OCASO

3 O Despertar 1.3


Notas iniciais
"E as coisas ruins veem não para aqueles que merecem, mas para que os de bom coração possam ser mais fortes."

Quando o carro estacionou no acampamento, Matt quis dar meia volta e fugir daquela vida medíocre de cidade pequena. Ele sempre fora viciado nas cidades grandes, o transito caótico, a quantidade de pessoas que se conhece e se esquece todos os dias. Estar ali, naquele lugar, só o fez perceber que realmente se importava com seu tio, o ultimo parente que lhe restou. Bateu a porta do carro e tentou ignorar todos os olhares que se voltaram para ele. As pessoas simplesmente largaram suas tarefas para encará-lo, sussurram como se ele não pudesse ouvi-las. “Ele não é o irmão do mestiço? ”, “Dizem que ele também tem sangue sujo”.

—Bem-vindo de volta. –Jones apareceu saudando na porta de um casebre, vestia roupas leves, bermuda e regata, parecia mais jovem. “Sempre tem uma mulher envolvida nisso. ”, concluiu Matt ao vê-la aparecer do lado dele. – Acho que te contei sobre a Nora no telefone. –e mostrou a mulher de longos cabelos pretos e cicatrizes no pescoço.

—Na verdade você só falou sobre ela durante toda a ligação. –respondeu indiferente.

Jones engoliu em seco, estava tenso. Não era difícil só para ele, para Matt também era complicado rever o tio depois de como saiu da matilha. Fazia quase cinco anos desde Will.

—Você sabe por que está aqui, certo? –perguntou Nora delicadamente. Matt só fez encará-la, então ela continuou. – Estão te caçando, todos eles. Jones me disse que você viria de bom grado para cá, mas sei que às vezes ele só está querendo o melhor para você mesmo que para isso ele tenha que obrigá-lo. –ela fez uma pausa, respirou fundo. Matt ainda a encarava friamente. – Mas se você quiser, não precisa ficar.

—Eu vou ficar. –afirmou no mesmo instante. – Mas se coisas ruins acontecerem não posso ser responsabilizado depois.

Jones riu surpreso. Era verdade que Matt só era um imã de problemas, se envolvia em muita coisa que não era certo e no fim sempre acabava como culpado. Jones entendia isso, contudo não se cegava as coisas erradas que ele também fazia.

—Fique longe de problemas e você não será culpado por eles. –retrucou analisando bem o sobrinho. – E pare de usar drogas, elas só retardam o efeito, não é como se isso te curasse.

Matt ficou surpreso. Estava mesmo ali ouvindo uma lição de moral de Jones? Não, não poderia aceitar isso. Seu tio poderia pedir muitas coisas, fazer favores, ajudar um sobrinho encrencado, mas não era ninguém para dar lição de moral.

Percebendo que o clima estava ficando tenso e as alfinetadas do passado viriam à tona, Nora tratou de pedir licença para sair. Não ficaria ali e presenciaria uma briga de família, ainda mais daquela família que tinha tantos segredos e erros que precisariam de um dia inteiro para contá-los. Matt agradeceu silenciosamente por isso, já que por mais que Nora fosse uma boa pessoa ele ainda não conseguia confiar em tanta bondade.

—Não me olhe assim, como se fosse jogar alguma coisa na minha cara. –reclamou Jones, não estava com raiva, apenas impaciente. – Deixe tudo no passado e apenas tente recomeçar.

—Essa cidade é estranha. –comentou Matt se recordando da loja de conveniência no posto de gasolina. – Hoje mesmo mais cedo encontrei uma garota que era...

—Fique longe dela. –advertiu Jones interrompendo bruscamente. – Fique longe de problemas, só isso. –e saiu andando ao encontro de Nora, sem se dar ao trabalho de dar mais detalhes ou ouvir a reposta de Matt.

Obviamente Matt não era o tipo de pessoa que gostava de encrencas, mas era curioso o suficiente para saber que quando Jones se esquiva de um assunto é porque ele tem medo de encará-lo. O dia ainda não estava nem pela metade, não havia malas para desfazer, nem tarefas para serem feitas, mas havia um segredo para descobrir.

(...)

O vestido preto foi tirado do fundo do armário, naquele lugar onde as pessoas não costumam procurar roupa. Não serviu perfeitamente em Riley como antigamente, mas era o que tinha para aquela noite. Era uma tentativa desesperada de se enturmar com os antigos amigos, sem Tyler ela recorreu aos conselhos de Robert.

— Vai ficar tudo bem. –insistiu pela milésima vez ao pai. Ele perguntara que horas voltava, com quem ia e onde iria estar, inúmeras vezes. – Eu já disse que é no salão do Jones, vocês se conhecem há anos.

Bill pareceu ponderar por um breve momento, mas depois voltou para a postura carrancuda. Ele confiava em Jones e parte dele queria acreditar que Riley estaria segura lá, porém sempre foi do fetiche dele ser protetor com a filha.

—Quem vai com você? –indagou.

—Emily e Holly. –respondeu Riley revirando os olhos. – Eu brincava de boneca na casa delas, não é possível que você tenha esquecido.

—Eu ainda não sei se é uma boa ideia você sair depois daquela crise...

A buzina foi rápida e repetiu duas vezes interrompendo Bill no meio da frase. Riley pegou a bolsa e correu para a porta, não queria ficar mais um minuto ouvindo-o falar sobre como deveria tomar cuidado.

—Minha carona chegou, não posso atrasar. –acenou timidamente. – Até logo.

E antes que o pai pudesse se despedir também, ela fechou a porta de uma vez. Já na rua sentiu-se acolhida por um dia abafado com uma lua cheia brilhante. O teto solar do carro abriu e revelou uma Emily sorridente. Ela não era como Riley se lembrava, na sexta serie tinha o rosto cheio de espinhas e o cabelo loiro ressacado nas pontas, agora a mudança tinha sido drástica. Tinha os cabelos loiros em um corte perfeito na altura do ombro, os olhos verdes tão bem realçados em uma maquiagem forte que era impossível não se sentir hipnotizada. Não tinha mais espinhas.

—Não vai entrar? –perguntou Emily confusa.

Riley voltou de seus devaneios e abriu a porta do carro. O vapor quente de maconha lhe dando náuseas. Havia uma garota sentada ao lado do motorista que virou toda sorridente para Riley, ela tinha cabelos cor de cobre que caiam em uma cascata de cachos volumosos além de sardas no rosto escondidas por muita maquiagem, Holly sempre fora a mesma boneca de porcelana de sempre. Riley respirou sua última golfada de ar puro e entrou no carro batendo a porta devagar.

O motorista se virou. Tragava um cigarro comum e tinha feições que Riley custava a se lembrar de quem era. Ficaram se olhando por um tempo em silencio, até que ele riu e sua risada suavizou a sensação de nervosismo.

—Não lembra de mim, Riley? –questionou com uma pontada de decepção e mesmo que Riley se esforçasse para saber quem era ele, só se sentia mais frustrada. – Eu lhe dei aulas de reforço de Biologia, sempre fui muito bom com exatas. –soltou a fumaça de seu cigarro pela janela do carro, depois continuou. – Seu namorado me deu uma surra no primeiro ano por isso.

Riley arregalou os olhos surpresa. Sim, se lembrava dele. Foram colegas de sala por dois anos, de fato ele era muito bom em exatas e sempre foi disposto a ajudá-la na matéria que mais tinha dificuldade: Biologia. Com certeza se lembrava do surto de raiva do Tyler e se afastou do amigo por causa disso.

—Josh! –falou o nome estalando os dedos. – Como pude esquecer? Nem faz tanto tempo, ainda devo pedir desculpas pelo que Tyler fez? –brincou sem graça.

Josh riu e voltou-se para o volante, o motor do carro roncou e ele cantou pneus quando saiu. Riley percebia que tinha bons amigos, que embora fizessem coisas erradas, sempre quiseram o bem dela. Não entendia bem em que momento as perdia de sua vida, mas tinha certeza que as queria de volta.

(...)

Quando o som alto, a fumaça forte e as luzes ofuscantes atingiram Riley, ela quis no mesmo minuto voltar para casa. Parte dela insistia que ela nem devia ter aceitado esse convite, se sentia mal porque não conseguia parar de pensar em Tyler. Riley acenou para as amigas, contudo Holly e Emily estavam entretidas demais em uma dança sensual no meio da pista. Suspirou. Não havia muito que ela pudesse fazer a não ser sair de fininho e dizer no outro dia que foi embora porque passou mal. Sacou o celular e conferiu a hora, surpreendeu-se quando viu que tinha três chamadas perdidas de Tyler.

—Já vai saindo? – Josh apareceu por trás de Riley, o sorriso malicioso. – Não acha que elas vão ficar chateadas? –apontou para Emily e Holly que ainda dançavam como se não houvesse amanhã.

—Depois vou explicar a situação. –respondeu Riley balbuciando. — Não estou me sentindo muito bem.

Largou Josh com um aceno e apertou o passo para a saída da boate. Sentiu o olhar fulminante dele, mas se recusou a olhar para trás. Passou pelas pessoas, nauseada demais para se focar em rosto. “Tyler ficaria muito bravo por saber que ela está ali? ”, pensou repetidas vezes se torturando com a culpa. O celular pesava mais do que o possível no seu bolso.

No instante em que cruzou a porta de saída esbarrou com força em um garoto que entrava. Mecanicamente Riley pediu desculpas, mas se arrependeu quando seu olhar focou na figura que havia batido:

—Acho que nos conhecemos...

—E eu acho que nunca nos vimos. –rebateu o garoto passando por ela depressa, mas não antes de dar uma última olhada para trás.

Riley lembrou como uma lâmpada que acende de uma vez. Sabia que o havia visto na loja de conveniência, não era da cidade e havia comprado mais medicamentos do que o necessário. Antes que desse importância para aquelas palavras rudes o seu celular tocou e ela atendeu no segundo toque.

—Finalmente! –explodiu Tyler do outro lado da linha. – Que barulho é esse? Você está em casa?

—Não. –respondeu receosa. –Sai com algumas amigas.

—Amigas? –indagou pensativo. – Então.... Você.... Amanhã... Caleb...

—O que? –Riley cobriu a outra orelha na esperança de ouvi-lo melhor. Saiu do barulho da boate atravessando a rua. – Tyler, eu não estou te ouvindo.

Desligou a chamada. Ficou nervosa e nem sabia ao certo o porquê. Guardou o celular no bolso e começou a caminhar, se chegasse em casa rápido o suficiente poderia chamar Tyler pelo Skype e resolver as coisas. Estava imensamente arrependida e pediria desculpas se o encontrasse bravo. Virou a esquina e deu de cara com Josh.

—Que susto! – Riley recuou dois passos. Era possível que Josh tivesse ali com tanta rapidez? – Desculpe deixar a nossa conversa pela metade, realmente preciso ir já que Tyler...

—Tyler? –indagou Josh surpreso, sob a luz fraca do poste Riley podia ver o quanto suas pupilas estavam dilatadas. – Você ainda namora aquele idiota?

Riley riu nervosa, talvez até de deboche. Não estava pronta para iniciar uma discussão com Josh, por isso deu meia volta e começou a andar pelo caminho que tinha vindo. No mesmo instante ele a agarrou pelo braço.

—O que você está fazendo? –Riley balançou o braço inutilmente, estava presa ao aperto firme de Josh. – Me solta!

Uma brisa gelada percorreu a rua e Riley sobe naquele minuto que Josh não era mais o mesmo e que coisas ruins aconteceriam. Pensou em gritar, se jogar no chão ou tentar correr, mas ficou em choque incapaz de se mover. Josh a agarrou pelo rosto e com ferocidade encravou os dentes no pescoço de Riley, a fazendo por um breve segundo engasgar de dor. Ela fraquejou e suas pernas tremeram, mas ele a sustentou contra a parede.

Riley sentiu os músculos relaxarem e fechou os olhos diante da sensação. Um calor aconchegante cresceu dentro do peito e confortou todo o corpo. Era um prazer além de sexo ou drogas. Seu nível de sangue diminuía e mesmo que caminhasse para uma morte certa, Riley não se importava. Precisava que Josh continuasse ali, fazendo exatamente aquilo, porque se via inteiramente viciada naquele veneno que a consumia com um desejo único de morrer. Seu cérebro implorava para que o corpo reagisse, para que fizesse algo e fugisse daquele destino, mas nada respondia aos estímulos nervosos até que Josh a soltasse com um empurrão contra a parede.

Riley bateu a cabeça em alguns tijolos e deslizou ao chão atônica.

—Não pare. –suplicou em murmúrio involuntário, seu corpo clamava por mais daquela sensação e ela chorou em silencio incapaz de dizer “não” para aquilo que iria matá-la.

—O que você... –Josh estava ofegante. O sangue lhe manchava as mãos, a boca e a roupa. – Não consigo... –atravessou a rua atordoado e sumiu em meio às sombras de alguns estabelecimentos. Riley reprimiu o impulso de segui-lo porque não tinha forças para levantar.

(...)

Tocou a cicatriz que mostrava onde Josh havia mordido, se a pressionasse ainda podia sentir o topor correr pelo sangue como remédio anestesiante. Era difícil se concentrar no trabalho enquanto sua mente vagava pelas lembranças depois da boate. Alguma coisa havia mudado dentro de Riley e ela podia ver isso. O que quer que fosse, se remexia dentro dela e parecia a enfraquecer. Pensou que poderia contar a Robert o que aconteceu e o que estava lhe acontecendo agora, mas ao vê-lo entretido com suas revistas acabou desistindo.

—Quer me contar alguma coisa? –indagou Robert sem tirar os olhos da leitura, como se já lesse os pensamentos de Riley. – Geralmente você fala sem parar sobre quase tudo, mas está silenciosa hoje.... Alguma coisa te incomoda?

Riley arrastou os pés lentamente em direção ao balcão. Não queria dizer em voz alta, parecia absurdo demais contar a alguém que foi mordida quase até a morte, em parte também porque não tinha forças para falar mais alto do que sussurros.

Quando sua mão tocou o móvel solido e ela pode relaxar um pouco mais, o sininho da loja tocou e viu que quem entrava era o irmão de Tyler, Caleb, com um punhado de papeis na mão.

—Bom dia. –anunciou ele sorrindo de forma gentil. Era em muitos aspectos parecido com Tyler, o jeito de falar, os olhos azuis e alguns traços forte que lembrava o pai dos dois, mas fora isso, tinham personalidades muito diferentes.

—Meu bom rapaz! – Não havia ninguém mais, além de Sarah, que adorasse mais Caleb do que Robert. Ele largou a revista sem pensar duas vezes, estava entusiasmado de rever Caleb já que por um bom tempo foi importe na criação do garoto. – Quantos anos faz mesmo?

—Acho que três no máximo... –respondeu Caleb. – Estou de volta à cidade há poucos dias, sinto muito ter que vir aqui com notícias ruins...

—Você sobreviveu ao exército! –exclamou Robert brincalhão- O que poderia ser tão ruim?

—Não sei se você se lembra do Josh? –começou Caleb fazendo assim Riley estremecer diante do nome. – A família dele está desesperada, porque o garoto sumiu duas noites atrás depois de ir à boate do Jones. Já estão dando ele como desaparecido.

—Sim, eu me lembro. –confirmou Robert tomando um papel de Caleb e vendo o cartaz de desaparecido. – Não o vejo há muito tempo, mas era um bom garoto.

—De qualquer forma se tiver noticia dele... –seu olhar pousou em Riley analisando seu rosto, depois lhe entregou o papel com a foto de Josh. — Sei que saiu ontem com ele, não se lembra para onde ele foi ou se disse algo?

—Não. –mentiu desviando o olhar. – Ele só me deu uma carona para a boate, mal nos falamos.

Caleb a pegou pelo pulso chamando o olhar de Riley para ele.

—Você está bem? Meu irmão foi para a Universidade e eu imaginei que você ficaria muito mal. –ele a encarava profundamente mesmo que ela não sustentasse o olhar. – Mas você está péssima...

Riley forçou um sorriso e brincou:

—Não tão péssima igual a quem acabou de voltar da guerra. — Caleb riu e sua risada a lembrou de Tyler, com quem Riley não falava há dois dias. Respirou fundo, antes de continuar: – Acho que estou doente, mas vai passar.

Ele assentiu e acenou para ela e Robert enquanto se dirigia a porta. Riley leu o papel que segurava. Tinha uma foto de Josh, letras fortes que indicavam a palavra “Desaparecido” e os telefones para contato. Não sabia ao certo com o que se preocupar, com desaparecimento ou com o que Josh era capaz de fazer. Estava com medo, fraca e insegura para sequer andar. Quando Caleb abriu a porta e o vento gelado do Outono entrou na loja, Riley pode jurar que por um breve momento sentiu um cheiro de sangue inflamar sua garganta.

Notas finais
♪ - Run (Elsa & Emilie)