OCASO

14 Confiança 4.3


Riley encontrou o Matt deitado na beira do penhasco. Observava a lua cheia, mas como Jones dissera ele estava dopado demais para sequer notar a presença dela. Riley parou e sentou ao seu lado, agora também olhava a lua cheia, sentindo o corpo arrepiar lentamente. Havia chegado a temida época do mês.

Matt a olhou de soslaio, mas logo voltou a atenção para lua. Estava com os braços atrás da cabeça, realmente relaxado e por um momento Riley o invejou por isso, porque ela própria queria arranhar seu peito até que algo grande pudesse sair dela e aliviar aquela angustia.

—Tente não pensar muito na transformação que melhora um pouco. -aconselhou meio cansado. Fechou os olhos. – Faça coisas que te ajudam a relaxar e essa semana vai passar rápido, além de...

—Obrigada. -interrompeu bruscamente. Falou um tanto alto, fazendo Matt se assustar e abrir os olhos. – Obrigada por tudo, acho que nunca parei para agradecer, mas eu realmente reconheço o seu valor.

—Do que você está falando? -pareceu confuso por um instante, depois riu. – Ah sim... Acho que você é mais uma vítima das memórias de Jones, ele deve ter te mostrado algo deprimente sobre o meu passado e agora você está se sentindo tocada por essas lembranças e mais próxima do que eu sou de verdade.

—Talvez... -e riu nervosa.

Matt se levantou um pouco, usava os braços para se apoiar. Ainda sorria e isso era bom, passava a Riley uma tranquilidade única.

—E quão próxima de mim você acha que está agora depois disso?

—Pouco. -confessou observando Matt se sentar. Despertava nela uma curiosidade absurda de entende-lo, de conseguir ter uma conversa e saber como ele reagiria. Ou talvez não. Era justamente essa imprevisibilidade que ainda sustentava tudo. – Muito pouco, na verdade.

Ele se aproximou, as pupilas dilatas davam para ver o reflexo de uma Riley abatida e sombria pelo brilho da lua.

—E agora?

Riley prendeu a respiração. Algo vibrava, não conseguia pensar bem ou dar importância.

—Ainda é pouco...

Matt sorriu, tinha ouvido o que queria? O sinal verde depois de uma eternidade no vermelho. Virou o rosto e se levantou arrumando a roupa. Iria embora? Riley se virou também. Algo estava errado.

—Estava esperando mesmo alguma coisa acontecer? -declarou com desdém e Riley se sentiu atingida por aquelas palavras. Havia soado tão estupido. Contudo aquilo não era com ela.

—O beijo. -a voz desconhecida fez Riley congelar ali. — Já faz algum tempo que eu estou aqui esperando.

Riley encarou a figura esguia que surgiu das sombras que as arvores faziam. Vestido com roupas pretas e um casaco comprido até o joelho havia um rapaz meio pálido, com cabelos tão pretos como carvão e um sorriso afiado.

Vampiro.

Estava com todos os músculos tensos, se fosse acontecer alguma briga ali e agora não iria deixar Matt resolver sozinho. Olhou para ele e se surpreendeu ao vê-lo... Sorrindo?

—Pensei que estivesse morto. –falou Matt o puxando para um abraço amigável.

—Isso é alguma piada de vampiro? –perguntou rindo, uma risada tão mais amigável quanto o abraço. Voltou o olhar para Riley, os olhos azuis tão claros que se confundia com o branco. – Quem é a mestiça?

—Christopher, essa é a Riley. –apresentou com um gesto de mão. – Riley, esse é um velho amigo da infância, praticamente me viu crescer... Longa história.

Christopher sorriu, mas por algum motivo Riley o detestou naquele minuto ao retribuir o sorriso com esforço. Estendeu a mão para que ele apertasse e notou que ele usava luvas. Nem mesmo estava tão frio para aquele acessório, Riley o encarou. Continuava sorrindo quando a tirou guardou no bolso, a mão pálida a poucos centímetros da dela.

—Não é uma boa ideia deixa-lo te tocar agora. –aconselhou Matt a afastando.

Um momento de silencio enquanto Christopher recolocava as luvas ainda com o sorriso no rosto, parecia o tipo de pessoa que você nunca vai ser capaz de confiar, como um político que treina expressões confiantes, mas mente até em nome de Deus. Havia algo angelical e ao mesmo tempo sedutor nele, definitivamente alguém a ser estudado com cautela.

— Como nos encontrou? –perguntou Matt quebrando o silencio.

—Eu consigo sentir o cheiro de lobo russo há quilômetros, isso é um fato. –se gabou colocando as mãos no bolso. – Mas o que me traz aqui são as histórias que andam contando sobre essa garota, você sabe que toda essa atenção em poucos dias logo vai atrair o Conselho ou pior.

Matt olhou para Riley preocupado e depois voltou para Christopher.

—Sim, nós sabemos. –respondeu confiante. – Vamos resolver isso.

—Como você soube dessa história? –interrompeu Riley chamando a atenção dos dois. – Quem te contou sobre mim?

—O clã do norte estava espalhando a sua revolta por todos os cantos. –Christopher a mediu por completo, analisando. – Eles logo virão atrás de você e a princípio isso não me importaria até eu ficar sabendo que Matt estava envolvido nisso.

—Você é do clã do norte. –afirmou Riley cruzando os braços.

—E como você tem tanta certeza disso? –debochou retomando aquele sorriso cínico.

—Consigo sentir o cheiro de um mentiroso há quilômetros. –retrucou devolvendo o sorriso.

Christopher riu, mas foi o único, porque Matt apenas observava aquela cena em silencio.

—É uma acusação grave... Bem atrevida. –ele ponderou. – Nada mal.

—Tudo bem então. –Matt interrompeu bruscamente a conversa. – O que você sugere que façamos?

—Nada por hora, vamos esperar o Conselho marcar algo oficial e tentar ficar longe de mais problemas com o clã do norte.

Riley olhou para Matt e esperou encontra-lo desconfiado daquilo tudo como ela estava, mas viu que ele concordava com cada palavra. Que tipo de confiança estranha.

—Eu acho que devíamos conversar com meu pai antes. –declarou vendo que os dois decidiam algo por ela em um minuto de conversa.

—E seu pai é o que? Policial? –alfinetou Christopher se divertindo com esse jogo de respostas.

—Na verdade, caçador.

Por um rápido instante a expressão de Christopher fraquejou em toda a sua petulância, foi pego de surpresa, porque especificamente isso era novidade para ele. Um caçador que era pai de uma mestiça era no mínimo irônico.

—Ah sim, claro já ouvi falar da sua família. –falou depois de suspirar. – Então vamos ao caçador.

(...)

Tyler olha o próprio reflexo na janela do hospital. Nada externamente entregava que ele havia tomado sangue de vampiro. Caleb havia dito que o sangue de vampiro é rico em propriedades viciantes, em grandes quantidades causa dependência e ao mesmo tempo a ingestão disso em grande escala começa a deteriorar o corpo, deixando-o fraco. Não precisava se preocupar com isso por hora, desde que repousasse e não voltasse a fazer de novo.

Tyler parecia abatido, olheiras e alguns curativos simples perto da testa. Estava com uma blusa de frio e isso impedia que seus curativos nos braços e costas ficassem amostra, lá havia cortes e arranhões, nada grave também, mas que traziam lembranças estranhas do dia da festa.

Era difícil acreditar em Caleb com toda aquela história de seres sobrenaturais. Entretanto o irmão conseguia ser convincente, ainda mais depois de voltar atrás nas acusações de Riley, agora de acordo com a pesquisa que vem produzindo ela não possui a culpa, mas sim é vítima de uma série de eventos que a conduziram para esse lado.

Agora Tyler se questionava até onde isso era verdade ou loucura. De fato, tudo mudou após a morte de Josh, principalmente em como Riley passou a se portar. Parecia até mesmo surreal acreditar que Riley estava convivendo com gente tão estranha assim.

—Você já pode entrar. –avisou a enfermeira parando na sua frente. – Por enquanto só um dos seus amigos está acordado.

Tyler assentiu e entrou na sala hospitalar. Na cama com curativos no pescoço encontrava-se um Thomas abatido, ele sorria timidamente entre os tubos e aparelhos ligados ao seu corpo.

—Pelo menos você terá uma boa história para contar a Jennifer. –brincou enquanto se aproximava da cama. – Ela pode sentir ciúmes do seu sucesso com as garotas, as mordidas parecem bem safadas.

Thomas riu e tossiu seco:

—Você também tem que explicar as suas marcas para Riley. –o nome dela fez Tyler recuar, algo discreto que Thomas mal percebeu: – Mas no meu caso foi uma orgia... –e tirou o cobertor revelando mordidas nos braços e pernas também. Tyler ficou horrorizado pela quantidade de marcas, mas Thomas parecia tranquilo diante disso ou talvez só fosse os analgésicos retardando seus pensamentos.

—O que aconteceu lá?

Thomas balançou a cabeça, estava tão perdido quanto Tyler.

—Só sei que as coisas ficaram muito feias, eu e Scott morreríamos com toda certeza. –sussurrou como se contasse algum segredo. — Então veio o barulho de tiros e tudo virou uma confusão... No fim eu e Scott conseguimos correr, tivemos que pular uma janela, ele caiu de mal jeito, foi péssimo porque havia muito sangue e já não sabíamos se era o nosso ou de outras pessoas que estavam na festa. Aquilo parecia um banquete.

—E o que você acha que era aquilo?

—Eu não sei, cara. Não é o tipo de coisa que se vê na TV e tudo dito em voz alta parece loucura. –ele deu de ombros. – A polícia diz que era algum ritual, não acreditaram muito no que eu disse justamente por estar sob efeito de drogas. Seja o que for, gostaria de esquecer.

—E como o Scott está?

—Os médicos dizem que ele está pior, estava tendo uma hemorragia ou algo do tipo, agora ele está bem apesar de ter quebrado a perna. O mais estranho e irônico foi que Nora que o salvou.

—Nora?

—Ela nos tratou logo depois dos primeiros socorros feitos, talvez sem a ajuda dela teríamos morrido.

—Estranho isso, acho melhor que vou ver como ele está agora...

—Vai lá sim, afinal eu já estou cansado demais para continuar essa conversa. -se aconchegou na maca. Os batimentos cardíacos acalmando gradativamente enquanto ele fechava os olhos.

Tyler saiu depressa. Sua cabeça martelava com as lembranças que tinha com a Riley depois que ele partiu para a Universidade. O modo doentio que ela estava depois da morte de Josh e modo como parecia saudável demais de um tempo. Como agora frequentava outros lugares, conhecia outras pessoas. Especialmente um cara, que estava sempre presente em determinadas situações. Era isso que Tyler temia, estar sendo enganada por Riley todo esse tempo.

Esbarrou com Nora no corredor. Os ombros batendo com força e os fazendo cambalear. Ela parou e sorriu, um tipo de sorriso que se dá para quando se conhece a pessoa. Riley devia ter falado dele.

—Tyler, não é? -perguntou feliz por ter lembrado o nome dele.

—Vamos pular as apresentações? Eu sei o que você é. -falou baixo porque nem ele tinha certeza. – Sei que você sabe o que aconteceu na festa, o que você fez com os meus amigos e com a Riley?

Nora pegou no braço dele com força e o conduziu com facilidade para a sua sala perto do necrotério. Um aperto tão firme que contradizia suas palavras amáveis e rosto gentil. Uma força bruta que tirava qualquer dúvida de que ela não fosse humana.

—Eu salvei Scott e Thomas antes do processo de transformação, nada mais ou menos que isso. -suas palavras ríspidas, embora sinceras, eram ameaçadoras. – Não pode me acusar de nada, antes que eu acuse o seu irmão de algo pior porque eu sei o que vocês vêm fazendo. Não pensei que são melhores nisso do que eu.

—Transformação? Então o Caleb estava certo? -Tyler falava ainda mais baixo do que antes.

—Eles foram mordidos e sobreviveram, eu não daria nem 24 horas para a transformação ficar completa, mas eu evitei que o pior acontecesse. -Nora largou finalmente o braço de Tyler com um empurrão. – Se quiser as suas respostas vá atrás de Riley e se resolvam. Aliás, não esqueça de agradecer seu irmão pelo espetáculo da caçada dele no galpão, aquela sujeira toda vai ser difícil de encobrir. -e saiu da sala com um pisar de pés apressado.

(...)

Riley abriu a porta de casa, parecia que fazia anos desde a última vez que entrará lá. A primeira coisa que viu foi a fotografia da família na parede e não reconheceu ninguém na foto, como se aquelas pessoas, sua mãe, seu pai e até mesmo ela, só estivessem fingindo aquele momento feliz.

No sofá seu pai, Bill, concertava uma câmera fotográfica. Riley não esperava encontra-lo fazendo isso, achava que agora que ele não precisava esconder a verdade ele pararia com essa vida de simples fotografo. Contudo veio a ideia de que talvez ele não fingisse ser isso, na verdade havia a possibilidade de fazer aquilo porque realmente nunca gostou de ser um caçador.

—Temos visitas Riley? –perguntou o pai sem levantar o olhar. – Porque um vampiro te acompanha?

—Pai, esse é Christopher. –abriu espaço para que ele entrasse. Bill levantou o olhar e sorriu, realmente feliz em ver Christopher. – Deixe-me adivinhar, vocês também são velhos amigos?

—Há mais tempo que você pode imaginar. –declarou abraçando Christopher. – Esse rapaz era da época que eu e sua mãe lutávamos por reformas no Conselho, ajudou em alguns casos infiltrado no clã do norte.

—Traidor? –indagou Riley para Christopher. – Não errei tanto.

—Por um bom motivo. –justificou-se. – Alguém precisa estar próximos dos inimigos para destrui-los por dentro.

Riley lhe preparava outra resposta, mas Bill foi mais rápido:

—O que te traz à cidade?

—Sua filha anda fazendo uma festa bem animada nas últimas semanas, chamou a atenção do Conselho e conseguiu desafiar o clã do norte matando 3 membros de lá. –explicou encostando-se em um móvel. – Virão atrás dela e ainda mais rápido quando eles ligarem os pontos sobre o passado de vocês.

—É lua cheia, temos uma vantagem nisso, precisa ter muita ousadia para atacar alguma matilha nessa época. –completou Matt. – Já o Conselho vai ficar do nosso lado quando ouvirem a história toda...

—O Conselho? –debochou Bill coma uma risada irônica. – Eles brincam de estar no poder, não sabem nem de longe o que fazer contra o clã do norte. O máximo que vão dar a Riley é um protetor da sua guarda de elite.

—O que é isso? –perguntou Riley ao perceber que só ela não sabia.

—O Conselho adota seres sobrenaturais com habilidades únicas, para formarem uma guarda de elite. São vampiros, licantropes, caçadores e bruxas bem treinados. –explicou Bill gesticulando ansioso. – Quando souberam que eu e Valerie estávamos nessa de “igualdade”—e fez aspas no ar. – Eles enviaram Christopher para nos ajudar há muito tempo. Que Christopher me perdoe, mas é só isso que eles sabem fazer, sacrificar peões.

—Christopher era da guarda de elite do Conselho sendo do clã do norte? –Riley se sentia ainda mais perdida, era terrível ver que só ela parecia ausente das informações.

—Veja bem, -dessa vez tomou a iniciativa de explicar foi de Christopher. – Eu era da guarda de elite do Conselho, fui treinado e enviado para auxiliar seus pais me infiltrando no clã do norte. Obviamente as coisas não tomaram o rumo mais agradável.

—Pois é, minha mãe morreu. –foi dura nas palavras para que todos no lugar entendessem o quanto as coisas deram errado na primeira vez.

—O problema é que um simples guarda do Conselho não vai ser suficiente para te manter segura. –continuou Christopher indiferente as palavras amargas de Riley. – Fugir também não é uma opção, mas é importante que nos preparemos para o pior em breve.

—Certo. –concordou Bill balançando a cabeça. – Matt, avise Jones sobre nossa situação atual, precisamos planejar as coisas antes que as mortes comecem a acontecer.

Riley se ausentou do som daquela sala. Todos falando e falando como se já esperassem por isso desde o dia em que ela se transformou, estava lhe deixando tonta. Parecia tanta coisa para se absorver que se sentiu mais uma vez indefesa à morte, como se ela espreitasse a todo momento. Uma série de coisas ruins, para algo ainda pior acontecer.