Obsession

2 A Prodígio


A Prodígio

Cinco anos depois

O expediente de Hermione havia acabado, toda a papelada havia sido preenchida corretamente conforme seu chefe havia pedido. Ela olhou para o relógio de pulso, uma lembrança dos pais, dada no natal do ano passado: sete e meia de uma noite de sábado e ela ainda estava no Ministério da Magia, seus pés doloridos devido aos saltos altos. Ajeitou o cabelo rebelde em um coque mal feito e suspirou, apertando o botão do elevador.

Fechou os olhos ao escutar o barulho de passos ficando mais alto, conforme os segundos passavam. Pediu mentalmente a Merlin para que não fosse sua assessora trazendo mais pergaminhos para levar para casa.

— Boa noite, Mione!

Ela reconheceu a voz no mesmo segundo e se virou. Neville estava olhando para a garota, tinha alguns livros surrados debaixo do braço e parecia cansado. Ficou surpresa em encontrá-lo no Ministério da Magia, mas abriu um sorriso ao ver seu amigo de longa data.

— Neville!

Ela o abraçou em um impulso, lembrando que não o via há muito tempo. Ele riu e retribuiu o abraço. Neville estava muito mais alto que em sua época de Hogwarts. Ele ficou ao lado dela, esperando o elevador calmamente.

"Nível cinco. Departamento de Cooperação Internacional em Magia."

A voz mágica falou quando as grades de bronze se abriram, esperando pelos passageiros. O elevador estava vazio, pois a maioria dos bruxos já estava em seus respectivos lares no momento. Poucos tinham ficado para revisar e recuperar o trabalho acumulado devido à Copa Mundial de Quadribol. Hermione entrou, seguida de Neville, suspirando quando a grade se fechou e o elevador começou a se mover. Seus pés agora imploravam por pantufas e seu estômago já reclamava pela falta de comida e o café em excesso.

— O que faz aqui no Ministério, Neville?

— Vim fazer um favor à professora Sprout. Aproveitei e peguei alguns livros que havia emprestado para um amigo.

Ele sorriu para ela e mostrou os livros que estava carregando.

— Ouvi dizer que ela reconhece bastante seu talento em Herbologia. Pensa em ser professor de Hogwarts?

— Eu estou caminhando para isso.

Neville deu seu sorriso sem graça e voltou a olhar para as grades. Por mais que a Guerra o tivesse mudado, ainda era uma pessoa tímida e modesta.

— E você? Fiquei sabendo da convenção com os bruxos irlandeses. Quando o grupo capturou mercadorias contrabandeadas com a sua ajuda, seu rosto estava em todos os jornais bruxos. Até no Profeta Diário!

Hermione sorriu e arrumou o coque que insistia em cair. Ele olhava para a amiga com admiração, uma felicidade verdadeira por vê-la tão realizada profissionalmente.

— Só faço meu trabalho, Neville. Preciso saber as leis de cor. – ela disse com simplicidade, como se controlar as atividades mágicas britânicas fosse algo fácil e corriqueiro.

—Sempre humilde... – seu amigo lhe disse, arrancando um sorriso contido da garota antes que o elevador estacasse e as grades se abrissem.

"Nível Oito: Átrio."

A voz anunciou mais uma vez, abrindo a porta. Hermione saiu do elevador, despedindo-se de Neville com um abraço e pedindo a ele que lhe mandasse uma coruja com notícias. Andou um pouco mais rápido para chegar à lareira mais próxima e Neville não a seguiu, apertou outro botão do elevador e se foi, descendo novamente.

Ela chegou à lareira e pegou um pouco de Pó de Flu de um pote, jogando o monte aos pés e dizendo o endereço correto.

Um pouco de solavanco e uma mexida no cabelo depois, ela abriu os olhos e reconheceu sua sala de estar, limpa e excessivamente arrumada. Suspirou de alívio: o dia havia acabado.

Automaticamente, caminhou para o quarto, última porta do corredor. Retirou a roupa, jogando-a na poltrona e andando para a suíte. Abriu a torneira da banheira enquanto refazia o coque, dessa vez preso com uma gominha forte.

Olhou-se no espelho. Olheiras profundas, o rosto cansado. Ela trabalhava demais para uma garota da sua idade, e mesmo que estivesse cercada de homens mais velhos, era boa no que fazia e acabava deixando os colegas de trabalho dependentes de seus dons com leis bruxas. Olhou para a banheira que já estava cheia. Com cuidado, entrou e a água quente relaxou seu corpo imediatamente, pousando a cabeça no encosto de borracha e fechando os olhos.

Cinco anos. Cinco anos faziam a ponte entre seu passado e seu presente. Cinco anos atrás, Hermione havia ajudado Harry com as Horcruxes, travado uma batalha que iria decidir o rumo de todo o mundo bruxo. Cinco anos atrás, mesmo com todo desespero e tristeza pairando sobre sua vida, ela era uma garota feliz, inteligente e com amigos.

Não que não fosse mais, seus amigos ainda eram leais e a inteligência de Hermione aumentava a cada dia com o trabalho. Quando a guerra acabou, ela era outra pessoa, a memória de seus pais havia voltado, mesmo com perdas, e ela ainda tinha seus amigos à sua volta.

Cincos anos depois, era uma das pioneiras em seu trabalho. O controle das atividades no mundo bruxo era algo cansativo, mas contagiante. Falava três idiomas distintos e sempre conhecia algum bruxo de outra nacionalidade. Era renovador.

Sempre que chegava exausta do trabalho e se afundava na banheira, os rostos dos amigos vinham à mente. Harry e Ginny: o casal perfeito; Neville; Rony e seus cabelos ruivos contrastando com os cabelos loiros de Luna. O casal era lindo, não podia negar, a peculiaridade da menina havia chamado a atenção de Rony, que sempre se achou o mais deslocado da família. Ela não poderia desejar mais do que felicidade para os dois.

Anos atrás se sentia viva, anos atrás fazia parte de algo importante. E, mesmo que amasse seu trabalho, nada se comparava à adrenalina que corria em suas veias quando o mundo bruxo estava em guerra, ou quando ela sentia que fazia parte da história de Hogwarts. Bons tempos.

Várias perguntas surgiam nesse mesmo momento de sua rotina. O banho era relaxante, mas ao mesmo tempo abria espaço em sua mente para divagar sobre assuntos que preferia evitar, e conseguia quando estava trabalhando. E se ela não tivesse ido para Hogwarts? E se não tivesse entrado para a Grifinória? Hermione era inteligente, e até hoje se perguntava o porquê de não ter ido para a Corvinal.

Seria porque o Chapéu Seletor já predestinava sua importância na guerra? E se ela tivesse se apaixonado por Rony? E se eles realmente tivessem tido um namoro decente? Muitas perguntas, nenhuma resposta.

Quando os pensamentos da garota tomaram os rumos que evitava, ela se fechou novamente, tentando não pensar muito no ruivo. Mesmo com sua dúvida frequente sobre o possível futuro dos dois, ela sabia que era muito para o menino. Sempre intelectual, obrigava-se a escolher a dedo o homem com quem teria um relacionamento, mesmo que ainda tivesse seus vinte e três anos, era seletiva.

Espreguiçou-se na banheira e sorriu ao lembrar-se dos rostos de bruxos com quem ela havia tido um relacionamento. Todos lindos, inteligentes. Mas depois de duas noites de jantares românticos e conversas intelectuais sobre os mais diversos assuntos, ela perdia o interesse, faltava a faísca. E ela sumia, deixando-os sem entender absolutamente nada.

— Hermione, sua menina confusa. – disse para si mesma, rindo agora um pouco mais.

Saiu da banheira e cobriu seu corpo com o roupão macio. Estava bastante frio. Calçou as tão desejadas pantufas e foi para a cozinha pegar um lanche.

Deixou a varinha trabalhar em sua torrada com geleia no mesmo momento que ia acender a lareira. Depois, fez um gesto e o prato flutuou em sua direção, ficando alcançável para que ela começasse a comer. O dia seguinte seria domingo e não precisaria trabalhar no Ministério, então tiraria o dia para cuidar de si mesma e ver algo na televisão. Sentia falta de alguns costumes trouxas, e passar o natal na casa dos pais sempre fazia Hermione sentir saudade de eletrônicos.

Terminou de comer e colocou o prato no criado ao lado do sofá. Afundou-se no estofado macio e conjurou seu livro preferido com uma coberta, recomeçando a leitura de onde havia parado, a leitura costumeira. Horas se passaram...

.

Acordou no meio da madrugada com o barulho do livro caindo e assustou-se. Hermione odiava dormir durante uma leitura, mas parecia que seu corpo — que antes aguentava horas na biblioteca de Hogwarts — não era o mesmo de antes. Estava mais cansada e dormia mais facilmente. Bufou de raiva e pegou o livro, colocando-o no criado mudo, olhou para o apartamento, observando que apenas a luz fraca do abajur iluminava a sala. Gostaria de acender a lareira, mas estava com preguiça, então apenas fez um gesto com a varinha e as chamas aumentaram gradativamente, deixando o cômodo mais aquecido e bem iluminado.

Ela riu da própria preguiça e pensou seriamente que a varinha poderia ser a causa do sedentarismo de muitos bruxos. Suspirou e fechou os olhos, concentrando-se no barulho do fogo crepitando. A madeira estalava enquanto as chamas a engoliam.

Escutou um chiado vindo da lareira e abriu os olhos vagarosamente, franzindo o cenho e fixando o fogo. A cabeça de seu chefe apareceu entre as chamas e Hermione colocou a mão no peito, percebendo que seu coração agora batia rápido.

— Merda, Archie! Você me assustou!

Archie sorriu para a menina, mas com mesma rapidez que o sorriso apareceu, ele sumiu.

— Não fale palavrão com seu chefe, Granger.

Ela mordeu a língua com força para não xingá-lo novamente. Por Merlin! Archie a estava vendo de pijama e pantufas, ela tinha total direito de falar o que quisesse com ele. Pantufas, pijamas e cabelo armado eram algo que uma mulher tinha obrigação de manter apenas para ela. Touca de banho poderia ser incluída nessa lista...

— Granger?

A voz de seu chefe tirou-a dos seus devaneios e ela o olhou com cuidado, perguntando-se mentalmente o que ele estaria fazendo ali. Não sabia as horas, mas julgando que chegou a casa às nove da noite, e pela escuridão do aposento ainda era noite, o que Archie estava fazendo era algo inconveniente. Mas ele era seu chefe, e ponto final.

— Diga.

— Amanhã teremos uma reunião no Ministério e logo depois o Departamento de Cooperação Internacional em Magia dará uma festa para alguns búlgaros. Preciso de sua presença no evento.

Pensamentos variados chegaram à mente de Hermione em questão de segundos: ela não tinha algo para vestir, seu cabelo estava horrível, não tinha companhia, não teria seu domingo de folga. Mas seu chefe esperava a resposta com a maldita cabeça enfiada na sua lareira e observando suas pantufas de coelho. Ela engoliu em seco.

— Que horas?

Archie sorriu para ela.

— A reunião é às nove da noite e a festa logo depois. Qualquer dúvida, mande-nos uma coruja!

E na mesma rapidez que Archie apareceu, ele sumiu, deixando-a plantada na sala, apenas trabalhando em alguns pensamentos.

Ela precisava ir acompanhada ao jantar? Poderia chamar Harry, se ele não estivesse em uma viagem para negócios. E Rony? Seria indelicadeza chamá-lo e não levar Luna. Por mais que gostasse da garota, Archie a mataria se levasse alguém como Luna para um jantar com búlgaros. Se Hermione pudesse escolher, iria sozinha em todos os eventos que Archie mandava. O mundo bruxo sempre comentava quando ela aparecia com um novo acompanhante e as mulheres mesquinhas do Ministério sempre fofocavam sobre a falta de sorte dela no amor.

Suspirou e, com um gesto na varinha, apagou as chamas da lareira, anotando mentalmente para não usar pantufas enquanto a lareira estivesse acesa. Odiava o livre arbítrio dos bruxos para visitar a lareira alheia. Claro que alguns tinham sanidade mental para não fazer o que Archie fez, mas seu chefe era alguém peculiar demais... Por que bruxos não podiam usar telefone ou celular?

Caminhou para o banheiro. Enquanto escovava os dentes, pensou com qual vestido poderia ir. Tinha muitos galeões sobrando em Gringotes, não seria algo errado sacar alguns no outro dia pela manhã para satisfazer uma vontade feminina, e um evento de trabalho era um evento de trabalho. Ela precisaria estar alinhada, Archie odiava desleixo.

Ela só não entendia o motivo de ter que ir ao evento. Hermione sabia perfeitamente que era a melhor no que fazia, mas Archie não costumava pedir a presença dela em um simples evento, a não ser que tal evento envolvesse negócios ou assuntos de trabalho.

Caminhou para a cama, o sono agora a tomando novamente. O que faria com os cabelos? Merlin! Os cabelos eram o que mais a preocupava. Mas estava tão cansada devido ao dia de trabalho puxado que apenas deu de ombros e relaxou no colchão macio, adormecendo quase instantaneamente.