OCASO

22 Queda 6.2


Viu que Tyler atravessou a rua correndo e optou espera-lo ali mesmo. Quando parou na sua frente, sorriu e a abraçou meio tremulo. Era um dia frio e Holly se perguntava porque uma volta na praia se havia lugares mais quentes para se visitar, mas já que Tyler havia se isolado de tudo, era melhor encontra-lo ali do que ficar selecionando o melhor ambiente.

—A Universidade cedeu os dias para as datas comemorativas, mal posso esperar pelo natal. -falou enquanto andavam pela calçada. – Pensei em te visitar.

—Você é provavelmente o único motivo capaz de me fazer sair de casa há dias. -confessou empurrando Holly de leve com o ombro. – Não é como se eu me importasse com qualquer coisa ultimamente.

—Não diga isso! -advertiu Holly, mas depois suavizou a voz. – Não desista de tudo só porque a Universidade não deu certo, eu aposto que você já encontrou outra coisa para fazer na sua vida, você só ainda não aceitou o seu destino.

Tyler a encarou achando graça naquilo e afundou as mãos no casaco. Holly sabia o quanto ele odiava tomar sermões que envolvessem esse assunto da Universidade, contudo ela se recusava a se esquivar disso e ignorar que cada vez mais ele se entregava para o próprio vazio existencial.

—E a Riley? Você já falou com ela?

—Riley? -perguntou com um tom confuso ou apenas irônico. – Ninguém sabe sobre ela, para onde foi ou o que foi fazer, também não é como se eu tivesse o ego tão pequeno a ponto de ficar procurando por ela igual um desesperado.

—Você não tem medo de tê-la perdido para sempre só porque seu ego não pode ser tão pequeno? -indagou parando de andar para cruzar os braços. Naquele ponto perto da orla da praia dava para ver a violência que era um mar no inverno.

—Eu... -suas sobrancelhas se curvaram, o que sempre acontecia quando o assunto era a Riley. Essa garota, havia algo nela que sempre tocou todos os que conheceu, mas o seu abandono era uma marca que todos carregariam, inclusive Holly que sentia falta da amiga, de bons conselhos e de qualquer atenção que ela pudesse lhe dar. Mas quando Holly mais precisou, não havia ninguém e para Tyler era a mesma coisa. Seja o que for o efeito de Riley, nunca salvou ninguém. – Eu... Eu já a tinha perdido no minuto que entrei no táxi e fui embora, porque eu já era outro e em alguns dias ela seria outra pessoa também.

—Isso é tão... -Holly procurou uma palavra que fosse tão intensa quando “triste”, mas lhe faltou qualquer uma que fosse a altura. Não sabia o que dizer e por isso pegou na mão fria de Tyler puxando em direção ao mar. Ele não recuou, nem mesmo reclamou. Se deixou guiar por Holly e por um breve momento até mesmo sorriu.

Parados perto do mar. Holly respirou fundo e fechou os olhos:

—Eu lhe contei quem foi a garota que arruinou a minha vida?

—Não, mas se você não quiser contar...

—Foi a Emily. -entregou respirando mais uma vez fundo. – Tocou a minha vida e me deixou. Eu a odeio agora, mas o pior de tudo isso é saber que se ela me dissesse para voltar, então eu largaria tudo por ela. -abriu os olhos e viu que Tyler a encarava vidrado em suas palavras. – Não tem nada de errado em querer odiar a Riley agora e saber que a ama o suficiente para querer voltar atrás... Eu sei que somos idiotas, mas se não houvesse pessoas como nós, pessoas como elas não teriam ninguém para amar também. Eu sei que Riley te ama, assim como Emily me ama, a ausência de algo foi o que nos matou.

Tyler balançou a cabeça rindo e Holly sentiu o clima suavizar, ela havia dito as palavras certas. Havia mais uma vez encontrado o Tyler no escuro de seus conflitos. Estava feliz não só por isso, mas porque toda vez que dividia isso com ele se sentia mais forte para lidar com seus próprios problemas.

—Você é uma pessoa que tem ideias tão profundas sobre tudo, como se soubesse exatamente a solução para cada conflito. -disse Tyler ainda balançando a cabeça e sorrindo. – Eu realmente não entendo porque Riley te afastou.

—Eu também não sei. -e sentiu o tão terrível nó na garganta e a absurda vontade chorar. Se encolheu para suprimir a culpa de um fracasso. Cobriu o rosto com as mãos e estava prestes a ceder quando Tyler a sacudiu desesperado.

Abriu os olhos atordoada e tentou focar para onde Tyler apontava.

—Aquilo é um corpo? Tem alguém se afogando!

(...)

Era tudo tão frio e mórbido. As paredes de metal tão gélidas quanto o ar. Matt sentia-se morto, principalmente por mal conseguir se mexer e pensar. Estava tudo tão escuro e ao mesmo tempo perfeito para sua visão ruim. Encolheu-se num canto e percebeu que quando as portas se abriram, estava na parte de trás de um pequeno caminhão de carnes.

Christopher subiu sem dificuldade. O seu cheiro, algo peculiar e indecifrável, um contraste entre seu caráter e suas decisões. Podia ver seu sorriso afiado e como sangue fresco lhe pingava pelos dedos e sujava suas luvas que escapavam do bolso.

—Matthew. -havia algo intenso nas suas palavras. – Foi muito bom brincar de casinha com você, como nos velhos tempos, eu, você e o Will, tínhamos até uma substituta chamada Riley.

Matt tossiu e percebeu que da sua boca respingou sangue, seu peito doeu com o esforço:

—O que está acontecendo? -tossiu mais um pouco e estremeceu. – Estou com tanto frio.

—Havia dias em que eu me emocionava pelo puro prazer de fazer parte de algo bom, estar do lado dos mocinhos. -fez uma expressão cansada.- E então havia dias em que eu simplesmente queria rasgar a garganta de Riley para ter o puro prazer de ver aquela expressão de vítima dela sumir.

—Onde... -e as palavras morreram em sua boca, qualquer esforço parecia levar consigo mais um pouco do seu calor humano.

—Isso foi um plano fantástico, queria eu ter pensado em algo tão intenso. Voltar a essa cidade medíocre e fingir que estava do lado de vocês, contar as mais confortantes mentiras e fazer cada maldito licantrope daqui acreditar que tinham um aliado do lado de lá. -Christopher riu das suas próprias palavras. – Mas Matt, eu estou farto disso, não sou humano, não sou como vocês e felizmente tenho a imortalidade para estar aqui hoje, amanhã e na próxima geração. Para ver todos vocês caírem e eu tranquilamente passear pelos corpos.

—Eu não... -mas Matt não tinha forças, perdia a habilidade de contestar. De gritar com Christopher ou avançar nele. Queria fazer alguma coisa, qualquer coisa que não fosse surtar em seus pensamentos.

—Acabou. -falou aproximando o seu rosto sombrio perto de Matt. – Espero que você aproveite a sua viagem. Mande saudações ao clã do norte por mim, antes de ir tenho que bagunçar mais um pouco a vida perfeita de Riley.

E antes que que Christopher saísse Matt agarrou seu rosto, fazendo este abrir os olhos assustados por um breve segundo.

—Onde está a Riley? -falou em um sussurro quase inaudível.

—Riley? -sorriu se soltando do aperto. – Digamos que um dia tão frio assim um mergulho no mar poderia parar um coração licantrope? Eu precisei testar isso.

Lambeu seus dedos que pingavam sangue e saiu alegre pela traseira do caminhão. Bateu a porta deixando Matt mais uma vez no escuro, para minutos depois apenas o motor e balançar da estrada lhe fazerem companhia.

(...)

Muitas coisas poderiam vir a mente de alguém que está prestes a morrer. Dizem que um flashback se passa em sua cabeça e Riley gostaria que fosse assim. Que pudesse ver cada escolha, cada maldita escolha, que a levou para aquele fim trágico. Contudo, nada disso veio. Só pensava em sobreviver, em abrir os olhos e bater os braços a procura do ar que lhe faltava no pulmão. Em manter constante cada violenta batida do seu coração para que seu corpo não cedesse e lentamente afundasse naquele mar, tão sereno no fundo e furioso na superfície.

Sobreviva.

Por mais um minuto. Por mais uma golfada de ar puro.

Sobreviva.

Pelos seus pais. Por pessoas que sentiriam sua falta.

Sobreviva, foi a última palavra de Henry para Will. Então por que era tão difícil continuar vivo por mais um dia? Tão árduo viver aquela história?

Não havia luz no fim do túnel, mas um lindo par de olhos azuis aflitos. Faróis de um mar tranquilo que existia preso dentro de uma pessoa. Aquele olhar, aquela face tão preocupada e ao mesmo tempo genuína fez Riley fraquejar nos seus instintos e afundar mais um pouco. Aqueles braços que lutavam para se manterem firmes a agarram em um puxão duro pelas aguas turbulentas.

Não... Não! Pare, por favor! Nós dois morreremos aqui...

Mais puxões e ondas. Queria fechar os olhos e apagar para sempre. Estava tão cansada que aceitaria afundar para a parte mais calma do mar. Estava chorando ou as gotículas do mar lhe escorriam pelo rosto?

Tudo rodopiou e no instante seguinte estava na areia. A sensação de terra sob seu corpo era tão maravilhosa que se tornava indescritível. Lá estava Tyler, seus olhos azuis a encarar. Estava viva por mais um minuto.

Tossiu agua e se sentou de uma vez. Do outro lado estava Holly, tão mais madura e mulher. Diferente de qualquer lembrança que Riley guardava. Dois estranhos esperando que ela falasse qualquer coisa para confortar aquelas expressões angustiadas.

—Eu devia ter morrido. -cobriu o rosto. Sua cabeça doía tanto quanto um cérebro que foi socado inúmeras vezes. – Onde estou?

—Na praia, Riley. Nos vimos você se afogando. -respondeu Holly com uma típica voz suave. – O que aconteceu?

—Eu não lembro ao...

—Riley. -chamou Tyler pegando nas suas mãos frias e ossudas. – Eu ouvi uivos, aconteceu alguma coisa com a sua matilha.

—Meu Deus... -Riley se levantou cambaleante. – Christopher nos traiu. -começou a andar meio torta, pendia para o seu lado direito, o que Christopher fez com ela havia deixado algumas sequelas.

—Onde você está indo? -Tyler correu atrás e Holly veio em seguida, cada um de lado. – Não pode sair assim, você pode ficar com...

—Por favor, por favor, Tyler, não me impeça de fazer algo. -tirou a blusa e entregou a Holly, depois os sapatos e calça.

—O que é isso? -Holly estava tão assustada. Suas mãos pegavam as roupas molhadas e tremiam de frio. Riley queria não ter que encarar o seu rosto infantil por muito tempo. – Você enlouqueceu?

—Não sei o que você sabe, não tenho tempo para explicar. Só não surte demais e dê trabalho ao Tyler. -abraçou seu próprio corpo em roupas intimas. – Me desculpe, ambos, por obriga-los a saber mais que o necessário.

Virou-se para onde o vento vinha e abriu os braços. Aquela era a hora de libertar a besta. Respirou fundo e relaxou. Um estalo e todo o seu corpo cedeu ao lobo que irrompeu como um tiro do seu peito. A forma bestial caindo sobre as quatro patas e correndo em direção ao acampamento, abandonado naquela praia deserta dois humanos confusos.

(...)

O acampamento estava deserto. Alguns corpos mortos e sangue davam um ar familiar a Riley que tanto desenhava a miséria daquele lugar há meses atrás. Ela só não gostaria que aquilo fosse tão próximo do que ela imaginou. Caminhou mais devagar, com cuidado para não pisar em ninguém. Sentindo a vida deixar cada corpo, sentindo a dor de morrerem injustamente.

Farejou o cheiro de Christopher que parecia estar espalhado por todo o lugar, até sentir o cheiro do seu pai. Correu rezando baixo para que ele não estivesse morto. Que ele fosse o único sã e salvo. Que ele estivesse apenas caçando Christopher como ele fazia. Correu mais até chegar no penhasco que tanto rendeu bons momentos e descobertas. Só que ali, com a lua como única fonte de iluminação, estava Christopher. Suas roupas rasgadas e pés descalços, não usava luvas e estava sujo de sangue. Sob seu pé direito estava Bill inconsciente.

—Não rosne para mim. -advertiu Christopher levantando um dedo. – Eu que te ajudei a treinar, que te curei dos pesadelos e te servi como conselheiro amoroso com Matt... Não seja tão ingrata.

Riley avançou e com isso ele afundou o pé no rosto de Bill, estava com os olhos azuis e humanos. Tão grandes que pareciam querer saltar das suas orbitas e a cada minuto mordia o lábio inferior em busca do sangue que sujava sua boca. Não parecia o Christopher.

—Vamos, Riley, não me diga que você acreditou mesmo que existem pessoas boas e confiáveis em um mundo onde há lobos, vampiros e bruxaria? –ele fez uma pausa e balançou a cabeça decepcionado. – Vê como soa estúpida a sua inocência?

Riley sabia disso. Sabia da sua estupidez, da sua até mesmo, inocência em acreditar em Christopher. Sabia que no fundo sempre precisou ter um pé atrás, mas que nunca conseguiu porque sentia-se só e precisava de alguém, apenas alguém que não lhe confundisse os sentimentos, alguém que pudesse entende-la tão bem e que no fim do dia não a julgasse.

—Talvez você pense: Mas não éramos amigos?—sugeriu Christopher ainda com um ar ainda mais cínico. – Riley, ainda há muito reservado para nós. -e com um movimento rápido empurrou Bill com seu pé, o seu corpo pendendo a beira do penhasco.

O tempo ficou lento. Riley avançou mais rápido do que podia. Seus olhos acompanharam Christopher fugir e sua mente determinada a salvar seu pai nem a fez fraquejar ao se jogar do penhasco.

A queda parecia tão longa. Suas patas procurando no vazio alcançar o corpo de Bill. Puxando o para si, se fechando a espera do contato com o chão. Olhou para o seu pai que dormia no emaranhado dos seus pelos e se pudesse choraria. Mas não o fez, apenas uivou e no estridente som do seu próprio uivo fechou os olhos e aceitou que ambos morreriam ali.

(...)

—Tyler!

O carro trepidou e ele piscou devagar relaxando as mãos no volante:

—O que foi Holly? -falou cansado.

—Por favor, eu acho melhor não irmos ao acampamento. -implorou pela milésima vez, se ao menos Tyler lhe ouvisse já estariam bem longe da cidade.

—Riley precisa de mim. -contestou com firmeza pisando no acelerador. – Você mesmo disse que se o momento chegasse eu não a odiaria, só correria atrás independente do...

—Eu acho que...

—Não adianta, tudo bem? -gritou arregalando os olhos. Respirou fundo e desacelerou. – Eu disse para você ficar em casa, eu te deixaria com o Caleb e tudo ficaria bem, não precisava vir.

—Depois do que eu vi, depois de tudo o que estudamos ganhar uma explicação... Seria hipócrita demais apenas te abandonar. -suspirou olhando pela janela. Em seu colo a roupa, agora úmida, de Riley. – Eu ainda não acredito que ela se transformou em um lobo gigante bem na frente dos meus olhos.

—As coisas são assim, em um dia eu a via desenhar paisagens do pôr do sol e no outro ela me contava sobre vampiros, lobos e...

—Vampiros? -questionou Holly percebendo a insanidade daquele assunto. – Então os livros e toda aquele papo misterioso sobre o que te levou a pesquisar coisas sobrenaturais tinha a ver com o que a Riley é?

O carro fez uma curva apertada e uma freada abrupta. Tyler tirou o cinto e desceu depressa, nem se dando ao trabalho de fechar a porta quando saiu. Holly desceu em seguida e no mesmo instante congelou ao ver os corpos e sangue. A noite quase sem lua escondia com sombras o que era um verdadeiro massacre. Tapou a boca com a mão direita, talvez devesse voltar para o carro e desistir dessa loucura.

Viu que Tyler ainda estava firme, parecia procurar alguém entre os corpos. Uma dureza no olhar irreconhecível. Holly nunca imaginaria que tamanho problema o cercava, que até mesmo envolvia Riley. Jurava para si mesmo que se soubesse teria feito tudo diferente, teria sido menos boba ao dar conselhos amorosos quando o problema na relação de Tyler era muito além do que um drama de namoro a distância.

Percorreu os corpos. Alguns nus e outros em agonia. Parou ao lado de Tyler se sentindo meio tonta. Ele estava agachado colocando seu casaco sobre o corpo de uma mulher.

—A Riley está...

—Viva. -sussurrou aquele rosto familiar. – Vocês precisam fugir antes que o Christopher volte...

—Quem é Christopher? -indagou Holly sentindo seu corpo tremer. – Tyler, precisamos chamar a polícia.

Ele se virou ainda mais frio e duro. Se colocou de pé passando para a frente de Holly. Quando esta se virou viu que do outro lado estava uma figura esquia nas sombras. De pés descalços e roupas surradas, veio lentamente um jovem de sorriso afiado.

—Christopher sou eu. -se apresentou com uma reverencia. – Sorriam, o anfitrião da festa chegou.

Holly recuou. Aquilo era um vampiro. De passos leves e rosto angelical, mascarando todas as mortes que carregava em suas mãos, suprindo cada sequela que fizesse se associar a um humano.

—Me perdoem por simplesmente não dar atenção para os novos convidados. -caminhou na direção de Tyler tão tranquilo quanto o vento gelado que percorria o lugar. – Eu estava ocupado com minha convidada especial, Riley o nome dela, mas eu acredito que vocês já a conhecessem, não é mesmo Tyler e... -pareceu pensativo por um momento. – Holly?

—Onde ela está? -Tyler falou mecanicamente.

—Morta... -parou cruzando os braços- Não, talvez viva... Ou morta mesmo... Francamente não me importo. -e sorriu. – Eu estive muito na cabeça dela, cuidei para que ela não enlouquecesse e coisas do tipo, conheço vocês de lá e sei como ela é ávida por proteger todos os humanos que ela tinha algum laço. Riley tentou me afastar das lembranças mais intimas dela, do seu lado mais fraco, mas eu sou muito bom no que eu faço. O melhor nisso tudo é não precisar me esforçar para achar vocês, porque vocês praticamente estão me implorando para que eu os machuque e atinja a Riley.

Christopher avançou tão rápido quantos os olhos de Holly podiam acompanhar e com uma mão tirou Tyler do chão pelo pescoço. Holly quis gritar, mas o som de sua voz morreu nos lábios abertos em espanto. Christopher o deitou de uma vez, o barulho oco das costas de Tyler contra a terra úmida. Estava prestes a morde-lo quando parou. Sua boca ainda aberta, Tyler meio vesgo e sufocado pelo aperto. Com a sua mão livre, Christopher puxou o casaco de Tyler e revelou uma marca estranha, uma cicatriz recente sobressaltada na pele perto do ombro.

Christopher começou a rir balançando a cabeça:

—Você foi marcado? Aquele cara não cansa de me surpreender...

Soltou o pescoço do Tyler e lhe acertou um soco que o fez ficar ainda mais tonto. Agora sangue lhe escorria pelo nariz e canto da boca. Christopher se levantou ainda rindo e arrumou a roupa desgrenhada.

—Você... -ele apontou para Holly. – Você não pode ter sido marcada também.

Avançou com a mesma rapidez que fez com Tyler. Uma mão nos cabelos de Holly e a outra em metade do seu pescoço. Abriu a boca e a mordeu, sem hesitar, sem poupar força. A dor absoluta sendo substituída pelo torpor e dormência.

Holly já havia usado alguns tipos de drogas com Emily, algumas realmente tranquilizadoras, mas nada como um vampiro. Todo o prazer envolvido naquela sensação lhe preenchia cada célula do corpo e a fazia cobiçar por ele. Agora Holly entendia toda a sexualidade que envolvia as antigas escrituras que falavam sobre vampiros, como a sedução de um demônio poderia ser tão tentadora aos olhos humanos e de como ele poderia fazer o que quisesse com ela desde que este continuasse a tomar seu sangue.

Até que ele a largou no chão. Como um descarte no lixo. Seu corpo batendo com força sobre outro corpos mortos.

—Uau! -exclamou limpando a boca suja. – Fazia algum tempo que eu não bebia direto da fonte, eu quase te matei, acredita? -abriu os braços sorrindo. – Eu não ganho nenhum obrigado? -ficou esperando em silencio, apenas alguns gemidos se ouviam ao fundo. – Claro, como eu pude esquecer, você esta morrendo, acho que exagerei na intensidade, mas eu sei que você gostou. -riu convencido.

Holly tossiu e viu que seu sangue quente lhe escorria do pescoço. Piscou algumas vezes tentando focalizar sua visão. Seu peito doía sob enorme pressão e já não podia sentir nenhum membro. Viu Christopher pegar Tyler pelo cabelo e levar sua cabeça.

—Acho melhor você cumprir seu papel e matá-la agora, poupa-la do sofrimento e da dor de... Bom, a sua cara arrogante me deixa bastante irritado, Tyler. -outro soco e os olhos de Tyler se fecharam de uma vez. – Droga. -murmurou nervoso soltando a cabeça. – Eu e minha mania de ser intenso demais. -se virou dando as costas e andando em direção as sombras das quais ele surgiu. O mesmo andar leve, o sorriso desafiador e o desdém com a vida.