OMNITRANIL (Ben 10 - Força Alienígena)
34 Três dias
Dessa vez era Kevin que se encontrava numa cama de hospital. Mas não se preocupem, leitores, ele está bem. Nada de coma ou algo mais complicado, apenas está se recuperando das costelas quebradas e dos ferimentos conquistados no castelo dos Cavaleiros Eternos. Na verdade, ele só está de repouso depois de muita insistência de Gwen e um acordo entre ambos de que ele poderia continuar trabalhando em sua investigação sobre o plano de Albedo se prometesse ficar internado até se recuperar.
Kevin se encontrava sentado, com o travesseiro em suas costas. Ao redor dele, por sobre as cobertas, calhamaços de papéis se empilhavam e eram jogados de um lado para o outro na cama à medida que um documento, ou registro, ou fotografia, ou qualquer outro detalhe que chamasse sua atenção e auxiliasse em uma nova linha de raciocínio.
A televisão também era outra coisa que não desligava um só momento. Qualquer notícia poderia ser interpretada como uma pista sobre os Guardiões Galvânicos ou sobre Albedo aos ouvidos mais atentos. As notícias sobre o atentado no Central Park pareciam intermináveis nos primeiros dias, com jornalistas trazendo mais e mais matérias questionando os envolvidos no caso. Por alguma razão quase desconhecida, a presença do adolescente que enfrentou os tais alienígenas foi pouco investigada e já caíra no esquecimento de muitos telespectadores. Vários chefes de emissoras e jornais receberam ligações de autoridades naquele dia.
O som da tv foi superado pela fala de Gwen que entrou no quarto. Uma faixa de gaze circundava seu braço direito. Em sua mão esquerda, um envelope marrom grosso e um notebook.:
― Eu realmente não sei mais o que fazer para tentar ajudá-lo! Ele sabe que não deve se isolar numa situação dessas!
― Está falando de quem? ― Kevin levantou os olhos dos papeis e fixou na garota.
― Ben, é claro!
― Ah, saquei ― voltando o olhar para os documentos. ― Dê tempo ao Tennyson, o moleque passou por uma situação péssima nos últimos dias. Faz todo o sentido ele se esconder de tudo e de todos assim.
― Eu sei, Kevin, mas já faz três dias que ele não sai do quarto. Não tem como eu não me preocupar com ele!
― Mas se você continuar forçando ele assim, ele pode acabar se escondendo dentro da própria cabeça de novo.
― Sabe que não é assim que funciona...
― Sei lá, as coisas não estão funcionando em sua normalidade já faz um tempo.
― Talvez você tenha razão, estou forçando demais o Ben...
― Tá mesmo ― Kevin reclinou para frente para pegar uma foto próxima aos seus pés.
Gwen olhou de canto para Kevin com os olhos semicerrados. Manteve-se em silêncio por alguns segundos então disse:
― E você, como está indo?
― Olha... ― Kevin observou o aglomerado de papeis ao seu redor ― Não consegui nada.
― Sério?
― Sério. Sinto que está faltando algum detalhe, uma informação que poderia me fazer sacar todo o plano do desgraçado. É como se estivesse na minha cara, mas até agora não consegui ver...
― Talvez isso ajude ― Gwen tirou o envelope debaixo do braço e entregou para Kevin ― É o relatório da perícia do ataque na estação de energia. Me pediram para te entregar.
― Finalmente! ― Kevin pegou o envelope, tirou o grosso documento de dentro e começou a folhear ― Estou esperando há dias esse relatório!
― A luta foi dentro de um armazém de equipamentos e suplementos eletrônicos, o que você esperava? Catalogar tudo, pra só então poder identificar o que pode ou não ter sido roubado lá de dentro demora mesmo.
― Eu sei, eu sei... ― Kevin olhou para o notebook nas mãos de Gwen. ― E pra que isso?
― Isso? Vou tentar ligar para a nave do vovô de novo. Desde o dia do Central Park eu não consegui falar mais com ele. Sanmwell, do setor de comunicação do quartel, configurou para mim uma forma de rotear a comunicação do meu computador e o quartel para eu tentar fazer contato sempre que eu puder.
― Saquei. Boa sorte.
Gwen sentou-se na cadeira de acompanhante e apoiou o notebook sobre seu colo. Levantou a tela e começou a dar início às tentativas de conexão com a nave de seu avô. Inúmeros números e linhas de áudio se desenhavam na tela, mas apenas chiado e interferência eram recebidos pelo computador.
― Droga! ― disse Gwen.
― Mas já se irritou? ― perguntou Kevin.
― Continue aí com seus papéis, ô Sherlock!
Kevin acenou um “beleza” com a mão e continuou folheando o relatório. Gwen, por sua vez, insistia na busca de um sinal de conexão.
Por mais que ambos tenham passado por muita coisa nos últimos dias, sentiam-se como se não tivessem saído do lugar.
◇───────◇───────◇
Eunice entrou na nave encanadora, com a rampa de acesso se levantando atrás de si e fazendo desaparecer a paisagem do planeta Calcùnete com o fechar das portas. Ela trazia sua mochila em seu ombro direito, com claros sinais de que a bolsa se encontrava absurdamente pesada, pois seu corpo inclinava para a direita enquanto caminhava rumo à ponte de comando.
A garota passou em frente ao quarto de Max Tennyson e parou por alguns segundos para olhar através da janela da porta. O magistrado continuava sedado, com os braços mecânicos movendo-se rapidamente, mas organizadamente, ao redor da cabeça do homem. Eunice abaixou levemente a cabeça, pensando por alguns instantes em tudo que acontecera há três dias, depois seguiu caminhando pelo corredor da espaçonave.
As portas da ponte de comando se abriram e Eunice viu seu criador, Azmuth, sobre um painel horizontal de botões junto à maior janela da nave. Ele observava a paisagem se mover à medida que a nave levantava voo.
― Estou de volta, senhor Azmuth, e espero que não se incomode, mas tive que improvisar em alguns momentos. Não consegui encontrar tudo que me pediu.
― Improvisou quanto?
Azmuth saltou de onde estava e veio caminhando rumo à Eunice. A garota apoiou a mochila no chão e a abriu, exibindo várias rochas de diferentes tamanhos e texturas.
― Não se preocupe, as mais importantes eu consegui encontrar.
― Excelente! Já deixei as ferramentas separadas nas bancadas ali do lado para começarmos.
De repente, a voz automatizada do computador anunciou:
― Chamada recebida da Terra, Quartel general dos Encanadores. Aceitar chamada?
Eunice e Azmuth entreolharam-se preocupados, ele então respondeu:
― Claro, aceitamos.
― Estabelecendo conexão.
De repente, na janela principal da espaçonave, projetou-se a imagem de uma garota ruiva de rabo de cavalo e olhos verdes.
― Finalmente! ― disse Gwen ― Vovô, o senhor está me ouvindo?
― O magistrado não se encontra no momento, Gwen ― Eunice caminhou em direção ao telão. ― Ele... ― A jovem olhou para Azmuth sem saber direito o que falar.
― O que houve como o vovô? ― O rosto projetado de Gwen ora olhava para a tela, ora para fora da tela, como se encarasse uma terceira pessoa envolvida na conversa, mas não visível pela câmera. ― Ele está bem? Onde ele está!?
― Ele está sendo operado nesse exato instante ― disse Azmuth.
― O quê!? Operado?
Kevin invadiu o enquadramento da câmera, vestido de um avental de hospital, e disse:
― O que houve?
― Eu é que pergunto ao vocês o que houve? ― disse Azmuth. ― E mais, como puderam deixar Max viajar nesse estado?
― Do que o senhor está falando? Ele disse para nós que estava bem. ― Gwen olhou para Kevin com sobrancelhas arqueadas e continuou ― Ele não deixou a gente acompanhá-lo na consulta com o médico nem na viagem, então tivemos que confiar no que ele passou pra gente. Como ele está!?
Eunice agachou-se junto a Azmuth e disse baixinho:
― Senhor Azmuth, o senhor meio que já deu a má notícia. Me permite explicar para eles? Devo isso ao magistrado.
― Por favor, fique à vontade.
Eunice se levantou e encarou o olhar dos dois jovens do outro lado do telão. Então começou:
― O Magistrado Tennyson chegou em Galvan Prime há cerca de uma semana terrestre. Realmente se encontrava bem de saúde, ou pelo menos parecia estar. Durante a missão em que eu e o magistrado resgatávamos Azmuth da prisão, o Magistrado teve uma forte dor de cabeça e desmaiou.
― Meu Deus... ― disse Gwen com uma mão cobrindo a boca.
Kevin apoiou a mão na testa e manteve o olhar fixo na imagem. Eunice continuou.
― O magistrado recuperou a consciência depois de alguns minutos e conseguiu voltar à nave. Foi quando ele conversou com você, Gwen ― Eunice encarou a jovem ruiva.
― Ele não me disse nada...
― Para nós também ― Eunice encarou o chão. Então continuou ― Logo após a sua ligação, o magistrado se envolveu numa conversa um pouco mais... ― Eunice desviou o olhar para Azmuth.
― Discutimos. Eu e Max discutimos ― disse Azmuth.
― Mas por quê!? ― perguntou Kevin.
― Me desculpe, mas não é possível explicar agora ― disse Eunice ― a questão é que ele passou mal novamente e antes que ele piorasse ainda mais, eu o sedei com uma dose de fentanil.
Eunice parou de falar por alguns instantes, em seguida continuou:
― A pressão dele estava em 210x120 mmHg. Eu nem sabia que poderia chegar a tanto...
― Se não fosse por ela ter sedado Max, não sei se ele teria sobrevivido ― disse Azmuth.
― E o que ele tem!? ― perguntou Gwen, com olhos marejados.
― Hemorragia intracraniana ― disse Eunice finalmente. ― É quando vasos se rompem dentro do crânio.
Gwen abraçou Kevin e escondeu o rosto no peito do jovem. Ele acariciava o topo da cabeça da garota.
Azmuth continuou:
― Quando refizemos os exames, vimos vários focos de hemorragia subdurais que estavam ressangrando várias vezes, por isso as dores de cabeça. Não há espaço para o sangue sair, já que o crânio é fechado, então o cérebro é comprimido. Havia um grande foco de sangramento junto ao lobo frontal dele.
― Talvez por isso que ele ficou com a personalidade tão alterada antes da última crise, não é senhor? ― disse Eunice.
― Será? ― disse Azmuth com uma voz apática e olhou de canto para Eunice, havia culpa nos olhos do cientista.
― E onde ele está agora? ― perguntou Kevin.
― Como eu disse, ele está sendo operado nesse exato instante ― disse Azmuth. ― Max já veio com o seu quarto preparado para fazer a cirurgia. Ele sabia que estava doente.
― É possível que ele já esteja quase terminando, se não estou enganada ― disse Eunice.
― Podemos vê-lo? ― disse Gwen.
― Claro! ― disse Eunice carinhosamente. ― Eu só irei verificar se está tudo bem antes de repassar a imagem. Se me dão licença ― E se dirigiu rumo à saída.
Por alguns minutos, um silêncio predominou na chamada. Então Azmuth disse:
― Como está o garoto Tennyson?
Gwen e Kevin se entreolharam. Kevin disse:
― Gwen, você está mais por dentro da situação do Tennyson. Eu só fiquei aqui preso nesse quarto. Consegue explicar você?
A garota passou as mãos nas bochechas para secar as lágrimas. Fechou os olhos, inspirou profundamente e começou a falar.
― Sendo muito sincera, ele não está nada bem...
◇───────◇───────◇
Gwen se encontrava sentada no assento interno de uma ambulância dos Encanadores. O veículo era um entre os vários estacionados no Central Park, que realizava o atendimento dos feridos na confusão. Uma médica cuidadosamente suturava o corte no braço de Gwen, no entanto, todo o cuidado em realizar o procedimento já estava irritando a garota que só queria sair desesperadamente dali atrás de seu primo.
― Já acabou, doutora?
― Estou quase, só falta o último ponto e depois colocar o curativo.
A perna esquerda da jovem balançava, fazendo o joelho subir pra cima e para baixo. A médica desviou o olhar da sutura por alguns instantes e fixou o olhar na perna da garota. Gwen que estava com os olhos focados no infinito demorou um pouco para perceber o que estava fazendo. Ao notar, apoiou uma mão na própria perna e disse:
― Me desculpe, eu estava balançando e estava te atrapalhando, não foi. Me desculpe.
― Não se preocupe, isso acontece com todo mundo que passa por uma situação difícil ― A médica voltou a suturar. ― Se precisar, trouxemos psicólogos na nossa equipe e eles podem conversar contigo se quiser.
― Muito obrigada.
Mas Gwen não queria conversar com ninguém. O rosto em pânico de Ben repetia em sua memória em loop infinito. Temia encontrá-lo caído na rua, ou escondido em algum beco, sofrendo outra crise de ansiedade.
― Pronto, acabei.
― Obrigada, doutora ― Gwen levantou-se do assento e saltou para fora da ambulância, rumo à direção que Ben fugira mais cedo.
Gwen olhava para todas as direções. Como conseguiria encontrar seu primo em meio a uma cidade, não saberia dizer. Tentou ligar em seu celular, mas as chamadas tocavam e tocavam, sem nunca serem atendidas.
Vamos, Ben, cadê você!? ― pensou ela. ― Atende!
O movimento da rua comercial já era frenético em dias normais. Depois de uma possível ameaça alienígena então? Estava simplesmente insuportável. Pessoas caminhava e corriam em todas as direções. Donos de lojas fechavam as portas, obrigando ainda mais pessoas a se aglomerarem nas calçadas. Gwen não conseguia dar dois passos sem trombar de ombros com alguém. De repente, sentiu seu celular vibrar em sua mão.
A garota encheu-se de esperança. Olhou a tela e viu escrito “Tia Sandra”. Sem pestanejar, atendeu a ligação e sofria para conseguir ouvir algo com todo o ruído da multidão. Eis que então ouviu a pergunta que precisava:
― Gwen, você sabe o que aconteceu com o Ben? Ele entrou correndo em casa, bateu a porta do quarto e não quer deixar ninguém entrar!
― Estou indo prái, tia! ― E desligou.
Assim que chegou na casa de sua tia, Gwen nem ao menos tocou a campainha. Abriu a porta e anunciou:
― Tia Sandra, sou eu, a Gwen, desculpe ir entrando desse jeito!
Sandra Tennyson encontrou a garota já na entrada para o corredor dos quartos. Ela tinha em mãos uma bandeja com leite quente e alguns biscoitos. Seu rosto se encontrava revestido de preocupação:
― Pensei que se trouxesse algo para ele comer, ele abriria a porta...
Gwen suspirou e comprimiu seus lábios. Em seguida disse:
― Eu converso com a senhora daqui a pouco. Deixe-me tentar falar com ele.
― Claro, claro ― E se afastou rumo a cozinha.
Gwen se aproximou da porta do quarto de seu primo. Deu duas batidas com os nós dos dedos e disse:
― Ben? É a Gwen...
Mas não sabia bem o que falar. Sim, era a Gwen, e daí? O que diria em seguida? Seu primo não era burro. Ele tinha plena consciência do que fez no parque. Não haviam palavras que pudessem amenizar ou desfazer o que aconteceu. Ele errou. Errou tentando fazer o que era o certo, mas foi imprudente. Ele estava acostumado a se sacrificar pelos outros, o problema é que dessa vez não foi ele o sacrifício. E ele sabia disso.
Gwen apoiou a testa na porta. Com muita dificuldade conseguiu ouvir um som abafado, como se estivesse debaixo de um tecido.
Ele está chorando...
Os olhos da garota encheram-se de água. Não era pra ser assim... Não é justo com ele.
Gwen virou-se e apoiou as costas na porta. Aos poucos foi deslizando até sentar-se no chão.
― Ben...
Novamente as palavras não saíam. Inspirou profundamente e deixou o ar sair dos pulmões sem resistência.
― Não sei o que posso falar para tentar te confortar. Não sei nem se você quer ser confortado nesse momento...
A garota encarou as próprias mãos com um olhar triste.
― Mas saiba de uma coisa: Estou aqui.
Gwen apoiou a cabeça na porta e encarou o teto escuro do corredor.
Ben soluçava de chorar.
◇───────◇───────◇
Gwen contou para Azmuth tudo que se desenrolou desde a biblioteca de Hex até o ataque da Guarnição Galvânica no Central Park de Bellwood. Tentou pular algumas informações para que a história não ficasse muito longa, mas Ahzmut fazia questão de que ela voltasse e explicasse cada minucioso detalhe dos acontecidos.
― Depois que ele se prendeu no quarto, eu continuei visitando-o todos os dias ― disse Gwen. ― Eu ficava horas sentada junto à porta do quarto dele, esperando o tempo dele. Segundo a minha tia Sandra, ele abre a porta às vezes, mas sempre quando não tem ninguém por perto e apenas para pegar a comida que minha tia deixa junto à porta.
― Entendo... ― disse Azmuth.
― Quando não estou lá, procurou mandar mensagens avisando que estou à disposição caso ele queira conversar ― Gwen abaixou os olhos, ― mas ele nunca respondeu.
Kevin apoiou a mão no ombro da garota e moveu os dedos, como uma leve massagem, numa demonstração de eu admiro sua dedicação e esforço.
― Eu não sei mais o que fazer... ― disse ela.
― Você já está fazendo muito por ele, minha jovem.
― Tem momentos que a minha vontade é derrubar aquela porta, agarrar ele pelo braço e levar num médico para ele receber a atenção que precisa, sabe? Mas aí eu me lembro do que vi dentro da mente dele e simplesmente não sei que médico seria capaz de ajudá-lo...
Azmuth passou a mão esquerda em um de seus prolongamentos de bigode e fechou os olhos por alguns instantes. Por fim, disse:
― Estamos quase chegando em sua galáxia. Farei questão de encontrá-lo assim que pisar na Terra e então-
― E então você irá remover o Omnitrix do braço do Ben ― disse Vô Max que acabou de entrar na ponte de comando.
― Max!?
― Vovô!
Max Tennyson se encontrava trajado com seu uniforme espacial de Encanador. Eunice vinha logo atrás com o olhar fixo em um tablet que tinha em mãos.
― Oi, Gwen! Olá, Kevin! ― Vô Max sorria. ― Saudades?
― O senhor não tem ideia do quanto! ― disse a garota.
― Mas o senhor não estava sendo operado e tals? ― perguntou Kevin.
― Sim, ele estava ― Eunice sorria ― Mas por sorte, no instante que eu entrei no quarto o procedimento tinha acabado de finalizar. Enquanto eu revisava sua condição médica e retirava os acessos, estávamos ouvindo seu relato, Gwen.
― Não se preocupe, Gwen ― disse Max, ― agora mesmo liguei para meu filho e conversei com ele e minha nora. Infelizmente não pude dar muitos detalhes, mas tentei confortá-los o máximo que pude e já avisei que estou chegando para ver meu neto.
― Mas que ótimo, vovô!
Max parou de frente à Azmuth e o encarou de cima. O cientista, por sua vez, retribuiu elevando a cabeça e fixando nos olhos do homem. Max então disse:
― Peço perdão pela forma como agi.
― Não precisa se desculpar ― respondeu Azmuth.
― Preciso sim. Não sei quanto daquilo foi devido à hemorragia. No entanto... ― Max ajoelhou-se e falou num tom de voz mais baixo ― minha opinião sobre você e sua ética científica não mudaram. Espero que compreenda.
― Sim, compreendo.
Max se levantou, mantendo o olhar fixo.
― Então vamos garantir que tanto o Omnitrix quanto o Superomnitrix não fiquem nas mãos de ninguém.
― Vou buscar garantir que fiquem devidamente seguros.
― Perfeito.
Azmuth virou-se para a tela e disse para os jovens:
― Falando em Superomnitrix, onde está Albedo?
Gwen olhou para Kevin e disse:
― Esse é o seu departamento, fique à vontade.
Kevin deu um sorriso torto e respondeu:
― Sendo muito sincero, não tenho a menor ideia! ― E levantou os ombros.
― Como assim!? ― disse Azmuth.
― Ele está escondido não sei onde! ― disse Kevin, pegando o computador da mão de Gwen e enquadrou na câmera sua cama cheia de documentos ― Desde o começo dessa situação que estou atrás dele e tentando entender seu plano, mas as peças simplesmente não se encaixam!
Eunice virou-se para Azmuth e disse:
― O que não entendo, senhor, é por que Albedo ainda está na Terra?
A pergunta de Eunice foi como uma fagulha que percorre um caminho de pólvora dentro da cabeça de Kevin. Uma pergunta tão simples, mas que fazia todo o sentido!
Como eu não pensei nisso antes? ― pensou Kevin
― Gwen, segura aqui pra mim um pouquinho ― Ele entregou o computador para a garota e seguiu em direção à sua cama.
Todo aquele monte de documentos, fotos, mapas, anotações, informações obtidas de informantes, começaram pouco a pouco a se encaixarem.
A primeira vez que encontraram Albedo, desde que começou a confusão, foi na estação de energia de Bellwood. Não foi possível descobrir o que ele estava fazendo ali, pois a chegada do trio deve ter atrapalhado seus planos. Foi também a primeira vez que ele se transformou e num determinado momento, pareceu que tinha algo de errado com ele. Será que o Superomnitrix estava com algum defeito ou a supertransformação era poderosa demais para ele aguentar de primeira?
― Azmuth, o superomnitrix estava terminado quando foi roubado? ― perguntou Kevin.
― Não.
― O que estava faltando?
― A base de seu funcionamento, responsável pela supertransformação estava terminada, no entanto, alguns componentes internos como o estabilizador cognitivo, a fonte de energia retroalimentável e o seletor naturo-temporal provavelmente não estavam presentes. Estavam na minha bancada para os últimos ajustes.
A cabeça de Kevin fervia de informações.
Talvez a falta do estabilizador cognitivo foi o responsável pela esquisitice dele na estação! ― pensou Kevin ― Não sei o que esse seletor naturo-temporal faz e o outro componente que faltava era-
Kevin interrompeu seu próprio pensamento.
― Não... ― disse ele.
― O que foi, Kevin? ― perguntou Gwen.
― Eu entendi o plano do desgraçado!
― Então diga logo!
― Em vários momentos que encontramos Albedo sempre teve algo que me incomodou. Se ele tinha algo tão poderoso como o Superomnitrix em mãos, por que ele nunca começava a nos atacar já supertransformado em algo? Era como se ele estivesse evitando se transformar!
― Evitando?
― Poupando seria melhor dizer!
Max, Eunice e Azmuth mantinham-se atento a imagem de Kevin que caminhava de um lado para o outro no quarto, elaborando as ideias.
― Ele não se supertransformava sempre ― continuou Kevin. ― Ele sempre precisou ser tirado do sério. E não só isso, em vários momentos ele poderia simplesmente chegar ou sair voando, arrebentar paredes e pegar o que queria, mas não! Ele chegou a ponto de se disfarçar de escudeiro para alcançar algo num castelo que ele conseguiria facilmente invadir!
― Você está dizendo que-
― Energia! ― Kevin segurou nos ombros de Gwen ― Ele não tem a fonte de energia retroalimentável, então mais cedo ou mais tarde o Superomnitrix vai desligar se ele usar demais!
― Faz sentido...
― É aí que a coisa se complica ― Kevin soltou os ombros da garota e voltou a caminhar pelo quarto ― Ele deve ter tentado obter energia na estação e percebeu que não era o suficiente para alimentar algo como um Omnitrix.
― Mas ele invadiu o setor de energia dos Encanadores e nem se aproximou dos reatores.
― Pois também não era o suficiente! Embora esses reatores sejam feitos de tecnologia alienígena, capazes de produzir muito mais energia, ainda assim não é suficiente para um Omnitrix!
― O que ele quer então? ― perguntou Gwen.
― Ele quer criar sua própria fonte de energia. Por isso os equipamentos do Setor dos Encanadores, por isso a Tadenita, por isso o Regulador de Entropia!
Eunice e Azmuth compreenderam o raciocínio de Kevin e se entreolharam. Eunice disse:
― Isso quer dizer que-
― Que ele pretende partir o minério mais denso do universo através de uma reação de fissão e direcionar a energia para abastecer seu Superomnitrix ― disse Kevin.
― Fissão? ― disse Max ― Está dizendo que Albedo está-
― Uma bomba atômica! ― concluiu Kevin ― Albedo vai explodir uma bomba atômica em Bellwood!
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