Obsessão
9 Capítulo 9
Notas iniciais
Tudo que não deveria ter acontecido, aconteceu. Na verdade, estava acontecendo. Laura estava dando a luz. Estava abafando os gritos com os dentes cerrados, lágrimas rolavam em seu rosto, seu cabelo estava úmido de suor. Henri estava sentado ao seu lado, estava segurando a mão dela e ela apertava forte. Ele apenas olhava e pedia calma, não sabia o que fazer. Abigail tirou o casaco, arregaçou as mangas do vestido e se ajoelhou na frente de Laura.
– Afaste as pernas. — ela pediu, mas ela mesma segurou nos joelhos da moça e os afastou. Precisou abaixar suas roupas de baixo. Era tarde. — Que sorte a sua, não sofrerá tanto. Maldita sortuda. — ela balançou a cabeça, afastando mais as pernas de Laura. — E eu tive que esperar sete horas para meu filho morrer.
– Não sabia que tinha filho... Ou teve. — Henri não sabia nem o que dizia. Estava nervoso, suava tanto quanto Laura de desespero. Abigail reparou aquilo, mas não falou nada, não era hora.
– Longa história.
– E agora? O que fazemos? — ele perguntou olhando para Abigail. Recebeu um olhar de desprezo.
– Oras, nós fazemos. — a resposta foi seca. — Laura, pelo que sei deve empurrar. Empurre o mais forte que... — nem precisou terminar a frase, Laura já empurrava e soltava um grito rouco. Fez força por uns dez segundos e parou, soltando um longo suspiro pela boca. Sua respiração estava ofegante.
– Eu não vou conseguir. — murmurou sem forças.
– Empurre mais e fale menos.
Empurrou de novo, com toda força que tinha e que não tinha.
– Certo, está coroando. Agora mais uma, bem forte.
Laura obedeceu. Nunca imaginou que a dor do parto fosse daquele jeito, não aguentaria as sete horas que Abigail teve que passar. Ela empurrou, respirou, empurrou, até que ouviu aquele choro alto, agudo e desesperado. Se sentiu maravilhosamente aliviada.
– Droga, como tiramos isso? — Henri se referia ao cordão umbilical. Abigail também não tinha pensado nisso.
– Tem alguma tesoura? — ela perguntou. Segurava a menina de forma desajeitada, como se a temesse.
– Eu acho que sim, mas é seguro?
– Por Deus homem, a menina pariu nesse quarto imundo sem nenhuma anestesia nem nada. Pegue a tesoura e passe álcool. Vai dar certo. Vá agora!
Ele se levantou num pulo e deixou o quarto. Tudo ficou silencioso, a não ser pela respiração alta de Laura. Estava com a cabeça encostada na parede, as costas doíam muito, tudo doía, mas ela ainda encontrou forças para olhar para Abigail e falar:
– Posso ver?
Abigail a olhou como se não a tivesse ouvido, mas logo entendeu o que ela queria. Estava com os olhos curiosos dando um jeito de olhar por cima de seus joelhos levantados, estava muito dolorida para abaixá-los no momento. Abigail deu os ombros e tentou equilibrar-se pra ficar de pé. O bebê ainda estava ligado a mãe. Abigail mostrou a menina para Laura e ela chorou.
– Ela é tão linda. — dizia entre as lágrimas, mas com um sorriso.
– É... — foi a primeira vez que Abigail sorriu, finalmente reparando na menina. — Minha linda sobrinha.
O sorriso de Laura se desmanchou devagar. Tinha se esquecido do lugar em que estava. Não era um hospital limpo, branco, claro, com enfermeiras e Bernard ao seu lado com roupas verdes, usando máscara e touca. Era um cativeiro.
– Por favor, não a tire de mim. — ela chorou ainda mais. Estava soluçando. — Eu lhe pago o quanto quiser, meu namorado tem o dinheiro. Pelo amor de Deus! A senhora mesmo disse que seu filho morreu, não deixe que eu viva sem ela. Por favor. — não tinha nem forças para suplicar, estava fraca e cansada. Abigail mal prestou atenção no que ela dizia, estava ocupada demais admirando a criança que estava em seu colo.
– Acha que chegamos até aqui para desistir de tudo e deixar que vá viver com sua linda família? Por Deus, não seja estúpida. Se não tivesse engravidado tão cedo diria que é muito inocente.
Henri voltou com a tesoura “esterilizada” e uma toalha molhada. Abigail o olhou e ergueu as sobrancelhas, aprovando seu pensamento útil. Abigail deu a menina para Henri segurar para que ela pudesse cortar o cordão. Foi rápido, mas foram segundos preciosos para Henri. Era sua filha, era perfeita. Mais do que nunca ele sabia que não poderia deixar que Doralice e Abigail a levassem.
– Pronto. — Abigail deixou a tesoura em cima do criado-mudo ao lado da cama e tomou a menina de Henri de novo. Ele quase não deixou, mas lembrou-se de que não devia levantar suspeitas. Ele olhou de relance para Laura e a viu chorando.
– E agora? — Henri perguntou com a voz baixa para Abigail. Pousou o olhar em sua menininha, era muito linda, não sabia que poderia se sentir daquela forma olhando para um bebê.
Abigail colocou a toalha estirada em cima da cama, usando apenas uma mão. Ela colocou a menina em cima e começou a limpá-la com as bordas. Não era o trabalho mais bem-feito do mundo.
– Bem, estava vindo aqui avisar que a polícia ampliou as buscas e que deveríamos mudar de cativeiro, mas acho que não vai dar... Laura precisa ficar viva, Madeleine precisa de seu leite. Teremos que esperar mais um pouco até a situação se acalmar e aí fugimos. — Abigail respirou fundo e olhou para Laura. — É melhor arranjarmos alguém para lhe dar uns pontos.
– A namorada de Juan que trabalha conosco costumava ser enfermeira, acho que ela sabe fazer isso.
– Ótimo. Agora é melhor amamentar Madeleine.
Só por essa razão Abigail deixou Laura segurar a menina. Sentiu uma raiva muito grande ao ouvi-la chamar sua filha de “Madeleine”, pensou que se conseguisse escapar, nunca mais poderia pensar na mãe sem sentir raiva de seu nome. Lembrava-se bem do dia em que conheceu a primeira-dama e sua irmã, e quando sua avó falou que sua neta se chamaria Madeleine porque este era o nome da mãe de Laura. Foi um pensamento idiota. Ela pegou sua filha nos braços e desabotoou o vestido para amamentá-la. Pegou logo seu seio, parecia faminta. Sentiu uma dor, mas era uma sensação ótima alimentá-la. Ela sorria, esquecendo o choro e todos os problemas.
–
Antes de voltar para casa, Abigail precisou se lavar na pia do banheiro imundo da casa de Henri. Estava com as mãos cheias de sangue. Quando chegou, Doralice e Maurice estavam na sala.
– Foi na farmácia do centro, Abigail? — Maurice zombou, estava lendo um jornal e não tirou os olhos deste enquanto falava. Quando não recebeu uma resposta, olhou para a cunhada e curvou o cenho. — E não trouxe nada?
Esquecera desse detalhe. Abigail foi se sentar ao lado de Dora no sofá.
– Eu estava com uma dor de cabeça horrível e vi que não tinha dinheiro suficiente na bolsa. Em vez de voltar para pegar mais, eu decidi andar pela vila e conhecer mais a cidade. Acabou que esqueci a dor de cabeça e ela se foi. É crime, senhor prefeito?
– Não é, senhora Moreau. — ele respondeu, voltando a dar atenção a matéria que lia no jornal.
– Se me dão licença, eu vou tomar um banho.
Abigail se levantou. Quando passou por Maurice, olhou para trás e fez um gesto com a mão, chamando Doralice. Esta esperou alguns minutos para se levantar e ir atrás de Abigail, disse ao marido que ia pegar um casaco, pois o vento que entrava por baixo da porta estava congelando a sala. Uma desculpa esfarrapada.
Subiu as escadas e encontrou Abigail na porta do banheiro, estava a abrindo.
– Meu Deus Abigail, eu disse para não fazer mais nada além de avisar e voltar para casa! Esse seu relacionamento com Henri vai nos atrapalhar e...
– Ela nasceu, Dora. — Abigail sorria com muita alegria. Abriu a porta do banheiro e entrou, ligando a torneira da pia para lavar as mãos novamente, estava se sentindo suja.
Doralice não se moveu. Ficou olhando confusa para a irmã. Sentiu o ar deixar seus pulmões por alguns segundos. Seu coração acelerou de tanta felicidade.
– Minha filhinha... Ela nasceu?
– Sim. — confirmou ainda sorrindo.
– Meu Deus, por que não veio me chamar? — nem conseguia ficar nervosa, o sorriso estava estampado em seu rosto e não sairia tão cedo.
– Porque eu fiz o parto! Quando cheguei lá a menina já estava parindo. Henri ajudou. Dora, ela é linda, lindíssima!
– E os olhos? Como são os olhos?
– Eu não os vi, ficaram fechados o tempo todo, mas mesmo assim é uma linda menininha. — ela chacoalhou as mãos na pia e pegou uma toalha pra secar. Logo ficou séria. — Doralice, não podemos fugir agora. Laura está muito fraca e ela precisa amamentar Madeleine.
– Não, não precisa. — ela balançou a cabeça. — Podemos dar-lhe de mamar.
– O leite da mãe é importante.
– Eu sou a mãe dela, Abigail. — Doralice a olhou com os olhos semicerrados, estava ficando com raiva.
– Eu sei, mulher. — bufou. — Mas a menina saiu de Laura, e ela tem o leite! Só por alguns dias Doralice, e aliás, não podemos fugir com a menina agora, lembra que a policia está procurando em todo lugar? Dois ou três dias, damos um jeito de levar Laura para outro cativeiro e aí fugimos.
– E se entregássemos Laura para sua família e fugirmos?
– Viveríamos com a polícia em nossa cola. — ergueu uma sobrancelha. — Confie em mim. Hoje a noite vá e veja sua filha, tenho certeza que lhe fará repensar nisso. Quer protegê-la não é? Então façamos o que eu disse.
– Tudo bem. — ela respirou fundo. Sentiu o sorriso voltar para seus lábios. — Mal posso esperar para vê-la.
– É sua filha, Dora. Vai vê-la pelo resto de sua vida.
–
A noite parecia ser eterna. O jantar, a conversa na sala, a espera para Maurice começar a roncar. Doralice agiu friamente e seca todo o tempo, embora Abigail lutasse para puxar algum assunto. Doralice só era boa atriz quando queria, a ansiedade lhe transformava, Maurice sentia aquilo.
Ao ouvir o primeiro ronco do marido, meia hora após se deitarem, quase deu um salto da cama, mas tentou ser cautelosa. Ela se levantou devagar e saiu do quarto. Foi até o quarto de Doralice e a acordou.
– Está na hora. — avisou.
As roupas de Doralice estavam no armário de Abigail. Planejaram isso assim que Maurice saiu para trabalhar de manhã, assim não teria risco dele acordar quando Dora fosse abrir seu guarda-roupa.
Como toda noite, saíram silenciosamente, mas desta vez, levavam consigo uma bolsa com roupas de bebê dentro. Eram as roupas de Madeleine que agora ela voltaria a usar, era assim que as irmãs pensavam.
Quando chegaram ao beco, Dora mal podia segurar seus passos. Ela passou na frente de Abigail e já foi abrindo a porta do quarto de Laura.
Encontrou Laura, Henri e ela. Mesmo de longe podia ver como era linda. A vontade de pegá-la era enorme, mas mal podia mover as pernas.
– Me dê. — ordenou quando finalmente tirou os pés do chão. Viu Laura segurar a menina com mais força, olhando para ela com temor. Era como uma criança segurando um doce que queriam lhe roubar. — Me dê! — ela segurou a menina, mas ainda teve dificuldades para agarrar a menina.
– Dê Laura. — Henri disse, mas não era uma ordem, era como um conselho. Laura voltou a chorar, como fizera desde o momento em que a filha nasceu, parando poucas vezes para sorrir enquanto admirava a menina. Não sabia nem como chamá-la, não era hora de pensar em um nome, mas não a chamaria de Madeleine.
Laura largou os braços e deixou que Dora pegasse sua filha. O choro era baixo, mas muito triste. Doralice não ligou, estava obcecada pela beleza da menina. Ela estava acordada, mexia os dedinhos das mãos e os pés pequenos, porém os olhos continuavam fechados. Estava enrolada em um lençol, uma fralda improvisada de pano.
– Minha menininha. — Doralice também chorava, mas de alegria. Como sentiu saudades.
A verdade era que aquela bebê em seus braços não se parecia com a verdadeira Madeleine, mas estava tão obcecada e louca de saudade que nem percebeu, apenas figurou o rosto de sua filha ali e era como a primeira vez que a segurou – e era mesmo. Aquela não era sua filha, afinal.
Abigail estava logo atrás de Dora, na porta, mas não notaram sua presença. Não até ela se aproximar de Laura.
– Não está mais grávida, menina tola. Tem que obedecer as ordens mais rápido, agora podemos te machucar. — ao terminar de falar, sorriu sarcasticamente para Laura.
– Acho que ela já está sofrendo o bastante. — Henri se levantou, cruzando os braços e olhando para Laura em seu pranto, sem poder fazer nada. — Han, Doralice... — ela nem o olhou, não tirava os olhos de “Madeleine”. — Conseguimos banhá-la, fervi água e usamos uma bacia. Ela está limpinha, mas talvez queira por uma roupa nela.
– Claro, claro... — Doralice olhou para ele, sorria como uma boba, os olhos estavam brilhando. Ela deitou a menina na cama e pegou aquela bolsa com roupas. Também tinha levado coisas para limpar e perfumar.
Doralice nem reparava a mudança repentina de Henri. O homem estava ajudando muito, ajudou no parto e tinha até dado banho na criança. Cada vez mais Abigail absorvia aqueles momentos estranhos e de toda forma tentava ignorá-los, um homem poderia ficar sensível ao assistir um parto.
– Enquanto a você... — Abigail colocou uma mão no ombro de Henri e a deslizou até seu peito. Em seguida, olhou para o homem. — O que acha de expulsar seus homens de sua casa? Foi um dia difícil, acho que ambos precisamos relaxar um pouco.
Não foi como a primeira noite. Henri não sentiu nada, nenhuma atração, nenhum desejo. Ele estava até triste por Laura, mesmo que ele achasse que ela não merecia seus sentimentos, tinha uma ideia de como ela se sentia ao ver Doralice segurando sua filha. Ele queria poder segurá-la também. Poderiam fugir naquele momento, ele, Laura e sua menina, ele estava até armado. Doralice e Abigail eram fracas diante dele, mas era impossível. Laura não podia nem andar. A enfermeira veio e lhe deu os pontos, mas tudo aconteceu tão rápido. Não tinham um carro, não tinham nada. Seria mais tranquilo se fugissem quando as irmãs não estivessem por perto. Laura parecia depressiva, até quando a menina estava em seus braços. Foi muita preocupação para algumas horas de mãe.
– É como disse Abigail, foi um dia difícil. Estou cansado. Sinto muito.
Ele voltou a se sentar. Abigail ficou incrédula. Cruzou os braços e curvou o cenho em indignação.
– Está me recusando?
Henri respirou fundo. Ele olhou para Laura pelo canto do olho, rápido e disfarçadamente, em seguida, voltou a olhar para Abigail.
– Estou cansado. — repetiu.
Abigail percebeu aquele olhar e não se agradou nada. Ela riu, baixo, e balançou a cabeça. Se virou e viu Doralice encantada olhando para a "filha", já estava vestida, parecia até mais limpa. Laura havia parado de chorar, estava encarando o nada e os olhos ainda estavam molhados.
– Eu preciso de um copo d'água. Com licença. — Abigail deu passos lentos e elegantes até a saída. Abriu a porta e foi para o lado de fora. Ela foi até a casa de Henri e abriu a porta, seus capangas estavam lá dentro e um deles, Juan, estava com a namorada enfermeira. Ela os ignorou e eles a ignoraram. Foi direto para a pia suja que havia ali e pegou um copo de vidro, parecia com aqueles pequenos de bar onde se colocavam bebidas. Ela o encheu e se virou, encostando na pia.
– Juan, — ela chamou – posso falar com você um segundo?
A enfermeira o olhou enciumado, logo olhou com desconfiança para Abigail. Ela virou os olhos.
– São negócios, querida. — Juan a avisou. Ela se levantou de seu colo e o homem grande pode se levantar também e andar até Abigail. — O que foi?
– Bonita sua namorada. — começou, estava sorrindo.
– Sim. E daí?– ele cruzou os braços, impaciente.
– Acho que fariam uma bela família juntos... Mas com a merreca que Henri te paga, é impossível deixar esse muquifo, não é?
O homem pareceu tocado. Era verdade que gostaria de formar uma família com sua namorada enfermeira, poderiam ter um futuro. Mas não tinha como escapar de Henri, nunca ganharia o que ganhava em outro lugar, com um emprego. Ninguém contratava um ex-presidiário.
– Por que está falando disso?
– Se me fizer um favor, eu posso te fazer outro.
– E que favor seria esse?
– Se você me der uma coisa que eu preciso, eu te pago uma quantia bem maior do que você recebe trabalhando aqui com Henri. Quem sabe poderia pegar sua namorada, fugirem para longe de avião, que tal? Itália, Portugal...
– E-eu... Eu tenho um primo em Portugal... — era um homem grande, mas meio bobo. O que ele ganhava com Henri não comprava duas passagens de avião, ele sempre usava seu dinheiro para pagar contas de sua namorada, ela morava sozinha e estava desempregada. Era uma preguiçosa que queria ser bancada, era a verdade, mas ele queria a bancar. — O que você quer?
Abigail sorriu maliciosamente. Se desencostou da pia e cruzou os braços.
– Uma arma.
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