
Ele correu os olhos pelo próprio corpo, fazendo uma careta de impaciência e caminhando diretamente para o sofá, onde uma calça preta estava jogada displicentemente. A garota não pôde deixar de pensar que ele a jogou ali de qualquer maneira porque não teve tempo de pensar em um local melhor, já que estava em companhia feminina.
Scabior vestiu a calça e olhou para Hermione, que permanecia aérea. Ele percebeu a atenção estranha que ela estava dando ao sofá, mas realmente não sabia o motivo disso. Pigarreou para tirá-la de seus pensamentos e ela se assustou um pouco, sacudindo a cabeça e mordendo o lábio inferior. Os olhos castanhos dela correram automaticamente pelo corpo dele. Ele não havia vestido uma blusa, e permanecia apenas de calça, olhando-a e esperando-a.
Ele começou a ficar inquieto com aquela situação toda. Ela o olhando daquela forma não estava ajudando. Se ele não soubesse da repulsa evidente que ela sentia por ele, poderia até pensar que ela estava tendo um lapso de desejo. Mas ela o detestava, e ele não tinha ideia do que se passava na mente dela. Tentou esquecer aquele assunto, sabia que se pensasse muito sobre, sua calça começaria a ficar pequena, o que não adiantaria no todo.
– Você já deve estar sabendo sobre a Lei de Casamento.
A voz feminina cortou o silêncio estranho da sala e Scabior respirou fundo, sentindo o cheiro peculiar de baunilha da garota. O corpo dele se esquentou por inteiro ao se lembrar da maldita lei que estava lhe tomando um tempo precioso.
– Sim.
Ele respondeu de forma rude, e Hermione não gostou disso. Mas demorou a perceber que o motivo de ele responder daquela forma não foi ela, e sim a evidente raiva que ele sentia pela lei. Sentimento que ela compartilhava com ele. Pela primeira vez os dois tinham uma opinião igual sobre algum assunto. Até ele abrir a boca novamente.
– Mas já estou pensando em algum jeito de burlar essa maldita lei.
Ela apenas revirou os olhos, gesto que não passou despercebido aos olhos do snatcher. Ela deu dois passos à frente e começou a olhar o homem que estava com as mãos em punho. Nunca havia o visto daquela maneira. Nos poucos dias que se encontraram, e que infelizmente estavam se tornando algo comum, ele sempre esteve calmo e frio, como se sempre tivesse um plano estrategicamente formado na cabeça. Naquele momento não. Parecia um pouco alterado, e ela começou a gostar da cena que estava vendo.
O peito delineado masculino descia e subia de forma não muito compassada, os olhos azuis frios analisavam cada gesto mínimo dela, como se ele estivesse temendo o súbito assunto que ela havia colocado em pauta.
– Isso é impossível. Você sabe disso.
A voz feminina tornou a chegar aos ouvidos de Scabior e ele deu mais dois passos para o lado, tentando contorná-la. Hermione se virou, mas não deixou de perceber os olhos azuis correndo pelo seu corpo, da mesma forma que ela fizera segundos antes.
Parecia um jogo de gato e rato.
Scabior de repente se virou, indo em direção a uma mesa bagunçada com copos e garrafas que ficava perto do sofá. Encheu um copo com uma bebida em tom marrom. Hermione sabia qual bebida era, mas não disse nada. Ele não ofereceu a bebida a ela, sabia que ela não aceitaria. Ainda estava de costas quando respondeu.
– Nada é impossível. Você se acha muito esperta, lindeza.
O coração dela deu um salto quando escutou o apelido que infelizmente ele havia dado a ela. Não gostava disso, mas sabia que nada adiantaria pedir para ele parar de chamá-la daquele jeito. Pelo contrário, ele apenas o faria mais. Como sempre fazia ao saber que algo a irritava.
Hermione percebeu que o que diria para ele corroboraria o que ele havia acabado de falar. Realmente nada era impossível. E o motivo de ela estar ali era uma prova concreta disso.
De repente Scabior começou a rir e ela ficou em alerta. O snatcher rindo nunca era algo bom, mas não perguntou o motivo. Não precisava. Ele se virou.
– E você? A poderosa garota prodígio. Já achou alguém à sua altura?
Ela travou o maxilar, enquanto ele se apoiava na mesa de forma descontraída e bebia um longo gole de Uísque de Fogo, não retirando os olhos dela.
– Não. Mas já tenho alguém em mente.
Respondeu e o snatcher apenas sorriu, mas assustou-se com a segunda frase. Quem seria o escolhido da garota? Alguém com muito poder, dinheiro, e inteligência. Não queria pensar naquilo. Minutos atrás ele se perguntava como seria casar com uma prostituta. Era uma questão de fatos. As pessoas buscavam o que era mais compatível para elas.
Hermione se aproximou dele e o olhou intensamente. Ele franziu o cenho com o gesto, mas não disse nada. De repente ela abriu a boca.
– Você é sangue-puro, não é?
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