Obsessão

10 Capítulo 10


Notas iniciais
Desculpem o atraso. Aí está o novo capítulo, boa leitura!

Foi difícil convencer Doralice a ir pra casa, ainda mais depois que Madeleine abriu seus olhos. A menina podia não se parecer com a verdadeira, mas os olhos eram, para o azar de Laura. Poderia ter nascido com os olhos verdes de Bernard, mas não, nasceram exatamente com os olhos de Laura, um azul incomum, mais escuro, como o azul de fim de tarde de primavera.

Quando a menina olhou para Doralice, esta quase não se conteve de tanta emoção.

– Céus, como podem dizer que sou louca? — ela falava olhando para sua filha, sentia algumas lágrimas invadirem seus olhos. — Ela é Madeleine. Veja os olhos, meu Deus.

– Sim. — concordou Laura. A este ponto ela estava exausta e morrendo de sono, mas não conseguia dormir sabendo que sua filha estava com Doralice. Ela passou de assustada e frágil para muito, muito brava e inconformada. Tinha ódio em seus olhos que observavam Dora, a cada vez que ouvia sua filha ser chamada de Madeleine, sentia algo quente dentro de si, era a raiva. — Parecem com os meus.

Doralice olhou para Laura no mesmo instante, até mesmo Henri olhou. Laura sabia que Abigail também olharia se ela estivesse lá. Não se importou.

– São os olhos de minha mãe, Laura. — ela respondeu seca. — Mesmo que você tivesse olhos pretos ela nasceria com eles.

– Não, são os meus olhos e do meu pai. A menina é a minha cara e a senhora apenas finge não ser. Ela não é sua, ouviu? Ela não, é, sua. — ela falava pausadamente e com os dentes cerrados. Viu a raiva de Doralice em sua expressão, era capaz de matá-la com a força de seu pensamento.

Não tinha sombra de dúvida em Laura, aquela mulher era louca em qualquer sentido.

– Lembre do que minha irmã disse. Não está mais grávida, eu posso te machucar.

Henri se levantou e andou até elas. Ambas estavam na cama, mas cada uma em um canto, a única coisa que as separava era a bolsa de roupas que Doralice trouxera.

– Acalmem-se as duas. Doralice... Tem que compreender que ela está fragilizada, ela não entende suas ideias. — ele tentava defender Laura defendendo Doralice ao mesmo tempo, estava apenas tentando disfarçar.

– Não é ideia nenhuma, é um fato! Ela tem que entender! Essa menina não é dela, não é! É minha! Eu esperei muito!

– Não entende que antes mesmo de Madeleine morrer eu já estava grávida?!

– Chega! — Doralice se pôs de pé num pulo, mesmo que estivesse com Madeleine nos braços. — Isso não lhe diz respeito menina, seu único trabalho era dar a luz a minha menina e já o fez. Não sei porque não te descartamos ainda.

– Porque ela está amamentando a sua filha. — Henri se pôs na frente de Doralice. — Apenas a ignore, ela não sabe de nada, não é mesmo? Se tem certeza de que a menina é sua então é. Ela só precisa ser alimentada por uns dias e aí daremos nosso jeito de descartá-la.

– Tem razão. — Doralice concordou, assentindo. — Ouviu bem, não é? — ela virou um pouco a cabeça para encontrar Laura escondida atrás do corpo alto de Henri. — Ela é minha.

Antes que mais alguém pudesse dizer algo, Abigail abriu a porta e entrou no quarto.

– Foi comprar a água? — Henri provocou.

– Fui cuidar da minha vida. — ela sorriu ironicamente. — Dora, é melhor irmos embora. Mal esperou que Maurice começasse a sonhar para sairmos. E se ele acordou?

– Não acordou, tive o máximo de cuidado... Quero ficar com minha menininha.

– Pode vê-la amanhã, podemos retomar nossos passeios da tarde.

– N-não podem vir aqui a tarde.

As duas olharam para Henri.

– Mas você pode ir a minha casa na hora que bem quer, não é? — Doralice ergueu uma sobrancelha, lembrando-se do episódio que fez Abigail descobrir que eles se encontravam.

– Aquilo era uma emergência. De tarde eu recebo algumas visitas aqui. Não podem vê-las aqui, principalmente você que é a primeira-dama.

Ele tinha razão. Aquilo apertou o coração de Doralice, teria que esperar vinte e quatro horas para ver Madeleine de novo. Ela suspirou, decepcionada.

– Tudo bem. Mas cuide bem dela, garanta que fique sempre limpa. Pode desamarrar Laura para ajudar, mas se ela fugir o acordo está desfeito e ainda te mato junto dela. — Henri quase riu, como se aquelas mulheres fossem capaz de matar uma mosca. De acordo com o que Laura lhe contou, o sequestro foi estúpido, ela poderia ter fugido naquela noite em que Doralice a levou para o beco, ela não a machucaria com a faca, mas sentiu medo. Agora, se sentia idiota, podia ter evitado tudo aquilo.

– Ela não vai fugir. — nós vamos, ele pensou.

Chegaram em casa por volta das duas da manhã. Foram direto para a cama. Na manhã seguinte, acordaram ainda mais cansadas, mas Abigail podia suportar, Doralice não. Estava prestes a adormecer em cima de seu prato de frutas no café da manhã se não fosse Maurice conversando com ela a todo momento. Assim que o homem saiu para trabalhar, Doralice foi dormir, naquela noite pretendia ficar mais algumas horas com sua menina.

Abigail não dormiu, não poderia. A única coisa que lhe fez dormir de madrugada foi o cansaço, afinal, ajudou a pôr uma criança no mundo, mesmo que rapidamente. A verdade era que a cabeça de Abigail latejava de desconfiança.

Escondeu a arma que Juan lhe vendeu no bolso interno de seu casaco e prometeu que lhe pagaria logo, mesmo que não tivesse o dinheiro, daria um jeito de dar algumas joias da irmã para ele penhorar. Nem mesmo sabia qual era sua intenção com aquela arma, mas a desconfiança a levou aquilo.

Primeiro, Henri segurando a mão de Laura durante o parto. Ele não parecia ter compaixão dela, mas de repente teve. Depois, recusou deitar-se com ela e estava ajudando Laura com a criança. Abigail era mais desconfiada do que uma pessoa normal deve ser, aquilo podia significar nada para alguém, como ela mesmo chegou a pensar, um homem pode ficar sensível ao ver um parto, mas algo lhe dizia que não era só isso. O passado dele com Laura não era dos melhores, mas envolvia amor, e amor tão profundo como o dele dificilmente era apagado.

Começou a pensar naquilo sem parar, criando mil hipóteses em sua cabeça confusa. E se ele estivesse apaixonado por ela? E se ele acabasse com o acordo e a denunciassem? E se ele a deixasse fugir com a criança?

Se levantou do sofá da sala pronta para ir ao beco. Não sabia porque, talvez o ameaçasse, lhe arrancasse alguma desculpa, não sabia, apenas foi, sem acordar Doralice nem nada.

Carregava a arma em sua bolsa e andava apressadamente, mas com elegância. As pessoas da rua nem desconfiavam de nada, apenas cumprimentavam a irmã da primeira-dama.

No beco, Henri entrava no quarto de Laura com pressa.

– O que houve? — ela perguntou. Estava amamentando a filha. Cada vez que segurava aquela menina parecia que não estava onde estava.

– Temos que fugir agora.

– Pelo que bem sei acabou de me dar o lanche da tarde então deve ser entre três e quatro horas. — ela nem tirou os olhos de sua filha para responder, e ainda tinha ironia em sua voz. — Por que fugir agora e não de noite, antes de Doralice e Abigail virem? Assim ninguém nos vê. E tem mais, não sei se lembra, — agora ela olhava pra ele, com as sobrancelhas arqueadas — mas eu pari uma criança nesse quarto e levei pontos improvisados, eu não sei correr desse jeito.

– Não será preciso correr, eu consegui um carro. Ninguém vai desconfiar.

– Mas espere... Você disse “temos que fugir”... Você vai fugir comigo?

– Mas é claro. — ele disse, como se fosse óbvio. — Se você fugir e eu ficar aqui, você irá até a polícia e contará tudo. Vão prender Doralice e ela vai me entregar. Então é claro que preciso fugir também, já que é assim, fujo com você e fico perto de minha filha.

– Mas Henri, eu... Eu tenho uma família. Está planejando que fujamos e que eu deixe tudo pra trás? — Laura sabia que ia acontecer alguma confusão na hora de decidir a fuga. Henri jamais abriria mão de ficar com sua filha, mas Laura queria voltar a sua vida normal.

– Desculpe Laura, mas ou foge comigo e deixa que eu fique com minha filha também, ou eu fujo com ela e elas te matarão.

– Seria capaz de deixar isso acontecer, Henri?

– Escute, que tal se irmos logo e paramos em algum lugar bem longe para conversar? Depois você pode telefonar para sua família e seu namoradinho, tá legal?- bufou impaciente — Tenho medo que Doralice venha mesmo que eu tenha dito para não vir. Não viu como ela está obcecada? Ela quer te matar Laura.

– Sim, eu vi... Desde que minha filha fique protegida eu aceito qualquer coisa...

– Então vamos, eu te ajudo.

O carro estava no topo da escadaria do beco. Ninguém podia ver Laura entrando, por isso teriam que ser rápidos pelo menos nessa parte. Henri ajudou Laura a se levantar, ela ainda tinha sua filha nos braços. Henri preferiu carregar a bolsa de Doralice com as roupinhas dentro, estava muito agitado e poderia machucar sua filha.

Antes mesmo de alcançarem o segundo degrau da escada, Abigail apareceu no topo.

Foi como uma premonição, Henri estava certo, deveriam sair o quanto antes, mas não foi a tempo. Abigail sorriu, vendo aquela cena, vendo o carro os esperando, vendo a frustração nos rostos de Laura e Henri.

– Ora, o que pensam que estão fazendo sequestrando minha sobrinha?

– Iremos com você aqui ou não, Abigail. — Henri avisou. De dentro da calça, tirou uma arma. Ele não a apontou, ficou apenas segurando. Abigail riu, começando a descer as escadas.

– Não é engraçado eu ter uma igual? — ela falou, enquanto descia os degraus e tirava sua arma da bolsa ao mesmo tempo. Henri quase não acreditou, pensava que estava vendo coisas, mas não, era realmente uma arma.

– Céus... — Laura deixou escapar num sussurro, o que fez Abigail olhar para ela e apontar-lhe a arma. Seus olhos se arregalaram e ela segurou sua filha com mais força, não a ponto de machucá-la.

– Isso é loucura Abigail, nem sabe usar uma arma.

– Não queira me ver tentar. — ela respondeu a Henri, sem tirar os olhos de Laura. — Agora você vai por essa arma no chão se não quiser que eu atire nela.

Henri ergueu seu braço e apontou a arma para Abigail, mas algo pousou em sua mão. Uma mão ainda maior que abaixou a arma com rapidez e a fez cair no chão. O dono da mão pegou a arma rapidamente e apontou para Henri.

– Que diabos está fazendo, Juan?!

– Só o meu trabalho. — o homem respondeu, sem nenhuma expressão.

Henri olhou para Abigail que mantinha seu sorriso. Foi traído, mal podia acreditar. Tudo deu errado de um minuto para o outro.

– Agora voltem lá para o quarto. Vamos conversar. — ordenou Abigail, se aproximando com a arma. — Se virem e andem, agora.

Só tinham uma escolha: obedecer. Eles se viraram e começaram a andar de volta, com duas armas apontadas para eles. Quando entraram no quarto, Abigail barrou Juan.

– Muito obrigada. Pode me dar isso. — ela pegou a arma de sua mão. — Terá seu pagamento.

– Quando?

– Em breve. Não se preocupe.

Juan assentiu e Abigail entrou no quarto, fechando a porta. Encontrou Laura sentada na cama e Henri de pé ao lado dela. Abigail continuava a apontar a arma para Laura e a outra estava abaixada. Fez uma cara de pensativa.

– Minha irmã é burra ou você que é um fraco? — ela suspirou no final. — Olhe só em que caiu, na chantagem dessa menina pálida. Não tem vergonha? Ela te trocou pelo irmão e você está ajudando ela e seu sobrinho? Que lindo gesto.

– É minha filha.

– Ah, então temos mais de um traíra aqui. Eu sabia que você não era tão boazinha assim. — ela olhou para Laura com deboche. — E agora, o que eu...

Ela foi interrompida por batidas na porta.

– Abigail? Sou eu. Juan disse que estaria aqui.

Era Doralice. Abigail achou melhor ainda. Ela abriu a porta mesmo com a outra arma na mão e deixou Dora ver tudo o que acontecia ali.

– Acordei e não estava em casa, imaginei que estaria aq... — só então que viu a cena. Doralice ameaçando Laura e Henri com uma arma e Madeleine no colo de Laura. — O que significa isso, Abigail?

– Não viu o carro lá em cima? — Abigail perguntou. — Eles iam fugir.

– Isso só pode ser uma brincadeira. — ela quase sorriu, mas viu a expressão assustada de Laura e a séria de Henri. — Depois de tudo que lhe paguei? Sério?

– Não podia deixar que levasse minha filha.

– Como assim sua filha? Você só pode estar louco!

– Não, de loucura aqui só a sua! — falou com um tom mais alto. Laura não dizia nada, nem contestou o fato de ele expor para elas que ele era o pai da criança. — Essa é minha filha e não vou deixar que toque nela!

– É? E como vai nos impedir? Somos duas mulheres armadas. — Abigail ergueu a mão que segurava a outra arma para a irmã. Dora olhou assustada, nunca havia tocado naquilo, mas logo a tomou da mão de Abigail e apontou para Henri.

– Agora é melhor que dê minha filha ou estouro sua cabeça! — Doralice gritou para Laura.

De repente, começaram a ouvir gritos. Uma voz chamava por Laura e outra por Doralice. A que chamava pela primeira-dama ainda estava longe, mas a que chamava Laura era bem nítida e clara.

– É... É Bernard. — ela falou olhando para Henri. Ele a olhou de volta, com surpresa. — É Bernard, ele está ai fora!

– Doralice! Doralice!

Também havia o som de sirene. Logo também ouviram carros que pareciam vir da entrada de baixo do beco, portas batendo e homens correndo.

– Doralice! Sei que está aqui!

Doralice olhou para Abigail com a respiração ofegante, Abigail estava da mesma forma.

– É o prefeito. — Henri disse baixo, mas com convicção.

Abigail engoliu em seco e olhou para Doralice, sua mão agora tremia.

– E a polícia.

Notas finais
Bem, por hoje é isso. Espero que tenham gostado. Obrigada por ler!