OCASO

21 Queda 6.1


Os primeiros flocos de neve se prendiam ao chão. Era o primeiro dia realmente frio. Riley observou aquele cenário tão típico de fim de ano e se permitiu transportar para suas lembranças que ela tanto se reprimia. Lembranças da sua infância. Sua mãe correndo pela neve com seu pai, sua própria risada e a sensação única de estar apenas feliz. Alana a pegou pela mão e puxou para si, seu sorriso era tão cativante. Queria que Riley conhecesse alguém, era Tyler. Ele era pequeno e com bochechas grandes e coradas, tão tímido que mal sorriu. Ela estendeu a mão para toca-lo...

Virou-se bruscamente para pegar a flecha que zarpou na sua direção. Fechou sua mão firme e com o braço ainda no ar, sorriu triunfante.

—Boa pegada. -reconheceu seu pai enquanto arrumava sua besta. – Seria uma pena se o material da flecha fosse prata.

Riley gritou e sacudiu a mão freneticamente, o chiado da pele queimando a fazendo se sobressaltar. Olhou o que agora seria uma nova cicatriz. Nunca se acostumaria com o fato de nunca poder sequer passar muito perto de um material tão sedutor quanto a prata.

—Eu não sabia...

—Primeiro, antes de tudo, se esquive. -interrompeu levantando um dedo. – Melhor do que fazer uma boa pose de forte, é não ser queimada por prata. Se não pode reconhecer o material que compõe a arma então desvie.

Riley assentiu pegando algumas ataduras velhas que tinha guardado no bolso. Todos os dias, incansavelmente, treinava. Seu físico e psicológico. Se concentrava para fazer a melhor transformação no menor tempo gasto. Trabalhava com a instabilidade emocional, com a sua capacidade de canalizar seu medo como combustível de força.

Aquele era seu último dia de isolamento. Voltaria para a cidade, para as antigas pessoas da sua vida que agora pareciam ser lembranças embaraçadas de estranhos que não via há dois meses. Se sentia tão diferente, algo absurdo que qualquer um notaria. Tinha menos pesadelos graças a Christopher, porque esse já vagava mais nas suas memorias do que si própria. Sabia muito mais sobre o passado e história dos licantropes, porque graças a Jones, vez ou outra na semana, conversavam muito sobre isso. E treinava para a luta com seu pai, que lhe mostrava um lado do qual ela nunca pode imaginar que ele fosse ter.

Fechou os olhos respirando fundo e sorriu:

—Christopher está chegando. -disse por fim voltando a abrir os olhos. Estava orgulhosa de ter desenvolvido um olfato tão sensível. – Espero que sejam boas notícias.

Bill deu de ombros não se importando em apontar arma pela porta da qual Christopher entraria:

—Qualquer notícia, ainda que boa, é algo que não deve nos fazer baixar a guarda.

A porta se abriu com um rangido leve e Christopher entrou devagar já com as mãos levantadas.

—Tudo bem, eu achei que tínhamos passado dessa fase. -brincou.

Bill abaixou a arma e se sentou no sofá, o corpo caindo cansado. Pela sua aparência, ele nunca encontraria um momento de paz, nem mesmo em seus pensamentos. Riley entendia sua preocupação, só não conseguia ficar sempre alerta.

—Jones pediu que você voltasse para o acampamento, é provável que o conselho chegue em alguns dias. Não queremos correr o risco deles pensarem que você fugiu.

—Eu já estou com as coisas arrumadas. -apontou para a sua mala no canto. – Mas vou espera-los em casa, com meu pai.

Christopher levantou as sobrancelhas, era um sinal de deboche, uma mania de quando ele discordava de algo, mas não diria nada.

—Ah sim! Tinha esquecido disso... -ele tocou a própria cabeça e sorriu presunçoso. – Faz quanto tempo que você não vê o Matt mesmo?

—Matt? -seu peito doeu, como um soco certo entre os seios. – Você...

—Eu acho que ele está vindo agora...

Mas Christopher não havia conseguido concluir sua frase. Riley já tinha aberto a porta e disparado a correr. Na primeira camada fina de neve deixou suas pegadas fundas e incertas. Correu com o vento chicoteando seu rosto e lhe fazendo o lábio secar. Correu pela mesma trilha que não via há meses e quando já parecia estar chegando perto demais da cidade viu Matt, coberto por casacos escuros a caminhar devagar na sua direção. Daquele jeito poderia ser uma miragem, por isso Riley parou ofegante e se forçou a enxergar.

Era Matt. Definitivamente Matt estava ali.

Ele parou, recuou um pouco. Não acreditava que aquela fosse Riley? O tempo era tão traiçoeiro a ponto de faze-los agir como estranhos?

(...)

Caleb falava aparentemente com as paredes. Não que Tyler fizesse aquilo de proposito, sua cabeça só não conseguia focar naquele sermão. Sua mente voava longe, pensamentos desconexos sobre sua volta para a cidade e as possibilidades que teria ali. Havia alguns livros que precisava arrumar no seu armário e algumas roupas para lavar. Tinha Holly com suas mensagens persistentes há mais de uma hora fazendo seu celular vibrar a cada dez minutos. Todos haviam tirado o dia para lhe dizer o que devia ou não fazer, até mesmo sua mãe já tinha dado sua palestra no dia anterior. Seu olhar decepcionado era só o que Tyler conseguia prestar atenção, fora isso também se isolou nos próprios pensamentos.

—Você está me ouvindo? -indagou Caleb passando a mão na frente do rosto de Tyler. Ele estava vermelho e bufante. – Quanto tempo você achou que esconderia de todos isso?

—Eu não estava escondendo de ninguém. -deu de ombro com desdém, já havia explicado isso várias vezes. – Tranquei a Universidade, porque não me identifico mais com o curso que estava fazendo. Não precisa ficar tão revoltado.

Caleb levou as mãos à cabeça, algo como: “Isso é minha culpa?”. Olhou para o corredor e depois fechou a porta. Pegou um dos livros de Tyler e jogou nele como uma almofada arremessada contra alguém.

—O que você acha que está fazendo? Vai virar algum pesquisador de merda sobre seres sobrenaturais, é isso? -questionou arregalando os olhos- Foi pra isso que você trancou o curso? Acha que pode encontrar algum com o cronograma escolar que inclui “caçar vampiros e lobos”—fez aspas no ar com ironia. – Cresce um pouco, Tyler.

—Não é por isso. -ou talvez fosse, mas Tyler não estava preparado para assumir. Pegou o livro que Caleb havia jogado nele e leu seu título: Conto das Bestas. Devolveu com cuidado a uma pilha do outro lado da cama. – Eu pesquiso sobre isso, porque é algo real, existe e mata pessoas... Quase me matou. -sussurrou as últimas palavras com medo de que sua mãe ouvisse. – São vampiros, licantropes ou qualquer coisa sobrenatural, no meio disso tudo há humanos, nós... Não tente se cegar depois de tudo.

—Você precisa entender que as coisas não funcionam assim, saber demais é ainda mais perigoso do que a situação em que você estava. -abaixou o tom de voz- Isso não tem nada a ver comigo ou com você, não pense que seguir a Riley vai te trazer aquela garotinha que chorou dias pela morte da sua mãe e brincou de catar conchinhas na praia. Você é apenas humano e ela ainda está viva nessa porque pode se transformar em lobo.

Tyler deitou na cama de modo a encarar o teto do seu quarto. Estava exausto.

—No começo eu acreditei que era pela Riley, foi um bom motivo para começar a pesquisar. A mínima esperança de que eu poderia alcança-la fez com que eu começasse a ler os primeiros livros sobre isso. Mas depois de alguns dias eu fazia pelo Scott e Thomas, era um bom motivo, saber mais um pouco pouparia eles da morte, me tiraria um pouco da culpa de ver que eles ainda estavam internados. Então Riley sumiu, literalmente, ninguém sabia dizer nada sobre ela e meus amigos estavam bem, eventualmente esquecendo de tudo o que aconteceu na festa. Não havia motivos, então por que eu continuei com isso?

—Eu não sei. -Caleb estava confuso, incerto se devia mesmo ter respondido.

Tyler voltou a ficar sentado, encarando profundamente o irmão:

—Nem eu. -e riu voltando a se deitar — Por isso eu tranquei o meu curso, porque antigamente tinha certeza dos meus objetivos e agora... Agora é só isso, coisas sobrenaturais, que tornam minha vida um pouco menos monótona do que ser apenas o filho perfeito, namorado perto, irmão perfeito, enquanto você podia se divertir sendo o errado da família, o que podia ser o que quisesse mesmo que isso fosse ruim. Eu devia ser tudo aquilo que você não era. Isso foi tudo o que fui, então só me deixe ser nada por um tempo enquanto procuro um jeito de ser eu mesmo e não uma versão atualizada do Caleb.

—É uma queda sem fim. -concluiu Caleb parecendo mais calmo. Estava assim porque no fundo sabia o quanto ele próprio havia falhado. – Não tem volta para a superfície.

—Não tem problema, o fundo parece mais emocionante.

(...)

Aquela era Riley. Só precisava continuar andando e chegaria perto o suficiente para ter a certeza de que ela estava ali e bem. Mas por que não andava? Suas pernas cravadas naquele mesmo lugar e ela do outro lado ofegando, uma pequena fumaça saindo e voltando de sua boca. Uma fotografia em movimento da qual ele se recusava a acreditar.

Por que nenhum dos dois continuava? Até ali, naquele momento, não havia palavras ensaiadas para se dizer e a insegurança de se chegar ao outro sem poder dizer nada era o que os matinha ali. Matt deu o primeiro passo e parou, o que foi o suficiente para que Riley andasse depressa, cada vez mais rápido em sua direção, até que a partir de um ponto ela corresse. A distância de dois meses, semanas, dias, metros, centímetros, todas elas sumiram. E Riley pulou em um abraço apertado, agarrando Matt para que as blusas estufadas não pudessem os repelir.

A saudade. Um sentimento que pode vir antes da perda, durante e como naquele caso, quando se tem a pessoa ali em seus braços. Matt estava rindo. Sua risada era alta e se misturava com a da Riley. Era o único barulho naquela manhã de neve. A neve que lhe cobriam os cabelos e roupas, que faziam seus pés afundarem no chão fofo e que de cenário parecia o melhor para o reencontro.

Matt queria dizer alguma coisa. Qualquer coisa, mesmo que o silencio fosse algo que também já dizia muito por si só. Tirou Riley do chão e rodopiou uma vez. Quando a colocou de volta, ela o afastou. Queria olha-lo.

Tocou seu rosto com as mãos cobertas por ataduras e sorriu, os olhos marejados. Matt pensou que talvez devesse perguntar o que de tão ruim havia acontecido para aqueles machucados acontecerem, mas não queria ouvir sobre isso. Só queria agradecer, porque... Porque Riley estava ali e ele mal podia suportar a vontade de lhe pedir para nunca mais se afastar. Porque era assim toda vez que se sentia longe dela, prestes a fazer algo, mas vazio demais para continuar.

—Matt, eu senti que...

Apenas a boca de Riley se mexia. Ela parecia dizer algo realmente importante, mas Matt não conseguia ouvi-la. Piscou mais devagar. Tudo parecia estar ficando mais escuro e lento. Estava prestes a desmaiar, mas não conseguia se concentrar e ficar acordado. Sentia-se tão cansado que desejava dormir ali. Viu o desespero no olhar de Riley e quis pedir para que ficasse calma, contudo não tinha mais forças para permanecer são.

(...)

Caleb entrou depressa e sem bater. Era o quarto do Tyler e este por sua vez não gostava quando o irmão mais velho fazia esse tipo de coisa. Ele não ligava para isso, continuava a fazer e dessa vez em especial se surpreendeu por Tyler não revirar os olhos ou xingar.

—Você não faz ideia de com quem eu estava conversando. -começou Caleb entusiasmado, mas Tyler apenas o ignorou e aumentou o volume da televisão. – Serio isso? -questionou abrindo os braços. – Vai me ignorar?

—Seja o que for eu não quero saber. -rebateu colocando um punhado de salgadinho na boca e afundando na cama.

Sentiu vontade de rir, mas a situação era séria. Fazia três dias que Tyler apenas levantava da cama para ir ao banheiro ou comer. Passava todo o seu tempo vestido em seu moletom, com uma touca e energéticos, as vezes acompanhado de salgadinhos de queijo. Era deprimente.

—É isso que você faz agora? Assiste reality shows de culinária e lê livros sobre seres sobrenaturais? Eu vejo a droga de um adolescente que acabou de entrar na puberdade e é virgem. -Caleb começou a rir. – Parabéns por ter voltado a ter 13 anos, onde você sofria bullying por ser gordo e tinha mais espinhas na cara do que pelos no saco. -mas nem uma careta feia. Nada. Tyler continuava focado em comer. — Isso tudo é porque a Riley te deu um fora?

Visto que continuava a ignora-lo, Caleb revoltado pegou o controle e desligou a televisão.

—O que você pensa que está fazendo? -indagou Tyler com uma expressão séria.

—Tentando te contar algo realmente importante. -respondeu como se fosse obvio. – Eu não sei que tipo de coisa está passando pela sua cabeça ou como a mãe ainda deixa você agir como uma criança, mas você precisa parar.

—Eu não estou fazendo nada. -justificou.

—Exatamente! -bravejou nervoso. – Não faz nada além de estudar algo que não te dá nenhum objetivo.

—Caleb seja qual for...

—Eu me encontrei com o meu contato que passava informações sobre a Riley. -contou depressa antes que Tyler terminasse. – Eu finalmente conheci ele.

Tyler riu irônico por alguns segundos, mas visto a expressão séria de Caleb, ele parou.

—E o que ele queria?

—Contar que graças a sua ex-namoradinha as coisas vão ficar bem estranhas na cidade daqui para frente. Algo sobre vários seres sobrenaturais estarem atrás dela.

—E por que ele te ajudaria se você nunca fez nada por ele? Não passou pela sua cabeça que talvez, só talvez, ele fosse o lado mal conspirando contra a Riley, que nunca nos prejudicou e que...

—Tudo bem eu não vou ficar aqui ouvindo você defender uma garota que matou o Josh e que agora está trazendo problemas para o único lugar seguro que conhecemos.

—Ela tem não culpa de nada disso. -falou quase em um sussurro.

—Tyler, eu estou fazendo isso por nós. Eu sei que você deu um discurso todo revoltado e me culpou por ter uma vida mimada, mas se vai se afundar eu acho que como irmão mais velho, se não posso impedir, me deixe ajudar.

Ali finalmente ele revirou os olhos:

—Afinal, era só isso que ele queria? Fofocar mais sobre a Riley?

—Não. -respondeu triunfante. – Ele propôs que virássemos caçadores.

(...)

Era um dia que não nevava e que consideravelmente estava mais quente. O mar tão violento e frio que parecia irreal demais tocar aquela agua. Agarrada em seu próprio corpo conservando calor, Riley andava lado a lado com Christopher, ele mal se incomodava com o vento traiçoeiro que lhe chicotava o rosto. Suas mãos sem luvas e pálidas escondidas dentro do bolso do casaco.

Caminhavam há quase uma hora. De um ponta a outra na praia. Apenas eles para qualquer lugar que se olhasse. Faziam isso em silencio, apenas porque era angustiante demais se sentar e esperar a chegada do Conselho.

—Você acha que o Matt vai ficar bem? -perguntou encarando suas pegadas na areia meio úmida.

—Ele se cura rápido. Aquilo foi só uso excessivo de algum tipo de droga. -Christopher se virou e sorriu. Parecia ainda mais jovem, se isso fosse possível. – Matt tem sorte por ser quem é.

—Gostaria de ter o ajudado, mas talvez só você seja capaz de fazer isso. -recordou brevemente do seu desespero ao ver Matt cair de seus braços, desacordado e frio. Depois, de ligar para Christopher.

—Você já fez mais por ele do que imagina. -comentou vagamente. — O ajudou com a culpa de não ter salvado o irmão.

—Às vezes penso que atualmente exista mais nos ligando do que a minha semelhança com o Will. Talvez você saiba me dizer já que esteve mais na minha cabeça...

Christopher fechou a cara. Aquilo era seu jeito confuso, pensativo ou...

—Tem certas coisas, sentimentos principalmente que eu nunca serei capaz de conhecer, porque você em especial nunca me permitiu ver mais do que o necessário sobre qualquer coisa. Então se você quer uma resposta do tipo, se você ama o Matt, você não vai encontrar comigo. Porque todas as vezes que eu estive ai. -e apontou para a cabeça de Riley. – Tudo o que eu vi foi a sua solidão, cada vez mais longe de todas as pessoas que por pouco tempo ficavam na sua vida.

—Solidão? -indagou duvidosa.

—Você tinha suas amigas e não tem mais, tinha o Robert, mas esse emprego você abandonou, tinha esse tal de Tyler que você costumava me encher com lembranças, mas desse você nem lembra mais e tem sua mãe, a qual você suprimiu só as boas memorias mesmo que se você fosse mais corajosa a enfrentar sua própria dor saberia o que de fato aconteceu. -parou pensativo, uma pausa para suspirar. – E então tem Matt, pessoa a qual você cria uma rede de sentimentos as custas do Will e não pode evitar de se perguntar: “Será que isso existiria se o Will não tivesse existido para nos unir?” Desculpa parecer te confundir ainda mais, mas é porque eu acredito no seu potencial e na força que existe quando não nos ligamos a ninguém. A solidão, solidifica nossa força.

—Eu não entendi o que...

—Riley você é estupida. -falou com um sorriso cínico. – Tão fragilizada que nunca poderá ter uma vida realmente descente, porque os fracos nesse mundo são sempre perseguidos como o William foi um dia. Então realmente me perdoe por te fazer acreditar que ainda valia a pena ter laços com as pessoas, quando na verdade nunca se pôde confiar em ninguém.

—Eu...

—A pior parte nisso é saber que ele tem interesse em você, acredita no seu potencial e confia que você pode sucede-lo. -Christopher parecia falar sozinho, achando graça. – Eu nunca poderei entender como uma garota mimada por um triangulo amoroso pode ser alguém capaz de matar se for necessário e sem chorar no ombro do seu papai no fim do dia. Mas esse plano não é meu.

E antes que Riley pudesse questiona-lo sobre qualquer coisa, Christopher a tocou na bochecha e o mundo escureceu como um corte de luz durante a noite. Nada mais a pensar ou se dizer, apenas o sentimento de traição fazendo seu coração pulsar mais rápido.