OMNITRANIL (Ben 10 - Força Alienígena)
33 Visão cega
Max, Eunice e Azmuth se encontravam no quarto personalizado pelo Mecânico-chefe. O Magistrado mantinha-se anestesiado sobre a cama, seu corpo sendo cuidadosamente manipulado por braços metálicos que saiam das paredes do recinto. Um braço delicadamente inseriu uma agulha na veia do braço direito de seu paciente. Outro posicionava a máscara de oxigênio sobre o seu rosto. Já dois membros metálicos posicionavam as bolsas de soros em suportes específicos para administração dos fluidos. Outra seringa de anestésico foi administrada em Max, agora com a dosagem otimizada para manter a sedação por todo o tratamento.
― Estamos prontos, senhorita Eunice ― disse o computador ― podemos iniciar os procedimentos?
Eunice abaixou a cabeça em direção à Azmuth e após o cientista acenar levemente com a cabeça, ela respondeu:
― Sim, podem começar.
― Sim, senhorita.
Três novos braços, com uma extremidade cônica e uma pequena lente esférica em cada ponta, saíram da parede atrás da cabeça do Magistrado e se posicionaram em três eixos ao redor do crânio de Max Tennyson.
― Iniciando processo de Estereotaxia.
Um fino laser verde foi emitido das três lentes e cruzaram entre si como um plano cartesiano de três dimensões. O ponto de cruzamento encontrava-se dentro do crânio do Magistrado. Eunice olhou para uma das telas do computador que mostrava uma imagem de ressonância magnética da cabeça de Max. Um pequeno brilho deslocava-se pela imagem em concordância ao movimento tênue e controlado dos braços.
Azmuth por fim disse:
― Vamos, Eunice. Max precisa descansar e ficarmos olhando não vai fazer o tratamento ir mais rápido ― Ele então caminhou para a porta, que se abriu automaticamente, e seguiu pelo corredor.
Eunice o seguiu.
Caminharam pelo corredor da nave em silêncio até chegarem à ponte de comando. A cadeira do piloto encontrava-se vazia e nas janelas observavam-se feixes de estrelas esticadas ao infinito pela velocidade da luz. Azmuth aproximou-se e saltou sobre uma das superfícies dos painéis, olhando para a paisagem externa.
Eunice caminhou cautelosa pelo local. Massageava os nós dos dedos da mão e de vez em quando olhava para o cientista, retornando em seguida o olhar para qualquer outro ponto da ponte de comando.
― Vamos, fale ― disse Azmuth.
― Perdão, senhor? ― disse Eunice.
― Vamos, pergunte o que quer perguntar ― Azmuth virou-se e a encarou. ― O que você quer saber?
Eunice encarou os grandes olhos verdes e, naquele momento, sem brilho do cientista. Então disse:
― Como pôde?
Azmuth suspirou, então disse:
― Toda tecnologia atual foi baseada em outra que apresentava falhas e danos. É o caminho da ciência. Pode ser que futuramente eu consiga desenvolver uma tecnologia como a do Omnitrix sem seus problemas atuais? É possível. Mas um problema nunca surge do nada, ele é criado...
Eunice continuava o encarando.
― Mesmo quando não é sua intenção. ― disse por fim Azmuth.
― É por isso que estava desenvolvendo o Superomnitrix?
― Sempre achei ridículo esse nome que deram, mas sim.
― E estava conseguindo, senhor?
― Não...
Eunice desviou o olhar e encarou o chão.
― Ao invés disso ― continuou Azmuth, ― apenas criei mais problemas.
― Está se referindo ao mecanismo evolutivo ou-
― Não ― interrompeu o cientista. ― Isso nem estava totalmente estabelecido como função do novo dispositivo ainda, era apenas um teste que eu estava fazendo. Me refiro a toda questão política e de nostalgia nojenta que inspirou alguns de nossos colegas de espécie!
― Fathzi...
― Exatamente. ― Azmuth fechou os olhos.
― O que houve entre vocês, senhor?
― A princípio, nada. Minha história com ele na verdade começou com seu pai: Rhubio.
***
Rhubio era um engenheiro de motores, era sonhador e desde jovem acreditava no potencial tecnológico de Galvan como forma de trazer condições de vida melhores para os galvanianos e para todas as espécies da galáxia.
Com o despontar da Guerra galvânica, o bem estar dos não-galvânicos tornou-se algo secundário no pensamento dos nativos e com Rhubio não foi diferente. Havia perdido o pai e um irmão em batalha e, em questão de poucos meses, tornou-se segundo comandante da terceira frota de Galvan.
A mim, me coube ser o líder do departamento científico de guerra. Eu e minha equipe já havíamos criado inúmeras aberrações tecnológicas; mas, com toda certeza, a armadura mecamorfo-galvaniana foi a pior delas.
Assim que fora liberada para uso das tropas, em questão de dias a guerra havia virado ao nosso favor. Se o objetivo era se sobrepor aos demais planetas para ter a força necessária para solicitar a paz, infelizmente o resultado não foi o desejado. Em posse de uma tecnologia capaz de sobrepujar todo e qualquer armamento inimigo em questão de segundos, as tropas galvânicas dizimaram um grande número de espécies de nossa galáxia local.
Rhubio fora um dos primeiros a utilizar a armadura. Havia se candidatado como usuário de teste, se isso fosse necessário para conseguir uma tecnologia que permitisse vencer a guerra, dizia ele. Talvez por ter sido o que mais se expôs à tecnologia da armadura, foi também o primeiro a apresentar a Psicose encouraçada. Também detesto esse nome, mas novamente não foi eu que escolhi.
Seu temperamento tornou-se cada vez mais instável, com explosões de raiva e tomadas de decisões que beirava a psicopatia. Aos poucos, Rhubio tornava-se mais e mais isento de sentimentos. E infelizmente ele não fora o único.
Com o advento da armadura mecamorfa, ideias cada vez mais cruéis se espalhavam em meio ao grupo militar, a ponto de desenvolverem uma força paralela de combate e inteligência que eles chamaram de Guarnição Galvânica, ou G.G. como ficaram conhecidos pelos emblemas que usavam em seus uniformes.
Rhubio até fora cogitado para liderar um cargo de grande importância na G.G., mas seu adoecimento estava piorando cada vez mais, impossibilitando-o até mesmo de participar de um grupo de psicopatas paramilitar.
Nessa época eu já havia me afastado de vez do exército e resolvi me dedicar inteiramente a causas de proteção à vida. Me tornei então o responsável da ala de ciência do pós-guerra, tratando e buscando tratamentos para os inúmeros civis e soldados que sofreram com as Guerras galvânicas.
Forçado a se aposentar, Rhubio fora mandado de volta para casa. Embora o exército nos permitisse tratar de soldados feridos, em nenhum momento nos fora autorizado pesquisar ou tratar doenças relacionadas à psicose encouraçada, pois temiam que com os resultados, o governo barrasse o uso da armadura pelos soldados. Resolvi então cuidar de Rhubio de maneira não-oficial, visitando-o diariamente para registrar seus sintomas e propor medidas terapêuticas.
Jamais vou me esquecer daquelas visitas...
Logo na primeira vez que me aproximei da casa de Rhubio, ouvi gritos de dentro da moradia. Os vizinhos não se aproximavam, apenas olhavam por frestas das janelas. Antigamente eu achava que eles temiam o Rhubio, mas agora entendo que eles temiam o exército. Todo mundo sabia as condições que os soldados voltavam da guerra. Assim como todo mundo sabia o que acontecia com aqueles que desobedecessem aos militares.
Assim que entrei na casa de Rhubio aquele dia, precisei segurá-lo para impedi-lo de agredir sua própria família. Sua esposa encontrava-se encolhida numa parede tentando proteger seus dois filhos da brutalidade do pai. Fahtzi era o filho mais velho. De olhos fechados ele abraçava o irmão que soluçava de chorar.
Foram várias visitas. Perdi a conta de quantas. Foram várias conversas, análise de sintomas, prescrição de medicação, reavaliação, medidas de contenção quando ele se exaltava novamente e mais conversas. Por fim, Rhubio conseguiu se tornar funcional novamente. Claro que com necessidade contínua de medicação e muito menos sonhador como antes...
Foi a partir das visitas a soldados como Rhubio que eu consegui obter provas suficientes para barrar a utilização das armaduras galvânicas, como também dar início aos primeiros movimentos de paz e término da guerra perante a classe política. No fim, ficou claro para todos os galvânicos que o desejo do exército deixara de ser a proteção de seu povo há muito tempo, mas sim uma busca incansável e psicopática de poder.
Ok, a guerra havia acabado, mas as suas sequelas permaneciam em meio a sociedade. Rhubio e sua família passavam por uma situação financeira bastante complicada, pois os heróis de guerra de outrora, eram agora vistos como loucos ou doentes mentais que deveriam ficar isolados da sociedade. Eram claros os esforços de Rhubio para mostrar para a população que ele estava em condições de trabalhar, de interagir, de viver em meio a todos os demais. Mas infelizmente para ele, o doente ali não era mais ele.
Assim que me tornei Cientista-chefe do Laboratório Central de Galvan, fiz questão de contratar Rhubio como mecânico de motores de minha espaçonave. Suas habilidades sempre foram impressionantes e era a oportunidade que ele precisava para mostrá-las.
Anos mais tarde eu desenvolvi o Omnimatrix, ou Omnitrix, como novamente resolveram nomear sem o meu aval. Me encontrava em percurso rumo a galáxia Tretazyl, atravessando a Via Láctea quando minha nave foi perseguida por Vilgax.
Um dos disparos da nave de Vilgax atingiu a região do motor esquerdo, atingindo Rhubio e mais 8 funcionários do local. A consequência desse ataque você já conhece, o Omnitrix foi lançado à Terra e o garoto Tennyson o encontrou. O que poucos sabem foi depois quando retornamos a Galvan Prime.
Fui pessoalmente dar a notícia às famílias. A esposa de Rhubio, Seliah chorou bastante, mas foi compreensiva e agradeceu por todos os cuidados que tive com seu marido e sua família por todos esses anos. Fahtzi, por sua vez, era um jovem adolescente na época, gritou e me xingou o quanto pôde.
― Você matou meu pai! ― gritava Fahtzi ― Foi matando-o aos poucos e agora decidiu terminar o trabalho! Por anos o chamavam de louco, mas o maior louco de Galvan Prime é você! Você! Seu assassino! Desgraçado assassino!
***
Azmuth mantinha a cabeça baixa e os olhos fechados. Parecia meditar nos gritos do jovem Fahtzi que ressoavam em sua mente.
― Senhor Azmuth? ― perguntou Eunice.
― Não se preocupe, Eunice, eu estou bem. ― Ele abriu os olhos e levantou a cabeça.
― Fahtzi disse aquilo pois estava com raiva pela perda do pai. O senhor sabe que não é verdade...
― Será que não é?
― O senhor fez de tudo para ajudar Rhubio e sua família.
― Se não fosse por minha culpa, Rhubio e sua família nem ao menos precisariam de minha ajuda.
― O senhor não tinha como saber que a armadura iria causar a psico... Agora entendo quando diz “criar problemas sem ter a intenção.”
Azmuth acenou com a cabeça.
― Embora não foi meu desejo causar mal, não me isenta da responsabilidade dos danos que causei.
― E mesmo depois de todos esses anos, Fahtzi nem ao menos cogitou lhe perdoar?
― Perdoar? Rá! Parece que ele me odeia ainda mais...
***
Fahtzi tornou-se o pior tipo de indivíduo: aquele que escolhe esquecer a própria história e viver a mercê de uma fantasia que ele mesmo inventou sobre os fatos.
Na primeira oportunidade que teve, ingressou no exército. O mesmo exército que guiou seu avô e seu tio para a morte e, claro, à toda situação de seu pai. Para ele, foram todos heróis de guerra que foram desrespeitados pela população que juraram proteger. Os soldados de baixa patente eram tão vítimas da situação quanto os civis? Sim, eram. Mas com toda certeza achar que as ações do exército eram justificadas pois “visavam proteger a população” isso jamais.
Pois bem, ele entrou no exército, cresceu perante a hierarquia militar e resolveu embarcar em outro setor da sociedade: a política. Com um discurso de recuperação dos valores de um passado de glória irreal, Fahtzi ganhou notoriedade e no fim alcançou uma cadeira no Conselho de Galvan. Eu particularmente nunca fui muito adepto de me inserir em meio a política, mas não era muito difícil de ver que Fahtzi agradava uma parcela bastante peculiar da população. Principalmente detentores de riqueza e grandes líderes comunicacionais.
Passei décadas vendo Fahtzi apenas por imagens exibidas em telejornais e entrevistas, no entanto, há cerca de quatro meses recebi um chamado na recepção do laboratório pois o Conselheiro Fahtzi gostaria de uma reunião comigo.
Foi nessa reunião que descobri que vazaram informações sobre o Superomnitrix.
― Eu sou um homem de visão, entende Azmuth? ― dizia Fahtzi ― E a minha visão almeja um futuro para Galvan além da postura passiva e subjugada atual.
Azmuth mantinha as mãos apoiadas nas costas e de olhos fechados ouvia o discurso do conselheiro.
― E para que a minha visão se concretize, Azmuth, é preciso que você esteja aberto a colaborar com seu planeta e com seu povo.
O cientista abriu os olhos e encarou Fahtzi.
― Sabemos do novo protótipo que está construindo aqui. Assim como sabemos do potencial que essa tecnologia possui, basta ver os relatos sobre o terráqueo. Você ― Fahtzi colocou o dedo indicador no tórax do cientista e repetiu ― Você precisa conceder esse potencial à Galvan e seu povo.
Claro que eu neguei.
Mas ele não desistiu, obviamente.
Com o passar dos dias ele retornou mais e mais vezes, algumas visitas eram cheias de grecejos e elogios, outras possuíam um nível de tensão em que claramente havia ameaçadas escondidas em suas palavras.
Mais e mais notícias eram lançadas na mídia com boatos e tentativas de me difamar perante a população. Era claro o quanto Fahtzi tinha de influência sobre vários setores da sociedade.
Até que no fim chegamos à reunião que antecedeu a demissão coletiva.
― Não percebe que não há outra opção que não seja você tomar a decisão correta, cientista!? ― disse Fahtzi.
― Correta? ― disse Azmuth já sem paciência em ter que lidar esse assunto novamente.
― Claro que sim! Galvan precisa se tornar protagonista em nossa galáxia novamente! Ser grande! Ser respeitada! Ser temida se for preciso!
― Aí está, finalmente conseguiu ser sincero com suas ambições, Fahtzi ― disse Azmuth, ― eu realmente não entendo como pode enxergar o terrível período de nossa história, em que o medo era possível de ser visto em qualquer rosto, como algo a ser ambicionado novamente!
― Se for preciso de medo para alcançarmos nossos objetivos em prol de um mundo melhor então-
― Mundo melhor!? ― interrompeu Azmuth indignado ― Você viveu no período de guerra! Aquilo era um mundo melhor!?
― Nossa espécie era respeitada!
― Nossa espécie nunca foi tão desrespeitada em toda nossa história! Éramos sinônimo de desgraça, ruína, destruição, covardia e morte!
― Um preço a se pagar pelo-
― Pelo quê!? Se você vir com argumentos do tipo “os fins justificam os meios”, garoto, é porque você se esqueceu que entre os tais “meios” que foram usados estava seu pai, Rhubio, que adoeceu em prol desse tal “fim”!
― Você não ouse falar esse nome. Você não tem esse direito!
― E você tem o direito de vir ao meu laboratório e fazer esse tipo de escândalo ridículo? Não me venha com esses argumentos ignóbeis, meu caro rapaz! ― disse Azmuth.
― Muito bem então. Finalizamos por aqui. Você tem três dias para me dar uma resposta, se não...
E o resto você já sabe.
Entre as ameaças de Fahtzi, estava a de penalizar cada um dos funcionários do laboratório. Não sei o que ele poderia fazer. Interrogar? Torturar? Na dúvida, afastei todos para que sua raiva permanecesse toda concentrada em mim.
E Eunice, me desculpe. Falhei duas vezes com você...
Sim, eu falhei. Eu não tinha o direito de te enganar e te desligar forçadamente como eu fiz daquela vez, achei que conseguiria realmente te tirar do planeta. Mais tarde, quando descobri que o planeta já estava lacrado para mim, com cada passo meu sendo estritamente vigiado, não tive escolha a não ser te esconder em meu escritório e programar sua reativação para algumas semanas depois, quando imaginei que pelo menos as revistas no laboratório tivessem terminado.
***
― Realmente eu fiquei bastante confusa quando despertei ― disse Eunice.
― Sinto muito mesmo ― Azmuth encarou a jovem, ― mas achei que você fosse sair do planeta depois que despertasse. Deixei instruções claras para que saísse de Galvan junto ao seu receptáculo...
― Nem se eu quisesse eu conseguiria, senhor. O planeta estava sob estado de sítio e ninguém era capaz de entrar ou sair sem uma autorização do Conselho ou do Exército.
― O que você fez depois que despertou?
― Bem, parada obviamente eu não fiquei...
***
Assim que fui reativada eu li as instruções que o senhor me deixou. Estranhei e muito o silêncio que se encontrava o laboratório, tão famoso pela grande movimentação de estudiosos e cientistas. Nos primeiros dias me dediquei a entender o que acontecera no período que fiquei desligada. Embora a mídia não fosse uma fonte de informação muito confiável ― isso não foi difícil de perceber ― pelo menos pontuar os acontecimentos ela foi bastante capaz.
Vi informações sobre o roubo do Superomnitrix, sua reação frente as acusações e os argumentos pífios de Fahtzi que acabaram levando à sua prisão, senhor. Depois, com o passar dos dias, ficava mais e mais claro a presença cada vez mais autoritária do exército contra a população.
Vários galvanianos foram interrogados, senhor Azmuth, suas casas foram invadidas por agentes da G.G. e suas famílias ficaram sob custódia por vários dias até que eles dissessem alguma informação que eles considerassem útil. Tudo em prol de proteger Galvan de um grande mal.
Com o diminuir da liberdade, cresceu o sentimento de insatisfação geral, mas claro, ainda havia o medo. Andei pelo laboratório por dias, pensando em formas de ajudar a população, mas praticamente todos os meus planos dependiam de que a nossa voz atravessasse as barreiras impostas sobre Galvan.
Certo dia interceptei uma comunicação de uma nave encanadora solicitando entrada em Galvan. Era o Magistrado Tennyson, pra nossa sorte. Embora ele não saiba nem metade do que ocorreu em Galvan, ele não hesitou em nos ajudar.
***
― Max é um bom amigo ― disse Azmuth encarando o chão.
― Sim, senhor.
Azmuth permaneceu com os olhos abaixados por alguns segundos, então levantou a cabeça e disse:
― E qual foi o seu plano final?
― Ah, sim, então...
***
Utilizando da pesquisa da Dra Vaexha, do laboratório 508, sobre novas ferramentas de comunicação, utilizei de um de seus protótipos para me comunicar com a população através de um canal de sub-ondas, indetectável aos aparelhos comuns. Foi um trabalho longo e trabalhoso, no qual invadi celulares e computadores, trazendo uma mensagem de esperança e pedindo o apoio da população para assinar um pedido de julgamento contra Fahtzi.
Com esse documento assinado por um grande número de cidadãos de Galvan, eu esperava que o Tribunal Penal Universal pudesse trazer à tona os crimes de Fahzti. Aos poucos, mais e mais pessoas aderiram e me auxiliaram na tarefa árdua de levar a mensagem de maneira escondida do Conselho e solicitar o apoio da população.
***
― E quantas assinaturas você possui no momento?
― Quatro bilhões, trezentos e cinquenta e sete milhões, novecentos e quarenta e quatro mil, e oitenta e uma assinaturas. Correspondente a cinquenta e sete porcento da população de Galvan.
― Isso já é mais do que a maioria da população! Como conseguiu?
― O desejo de mudança e de liberdade foi a força que nos moveu ― Eunice olhou para as estrelas na janela à sua esquerda. ― O que me admira são os outros quarenta e três porcento da população...
― Não os julgue, Eunice, há sim um grupo considerável de pessoas que acham que as escolhas de Fahtzi são o melhor caminho para o que quer que seja; mas entenda que há também nessa porcentagem muitas pessoas com medo e receosas do que Fahtzi e o exército possam fazer com eles e sua família.
― Sim, eu entendo, senhor.
Azmuth apoiou uma mão sobre o queixo e começou a dar leves torcidas em um de seus bigodes, pensativo.
― Penso agora que talvez esse seu plano possa falhar.
― Mesmo!? Por quê?
― Fahtzi tem consigo toda a estrutura governamental a seu favor, poderá manipular as informações à vontade antes de ser submetido a um julgamento, afinal de contas um informe de julgamento é sempre enviado ao acusado antes da sessão.
― O que acha que devemos fazer então?
― Não iremos desperdiçar os seus esforços, Eunice, não se preocupe. Eu só acho que devemos mudar o alvo do Tribunal Penal Universal.
― Como assim, senhor?
― Fará sentido em breve. Agora precisamos ir para Calculnète, o planeta das rochas.
― Mas por quê? Senhor Azmuth, me desculpe, mas imaginei que já tínhamos ultrapassado a barreira comunicacional em que o senhor simplesmente age sem explicar nada.
― Eu explicarei, não se preocupe. Apenas peço que mude nossa rota para Calculnète, pois precisaremos fazer algumas compras se pretendemos recuperar o superomnitrix e levar nosso encarecido Primeiro-Gerente à julgamento. Não temos tempo a perder!
Um sorriso se desenhou nos lábios do cientista.
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