Obsession

28 Cumplicidade


Cumplicidade

Ela acordou em uma manhã de terça-feira já se sentindo cansada. O relógio trouxa marcava quase onze horas da manhã, mas Hermione poderia jurar que havia dormido apenas alguns minutos. Não sentia mais dores pelo seu corpo, mas um cansaço perturbante parecia não querer deixá-lo.

Ela gostaria de poder retirar tais pensamentos de sua mente. Gostaria de mudar a sua roupa e pegar a sua pasta. Gostaria de ir até o Ministério da Magia e trabalhar até o último momento para ocupar a sua cabeça com outros assuntos. Mas ela não podia. Archie nunca a deixaria trabalhar em tais circunstâncias.

Hermione meneou a cabeça vagarosamente e olhou para o lado, vendo o colchão vazio. Ele não estava lá. Ele nunca estava lá quando ela acordava. E nem esteve. O lençol do colchão estava meticulosamente esticado, gritando a ela que ninguém havia sequer deitado ali.

Espreguiçou-se um pouco, sentindo os músculos tensos reagirem ao movimento repentino. Gostou da sensação de ver seu corpo trabalhar. Respirou fundo e decidiu sair da cama um pouco. Colocou um roupão felpudo verde-claro e amarrou os cabelos revoltosos em um coque, saindo do quarto e sendo recebida por uma corrente de ar gelado. O dia estava frio, um dia típico de Londres. Mesmo que já estivesse quase no meio do dia, o céu estava nublado, as nuvens cinzas impedindo os raios de sol de entrarem pela cidade como se fossem uma membrana.

Ela caminhou até a sala e depois percebeu que não tinha visto tanto Bichento quando entrara na casa na noite anterior. Estava tão cansada que não tinha dado tanta atenção ao gato.

Seu rosto virou-se na direção da cozinha, mas não viu a bola de pelos alaranjados por ali. Caminhou de qualquer forma até aquela parte do apartamento e depositou na tigela dele a ração, percebendo que ainda havia algumas bolinhas de comida no pote. Franziu o cenho.

O apartamento estava silencioso. Ela estava claramente sozinha. Perguntou-se onde o snatcher estaria, mas não procurou muito pela resposta. Queria saber primeiro do seu gato.

Caminhou em direção ao corredor, cortando-o e parando em frente à porta do quarto de Scabior. Não bateu ao entrar, mas confirmou sua ausência naquele apartamento. Bichento estava enrolado como uma bola, deitado na poltrona que ficava ao lado de um móvel perto da cama, dormindo tranquilamente. Hermione achou aquilo estranho, o gato não gostava nem mesmo do cheiro do snatcher.

Deu de ombros e voltou a encostar a porta do quarto dele, dando o espaço suficiente para o animal sair caso ele quisesse. Concluiu que Scabior poderia estar em algum bar. Não sabia se Archie havia dado folga ao seu marido visando o bem-estar dela, mas não se surpreenderia caso isso acontecesse. Aquilo era típico do seu chefe.

Andou até a cozinha, pegando uma barra de granola e mordiscando-a. Seu estômago não estava ajudando e ela não sentia apetite o suficiente para um café da manhã completo. Apenas a barra lhe deixou satisfeita.

Ela foi em direção ao sofá e acendeu a lareira de forma trouxa, esperando as chamas aumentarem e esquentarem o local. Ao lado do sofá escuro havia um baú onde Hermione guardava algumas coisas úteis para um dia de folga em casa. Ela o abriu, pegando um cobertor grosso e um livro do mesmo aspecto. Deitou-se no sofá, esticando o cobertor no corpo e abrindo o livro.

Perguntou-se mentalmente há quanto tempo não fazia aquilo por si mesma, mas a sensação de vazio ainda lhe preenchia. Aquele apartamento ficava silencioso demais sem a presença daquele homem.

Ela suspirou, abrindo o livro. Os olhos castanhos correram pela mesa de centro, onde sua varinha estava pousada. Sempre perto dela. As orbes começaram a correr pela página com facilidade. Sentiu Bichento subir no sofá e acomodar-se nos seus pés, aproveitando a maciez do cobertor. As pálpebras começaram a pesar mais do que o normal e ela adormeceu rapidamente, o cansaço a vencendo novamente.

[...]

Acordou com um barulho alto da porta. Automaticamente seu braço direito se esticou e sua mão capturou com destreza a varinha que estava na mesa. Ela apenas esperou, olhando para porta com atenção, mas quando essa se abriu, ela viu o homem que morava com ela. Era apenas Scabior.

Ele entrou no apartamento com uma pasta fina em mãos, e quando trancou a porta e virou-se em direção à sala, franziu a testa, andando com cautela em direção a ela.

– Por que segura a varinha?

Perguntou. A mão de Hermione tremeu um pouco, antes de ela abaixar a varinha e recolocá-la sobre a mesma. Olhou-o novamente.

– Onde você estava?

Perguntou sem conseguir se conter. Ela sentiu Bichento deixar o sofá e correr em direção ao homem, passando o corpo peludo nas pernas dele. Scabior olhou para o gato e depois voltou os olhos azuis profundos para ela.

– No Ministério. Você melhorou?

Ela sabia sobre que tipo de melhora ele estava perguntando. A preocupação real dele não era com a sua melhora física, mas sim com sua melhora emocional, que Hermione tentava a todo custo esconder dele, mas ela sabia que o homem a escutava chorar durante a noite. Ela guardava até as lágrimas para si, como se fosse uma egoísta e achasse errado sentir. Apenas sentir.

– Sim, melhorei.

Ele assentiu vagamente com a cabeça, colocando a pasta em cima de um móvel perto da porta.

– Bom... estou cansado... vou dormir.

Ele passou por ela no mesmo momento que desabotoava a camisa escura, deixando-a sozinha onde estava. Hermione olhou o homem sumir pelo corredor. Bichento já estava dormindo novamente no cobertor que havia caído no chão. De repente ela se sentiu sozinha. Sozinha com ele ali, tão perto dela. Pensou seriamente em quão distante ele estava dela. Achou aquilo estranho.

Saiu do sofá, deixando o gato ressonar sozinho. Caminhou em direção ao quarto dele. A porta estava totalmente aberta agora e ela o viu retirando a blusa, jogando-a na poltrona onde Bichento estava dormindo horas atrás. As mãos fortes e masculinas foram em direção à fivela do cinto e ele o retirou com facilidade, jogando-o em cima da blusa. Parecia calmo, e ela ficou ainda mais irritada com isso.

Entrou no quarto e Scabior apenas a olhou, voltando a sua atenção novamente para as botas.

– Por que está calmo desse jeito?

Ele retirou as botas e jogou-as em um canto do quarto de forma desleixada. Franziu o cenho, olhando para ela sem entender muito. Não conseguia adivinhar o motivo da pergunta, então não respondeu, apenas continuou a olhando de forma confusa.

Hermione se aproximou e perguntou de um só fôlego o que queria perguntar há muito tempo.

– Você está calmo dessa maneira porque sabe que não vai precisar ter um filho comigo?

Dessa vez ele parou de se despir, ficando apenas com a calça jeans escura e surrada. Os cabelos negros começavam a se soltar do elástico quando ele a olhou de forma séria. Aproximou um passo, ficando a centímetros dela.

– Estou calmo porque preciso suprir a sua indiferença com tudo.

Ela tentou digerir a resposta dele, mas não conseguiu de imediato. Ficou fitando o homem nos olhos, aqueles olhos azuis que no momento não demonstravam nada, como se ele estivesse anestesiado com tudo o que estavam passando. De repente ele se virou, caminhando para o banheiro. Ela escutou o chuveiro ser aberto, mas não o seguiu, deixou-o só. Queria pensar.

Virou-se e saiu do quarto dele, caminhando para o seu e indo em direção ao próprio banheiro. Escovou os dentes e vestiu sua camisola um pouco mais quente. Havia acabado de acordar, mas se sentia exausta. Não fisicamente, o sono não a tomava naquele momento. Mas queria apenas ficar quieta. Acendeu a lareira do seu quarto de forma trouxa novamente, deitando-se na cama de cobertores fofos e quentes.

Ela escutou o barulho de trovoadas ao longe, e minutos depois, a chuva chegou, batendo em sua janela insistentemente, como se quisesse entrar em seu quarto. O lugar era iluminado com alguns clarões dos raios e com a luz que emanava da lareira. Ela suspirou.

Não sabia por quanto tempo ficou ali. Bichento não estava por perto. Nem mesmo Rony e Harry. Hermione impedia seus pais de saberem sobre as notícias ruins que tinham relação com o mundo bruxo, então boa parte da vida de Hermione era oculta aos olhos deles. Sentia-se só. Estava só.

Não conseguiu impedir as lágrimas de saírem dos seus olhos e correrem pelo rosto cansado. Encolheu-se um pouco na cama e apertou o cobertor na bochecha, tentando secá-la daquela forma. Quando ouviu passos dentro do seu quarto.

Ela não conseguiu fingir que estava tudo bem, colocar aquela máscara de frieza que sempre colocava ao vê-lo. Scabior cortou o quarto e foi em direção à cama, sentando-se ao lado dela no colchão.

– Por que você disse que estava bem se agora está chorando?

Era uma pergunta tola. Ele tinha facilidade em fazer aquele tipo de pergunta a ela nas horas em que a bruxa estava mais vulnerável. As lágrimas desceram com mais facilidade do que antes, e ela respondeu quase soluçando.

– Se para você isso é fácil, para mim não é.

Ele revirou os olhos, mas ela não viu aquele gesto do bruxo. Deitou-se na cama ao lado dela, apoiando um cotovelo no colchão. Sua mão forte foi em direção ao rosto delicado, enxugando as lágrimas ali, e depois rumou até os cabelos longos, acarinhando-os um pouco. Hermione começou a se acalmar, e depois de alguns minutos em silêncio e sem choro, ele olhou para ela.

– Não seja egoísta. Isso tudo para mim também não é fácil. Eu... eu teria gostado muito de ter um filho com você... e...

Ouvir aquilo saindo da boca dele com aquela voz rouca, aquela voz que estava mais acostumada em dizer frases cretinas, fez o coração dela se acelerar de forma alarmante. Ela temeu que ele pudesse ouvir, mas o homem não deu sinais de que estava escutando o órgão dela reagir com tamanha força.

Mas Scabior notou o rubor no rosto dela, e sorriu de forma jocosa ao ver aquilo. Ela percebeu ali algo mais familiar. Aquele sorriso de lado que ele sempre dava.

– Eu amo quando você está envergonhada.

Ela sentiu o rosto queimar mais com isso. Mas o sorriso dele já havia morrido. Os olhos azuis a fitaram com mais intensidade e ele se aproximou, quase tocando o rosto dela com a ponta do nariz.

– Eu vou achá-los, Hermione.

Ele a beijou. Um beijo calmo, mas não menos faminto do que os beijos que ele estava acostumado a lhe dar. Os lábios dele fizeram os lábios dela formigarem, a língua dele invadiu a boca dela sem pedir permissão, encontrando seu alvo. O corpo dela reagiu ao toque dele da mesma forma que sempre reagia: acendendo-se e ficando em chamas.

A mão dele correu pela lateral do corpo dela, sentindo a pele macia. Como ele sentira falta do toque daquela pele, da maneira como ela tremia sob o contato da palma da mão dele, da maneira que a respiração dela aumentava gradativamente e ruidosamente quando ele apertava a carne tenra de seu quadril. Como sentira falta daquilo tudo.

Ela fechou os olhos ao sentir sua camisola sendo levantada um pouco, enquanto sua roupa íntima descia de forma vagarosa entre as pernas. Ele não deixava os lábios dela nem um segundo, e apenas a expectativa do que viria a seguir deixara-a molhada.

Os dedos de Scabior a encontraram de forma carinhosa, estimulando-a vagarosamente, e ela sentindo-os deslizarem com facilidade para dentro e para fora do sexo molhado dela. A respiração da garota começava a se alterar no nível que ele queria, ficando um pouco mais difícil enquanto ele a tocava de forma mais provocante.

– Scabior...

O nome dele saiu de forma sussurrada dos lábios rosados e ele fechou os olhos ao som, sabendo que nunca ninguém iria dizer o seu nome de forma tão bonita e tão... provocante. Provocante e ao mesmo tempo espontânea, quase inocente. Ele retirou a camisola dela de uma vez, um pouco impaciente. Ela esperou-o se despir, e quando ele voltou para junto dela nu, separou as pernas para recebê-lo.

Se Scabior sempre a provocava nessa parte, dessa vez ele não o fez. A penetração foi rápida e bruta, mas não dolorosa. Nunca dolorosa. Senti-lo ali dentro dela a fez gemer o seu nome pela segunda vez. Sentira falta dele ali, do toque dele, do corpo pesado em cima do seu, dos cabelos longos roçando levemente o seu ombro enquanto ele mexia o seu quadril, estocando com leveza e lentidão.

Os corpos se encontravam, buscando o prazer que tanto queriam; o prazer que não sentiam há dias e que já estavam ansiando por sentir novamente. O prazer primitivo do orgasmo. Scabior tombou a cabeça no ombro dela, enfiando o nariz no volume do cabelo, inalando aquele cheiro delicioso de baunilha. O cheiro que apenas ela tinha.

E ele se perguntou em que ponto ele passou a sentir falta daquele cheiro, sentir falta dela e daquilo tudo, em vez de apenas desejar o cheiro, desejar o corpo dela.

Hermione fechou os olhos ao sentir seu corpo corresponder às estocadas dele, o prazer completo a inundando em cada sentido; os lábios se entreabriram e ela deixou escapar um gemido de rendição, antes de senti-lo encontrar-se novamente com seu corpo pela última vez, derramando-se dentro dela e desabando pesadamente sobre ela.

Ela gostava de sentir o peso dele, e quando ele a deixou, deitando-se ao seu lado, o frio lhe engolfou e ela pegou o cobertor, enrolando-se nele. O quarto estava quente devido à lareira, mas ela ainda sentia sua pele se arrepiar. Escutava a respiração dele se acalmando aos poucos, sentia seu corpo satisfeito pelo contato que tanto apreciava.

Scabior apoiou-se no colchão e já ia sair quando sentiu a mão quente lhe pegar delicadamente pelo pulso esquerdo. Ele a olhou de forma questionadora.

– Fique aqui hoje.

Ela pediu, e sem pensar duas vezes, ele deitou-se novamente ao seu lado, jogando o cobertor grosso por cima do seu próprio corpo.

Não demorou muito para sentir o corpo dela se aconchegar ao seu, a cabeça apoiar em seu peito forte. Scabior suspirou. Hermione o mudou. O corpo dela ao seu lhe passava uma sensação clara e prazerosa de aconchego, os seios lhe prensando, os cabelos volumosos fazendo cócegas em seu braço, a respiração leve e cansada batendo em sua pele.

Ela estava quieta com seus próprios pensamentos. O corpo forte dele ao lado do seu lhe passava uma sensação de proteção. Como se nada de ruim fosse acontecer a ela enquanto ele estivesse ali, perto dela, com ela, tocando-a. Sua mão acariciou o abdômen do homem, as unhas passando levemente na pele daquele lugar. Observou-o se arrepiar e suspirar novamente.

Ela gostava de sentir a pele quente dele contra a sua. Aconchegou-se melhor ali, inalando o aroma masculino que ele sempre carregava, misturado a um cheiro de folhas e um pouco de bebida alcoólica. Um cheiro amadeirado. Fechou os olhos, apreciando isso. Sentiu a mão dele acariciar seus cabelos, e a sonolência começou a se aproximar do seu corpo.

Antes de se entregar ao sono, Hermione se perguntou há quanto tempo estava dedicando seus sentimentos àquele homem que estava ao seu lado. Há quanto tempo ele deixara de ser um snatcher e passou a ser Scabior. Há quanto tempo ela estava gostando dele.

Mas dormiu sem conseguir achar a resposta.