OCASO
5 O Despertar 1.5
Notas iniciais
Matt sorriu porque era impossível não se sentir desafiado por aquela Riley que o encarava. Estava impressionado não só por ela ter o encontrado, mas também por ainda ser capaz de andar depois de ter sido infectada há tantos dias.
Riley deu um passo balbuciando, definitivamente não devia estar em pé. Tossiu nas mãos tremulas e desesperadamente tentou esconder o sangue que sujou suas unhas. Estava morta, provavelmente apenas o seu cérebro ainda insistia em mandar impulsos para o corpo, sua vontade de parecer forte ainda mantinha aquela casca frágil.
Matt cruzou os braços e esperou que ela caísse como da última vez. Riley parou. Encarou e por um breve momento Matt pode jurar que viu sua boca formar um sorriso. Balançou a cabeça desistindo de subestima-la.
—Como você conseguir me encontrar? -indagou curioso.
—Muito fácil. -debochou com a voz rouca e isso era bom, porque significava que ela ainda não tinha se alimentado com sangue, na melhor das hipóteses, teria uma parada cárdica. – No dia em que me encontrei com você, assim que eu acordei, estava sentado sobre essa lápide, poderia ser qualquer uma mais perto, mais velha e confortável, mas era essa. Além de manter cuidado, para não pisar nas flores recém organizadas.
—Isso não significa nada.
—Talvez... -ponderou por um momento relaxando a postura. – No velório do Josh, você estava lá. Sentava-se na mesma lápide, mesmo que ela estivesse perto o suficiente das pessoas e que isso chamasse a atenção.
—Continue, por favor, estou gostando disso.
—Não foi muito difícil te achar, Matthew. Ontem eu vim aqui mais cedo, vi as flores murchas e o nome William. Eu imaginei que você viria aqui trocar as flores hoje por novas já que ele era seu irmão mais novo. -respirou fundo e tossiu, mas pareceu sincera quando falou: — Sinto muito.
—Já faz algum tempo de qualquer forma. -apesar de dizer isso naturalmente, Matt sentiu como se os ombros pesassem demais. Com o Will era sempre assim, difícil, cansativo, triste. – Mesmo assim...
—Espera. -levantou a mão ofegando, mesmo que não tivesse corrido para estar ali. – Eu ainda não terminei. Sei que você é sobrinho do Jones e que Jones é casado com a Nora, mesma mulher que assinou a autopsia do Josh como suicídio.
—E quantas pessoas você teve que interrogar para saber isso?
—Apenas o Google. -entregou sorrindo, automaticamente fazendo Matt rir daquilo também.
—Me pegou. -levantando as mãos em sinal de rendição.
Uma brisa fria passou por eles fazendo ambos colocarem as mãos em seus respectivos casacos. O ambiente não estava apenas esfriando, havia ali um clima pesado que não sairia.
—Eu devo estar maluca por estar aqui só porque uma parte de mim quer acreditar em tudo o que você disse... Coisas estranhas aconteceram e eu não sei como explicar.
Poderia haver uma explicação mais calma para tudo aquilo, a abordagem de Matt tão direta não era o melhor caminho, porém era o mais sincero. Ele olhou para Riley e depois para a lápide esquecida no tempo com o nome de Will gravado, a semelhança entre eles era grande.
—Não sei o que você espera ouvir. Eu disse a verdade, as coisas são assim sabe? Lobos, vampiros.... Toda essa merda de alguma forma é real.
—Você disse que ia me ajudar.
—Eu disse que você precisava de ajuda. -corrigiu lentamente e contra isso não havia argumentos.
—Então eu vou ficar assim? -e apontou para todo o corpo, os olhos se umedeceram naquele instante. – Vou morrer?
—Provavelmente. -tirou a mão direita do bolso e lhe ofereceu um cigarro. – Na sua situação é melhor para dor, aceita.
Recusou com veemência balançando a cabeça.
—Preciso de uma cura, deve haver uma saída. -a primeira lagrima escapou. — Você me conta história sobre vampiros e lobos, me diz que estou morrendo porque sou metade dos dois, mas que não pode me ajudar? Por que veio atrás de mim e me contou essas coisas e me disse...
—É melhor a verdade do que a morte em uma mentira, assim...
—Por favor, não use alguma frase estupida de biscoito da sorte comigo. -soluçou subitamente. Estaria segurando o choro?
No fundo Matt queria ajudá-la, contudo sabia que não poderia fazer nada por ela sozinho, sabia que sem o apoio de Jones e Nora ele nem saberia por onde começar.
“Droga!”, reprendeu a si nos pensamentos, não acreditava que havia encontrado um problema tão grande na cidade em poucos dias. Acedeu um cigarro e tragou devagar.
—Desculpa. -Matt deixou que a fumaça saísse aos poucos.
—É só isso? Me contou tudo aquilo e agora só vai me ver morrer?
—Não, na verdade eu vou ficar longe de você. -começou a andar e não entendeu porque suas pernas pareciam tão pesadas a cada passo. Isso não poderia se tratar de culpa. Matt não conseguia acreditar que sua consciência insistia em querer fazer algo por Riley só pela leve semelhança dela e do Will.
—Mais algum conselho inútil para me dar? -bravejou tomou um folego surpreendente.
Riley deveria ter no máximo dois dias, morreria de hemorragia interna, algo lento e doloroso, então Nora assinaria a autopsia e diria que alguma infecção explicaria isso. Havia até chances de sua lápide ser perto do Will.
—Só... Só tente não se alimentar, o sangue vai acelerar o processo de transformação e te matar mais rápido.
-Talvez eu devesse fazer isso! -gritou batendo o pé, mas Matt já estava longe demais para cogitar em voltar.
Se houvesse como, será que Will olhava pelos dois naquele momento? Será que ele estaria decepcionado? Era difícil imaginar Will negando ajuda a alguém, mas estávamos falando de Matt e ele em especial, aprendera a ser mais cruel às vezes.
(...)
Riley arrumou-se na sua cama de modo a ceder um pouco do espaço para Tyler se deitar com ela. Ele a abraçou e a aninhou junto do seu corpo quente. Ela agradeceu pelo carinho e fechou os olhos se aconchegando. Ficariam assim por alguns minutos, mas Riley não conseguia dormir, sua cabeça latejava, o corpo implorava por algo que ela nunca havia tomado antes. Tyler se mexeu, provavelmente o braço havia adormecido ou ele queria iniciar uma conversa.
—Você ainda está triste por Josh? –perguntou ele baixinho, os dedos faziam um carinho sutil no topo da sua cabeça.
“Por que você está falando nisso?”, era o que Riley queria responder, mas reprimiu-se e disse:
—Muito, nos conhecíamos há bastante tempo, eu gostava dele.
—Quanto? –interrogou com uma intensidade estranha.
Riley se virou para encará-lo:
—Está com ciúmes do Josh? –ela riu passando a mão no rosto dele, mas sua expressão continuou seria. – Éramos só amigos.
—Você saiu com ele da boate. –afirmou e não perguntou, o que fez Riley estremecer. – O que vocês fizeram?
—Quem te disse isso? –a mão de Riley caiu de lado, agora ambos estavam sérios, os rostos tão pertos que apenas o sussurro era suficiente para conversar.
—Caleb me contou que havia sangue seu no sapato de Josh e a blusa dele foi trocada por uma nova. Eu só pensei que... –ele curvou as sobrancelhas em uma careta. — Meu Deus Riley, não me olhe assim.
—Você está me acusando de ter feito algo com Josh? Espera... –Riley se ajeitou na cama. – Você acha que eu o matei?
—Não! Caramba, eu só pensei que... –Tyler enfiou a mão nos cabelos suspirando. – Se você e ele tiveram alguma coisa não precisa esconder de mim, ele pode ter tentado alguma coisa com você e agora você está com vergonha de dizer... Eu... Eu não sei o que pensar. –ele fechou os olhos com forças e quando tornou abrir Riley ainda o olhava em choque. – Por favor, diga alguma coisa.
—Dizer o que Tyler? Olha as suas perguntas! -fechou os olhos, sua cabeça doía tanto. – Acho melhor você ir.
—Eu não sei o que fazer com isso...
—Você só precisava confiar em mim. –Riley levantou da cama e abriu a porta do quarto.
—Me desculpa. –ele levantou depressa. – É que o meu irmão... Quer saber, esquece tudo o que eu disse, eu confio em você.
A visão de Riley embasou. Todos os sons caóticos que ela ouvia sem parar desde a mordida de Josh silenciaram e o único presente era as batidas do coração de Tyler, o sangue pulsando e correndo pelas veias. Era como um instinto animal sussurrando a Riley onde ela poderia morder e fazer o sangue jorrar com mais força. Estava com tanta fome que não sabia se conseguiria manter suas mãos firmes. Tyler ainda esperava que ela dissesse algo, a olhava esperançoso, mas tudo o que ela conseguia pensar era em sangue.
—Riley? –ele estendeu a mão para tocá-la.
—Sai! –ela encravou as unhas na madeira até machucar a ponta dos dedos. – Vai embora, depois conversamos.
Tyler abaixou a cabeça e saiu devagar. Foi só quando as batidas do coração dele se tornaram imperceptíveis aos seus ouvidos que ela se permitiu cair de joelhos e chorar. Estava fraca e nem mesmo conseguia pedir socorro. Mas chamaria quem? Ela poderia tentar matar qualquer um que aparecesse ali, não confiava mais na sua sanidade. Pensou no Tyler, em seu pai que trabalhava tanto e até mesmo em Robert que estava esperando que ela fosse trabalhar hoje.
Precisava ser forte. Precisava se segurar, não podia matar ninguém. Não podia se alimentar. Todo o seu corpo tremia, podia sentir na língua o desejo.
Agora ouvia o coração de todos os seres vivos do quarteirão.
(...)
—Ela está morrendo! –vociferou Matt.
Jones apoiou as mãos na mesa do seu escritório. Quantas vezes no dia brigaria com seu sobrinho até ele perceber que haviam regras a serem seguidas? Olhou pela janela. Com uma matilha inteira para ser protegida, Matt estava ali pedindo que ele quebrasse um acordo oficial. Não podia ceder aos caprichos dele.
—Não posso ajudar Riley. –respondeu com pesar na voz. – Ela não pertence à matilha e mesmo assim, antes de tudo, se você estiver certo ela é uma mestiça.
—Josh a mordeu. –explicou Matt – Um vampiro no território em que você deveria estar protegendo, ela é a sua responsabilidade.
As mãos de Jones tremiam e ele as passou no rosto meio exasperado. Sabia que era uma questão de tempo até Riley machucar alguém ou ter um fim torturante, então seria responsabilidade dele se isso acontecesse. Entretanto ajudar a garota seria de alguma forma quebrar um tratado severo com quem quer que o lado vampiro dela pertencesse. Era difícil saber de qual clã Josh pertencia e se eles se revoltariam contra a matilha por curar uma transformada deles.
—Onde ela está?
—Não sei. –Matt falou meio receoso. – A deixei faz algum tempo.
A porta se abriu lentamente. Era Nora, mas não havia o típico sorriso que conquistava Jones todos os dias, só grandes olhos preocupados. Jones nem percebeu que já estava de pé pronto para ouvi-la.
—Tem uma garota aqui... –Nora estava confusa procurando as palavras certas. – Ela disse coisas estranhas, acho que ela... Ela é mestiça...
Matt nem mesmo esperou que Nora terminasse a frase correu para fora da sala. Jones não acreditou que Riley havia chegado tão longe e encontrado o acampamento. Correu também, com Nora logo atrás e se encheu de tristeza ao vê-la sentada na soleira de sua porta.
Antes que Matt pudesse tocá-la Jones interveio. Pediu com um sinal de mão que Nora o tirasse dali. Abaixou para ficar da altura de Riley, encarando assim seu rosto vultoso. A garota sorriu.
—Se não pode ajudar, me mate... -o choro silencioso naquele rosto pálido parecia uma pintura doentio. – Eu imploro, me mate logo... Não aguento. -sua mão pequena e magra agarrou a blusa de Jones com muito esforço.
—Tudo vai ficar bem. –a tomou em seu colo sem dificuldades.
Caminhou com o corpo mole dela em seus braços e sentiu o olhar pesado de cada membro da matilha. Quase podia ouvir seus pensamentos, ninguém ali queria problemas, alguns membros até mesmo tinham famílias humanas, contudo era quase inevitável não pensar que tudo ficaria ruim a partir do momento em que ajudasse essa mestiça.
Deitou Riley em uma cama no quarto de hospedes e observou seu sono tranquilo, embora mal se conseguisse ouvir sua respiração fraca. Nora entrou no quarto alguns minutos depois, não sorriu e isso fez Jones se sentir ainda mais mal.
—Você consegue sentir esse cheiro? –indagou cruzando os braços. Para humanos aquele odor era imperceptível, mas para eles era fácil identificar o cheiro de morte. – Vai assisti-la apodrecer e então dizer o que ao pai dela?
—Não posso fazer nada por ela. –explicou sem tirar os olhos de Riley. – Não posso ajudá-la.
—Pode sim, só basta escolher. –retrucou Nora no mesmo tom de voz calmo de sempre.
—Não sei a quem ela pertence. –insistiu. – Poderíamos estar iniciando uma briga muito feia com algum clã de vampiros.
—Prefere quebrar um acordo para salva-la ou prefere vê-la morrer sabendo que foi um vampiro que a transformou no nosso território? Eles quebraram o acordo primeiro. –Nora sempre fora muito boa em questionar as pessoas até convencê-las da sua verdade. – Vamos Jones, precisa reconsiderar me deixe fazer algo por ela...
—Você não conhece a história dela, nem mesmo sabemos sobre esse lado licantrope dela. Bill sempre pediu para que ficássemos longe, tenho certeza que ela está sendo escondida desse mundo por algum motivo.
—Tudo que eu vejo é uma menina, doente e totalmente ignorante sobre o mundo sobrenatural.
Jones ponderou. Não parecia certo se envolver com Riley, todos ali estavam levando o caso de forma muito emocional, mas ele era o líder e tomava a decisão. Ele não conhecia a verdadeira história por trás da vida de Riley e essa instabilidade lhe fazia hesitar. Estava tomando um rumo que traria serias consequências.
—Acorde-a. –pediu Jones ainda pensativo. – Vamos salva-la.
(...)
Nora havia injetado adrenalina em Riley. Precisava dela acordada. O corpo dela subiu contorcido e um gemido de dor preencheu a sala. Bateu de volta na cama de uma vez. Abriu os olhos como se tivesse recebido uma descarga elétrica. Não gostava de fazer aquilo, mas era necessário.
—Oi Riley, meu nome é Nora. –ela pousou a mão em cima da garota. Os olhos perdidos de Riley se focaram em Nora. – Eu sei que você está sofrendo e estamos dispostos a te ajudar. Precisa me dizer se tomou algum sangue desde que foi mordida. — Riley estava catatônica, apenas balançou a cabeça negativamente. Nora continuou. – Isso é bom, significa que posso curá-la, mas só o lado vampiro, porque licantropia é herança de família, sendo assim quando eu terminar você ainda será uma mestiça, metade humana e lobo. Tenho que adiantar que o processo de limpeza será muito doloroso e talvez...
Riley pegou no pulso de Nora, os olhos quase saltando de suas orbitas.
—Tira de mim essa vontade de matar. –suplicou com os dentes cerrados.
Nora assentiu e tirou a mão dela com delicadeza. Saiu do quarto a passos lentos, tinha que admitir que Riley possuía muita sorte por ser mestiça. Se um humano qualquer tomasse a cura, as chances dele sobreviver seriam quase zero, mas no caso dela sua parte licantrope iria regenerar os órgãos apodrecidos enquanto o sistema eliminava o veneno do corpo.
Seguiu para a sua sala se preparando para produzir a cura quando Matt a parou. Ele parecia insano ou era só a preocupação o enlouquecendo.
—Jones permitiu que eu a ajudasse. –falou Nora já prevendo que era isso que ele queria ouvir. Ela podia jurar que viu a expressão de Matt suavizar. – Você pode ir vê-la antes se quiser.
—Melhor não. –ele pareceu querer ir embora, mas parou. – Obrigado, eu sei que foi você que o convenceu.
Nora sorriu, vindo de Matt isso era um grande progresso. Ele sempre rejeitara o casamento de Jones com ela, nunca confiou que duas matilhas podiam se unir e por muito tempo acreditou que Nora fazia Jones mais covarde, mas ali estava ele agradecendo.
—Não deixe Riley estressada.
Matt deu um passou para trás confuso:
—Mas eu disse que não vou vê-la.
—Vai sim. –garantiu Nora e a risada dela foi abafada quando a porta fechou.
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