OCASO
15 Confiança 4.4
Riley estava sentada em sua cama e Matt sentado no chão ao lado. Ela desenhava em uma folha de papel pardo e com uma caneta permanente Matt fazia uns desenhos estranhos na palma da mão esquerda dela, onde as ataduras estavam. “Um desenho legal como no gesso”, ele dissera e ela aceitou indiferente. Nenhum dos dois havia dormido aquela noite. Nem mesmo Bill que no andar de baixo, na sala, limpava algumas armas velhas. Por algum milagre, ele havia deixado Matt ficar desde que a porta ficasse aberta.
—Já não passou da hora em que você diz que vou morrer com aquele ar de indiferença? –perguntou Riley sorrindo.
Matt a olhou de canto, a expressão séria, concentrado demais em seus rabiscos sem algum significado aparente.
—Dessa vez eu prefiro dizer que não vou te deixar morrer.
Riley sentiu o peso daquelas palavras, uma promessa propriamente dita.
—As coisas estão tão ruins assim?
—O suficiente para Christopher estar aqui, então sim.
—Ele também foi enviado para a sua família, não é?
Matt se surpreendeu parando de desenhar. Riley viu que não estava mais dopado, aquele olhar era um misto de preocupação e cansaço.
—Sim, para o Will. Com o objetivo de o matar, mas o poupou e isso o levou a ser expulso do Conselho, o que mais tarde desencadeou uma serie de julgamentos, meu pai e Will terminando mortos. Christopher quase foi, se não tivesse sido absolvido de sua traição para realizar uma missão quase suicida e sem sucesso.
—A missão com a minha família. – completou Riley e suspirou. – Não imaginava que Christopher fosse esse tipo de vampiro.
—Não existe o lado bom e mal, em nenhum dos mundos. Apenas pessoas lutando por seus ideais acima de sua espécie. -declarou voltando a desenhar. – E de alguma forma, Christopher tem todos nós em dívida com ele.
Alguns minutos de silencio se seguiram até Riley terminar o seu desenho. Parou e observou a obra, quase uma réplica perfeita do último desenho que mostrara a Matt. Macabro e deprimente. Jogou para o lado frustrada.
—Ei, não balance a mão, vai me fazer errar. -advertiu Matt sorrindo.
—Errar o que? Esses desenhos estão horríveis. -rebateu Riley rindo, vendo que agora havia pequenos símbolos até o cotovelo. – Você é péssimo nisso.
—Não me culpe só porque você sabe fazer pessoas sangrando e eu algo mais simples. -puxou o braço dela para terminar o desenho.
—Não! -Riley o afastou para que não continuasse aquilo, antes que ficasse difícil demais para tirar, mas ele era insistente. – Não quero rostinhos felizes no meu braço.
—Não são rostinhos felizes. -ele parou a caneta no ar. – Tem um significado.
—E qual seria?
Uma batida na porta aberta, apenas por educação. Parado ali estava Tyler. Riley viu seu sorriso sumir, na verdade tinha até parado de se mexer. Não tinha percebido que ele havia entrado na sua casa, nem mesmo tinha ouvido Bill abrir a porta e agora tinha péssimos pressentimentos.
—Bill me deixou entrar, então eu...
Matt se levantou depressa colocando a caneta na mesinha ao lado da cama. Riley quando percebeu também estava de pé. Uma situação constrangedora demais. Será que seu pai sabia da gravidade daquilo? Devia ter feito involuntariamente.
—Tyler, não é? Sou Matt. -estendeu a mão para cumprimenta-lo. Riley se pegou recuando dos dois, evitando olhar aquela cena, então não sabia dizer se Tyler havia cumprimentado Matt. – Riley me falou muito de você, então não vou ficar aqui atrapalhando o assunto. -parecia tão natural a voz dele que Riley teve que olhar. Ambos sorriam. – Vou indo... -e deu um breve aceno, seguindo depressa para a saída.
Tyler ainda sorria amigavelmente quando Riley o abraçou com um impulso. Sentindo todo o seu corpo quente contra o dela. Se afastou e ele pegou o seu braço desenhado, observando os símbolos sem sentido que Matt havia feito. Riley abaixou o abraço a força e depois tocou o curativo que ele tinha na testa. Se sentiu aflita, aquilo parecia algo que ela se recusava a pensar que poderia ser. Respirou fundo e sentiu o cheiro de vampiro na pele de Tyler, como um suor intenso e imperceptível a humanos. Ficou ofegante por um momento, não conseguia imaginar Tyler passando por algo semelhante ao que ela passou com Josh.
—Precisamos conversar. -finalmente ele disse algo.
—Sim, claro. -Riley estava afobada, mas não conseguia evitar.
Ele parou por um minuto, a expressão mudou para assustado.
—O que foi? -ela seguiu o olhar dele para o desenho que ela havia feito há alguns dias. O galpão com o letreiro “Pecado dos Deuses”.
—Onde você viu isso? -perguntou sem desviar o olhar.
—Em nenhum lugar, apenas senti vontade de desenhar. -deu de ombros, estava confusa com aquela pergunta repentina dele. – O que está acontecendo, Tyler?
—Não sei. Eu... não sei por onde começar. -ambos se sentaram na cama. – Sabe aquela festa que Scott me convidou? -Riley assentiu seria. – Eu fui nela, é perto desse lugar que você desenhou, o que é estranho porque as coisas que aconteceram lá também, de certa forma, envolvem você.
—Você precisa me contar tudo.
Então Tyler falou. Falou tudo o que Caleb vinha investigando, as fichas e documentos roubados. As pistas que começaram a aparecer conduzindo ele por um caminho que o levaria para o momento exato de festa. Contou como havia garotas estranhas e o que elas tinham feito com Scott e Thomas, além dele. Do que Caleb precisou fazer e de como agora estava confuso com a história que ele usou para explicar tudo. Depois da conversa com Nora e de que como as coisas pareciam se encaixar.
—Eu cheguei a acreditar que você era inocente nisso, perdida em um turbilhão de acontecimentos, a mais humana que poderia ter nessa história toda e até mesmo Caleb cogitou isso, mas depois da conversa com a Nora eu pensei: E se ela não fosse a secundária, mas o principal motivo para que tudo isso acontecesse? E se ela estivesse mentindo para a única pessoa que jurou sempre confiar? -os ombros de Tyler caíram, um sinal de derrota. – Te tornar inocente na história sempre me deixava mais confuso, mas no momento em que eu te enxerguei como um deles tudo fez sentido. O que você realmente é?
Riley abriu a gaveta da sua mesinha e pegou a tesoura que guardava para artesanato. Com a lamina cortou as ataduras que envolviam sua mão, o pedaço de pano desenhado caindo no chão junto com uma lagrima discreta sua. Exibiu as cicatrizes.
—Vampiros fizeram isso comigo com prata, eu sou metade lobo. -outra lagrima tranquilamente escorreu da sua bochecha e caiu no chão. – Não lhe contei nada porque existe pessoas que querem me matar e sempre vai existir algo ainda pior para me acontecer, mas quero que com você seja diferente. Precisei poupa-lo.
—Você não precisava me enrolar, me dizer coisas bonitas e me fazer pensar que estava tudo bem, quando não estava. -suas sobrancelhas se curvaram, seu olhar nas ataduras no chão. – O pior de tudo isso é que se eu tivesse ouvido aquela vozinha mansa no fundo da mente, eu já teria percebido que isso nunca teria dado certo, com vampiros e lobos no meio ou só um cara misterioso e mais bonito chegando na cidade, era um adeus no momento em que eu entrei no táxi e foi um adeus quando brigamos depois do velório do Josh e outro mais quando nos encontramos na praia. Tantas despedidas não foram suficientes pra nós?
—Sinto muito. -mais lagrimas rolando pelo rosto de Riley, a visão embaçando. Seu pai estava certo, não tinha um método menos dolorido para tirar Tyler da sua vida.
—Você sempre foi incrível demais para mim, inteligente e habilidosa. Avançando naturalmente, até que chegasse a esse momento e eu não pudesse mais alcança-la. -ele sorriu suave, uma leve inclinação nos lábios. – Um fardo humano não é do que você precisa, então você precisa me perdoar por levantar e ir embora. Não porque eu deixo de te admirar ou te respeitar, mas só porque agora não adianta correr mais atrás de você.
—Não precisa fazer parte disso, não vou obriga-lo a continuar aqui e mais tarde ser morto por algo pior que aquelas garotas na festa, então se quiser pode se levantar, esquecer de tudo isso e eu te prometo que será como se essa Riley, -apontou para si própria- Nunca tivesse existido.
Tyler tocou seu rosto e ela avançou. Estava chorando enquanto o beijava. Não havia nada de mágico ou especial, apenas o gosto salgado das lagrimas deixando tudo mais angustiante para os dois. Ele apertou suas costas e sua nuca. Ambos queriam, mesmo que tudo fosse tão forçado. Uma tentativa de despedida onde nenhum dos dois queria dizer adeus. Não era como antes em que os corpos dançavam até se renderem ao lado instintivo. Era a necessidade de terminar tudo com algo para se lembrar, um beijo agendado para aquele momento porque não haveria chance de fazer de novo.
Riley parou com aquilo, não havia mais lágrimas. Com as mãos cicatrizadas tocou os machucados no rosto de Tyler mais uma vez e sorriu. O amava tanto que se sentia feliz por deixa-lo partir, aliviada em saber que diferente dela, ele teria a chance de viver mais um dia sem pensar se é o último:
—Dessa vez, um verdadeiro adeus.
(...)
Riley se ajoelhou na mata recém molhada pela chuva, a terra fofa era confortável para os joelhos. Apoiou as mãos no chão e respirou fundo. A lua iluminava as suas costas. “Vamos, se transforme!”, ordenava para si. Tentava inutilmente há mais ou menos duas horas. Era uma péssima vontade que a assolava, suplicava pela forma de lobo, mas nada vinha, nem um tremor. Bateu no chão com violência, a terra lhe borrando os braços e roupa, estava farta. Não conseguia e no fundo não queria, mesmo que dentro de si algo se revirasse.
Estava se sentindo incapaz de lidar com o término de namoro. Obviamente era algo esperado, que ela planejava com cuidado há dias, mas sempre era diferente do esperado. Queria que Tyler partisse porque era o certo a se fazer, mas precisava que ele ficasse porque agora entendia o que seu pai queria dizer. Precisava desse fio de humanidade na vida dela, uma pessoa que ela se importasse e que se importasse com ela para que no futuro próximo ela não se perdesse na crueldade que existe entre os seres sobrenaturais, para que ela fosse sempre uma mestiça, parte humana e parte licantrope.
Afundou os dedos na terra, cavando devagar. Sentia a energia do solo, a vida ali na floresta e as suplicas daquilo para que ela se transformasse e pudesse se conectar com aquela mágica sensação. Respirou fundo e travou os dentes. Se fosse para sair, teria que sair agora.
—Você não vai conseguir desse jeito. -anunciou Christopher se aproximando lentamente dela. Agachou para ficar de frente para o seu rosto. Era assustador como sua expressão podia se congelar em algo macabro. – Precisa se esforçar de outro jeito, imagine o ato de vomitar, péssima comparação eu sei, mas as você precisa entender que nem sempre vomitar é algo involuntário, você pode induzir seu corpo a isso. Basicamente você precisa encontrar a sua alavanca que desperta a besta, o interruptor que induz ao vomito. Um sentimento ou uma lembrança...
—O que um vampiro entende de transformações de lobo? -debochou sem piedade.
—Você tem razão, mas eu aprendi muito convivendo com os lobos de várias gerações. Anos de experiência. Não é qualquer um que entra para a guarda de elite do Conselho. -estendeu a mão para Riley, estava com as suas luvas, mesmo no calor absurdo daquela noite. Ela recusou e levantou sozinha. – Você sabe o que isso representa? Ser da guarda do Conselho?
—Que você era o cão de caça? -Riley limpava sua roupa enquanto falava. Chris era irritante de um jeito único, constantemente se exibindo. – Francamente não me importo.
—Eu era especialista em interrogatórios. -continuou ignorando as palavras de Riley. – Minha habilidade única de ler a vida de uma pessoa com um toque me permitiu capturar os inimigos e desvendar os maiores segredos. Por isso Matt não me deixou toca-la, em apenas alguns segundos eu descobriria tudo sobre você, até onde, como e quando você comeu seu primeiro chocolate, além de sentir exatamente o que você sentiu naquele instante. Não que eu realmente tenha interesse nisso, apenas sou curioso para o saber o que a única mestiça viva dos lobos brancos faz em uma cidade dessas e de repente está envolvida com o clã do norte até o pescoço.
—Circunstancias, escolhas e motivos... -justificou vagamente. Não podia negar que estava impressionada com Christopher, se o que ele dizia era verdade, então era algo a se temer. – Acho que você deve entender isso, as circunstâncias, sabe? Afinal, as circunstancias levaram Will a morrer enquanto você o protegia e levaram a minha mãe a morrer enquanto você a protegia.
Chris riu, talvez gostasse de como Riley não mediava as palavras com ele.
—Nunca fui enviado para proteger o Will, fui enviado para mata-lo, assim como nunca fui enviado para proteger sua mãe e sim você.
Riley recuou assustada pela revelação. Não podia ser isso, nem mesmo fazia sentindo. Riley não se lembrava de Christopher, não tinha como o Conselho ter enviado ele para protege-la. Suas lembranças nunca a enganaram, seu passado não podia ter falhado nisso também.
—Tudo bem, Riley, não se esforce demais para lembrar o que nunca existiu. Nunca cheguei a ter contato com você, digamos que as circunstancias... -e falou a última palavra como uma alfinetada em Riley. – Nunca permitiram que eu pudesse realizar essa missão, Alana não gostava de saber que a filhinha dela teria contato com o mundo sobrenatural, por isso me convenceu a me infiltrar no clã do norte e extrair informações para a causa que seus pais lutavam.
—Você estava disposto a se sacrificar pela Causa? -questionou cruzando os braços. – Deixar seu posto na guarda de elite, para se arriscar pelos meus pais? Mesmo que sua missão inicial fosse me proteger.
—Acredite em mim, te proteger era mais perigoso do que a infiltração. Naquela época não só o clã do norte caçava mestiços, havia caçadores de outros clãs de bruxas e vampiros interessados no seu sangue e também havia a família da sua mãe que não queria a linhagem pura deles marcada por uma mestiça. Mas esse não era o real motivo, eu lutava pela causa porque tive fé -ele pareceu se arrepender de usar essa palavra. – De que a causa poderia ajudar o Will, naquela época o Conselho já havia descoberto tudo e Henry estava morto, eu precisava esconde-lo e ao mesmo tempo prestar os serviços impostos pelo Conselho para que eu também não fosse morto.
—E eu? Como ninguém me encontrou?
—Não sei, Bill estudou um tempo com os monges na Rússia. Ele era bom com magia negra, provavelmente usou isso para sumir dos radares com você. -levantou as mãos com uma expressão de “Quem pode saber sobre tudo?”. – Muita coisa acontecia nesse tempo, mas a verdade é que a sua história e a do Will era separada por um fino fio, por muito pouco não se colidem.
Riley se sentiu desconfortável com essa ideia. Ela e o Will se conhecendo seria uma massa de problemas muito maior, mais pessoas morrendo. Afugentou os pensamentos quando viu Chris tirar a luva.
—O que você está fazendo?
—Você pode me ouvir falar por horas ou posso te mostrar as minhas lembranças, -estendeu a mão- Vai doer um pouco, mas será um processo quase igual ao dom que os licantropes tem de memória compartilhada. Toque.
—Por que eu faria isso?
—Sei que boa parte das coisas que eu digo você não acredita, então posso mostrar. -balançou a mão insistente. – É como uma correnteza, puxe a lembrança que você quiser e seja levada por ela.
—E como eu saberei que você não está nas minhas lembranças também?
—Não tem como evitar Riley, você me deixa curioso, é um preço a se pagar. -ele suavizou a expressão de forma angelical, os olhos azuis como o mar do horizonte. – Vamos, não me olhe assim, eu sou o único que pode te mostrar os fragmentos que faltam dessa história. O início de tudo, Matt, Will, seus pais e a Causa. Toque.
Respirou fundo e pegou aquelas mãos gélidas. Algo no fundo da sua consciência lhe dizia que a expressão angelical não era algo bom, como Lúcifer que também era um anjo, mas foi expulso do céu.
De repente Riley parou na escuridão agarrada ao seu próprio corpo, estava nua e tremia, era solitário, um sentimento de desespero e medo aflorava. Estava perdida. Fechou os olhos e iniciou uma oração.
Não.
Não se tratava de uma oração. Era as lembranças de Christopher sob o seu comando.
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