OCASO
4 O Despertar 1.4
Notas iniciais
O cemitério era um lugar ainda mais sombrio no Outono, com todas aquelas arvores sem folhas balbuciando com o vento. Riley passou pelos túmulos sem olhá-los diretamente, odiava ter que ir ao lugar, mas se sentia na necessidade de visitar a mãe e os avôs sempre que possível. Quando viu a pedra com o nome da mãe encravado afugentou a ideia de chorar um pouco só para esvaziar o sentimento. Ajoelhou e colocou um buque pequeno de flores e rezou para quem quer que a tivesse ouvindo, uma suplica silenciosa para que sua mãe estivesse bem e em paz.
—O que você fez com Josh? –questionou uma voz vinda de trás de Riley. Ela se virou o suficiente para ver que era o mesmo garoto que outrora havia visto na loja de conveniência e na boate do Jones.
—Não sei do que você está falando. –respondeu Riley pausadamente.
O garoto pegou Riley pelo braço e a colocou de pé com violência. Dessa vez ela não pode fugir da fúria que emanava do olhar dele. Se ela pedisse socorro alto o suficiente alguém naquele mórbido cemitério a ouviria?
—O que você é? –com a outra mão ele tirou os óculos escuros de Riley. Os olhos dele percorreram lentamente o rosto dela e a mão livre tocou a cicatriz que quase sumia onde Josh havia mordido.
—Juro que não sei o que aconteceu com ele...
—Você está morrendo. –ele respirou fundo fechando os olhos. Quando tornou a abri-los estavam negros como uma noite sem estrelas. – Mestiça. –sussurrou com uma certeza até mesmo assustadora.
—Por favor... –Riley suplicou, mas se sentia fraca demais para continuar falando.
—Você não pode desmaiar agora. –o garoto sacudiu Riley com fúria, mas seu corpo apenas amoleceu mais no aperto. – Não feche os olhos! –ordenou nervoso, porém já era tarde e Riley já havia adormecido em seus braços.
(...)
Aos poucos o escuro se tornava claro e Riley reconhecia o céu em seu início de tarde. Sentiu o macio da grama nas palmas da mão e soube que estava deitada perto dos túmulos no cemitério. Sentou-se depressa instintivamente.
Por quanto tempo havia apagado? Como havia parado ali?
Olhou ao redor. O estranho garoto estava sentado em uma lapide mais distante, protegia-se do frio com o vapor quente da sua boca aquecendo as mãos, seus pés tomavam cuidado para não tocar as flores que estavam postadas de forma organizada no chão. Não pareceu notar a princípio que Riley estava acordada, tinha a expressão de alguém pensativo perdido em lembranças.
—Não espero que você fuja. –anunciou ele sem se virar. – Se fosse para fugir você não estaria aí me encarando há dois minutos.
Riley engoliu em seco. Sentia-se como se tivesse se metido em uma briga feia contra umas cinco pessoas, todas as pequenas partes do seu corpo latejando de dor.
Respirou lentamente tentando se acalmar.
—Quem é você?
—Quem é você? –rebateu a pergunta incrédulo. — Josh morreu porque bebeu seu sangue, mas você não pertence a matilha então o que faz nessa cidade?
—Espera! Do que você está falando? Como assim Josh morreu?
—Você não sabe de nada, não é? –pela primeira vez se deu ao trabalho de olhar para ela. – Nem faz ideia do que está acontecendo dentro de você...
—Então me diz! –impôs Riley batendo as mãos no chão. – Eu não sei o que está acontecendo.
-Tudo bem, mas você precisa ter a mente aberta. –uma pausa dramática. – Josh te mordeu porque é um vampiro e é isso que eles fazem, matam pessoas pelo sangue. Só que ele não sabia que você era uma mestiça, metade lobo e metade humana. Vampiros não podem morder lobos e é fácil para eles perceberem quando alguém é um, com exceção dos mestiços. É quase impossível reconhecer um mestiço. O seu lado lobo matou Josh, mas ele não te matou e o veneno das presas dele está agora transformando seu lado humano em vampiro. O problema é que não é possível você ser metade vampiro e metade lobo, vai morrer no processo de transformação. – as palavras foram ditas rápidas e com naturalidade por aquele estranho, a sua expressão era neutra. Era ironia ou ele fala totalmente sério.
—Espera. –Riley se levantou com dificuldade, absorvia a dor no corpo e tentava ao mesmo tempo compreender as palavras dele. – Você está dizendo que eu sempre fui metade lobo?
—Sim, como eu. –ele ponderou. – Não exatamente como eu, porque você é mestiça e eu sou um lobo genuíno. –afugentou as palavras ditadas com um desdém de mão- De qualquer forma, você precisa de ajuda. Você pode machucar alguém. Suas duas partes estão entrando em conflito, o desejo de sangue e....
Antes que ele terminasse de falar Riley disparou a correr pelo cemitério. As pernas tremiam, mas ainda tinha forças para levá-la para fora dali. Quer quem fosse esse garoto, era totalmente louco, do tipo psicopata. E ela não ficaria ali até ele fazer algo cruel com ela.
—Eu disse para você ter a mente aberta! –ele gritou sem se dar ao trabalho de correr atrás, mal havia se movido da lapide em que estava sentado.
—Você é louco! –gritou Riley de volta sem olhar para trás. – Fica longe de mim!
(...)
O barulho dos pássaros. A risada de crianças brincando com as folhas secas. O tique-taque do relógio no andar de baixo. A goteira do chuveiro na casa do lado. Os sons eram perfeitos em seus ouvidos. Riley se recusou a sair do quarto ou mesmo ligar a televisão, estava isolada há algumas horas, esperava por Tyler com a porta aberta. Seu pai, infelizmente, não estava em casa para lhe fazer companhia.
Respirou fundo e isso fez seu corpo inteiro tremer. Estava com fome, com sede, mas nada parecia lhe saciar de fato. Quando o som da respiração de Tyler chegou aos ouvidos dela, Riley sorriu e parte de si se sentiu melhor ao saber que ele havia vindo vê-la sem pensar duas vezes.
Os passos dele eram rápidos e quando ele chegou à porta estava ofegante, confuso e muito preocupado.
—Aconteceu alguma coisa? –perguntou olhando cada canto do quarto.
—Não. –mentiu descaradamente, mesmo não se lembrando de como viera parar em casa depois de ir ao cemitério. – Só queria te ver e como por coincidência você ia ter que vir aqui já que Caleb está na cidade, então eu pensei: por que não acelerar um pouco as coisas?
Tyler sorriu aliviado e apoiou a mão no batente da porta. Estava cansado, não só porque aparentava estar, mas porque Riley podia até mesmo ouvir as batidas do seu coração.
—Eu dirigi como um louco para chegar. –comentou baixinho.
—Então vamos fazer valer à pena. –Riley deslizou pela cama e o puxou para si envolvendo primeiro em um abraço, depois em um beijo.
Fazia alguns dias que não o via e isso era suficiente para ter a saudade dentro de si gritando por cada parte dele. O beijava com amor, com vontade, com fome. Arrepiou-se ao toque de Tyler e mesmo que o corpo estivesse debilitado, o contato com ele a deixava mais ansiosa. Ele a deitou na cama e ela o desejou por completo.
Tyler tirou a própria roupa e Riley teve que se esforçar para conseguir tirar as suas. Ele traçou com os dedos suavemente o contorno do corpo dela e ela arranhou suas costas como se ansiasse para chegar na carne. Tyler se encolheu incapaz de aguentar as unhas de Riley. Percebendo a atitude do namorado, ela rapidamente abaixou as mãos, mas não se permitiu soltar-se dele.
Riley estava incontrolável, sua visão era turva e os sons das coisas ao seu redor martelavam na sua cabeça como um terreno de construção. Ela o queria, muito mais do que o puro desejo sexual, ela queria machucar Tyler. Queria encravar sua unha na pele quente e macia dele até sentir o sangue escorrer pelos seus dedos. Queria ver a dor em seus olhos e no profundo escuro de suas pupilas encontrar sua alma suplicando para que parasse. Queria morde-lo até o gosto salpicado de sangue umedecer cada parte da sua boca e salvar seu corpo da extrema fome.
Mediante a tantos pensamentos cruéis afastou Tyler com um empurrão desesperado.
—Não consigo. –sussurrou frustrada. – Não posso. –corrigiu-se meio ofegante.
—Está tudo bem? –perguntou Tyler analisando-a do mesmo jeito que Caleb havia feito. Uma mania de família muito irritante. – Você parece doente.
Levou apenas alguns segundos para Riley incorporar uma mentira:
—Eu peguei um resfriado horrível no último fim de semana, estou com muita falta de ar e cansaço.
—Não seria melhor ir ao médico então?
—Não. –respondeu bruscamente, depois ajeitou a postura. – Eu já fui e estou tomando o medicamento prescrito, só preciso repousar.
—Tudo bem... –concordou Tyler não se dando muito por convencido- Eu vou ver minha mãe e o Caleb, se quiser que eu traga alguma coisa para comer ou algum remédio...
—Ah sim! –Riley conteve um suspiro aliviado. Nunca pensou que desejaria que Tyler se afastasse dela. – Me traga algumas aspirinas.
Tyler assentiu, vestiu a roupa e saiu do quarto, não antes de dar uma última olhada em Riley. Ela sorriu, acenou e no minuto seguinte em que ele desceu as escadas ela correu para o banheiro. Tropeçou e caiu de joelhos perto do vaso sanitário, ali mesmo se apoiou e vomitou até que se faltasse ar para respirar. Era um sangue espesso, meio marrom, meio coagulado. Olhou-se no espelho e viu sua aparência abatida, os olhos fundos e as pupilas tão dilatas que sobrepunham o castanho dos olhos. Suas mãos tremiam, os sons ainda martelavam na sua cabeça.
Agora podia ouvir a respiração fraca de um senhor de idade, podia contar o intervalo entre uma tosse e outra e perceber com clareza que ele era fumante. Apoiou-se no lavatório. Sua garganta queimava e a imagem de sangue não lhe fugia da cabeça.
Podia então estar grávida?
Afugentou a ideia com um tremor. Não podia estar grávida, ela e Tyler sempre foram muito precavidos em relação a isso e mesmo que os sintomas fossem semelhantes na pior das hipóteses, ela se recusava a acreditar que podia estar esperando um bebê.
Estava morrendo. Dessa vez lembrou quem havia dito isso a ela. Era ele. Aquele garoto parecia ter mais respostas, mas era difícil de acreditar no que ele dizia. Era absurdo demais aceitar que existiam vampiros, lobos ou qualquer coisa sobrenatural.
(...)
Havia poucas pessoas no velório, algo mais particular para pessoas da família e alguns amigos. Tyler segurou a mão de Riley com firmeza quando percebeu que ela chorava baixinho. Apesar de um dia ter brigado feio com Josh jamais esperou que ele morresse. Sentia-se profundamente triste, mesmo que com ele nunca tivesse tido tanta intimidade. Contudo ele parecia ser alguém importante para Riley, só não entendia o tamanho do sofrimento dela se eles mal se conheciam.
O padre ainda fazia seu discurso quando ela largou da mão de Tyler e seguiu para o tumulo com as flores. Ele a observou, o modo como ela andava meio lenta e de como respirava com dificuldade, percebeu que ela estava mais magra não só pela roupa preta que vestia, mas também pelo rosto que ainda aparentava estar doente, mesmo que ela tenha insistindo para que ele esquecesse isso.
Caleb se aproximou silenciosamente e tocou o ombro do irmão, não estava triste como todos os outros, mas estava abatido como se tivesse passado a noite em claro.
—É uma pena que isso tenha acontecido. –comentou olhando para Tyler de forma a analisá-lo. – Riley não falou nada sobre o incidente?
—O que você quer dizer com isso? –Tyler recuou tirando a mão do irmão de seu ombro.
—Nada, eu juro. –afirmou Caleb da forma mais convicta possível. Fez-se um silencio profundo entre os dois, onde só a voz do padre e alguns choros eram ouvidos, então Caleb continuou. – É só que essa história está muito mal contada, não acredito que todos engoliram essa de suicídio.
Tyler encarou o irmão friamente.
—Não é algo do tipo que as pessoas ficam contestando com a polícia já que Josh usava drogas.
—Sim, eu sei disso, mas ainda não me dou por satisfeito. –Caleb hesitou por um momento. – Bem eu ia dizer algo, mas... Você... Não, esquece... –mais hesitação- Tem certeza que Riley não lhe disse nada sobre ver Josh antes dele sumir?
—Onde você quer chegar com isso? –questionou Tyler voltando o olhar para Riley que ainda se lamentava perto do tumulo.
—Veja bem Tyler, não quero acusá-la nem nada, mas ela está mentindo. –falou Caleb meio receoso. – Há dados na polícia, testemunhas disseram que viram os dois saindo da boate, mas só ela voltou. –enfiou a mão nos bolsos, agora ele também observava Riley. — Havia sangue da Riley nos sapatos de Josh e a blusa dele foi trocada por outra, dois números maiores.
—Você está dizendo que Riley... Que ela matou Josh? –sussurrou Tyler apreensivo por outras pessoas estarem ouvindo a conversa.
—É que isso é muito estranho, mesmo com essas evidencias a polícia arquivou o caso como suicídio. –Caleb estava pensativo e claramente confuso. – Riley está escondendo alguma coisa, isso eu tenho certeza.
Tyler ficou em silencio, não havia resposta para aquilo. Caleb estava ali acusando Riley e ele mesmo no fundo sentia que ela escondia algo, mas como poderia chegar nela e perguntar algo do tipo?
Viu Caleb se afastar e depois que voltou o olhar para a namorada, viu que ela não estava mais no tumulo chorando. Agora estava em pé mais afastada dos demais familiares e amigos, não olhava para o funeral. Seus olhos estavam fixos em outra coisa.
Um cara.
Ele estava sentando em um lapide alguns metros longe dali. Fumava um cigarro e encarava Riley de volta. Havia uma tensão, Tyler podia sentir.
Estava prestes a ir atrás dela, quando ela se virou e ele automaticamente disfarçou olhando para o tumulo. De soslaio observou Riley se aproximar lentamente e com dificuldades. Tyler ficou parado, imóvel. Estaria mesmo desconfiando que sua namorada era uma assassina? Mas conhecia ela o suficiente para saber que ela jamais mataria uma mosca. A mão de Riley pegou a dele com firmeza e ele se surpreendeu de como estavam geladas.
—Tudo bem? –ela perguntou com as sobrancelhas curvadas, desconfiada da hesitação de Tyler.
—Sim, claro... Só estou com frio. –respondeu meio tenso. Voltou o olhar para o garoto na lapide, mas agora ele já não estava mais lá.
(...)
Para Riley ver o pai cozinhando era de longe um momento de risadas. Ele era ótimo em tudo o que fazia, com exceção talvez de caçar, mas isso ele não insistia muito. Bill gostava de inovar com alguns pratos que ele próprio pesquisava na internet, se gabava muito quando a comida saia como o planejado e enquanto preparava gostava de contar história do passado. O único momento, talvez, que ele não se chateasse em falar da mãe de Riley.
—Sua mãe era fantástica, mas péssima na cozinha. –ele riu. – Ela agradecia muito por você ser um bebê e só tomar leite, não iria sofrer tão cedo pelo menos. –ele tirou uma carne da sacola de compras e entregou a Riley. – Vamos lave isso, precisa me ajudar por aqui.
Riley pegou a carne, tirou o plástico e colocou em uma bacia, deixando a água cair e amolecer o gelo.
—Mas tínhamos sorte porque seu avô conseguia fazer milagres com ovos e bacon. –continuou Bill entusiasmado, Riley acreditou que ele estivesse apenas tentando animá-la após o funeral de Josh. – Então por longos seis meses seu avô foi a nossa salvação, ele vinha aqui, cozinhava algumas coisas e contava histórias de caçador.
A água estava rasa e tingida com o sangue da carne. Riley observou hipnotizada o vermelho serpentear pela transparência e causar uma dor angustiante no fundo da sua garganta. Havia o cheiro, era ruim, mas lhe dava fome. Enfiou as mãos na bacia e sentiu-se bem ao tocar o sangue, estava sedenta por aquele liquido mesmo que o gosto não lhe parecesse tão bom assim. Ao fundo Bill ainda falava e falava, mas Riley não conseguia ouvir nada além do próprio coração desacelerar diante da presença do sangue.
—Filha, quer que eu te ajude com isso?
—Não! –gritou Riley instintivamente puxando a bacia para mais perto de si. Ambos, pai e filha ficaram em choque, Bill ainda estava com as mãos estendidas, já Riley havia tirado as mãos da bacia, mas as encarava, sujas de um sangue fraco. Percebendo sua atitude violenta, ela se redimiu: — Quer saber? Eu estou meio mal, enjoada demais, você não se importaria se eu...
—Não, tudo bem querida pode ir. –interrompeu Bill antes que ela terminasse.
Riley assentiu. Ligou a torneira e deixou a água lavar as suas mãos sujas, as esfregou repetidas vezes e quando desligou mal olhou para a cara do pai antes de subir para o quarto. Não conseguia acreditar que quase tomara a água suja, não conseguia aceitar que estava faminta por sangue de qualquer tipo.
Abriu a porta do quarto de uma vez e a fechou em um baque único. Precisava, com certeza, se isolar. Olhou para a parede e viu o desenho da floresta no dia em que fora caçar com seu pai. Respirou fundo. As coisas pareciam se encaixar, ela só precisava se lembrar.
Os animais mortos. Os pássaros voando. Alguém a perseguindo.... Agora tudo fazia sentindo. Era Josh! Sempre foi Josh. Era ele em meio às sombras da floresta, era ele que tinha matado os animais. Ele já estava atrás dela a partir do momento em que ela havia descoberto o lugar onde ele guardava os corpos. As lembranças pareciam mais nítidas, a ansiedade fazendo sua cabeça pensar eufórica..
Sim, Riley sabia o que precisava fazer.
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