Reencontro

Hermione acordou relutante, contorcendo-se preguiçosamente por debaixo do cobertor fofo da cama. A luz fraca atravessava com delicadeza a cortina de seu quarto. Ela esfregou os olhos com os dedos, espantando o resquício de sono que insistia em ficar. Era terça-feira e ela prometera a Harry e Ginny que estaria presente no jantar.

Com calma, saiu da cama e colocou o penhoar fino no corpo, saindo do quarto reconfortante. Bichento veio ao seu alcance no mesmo segundo, passando entre suas pernas e ronronando. Ela abaixou-se e pegou-o no colo, acarinhando o topo da cabeça do bichinho. O estômago de Bichento vibrou.

- Está com fome? Tão cedo...

Olhou para o relógio dourado que ficava na sala e se surpreendeu com o horário. O ponteiro grande estava estacionado no número dois, indicando que ela havia dormido mais do que o normal. O corpo já não estava cansado, e ela tinha o dia inteiro de folga, então não se preocupou muito com o ócio exacerbado. Apenas sentiu pena de Bichento, que havia ficado sem almoço por um tempo incomum.

Ela caminhou até a cozinha e depositou na tigela a ração do gato, gesto que ele agradeceu com um ronronar, começando a comer imediatamente. Ela respirou fundo, repassando mentalmente tudo o que teria que fazer nos dias de folga.

Lembrou-se do compromisso que havia marcado com Harry e Ginny e passou as mãos pelos cabelos emaranhados, perguntando-se se o jantar lhe tomaria muito tempo. Não que a companhia de seus amigos fosse desagradável, mas ela ainda precisava repassar as leis, mesmo que estivesse de folga.

[...]

Ginny lhe recebeu como sempre recebia quando Hermione ficava dias sem vê-la. A garota de cabelos ruivos abraçou a amiga por um longo momento, mas depois a olhou desconfiada e reclamou da falta de tempo dela. Algumas vezes, Ginny lembrava muito Molly, a matriarca da família Weasley, que sempre achava ruim quando os filhos sumiam d'A Toca por um longo tempo.

- Prometa não sumir mais!

Ginny lhe disse, no mesmo momento que Harry envolvia a amiga com os braços. Hermione sentia falta do amigo, mesmo que se passassem cinco anos, ela ainda não havia se desacostumado a sua presença, afinal, foram sete anos convivendo diariamente.

- Eu não sumo, Ginny... apenas trabalho demais...

Hermione já tinha montado a desculpa antes mesmo de Harry se afastar. Ela colocou o casaco no cabide perto da porta, sentindo o aconchego da casa. Sempre falava aos amigos que seu trabalho lhe consumia quase todo o tempo, mas Ginny apenas revirou os olhos.

- Sei... trabalho...

Gesticulou com um sorriso para que Hermione a seguisse, Harry foi logo atrás. O cheiro da comida já estava por toda a casa, e fez com que o estômago de Hermione começasse a ficar empolgado com a possível refeição. Ela entrou na sala, e não se surpreendeu quando viu Rony e Luna sentados no sofá confortável.

Rony foi o primeiro a se levantar, aproximando-se e abraçando Hermione com ternura. Luna imitou o gesto do namorado logo depois, olhando-a com seus olhos azuis brilhantes.

- Está linda.

Disse sem muitos rodeios. Hermione apenas sorriu, agradecendo o elogio. Mesmo que fosse a única dos amigos que não tivesse ninguém, ela não se incomodava nem um pouco com a falta de um companheiro. Ela estava feliz pelo namoro dos dois casais, e se sentia realizada ao ver a felicidade que Rony e Harry emanavam ao olhar para Luna e Ginny, respectivamente.

O aroma da comida se intensificou quando Ginny apareceu na sala, dizendo para todos que o jantar estava servido. Rony foi o primeiro a se levantar novamente, e Luna apenas revirou os olhos, acostumada com a fome anormal do namorado.

Todos se sentaram à mesa, e Hermione ficou na ponta, deixando as outras cadeiras para que os casais ficassem lado a lado. Ginny acenou brevemente com a varinha, fazendo os pratos se encherem automaticamente com magia. Hermione pegou os talheres e começou a comer, sentindo o gosto maravilhoso do tempero que ela usou.

- Está ótimo!

Elogiou, e a garota de cabelos ruivos apenas sorriu. Rony não falava nada, apenas comia. Harry olhava para Hermione com um visível interesse, e a garota não entendia o motivo disso.

- Estava mostrando agora a pouco para Ginny o Profeta Diário.

O amigo de olhos verdes disse para Hermione, que fingiu de desentendida. Mas Ginny não se deixou abalar pelo gesto da amiga.

- Você está no jornal, Mione!

Hermione sorriu, um pouco sem graça pela atenção que estavam lhe dando. Já estava acostumada com a sua cara estampada no maldito jornal bruxo, e não gostava muito daquilo. A imprensa sempre alardeava todas as prisões e confiscos que ela fazia, o que complicava demais a vida dela, caso ela quisesse trabalhar discretamente para investigar e capturar mais bruxos que passavam por cima das leis.

Mas sair no Profeta Diário era a consequência de ser extremamente bem sucedida em seu trabalho. Com apenas vinte e três anos, alcançar o que Hermione alcançou era praticamente um fenômeno.

O jantar correu bem, eram cinco amigos reunidos, sempre com novidades para contar e lembranças para recordar quando se juntavam. A comida de Ginny estava cada vez melhor, e seu irmão parecia um faminto comendo, enquanto Harry e Luna conversavam sobre os tempos em Hogwarts. Hermione permanecia contida, apenas observando os amigos, um resquício de nostalgia pairando sobre ela.

[...]

- Harry.

Hermione chamou o amigo, observando de longe Rony comer o restante de sobremesa que ainda havia, Luna conversava trivialidades com Ginny. Harry se aproximou de Hermione, apoiando-se no balcão da pia. A garota mordeu os lábios.

- Archie disse que vou precisar de um ajudante.

Os olhos verdes apenas permaneceram a fitando, e Hermione revirou os olhos com esse gesto, já sabendo o que significava.

- Eu não estou trabalhando muito!

Harry sorriu, cruzando os braços. Ela lembrou-se de George no mesmo momento, esse gesto era praticamente sua marca registrada, mas não quis pensar muito no ruivo, pois sempre acabava pensando em Fred também. Ela passou as mãos nos cabelos enquanto olhava para Harry.

- Sei que Archie não vai mudar de opinião. O Departamento inteiro está trabalhando com as novas regras que o Ministro exigiu. Eu fiquei com a carga principal, redigindo-as e analisando as sugestões de outros funcionários do Departamento.

Ela terminou de falar, esperando a reação dele. Ele colocou a mão longa no queixo e ficou um pouco pensativo. Ela apenas esperou a resposta de Harry.

- Eu não sei, Mione... não consigo pensar em ninguém que poderia trabalhar com você... à sua altura...

Disse com sinceridade. Hermione soltou um muxoxo, um pouco decepcionada. Harry era sua última esperança em obter ajuda. Com a carga de trabalho que estava, a última atitude que ela queria tomar, era pensar em possíveis candidatos a ajudantes, isso tomaria seu tempo.

- Mas prometo tentar achar alguém.

Ele disse por fim, desencostando da bancada da pia. Rony já estava abraçado a Luna e Ginny se aproximou, pegando a mão do namorado. Hermione percebeu que já estava ficando tarde. Ela olhou o relógio de pulso e suspirou.

- Eu preciso ir.

Antes que Ginny pudesse protestar, Hermione se aproximou do cabide perto da porta, pegando seu casaco pendurado. Abraçou rapidamente os amigos e despediu de todos, acenando e sorrindo enquanto saía da casa aconchegante.

Sabia que os amigos ainda ficariam horas conversando, mas sinceramente, a mente de Hermione estava estacionada nas leis que teria que reescrever, e não em receitas de poções e novas regras de Quadribol.

Ela colocou o casaco. Era primavera em Londres, mas a cidade ainda era fria nessa época do ano. Ela pegou a varinha no bolso e pensou em seu apartamento, desaparatando rapidamente. Ao abrir os olhos, reconheceu a fachada do seu prédio e respirou profundamente.

- Lar doce lar.

Entrou no hall, chegando perto da lareira que sempre estava acesa. Havia Pó de Flu em uma mesinha prateada. Hermione agradeceu mentalmente por ter escolhido um prédio apenas para bruxos, viajar com Pó de Flu era mais prático do que esperar um elevador.

- Apartamento cento e seis.

Disse e jogou os grãos nos próprios pés. Abriu os olhos e saiu para sua sala, retirando os sapatos no mesmo segundo. Bichento veio ao seu alcance, roçando entre as pernas dela que o pegou no colo, caminhando para o sofá. A lareira ainda estava acesa, ela não queria apagá-la, mesmo sabendo do risco de ser visitada por uma cabeça. As chamas davam ao lugar um ar aconchegante e cálido.

Suspirou, fazendo Bichento se levantar e abaixar. O gato estava em cima de sua barriga, enrolado como uma bola, e parecia confortável demais para sair daquele lugar no momento. Hermione passou a mão pelo pelo macio do gato enquanto pensava em um assunto que estava lhe tomando o sossego.

Por mais bem sucedida que ela fosse, faltava algo em sua vida, algo que há cinco anos ela tinha. Emoção? Não sabia o que era sentir isso, não conseguia sequer pensar em um momento emocionante que havia passado no Ministério enquanto trabalhava em demasia. O tédio predominava sempre que chegava em casa, e ela sentia falta de novas aventuras, de viver como se não soubesse o que iria acontecer no dia seguinte.

Tudo para Hermione era tão fácil, que quando ela alcançava seu objetivo, aos poucos eles iam perdendo o interesse... a cor... o sabor adocicado da conquista. Não lhe davam mais prazer. Ela ainda tinha esperanças de conseguir achar a pessoa que estava por trás do contrabando de Tapetes Mágicos, isso sim, seria uma vitória.

E uma vitória que ela esperava há muito tempo.

Sabia que teria que trabalhar nas novas leis para que isso facilitasse, para que ela pudesse se infiltrar com mais intensidade na investigação. Ela mordeu o lábio inferior, algo lhe dizendo que ficar sentada em um sofá não iria ajudá-la a pegar o sujeito que estava testando sua paciência há meses.

Ela se levantou rapidamente, fazendo Bichento miar em protesto, enquanto subia na poltrona fofa que ficava na sala e se enrolava novamente. Era seu lugar preferido do apartamento. Hermione caminhou em direção ao quarto, correndo seus olhos pela cama, onde havia deixado a pasta que continha as novas leis. Iria trabalhar nisso a noite inteira, se fosse preciso.

Não. Não iria.

Ela não iria se enfurnar em seu quarto, trabalhar incansavelmente. Ela estava cansada disso, ela precisava sair, precisava tomar um ar novo, visitar lugares diferentes. Ela precisava de algo inédito em sua vida, ou mesmo em sua noite, não importasse a duração.

Ela foi em direção ao armário, pegando um casaco mais leve, porém mais discreto. Colocou uma bota, soltando os cabelos e respirando fundo enquanto se olhava no espelho.

- O que eu estou fazendo?

Perguntou para si mesma, não encontrando a resposta. Não sabia ao certo o propósito da roupa, nem para onde iria, mas sabia que não conseguiria passar mais uma noite sendo a garota politicamente correta que era desde sempre. Não aquela noite. No dia seguinte poderia até ficar enfurnada em seu apartamento, trabalhando muito.

Mas queria folga.

Ela saiu do quarto e caminhou em direção à lareira, determinada. Olhou para Bichento. O gato, sua única companhia, olhava para ela um pouco curioso, e Hermione sabia o que se passava na mente do animal.

- Volto em um instante.

Sorriu para o bichinho. Bichento apenas fechou os olhos e pousou a cabeça nas patas, caindo em um sono profundo. Ela olhou o apartamento, apontando para a bolsa.

-Accio.

Quando o objeto pousou em sua mão, ela pegou o Pó de Flu e disse o primeiro nome que veio em sua mente.

- Beco Diagonal.

Sentiu-se ser puxada com facilidade, pousando em menos de dois segundos em uma das lareiras que davam acesso ao centro econômico bruxo. Ela reconheceu a rua no mesmo instante, sorrindo.

Adorava o Beco Diagonal, sabia que ali, se ela procurasse com atenção, acharia alguém conhecido. Pensou em passar na loja de George, mas sabia que o amigo a prenderia ali por um tempo que ela não planejava ficar. Poderia ir à Floreios e Borrões? Definitivamente comprar algum livro faria Hermione vibrar. Ou não?

Nem mesmo a expectativa de comprar um livro fez com que ela ficasse satisfeita. Ela andou calmamente pela rua, olhando cada loja ali. Os pios das aves em diversas gaiolas preenchiam a fachada do Empório das Corujas, mas a loja já estava sendo fechada.

Hermione percebeu que estava tarde para perambular pelo Beco Diagonal, e pensou seriamente em voltar por onde havia andado e entrar no Caldeirão Furado. Poderia achar Hagrid no bar bruxo, conversar com o seu amigo quase gigante sempre era bom.

Mas algo lhe chamou a atenção. A pequena e discreta placa escrita "Travessa do Tranco" estava fixada em uma parede perto de Gringotes. Ela sentiu-se tentada a entrar lá, mas sabia que se o fizesse, teria que tomar cuidado.

O que acharia em um lugar como aquele, além de bruxos com más intenções?

Poderia achar a pessoa que estava procurando. A maldita pessoa que conseguia burlar suas leis e fazer seu trabalho ir por água abaixo quando Archie lhe dizia que Tapetes Mágicos foram parar em mãos erradas. Ela travou o maxilar, decidida a entrar no local.

Ela fechou o casaco e rezou a Merlin para que ninguém a reconhecesse lá. O lugar era escuro, as ruas pareciam sujas comparadas às ruas do Beco Diagonal. Todos que passavam por ali, ou olhavam para baixo e andavam em passos largos, como se estivessem temendo algo; ou paravam em alguma loja, olhando para os lados antes de entrar.

Ela viu uma luz mais forte sair de uma porta de vidro ensebado. Era um bar, e com certeza os frequentadores não eram bruxos com históricos limpos. Um frio anormal percorreu cada pedaço da pele dela, e ela sentiu novamente a sensação que não sentia há anos. A sensação de que iria viver algo novo, e possivelmente errado.

Sem pensar muito, ela entrou no bar discretamente. Um cheiro estranho de bebida forte a envolveu e ela abaixou a cabeça. Ninguém pareceu notá-la, e ela agradeceu a Merlin por isso. Alguns bruxos riam alto de algo que era contado por uma mulher estranha com uma verruga perto do queixo. Hermione passou por todos os bruxos cuidadosamente, já se arrependendo de ter entrado no lugar.

Ela teria que beber algo para sair dali, ou senão a ação poderia causar suspeita nos presentes. Ela era, de longe, a pessoa mais bem vestida do bar, e a com o cabelo mais limpo. Respirou fundo ao passar por um corredor mais apinhado de bruxos, perto do balcão.

- Ora, ora... olha quem encontramos aqui.

O corpo de Hermione se enrijeceu. Com certeza a frase era destinada a ela, alguém havia a reconhecido ali, naquele maldito bar imundo e cheio de gente estranha. Mas não foi especificamente a frase que lhe causou arrepios, nem o modo como foi falada. O que fez o corpo inteiro dela se sobressaltar foi a voz que ela escutou.

Ela já sabia quem era, e se virou com calma, apenas para confirmar sua suspeita. Mesmo que fosse quase impossível, Hermione se lembrava perfeitamente do homem que era o dono da voz. Ele estava sentado, um copo de Uísque de Fogo, quase vazio, estava no balcão, em frente a ele.

Os cabelos eram os mesmos, emaranhados, presos. A roupa estava um pouco diferente. Em vez da calça xadrez que ficara gravada em sua mente por cinco anos, ele usava uma calça preta de couro. Os calçados eram os mesmos também, mas o casaco ela não conseguiu analisar de forma satisfatória, porque no momento em que chegou ao pescoço, viu o rosto do homem se esticar em um sorriso.

Ela olhou para ele automaticamente, sem conseguir se conter. Ele sorria, o mesmo sorriso maldoso que ele havia dado tantas vezes, no dia em que esteve a sós com ela na Floresta de Deão. O dia que ficara marcado na vida de Hermione para sempre. Os olhos azuis escuros a fitavam com satisfação quando ele abriu a boca.

- Olá, lindeza.