Notas iniciais
Obrigada a todos que comentam! Feliz Ano Novo!

Dúvidas

Hermione acordou relutante no colchão de sua própria cama. Abriu os olhos vagarosamente e fitou o relógio trouxa que ficava no criado. Oito horas da manhã de um dia de final de semana, o dia perfeito para que ela pudesse descansar pela manhã e começar a adiantar o trabalho na parte da tarde.

Ela fechou os olhos novamente, espreguiçando-se por debaixo do lençol fino e abrindo os braços. No momento em que sentiu seu cotovelo bater em algo, percebeu que aquilo estava errado. Fechou os olhos, travando o maxilar. Sem pestanejar, olhou para o lado e viu que não estava sozinha como achava segundos antes.

O filho da puta estava novamente com ela.

O homem estava deitado da mesma forma que ela havia o visto dormindo da última vez. O rosto era sereno e calmo, quando ele dormia. O peito delineado subia e descia de forma tranquila. Estava sem blusa, e parecia... limpo. Hermione não pôde deixar de morder a língua de raiva ao constatar que o snatcher havia usado o seu chuveiro.

Ela correu os olhos pelo quarto e viu o casaco preto de couro, a blusa negra e o seu ex-cachecol jogados de qualquer jeito na poltrona de veludo que ficava no seu quarto. Ela respirou fundo e fechou os olhos, voltando a olhá-lo segundos depois.

Vestia apenas a calça de couro negro, os cabelos pareciam mais embaraçados, se é que aquilo era possível. O cheiro que ele emanava era uma mistura de bebida alcoólica e folhas molhadas, o mesmo de sempre, como se ele não tivesse tomado banho. Ela perguntou-se mentalmente como conseguia distinguir tal cheiro de forma tão automática.

Ela olhou para o seu próprio corpo, aflita. Estava vestida com o mesmo roupão que havia dormido na noite anterior. Não se lembrava muito de como tinha caído no sono, a última cena que inundava sua mente era o rosto do homem perto do seu, olhando-a de uma forma que Hermione não pôde distinguir. Mas o roupão estava aberto.

O coração dela começou a se acelerar de forma automática. O que ele havia feito depois que ela tinha apagado?

Por mais que ela quisesse esquecer tudo o que havia acontecido horas atrás, não pôde deixar de se martirizar ao lembra-se de sua própria entrega na noite anterior. Aquilo estava ficando ridículo. Ao sair do quarto do snatcher semanas atrás, Hermione havia prometido a si mesma nunca mais ter nenhum contato com ele. Infelizmente agora ele estava dormindo na cama dela, como se estivesse dormindo no próprio colchão.

E ela estava nas mãos dele. Ela precisava contornar esse problema sem que ele percebe-se.

Ela pensaria em algo, mas queria de todo modo sair daquele lugar, vê-lo deitado em sua cama estava deixando-a inquieta. Ela saiu do colchão macio, caminhando para a suíte. Passou pela cômoda e pegou a varinha apenas por precaução. Escutou Bichento miar do lado de fora do quarto, mas o gato não entrou, apenas miou mais uma vez e saiu de perto da porta.

Ela fechou a porta do banheiro, tomando o cuidado de trancá-la de forma trouxa e mágica. Abriu o chuveiro e tomou um banho rápido, tirando todos os vestígios da noite anterior, todo o cheiro dele que estava impregnado na sua pele.

Em que momento havia dormido? A pergunta ainda rondava pela sua mente. Hermione não conseguia se lembrar. Finalmente o trabalho em excesso estava dando os primeiros sinais de perigo. Ela nunca havia apagado nos braços de um homem quase desconhecido e que podia lhe fazer mal a hora que quisesse.

Ela meneou a cabeça para sair daquele fluxo de pensamento e fechou a torneira do chuveiro, pegando a toalha branca. Abriu a porta, seus olhos correram livremente pelo quarto e ela quase chorou ao ver que ele ainda continuava lá, na mesma posição, sem ao menos ter percebido que ela havia acordado.

Como iria pegar suas roupas?

"Você é uma bruxa, sua idiota."

Pensou e apontou a varinha para o guarda-roupa.

Accio.

Uma blusa e uma calça voaram de dentro das portas e pousaram diretamente nos braços de Hermione. Logo depois, as roupas íntimas estavam entrando pelo banheiro. Ela fechou a porta e vestiu-se em tempo recorde, lançando o mesmo feitiço diário no cabelo e secandoo em menos de dois segundos.

Saiu da suíte e olhou para o homem, que continuava a dormir de forma serena. Não sabia se o acordava violentamente ou se o deixava dormir. Optou pela segunda opção. Ainda não estava pronta para confrontá-lo. Precisava do seu cérebro em um bom estado. Precisava de café.

Caminhou para a cozinha e começou a prepará-lo de forma trouxa, enquanto a varinha fazia os movimentos na frigideira, torrando o pão. Ela abriu a geladeira e pegou um pote de geleia, depositando-o no balcão. Bichento estava rondando a cozinha, esperançoso de que algum pedaço de comida caísse.

Hermione escutou o barulho de passos, Bichento fez um barulho estranho e correu em direção ao quarto de hóspede. Ela arqueou as sobrancelhas para o gato, e percebeu claramente que o seu bicho de estimação também compartilhava da mesma simpatia que ela sentia por Scabior.

Ela pegou uma xícara de café e olhou para a origem do som. Ele havia entrado na cozinha grande, estava parcialmente vestido, o casaco de couro na mão esquerda. A blusa negra estava desabotoada e o cachecol pendurado no pescoço. Estava de calça e botas.

Ela não disse nada, apenas desviou os olhos castanhos para a torrada que estava pronta, passando um pouco de geleia de morango em cima e mordiscando um pequeno pedaço. Seu estômago estava embrulhando, e ela desconfiou de que a presença do snatcher fosse o motivo disso.

Scabior a olhava com atenção. Ela ainda estava pensativa e parecia mais cansada do que na noite anterior, o que o surpreendeu muito, já que ela havia dormido em seus braços inconscientemente, atitude que ela não tomaria se estivesse um pouco sã.

Ele caminhou para perto do balcão, jogando o casaco de couro em cima do pedaço de granito. Ela olhou para o casaco dele como se aquilo fosse um bicho imundo. Ele não se importou, apenas começou a abotoar a blusa, sem deixar de olhá-la. Ela focava seus olhos castanhos no pote de geleia.

Ela levou a torrada à boca, mordendo um pedaço maior e mastigando-o. Assustou-se ao ver o dedo dele mergulhar no pote de geleia. Hermione não pôde deixar de olhar para o homem, que lambia o dedo e a olhava também, para depois limpá-lo na blusa. Ela abriu a boca para xingá-lo e dizer que ele não tinha o direito de enfiar o dedo na comida dela, mas esqueceu-se de como faria isso. Fechou a boca novamente.

Os minutos se passaram e o silêncio começou a ficar irritante.

O snatcher se sentou em frente à Hermione e ela olhou para sua torrada.

– Você tem ideia do que esta fazendo com a minha vida?

Ela levantou os olhos para fitá-lo. Scabior esboçou um sorriso de lado, começando a fazer círculos com o dedo em cima do balcão.

– Fique tranquila. Eu vou me comportar... se você fizer o mesmo.

Ela travou o maxilar e franziu o cenho, não entendendo de imediato o que ele queria dizer com aquilo. Ele se afastou do balcão, pegando o casaco que estava ao lado dos pratos e vestindo-o. Voltou a olhar para ela, que parecia um pouco perdida com o que ele havia dito.

Ele apoiou suas mãos no balcão e inclinou-se para frente, a fim de chegar bem perto da garota.

– Espero que você colabore comigo, e me ajude.

O rosto de Hermione começou a se esquentar, se o snatcher realmente estava dizendo o que ela achava...

– Espero que eu consiga contrabandear mais Tapetes Mágicos com a sua ajuda.

Ela se levantou da cadeira, finalmente ficando furiosa. Scabior sorriu para ela, quase se excitando ao ver que ela havia voltado ao normal. Gostava dela daquela maneira. Olhos em fúria, cabelos volumosos, a boca rosada travada. Claro que ele se afastou dois centímetros, por mais que ela fosse apenas uma garota, estava com a varinha na mão. Ele sabia que ela não hesitaria em lançar um feitiço.

Hermione apontou a varinha contra ele sem pestanejar.

– Saia do meu apartamento.

Scabior esperou alguns segundos, temendo a varinha apontada na direção do seu peito. Respirou um pouco ruidosamente e levantou as duas mãos.

– Só estou dizendo. Pense um pouco no assunto... ou farei uma visita a Rita Skeeter.

Hermione fechou as mãos em punhos e logo depois pegou a xícara de café, arremessando-a no snatcher. Ele desviou por apenas alguns centímetros e correu em direção à sala para ir embora, sabendo que a garota havia se tornado algo perigoso.

Bichento entrou na cozinha, estressado. Os pelos alaranjados eriçados e os dentes finos à mostra. Sua dona passou as mãos nos cabelos e pegou a varinha novamente, fazendo um movimento circular com o punho para fazer os pedaços de porcelana voltarem ao lugar.

Reparo.

Se a presença daquele homem fosse se tornar algo constante, Hermione enlouqueceria e poderia ir parar no St Mungus.

[...]

Scabior entrou no bar que frequentava, correndo os olhos azuis para ver os presentes. Sentou-se no balcão de madeira puída e acenou para o garçom gordo, que se aproximou com um copo de Uísque de Fogo em mãos, depositando-o em frente ao snatcher.

Ele pegou o copo e levou-o à boca, pensando em tudo o que havia acontecido. A garota ficava linda quando estava nervosa; ele definitivamente não gostou nem um pouco de vê-la apática. A preferia do modo como a deixou, em fúria.

Não que ele tivesse gostado de ter quase sido acertado por uma xícara de café. Assustou-se com a atitude dela. Sabia que ameaçá-la logo na parte da manhã traria consequências violentas, mas Scabior estava esperando apenas um feitiço, não um ataque físico, mesmo que não completamente. Ele sorriu, preferia que ela tivesse partido para cima dele. Ele teria gostado de prendê-la em alguma parede.

Ele percebeu o rumo que seus pensamentos haviam tomado e olhou para o copo, imagens da noite anterior assaltando sua mente. Ela havia sucumbido, novamente. Mas não era isso que tirava o foco dele. Não, Scabior começou a se preocupar no momento em que percebeu que havia gostado de proporcionar prazer inteiramente a ela. Dizer que gostou disso parecia um eufemismo.

A garota lhe fascinava.

Não sabia dizer o motivo disso, mas ele estava decidido a descobrir. Não era qualquer bruxa que conseguia deixá-lo daquela forma, e ele achou em algum momento que depois de tomá-la por completo, o prazer, a vontade e a curiosidade contidas por tanto tempo iriam cessar. Mas não. Aquilo só estava aumentando.

Scabior fechou os olhos, travando maxilar. Logo depois tomou um longo gole da bebida, pousando o copo novamente no balcão, vendo a silhueta de Chadd se aproximar.

Não queria conversas, estava ocupado demais com seus próprios pensamentos inquietantes para trocar meias palavras com um asno. Chadd parou ao lado dele e acenou para o garçom, que pousou um copo da mesma bebida que o snatcher estava tomando.

– Estou apenas de passagem, preciso resolver alguns problemas na fronteira.

Scabior apenas arqueou as sobrancelhas, olhando para ele e tomando mais um gole da bebida.

– Eu espero que resolva.

Chadd engoliu em seco e terminou o copo. O bruxo não bebia de forma rápida, mas sabia que era o mais inteligente a se fazer ao lado de Scabior. Não gostava de vê-lo de mau humor logo na parte da manhã.

– Já achou alguma noiva? Edgar está pensando em pagar alguma mulher para isso...

Ele disse para o snatcher logo depois que fez a pergunta. Scabior demorou cerca de quatro segundos para entender do que o homem estava falando. Havia se esquecido completamente da maldita Lei de Casamento.

Como iria arrumar uma mulher? Ele só conhecia prostitutas.

Chadd deixou uma moeda prateada em cima do balcão e o garçom veio. O bruxo acenou para Scabior e saiu do bar, no mesmo momento que uma mulher entrava.

A ruiva olhou para ele e sorriu. O vestido que usava deixava os seios praticamente à mostra, os cachos estavam arrumados de forma que tampavam algumas marcas no pescoço. Ela se aproximou, passando a mão no queixo dele e fazendo um leve aceno com a cabeça em direção à porta.

Scabior gostava do serviço dela, e para dizer a verdade, estava acumulado. Infelizmente a bruxa prodígio havia dormido antes que ele tivesse tido o seu próprio prazer. Ele podia ser mau caráter, mas não a ponto de conseguir tomar uma mulher enquanto ela estava inconsciente.

Ele não pensou mais naquilo, apenas sorriu de forma maliciosa, no momento que deixava a moeda em cima do balcão, deslizando para fora do banco e seguindo a ruiva em direção à porta.