Desabafo

Hermione escrevia de forma automática pelo pergaminho, mas o seu cérebro não conseguia processar as letras delicadas que apareciam conforme ela percorria a ponta da pena. Ela levantou os olhos castanhos para olhar o relógio que ficava do outro lado da sala. Já estava na hora de ir embora. Já havia passado da hora de ir embora.

Jogou a pena na mesa, apoiando-se na poltrona fofa. Respirou fundo e fechou os olhos. Sua concentração já não era mais a mesma, muitos problemas rondavam a sua cabeça. Sentia uma imensa necessidade de desabafar com alguém, e sabia quem era a pessoa mais aconselhável para fazer isso. Teria que contar a Harry tudo o que estava acontecendo em sua vida, e, quem sabe, pedir alguns conselhos.

Com certeza o amigo era mais confiável do que Ginny e Rony. Rony teria um acesso de raiva e loucura, e Ginny lhe daria um sermão. Às vezes a genética da família Weasley era irritante.

Ela pegou a bolsa e começou a selar os pergaminhos que estavam preenchidos com novas propostas de leis. Antes de dar o primeiro passo em direção à porta, Archie abriu-a e entrou na sala. Ele a olhou com olhos cansados, estava do mesmo modo que ela. Do mesmo modo que qualquer um no seu departamento estaria depois de um longo dia de trabalho. Definitivamente a renovação das leis estava sugando todas as energias das pessoas.

– Sente-se, por favor.

Archie gesticulou com a mão e Hermione voltou a se sentar na poltrona, pousando a bolsa no colo. Seu chefe limpou a garganta.

– Quando a pessoa que contratou assumirá o posto?

Perguntou de forma clara. Ela não estava preparada para aquela pergunta. Não havia pensado nesse problema.

– Quando ele poderá começar?

Archie sorriu e gesticulou de forma informal com a mão.

– Isso depende de você. Amanhã mesmo ele poderá começar.

Ela engoliu em seco e assentiu. Ele fez menção de se levantar e ela falou de forma rápida.

– Terá que ter paciência com ele, Archie. À primeira vista ele pode ser estranho.

Já havia o alertado sobre isso, mas Hermione achou que, em se tratando do homem que estava contratando, não custava nada ressaltar. Archie riu de forma prazerosa e se levantou.

– Ele pode ser até um exComensal da Morte, se ele ajudá-la com o trabalho...

Ela engoliu em seco, arrepiando-se e perguntando-se se ele sabia da fama dos snatchers. Claro que se dependesse dela, Archie nunca iria saber que o seu ajudante era um deles. Ele caminhava para a porta, mas parou abruptamente e virou-se para ela.

– Não sei se já te perguntei isso, e não quero ser chato. Mas quem será seu ajudante?

Hermione respirou fundo, buscando coragem através desse gesto.

– Meu noivo.

[...]

Harry olhava com atenção o rosto de Hermione. Ela rasgava em pedacinhos o guardanapo que havia pegado no suporte. O café já havia esfriado. Ele já tinha terminado o dele, e esperava com paciência ela terminar a sua história.

Ela o olhou com os olhos lacrimosos e ele pousou a mão na mão da amiga, tentando por meio desse gesto consolá-la.

– Tem certeza do que está fazendo, Mione?

Ela não tinha certeza de suas atitudes há semanas, não seria diferente com essa. Havia se enfiado em um jogo perigoso, e pela primeira vez depois da guerra, não sabia quem iria ganhar. Estava sem saída.

– Posso procurar algum Auror para você se casar...

Harry fez menção de sugerir, mas ela gesticulou negativamente com a cabeça. Sabia que as intenções do amigo eram as melhores, mas definitivamente não queria que ele interferisse nisso. Só iria piorar a situação.

– Não, Harry. Eu tenho que me casar com ele. Será a única maneira de tirar o trunfo que ele tem nas mãos.

O rosto dela se esquentou. Para que ele entendesse a situação, ela teve que contar a história inteira. Isso incluía desde o seu quase estupro até a sua primeira entrega. Admitir aquilo ao amigo era humilhante, mas Harry não a julgava por nada. Ele tinha uma incrível capacidade de fazer com que todos ficassem tranquilos à sua volta.

– Tenho certeza que com o tempo eu vou conseguir descobrir cada pessoa que está por trás do contrabando de Tapetes Voadores. Eu vou prender um por um, Harry.

Eles já estavam sentados no café por horas, mas pela primeira vez Harry se remexeu inquieto. Não estava gostando da ideia dela entrar naquele jogo sozinha.

– Pode ser perigoso, Mione. Mesmo que você consiga alcançar o seu objetivo, não vale a pena se arriscar.

Os olhos castanhos fitaram o rosto dele com certa raiva, e ele percebeu que ela estava começando a se irritar.

– Você está sendo dramático.

Disse como se tentasse cortar o raciocínio do amigo, mas dessa vez ele estava convicto.

– Mione, ex-snatchers parecem trasgos idiotas, mas não são. Alguns são astutos o suficiente para enfiarem você em uma enrascada perigosa. Não os subestime.

Hermione percebeu o tom de voz autoritário de Harry e revirou os olhos. Mas no momento em que fez o gesto, as lágrimas saíram, correndo por seu rosto. Ele tinha razão. Era perigoso, mas infelizmente ela tinha que correr o risco. Sentiu a mão do amigo sobre a sua novamente.

– Se precisar, eu vou interferir.

Os olhos verdes estavam escuros e sérios quando ele disse a frase, e ela soube que ele estava falando sério. Ele conseguia ser responsável nas horas que precisava.

– Tudo bem, Harry. Só estou me sentindo perdida... dediquei-me anos à minha carreira, e parece que ela está a um passo de ser completamente destruída...

Não conseguia mais conter as lágrimas, e sentiu a mão do amigo apertar a sua.

– Sei que dará um jeito de driblar essa situação. Você é a mulher mais inteligente que conheço.

Ela passou a manga da blusa fina que estava vestindo pelo rosto, enxugando superficialmente as lágrimas que haviam molhado a sua pele. Levantou-se e Harry acompanhou o gesto dela.

– Eu preciso ir.

Ele assentiu para ela, que o olhou de forma cúmplice.

– Harry?

O moreno arqueou as sobrancelhas. Hermione começou a mexer os dedos nervosamente.

– Amanhã será o primeiro dia dele no Ministério... tem como você manter os jornalistas intrusos do Profeta Diário bem longe?

Sabia que o amigo tinha influência para tal coisa, e se ele conseguisse o favor, ela ficaria agradecida o resto da vida. A última coisa que precisava era uma página inteira com o rosto do snatcher estampado e uma reportagem sobre a sua contratação. Harry sorriu.

– Bolarei um plano para afastá-los. Quanto a isso você pode ficar tranquila.

Hermione retribuiu o sorriso e abraçou o amigo, despedindo-se. Ele correu a mão pelos cabelos dela e se afastou, saindo pela porta do café trouxa em que estavam. Ela respirou fundo. Agradeceria todo dia a Merlin pelo amigo que tinha. Sabia que qualquer um que ouvisse a sua história iria julgá-la de outra forma.

Mas era Harry. E sabia que com Harry, seu segredo estava guardado.

[...]

No dia seguinte, Hermione estava no hall de entrada do seu prédio. Esperava de forma ansiosa o snatcher chegar. As mãos estavam trêmulas e ela andava de um lado para o outro pelo chão impecável de mármore branco. Sabia que ele não apareceria pela lareira, era muito mais cômodo aparatar diretamente na entrada do prédio.

Esperou mais dois minutos, olhando nervosamente o relógio de pulso. Quatro minutos a mais se passaram até que um homem abriu a porta branca, ficando visível. Scabior caminhou até Hermione. Ela não pôde deixar de ficar irritada ao perceber que ele parecia calmo demais com aquela situação toda.

Vestia quase a mesma roupa que estava vestindo no dia de domingo, porém sua calça agora era xadrez, uma calça familiar aos olhos dela. Ele parou ao lado da garota e a olhou de forma intensa. Depois franziu o cenho.

– Por que você está tremendo, lindeza?

Hermione o fuzilou com os olhos. Nunca sentiu tanta vontade de torturar alguém com uma maldição Cruciatus como naquele momento. Ela o olhou de forma reprovadora.

– Você não podia pelo menos ter penteado os cabelos?

O snatcher não respondeu, apenas esperou de forma tranquila a garota entrar na lareira que ficava no hall do prédio. Ela pegou um punhado de Pó de Flu que ficava em um caldeirão pendurado ao lado da lareira.

– Ministério da Magia.

Jogou o Pó de Flu nos próprios pés e fechou os olhos. Odiava se locomover daquela maneira. Sua roupa sempre ficava com fuligem quando chegava ao seu destino. Abriu os olhos e reconheceu o chão de mármore escuro, tão diferente do chão em que estava antes.

Começou a limpar o vestido que usava no mesmo momento que seus olhos passeavam por todos os bruxos que passavam apressadamente através dela e corriam para pegar o elevador. Memorandos voavam de forma tranquila por todo o lugar, seguindo alguns bruxos como se fossem corujas.

Um barulho ressoou atrás dela, e ela viu o corpo do snatcher aparecer pela lareira. Ele caminhou em direção a ela, postando-se ao seu lado. Ela começou a andar calmamente, sendo seguida por ele. Não queria atrair atenções, e correr em direção ao elevador só faria com que as pessoas a olhassem, o que não era seu objetivo.

– Sabe onde fica o meu departamento?

Perguntou ao homem e ele sorriu.

– Entreguei trouxas nesse lugar por meses. Sei os caminhos do Ministério de cor.

O corpo dela quase entrou em combustão. Ele falava do seu passado como se o que ele fizera fosse um trabalho digno e comum. As grades de bronze de um elevador se abriram e ela quase gritou de alegria ao ver que esse estava vazio.

Ela apertou o botão do andar desejado e as grades se fecharam, trancando o casal sozinho momentaneamente. Ela pôde sentir a presença do homem bem perto dela, o corpo dele quase colado ao seu. Levantou os olhos e viu que as orbes azuis estavam cravadas no decote de sua blusa.

– Por favor, se comporte. Mesmo que tecnicamente sejamos noivos, isso aqui é um ambiente de trabalho.

Ele não respondeu, mas desviou os olhos ao sentir o elevador estacar; as grades de bronze se abriram e uma voz feminina e aveludada anunciou o local.

"Nível cinco. Departamento de Cooperação Internacional em Magia."

Ela saiu do elevador e respirou aliviada, não conseguindo se conter no momento em que viu o andar vazio, sem nenhum repórter, como Harry prometera. Teria que dar uma medalha para o amigo no dia seguinte.

Suas pernas começaram a se mexer e ela andou automaticamente em direção à sala de Archie, sendo seguida pelo snatcher. Ninguém a olhou, estavam ocupados demais com suas tarefas diárias. Ela parou em frente a uma porta negra e respirou fundo novamente. Desde que entrara no Ministério da Magia como contratada, nunca havia ficado nervosa ao entrar por uma porta. Até agora.

Não bateu, sabia que não precisava. Entrou de forma abrupta na sala do seu chefe e fechou a porta quando o snatcher passou pelo batente. Archie desviou os olhos do pergaminho que estava lendo ao escutar os visitantes.

Ele percorreu com os olhos o homem que estava ao lado de Hermione. Não o reconheceu de lugar algum, mas sabia que já havia visto bruxos piores. E além do mais, ela havia o alertado do seu possível jeito diferente de ser. Archie só estava intrigado com uma coisa: como ela poderia se casar com um bruxo como aquele?

Concluiu que era a Lei de Casamento que estava falando mais alto. Com certeza todos os bons puros-sangues da Inglaterra já haviam se casado. Ela teve o azar de não ter sido rápida, tendo que se contentar com qualquer um. De qualquer maneira, Archie não tinha nada contra o homem, e se levantou da poltrona elegante, caminhando até o casal e cumprimentando-o com um aperto de mão.

– Seja bem vindo... er...

– Scabior.

O casal falou no mesmo momento, e o chefe se surpreendeu em como o pensamento deles era tão parecido.

– Scabior...?

– Lloyd.

O snatcher respondeu, e Hermione deu-se conta do sobrenome dele pela primeira vez. Archie pigarreou.

– Sr. Lloyd. Infelizmente estou ocupado no momento, mas confio em qualquer escolha da Srta. Granger para seu assistente. Ela irá explicar a você as regras e mais tarde mostrarei a sua sala.

Hermione assentiu para o seu chefe e pegou o braço do snatcher, conduzindo-o para fora da sala. No momento que escutou a porta se fechar, ele virou-se para ela e perguntou.

– Minha sala não é a mesma que a sua?

Ela começou a andar e Scabior a seguiu. O departamento era maior do que ele se lembrava. Ele pensou seriamente em quais daquelas portas seria a sala dela.

– É claro que não.

Ele não gostou daquele fato. De alguma forma achou que trabalhariam no mesmo lugar, no mesmo ambiente. Perguntou-se o porquê de seu desapontamento.

– Vou explicar a você as regras do departamento, mesmo sabendo que você não vai obedecer nenhuma.

Ele sorriu e continuou a seguir a garota, até que ela parou em frente a uma porta polida. Murmurou um feitiço desconhecido e a tranca da porta fez um barulho estranho. A mão dela envolveu a maçaneta e a girou, abrindo a porta e entrando na sala. Ele a seguiu.

No momento em que ele correu os olhos azuis pelo lugar soube perfeitamente que aquela era a sala dela. Tudo naquele lugar era extremamente organizado. Dos inúmeros livros enfileirados nas prateleiras até o tinteiro e as penas extremamente limpos. Mas o que chamou a atenção dele não foi a organização, e sim o aroma dela que estava impregnado em todo o cômodo. Isso lhe deu água na boca.

Hermione jogou a bolsa em uma cadeira próxima e virou-se para trás, assustando-se ao perceber que ele estava a centímetros dela. Scabior percebeu que o corpo dela parecia um imã para o seu corpo, ele se aproximava automaticamente, sem realmente perceber o que estava fazendo.

– Sente-se.

Ela mandou, mas ele não se moveu, apenas continuou a olhá-la com fome. Ela pousou as mãos em cada ombro dele e empurrou-o para baixo, forçando-o a se sentar na poltrona que ficava em frente à mesa. Ele caiu na poltrona, mas sorriu ao vê-la desconcertada.

– Começamos a jornada de trabalho às nove horas da manhã. Apenas algumas pessoas possuem uma carga horária menor, o que não é o seu caso, já que você será o meu assistente.

Scabior olhava para Hermione com desinteresse, mas ela não deu atenção a esse fato.

– Quanto ao horário de ir embora, normalmente é às dezoito horas. Porém, alguns bruxos ficam até mais tarde, o que é o meu caso. Como meu assistente, você terá que ter a mesma carga horária que eu, ou seja, você trabalhará igual a mim.

Ela olhou para o snatcher, que estava fitando com interesse um quadro trouxa que estava pendurado atrás dela. Ela percebeu um pouco tarde que ele não estava prestando a mínima atenção em tudo o que ela havia falado. Poderia jurar que ele não tinha escutado nem mesmo a primeira frase. Hermione deu um tapa forte no braço dele, que desviou os olhos da tela e a fitou.

– Você escutou o que eu disse?

– O quê?

Ela respirou fundo, tentando por meio desse gesto buscar o restante de paciência que estava se esvaindo do seu corpo. Ela colocou os dedos nas têmporas.

– Esqueça. Vou te explicar outra hora as regras do departamento. Estou com pouco tempo agora.

Ele sorriu para ela e Hermione se levantou da mesa onde estava apoiada.

– Volte para a sala de Archie, ele lhe mostrará onde você deverá ficar. Eu preciso trabalhar.

Scabior não se mexeu.

– Você tem alguma pergunta?

Questionou de forma impaciente, esquecendo-se o que era educação.

– Sim. Quando vamos nos casar?

Hermione pensou com cautela nessa pergunta. Não fazia mais sentido esperar. Teria que se casar com ele de qualquer forma, e adiar aquilo só lhe traria problemas e dores de cabeça. Ela o olhou.

– Poderemos assinar os pergaminhos amanhã.

O snatcher sorriu e se levantou, ficando de frente para ela. Ele se aproximou um pouco e olhou para os lábios da garota.

– Eu estou ansioso para que isso aconteça.

Disse para ela sem desviar os olhos e ela apenas o empurrou em direção à saída da sala. Ele saiu pela porta e ela a fechou, não acreditando que estava só. Teria que ser uma mestra da paciência para aguentá-lo diariamente.

E Hermione conteve a vontade de ir atrás dele e lançar de uma vez uma Maldição da Morte.