OCASO
13 Confiança 4.2
Tinha acabado de trocar as ataduras por novas quando alguém bateu na porta. Riley se assustou porque costumava fazer aquela troca concentrada, qualquer erro e a dor absurda faria seu corpo inteiro tremer. Vestiu a blusa o mais rápido que foi possível. Os dedos trêmulos receosos de encostar-se às cicatrizes expostas. Esperava que fosse Matt, ansiava que fosse ele. A conversa no penhasco havia os aproximado, gostaria de poder ter mais momentos como aquele.
-Entre. –disse afinal.
A porta abriu com um rangido fraco e revelou Jones, em toda a sua postura acanhada e deslocada. Ele sorriu tímido, pouco à-vontade para prosseguir. Foi só quando Riley o incentivou que ele entrou por completo.
—Ainda não tivemos a chance de conversar. –adiantou-se assumindo um ar mais sério. – Se importa de me acompanhar?
A última conversa que tivera com Jones havia sido um tanto frustrante. Mesmo com o convite para entrar na matilha, Riley lembrava que ele havia dito muito pouco sobre as coisas e frisado que seria importante se ela deixasse Matt longe de todos os problemas que a envolvia.
—Claro. –respondeu com um sorriso forçado e o seguiu para fora da pequena casinha onde ela morava temporariamente.
O lugar era pequeno e delicado, poucos moveis, mas esses poucos encaixados em seus cantos fazendo tudo ficar aconchegante. Seu pai vinha vê-la todos os dias, mas precisava cuidar da casa deles na cidade. A verdade é que Riley sentia falta da sua casa, do seu quarto e seus desenhos, lembranças do que ela era, mas tinha medo de levar o perigo a seu pai. Ali no acampamento, as chances de lhe acontecer alguma coisa eram mínimas.
Do lado de fora viu as pessoas conversando em uma mesa de madeira, jogavam baralho e riam. Ninguém nunca diria que essas mesmas pessoas se transformavam em lobos gigantes prontos para matar. Aquele lugar parecia apenas um acampamento onde famílias se encontravam no verão para fazer trilha e contar histórias envolta de uma fogueira.
Quando Riley passou com Jones, algumas pessoas se viraram para encarar, os olhos julgadores já estampados em seus rostos. Ela abaixou a cabeça numa tentativa de passar despercebida. Jones pousou a mão nas suas costas a conduzindo para longe deles.
—Não se deixe enganar. –comentou baixo. – Isso nunca vai parar, sempre vai haver pessoas assim, te julgarão por ser mestiça, por ter matado alguém, por ter errado alguma vez. Abaixar a cabeça não vai torná-los menos opressores, apenas seja você e conquiste seu espaço. –olhou nos olhos dela. O mesmo olhar que Matt tinha quando falava sério. – Agora você faz parte disso.
Riley assentiu firme.
Passaram por Matt que vinha com uma roupa velha e suja de terra. Estava ofegante, suado, como se tivesse corrido e rolado por toda a floresta que cercava o acampamento. Andava devagar, mas a passos firmes enquanto encarava o chão. Riley percebeu de canto de olho que Jones observava sua reação, esperava ver como ela ficaria diante do sobrinho.
Matt levantou o olhar e mesmo quando focou em Riley nada em seu rosto mudou. Nem por um momento ele pareceu querer parar de andar ou falar alguma coisa. Voltou o olhar para o chão com naturalidade e foi embora passando a poucos centímetros dela.
—Matt sempre foi uma pessoa difícil de se aproximar. –adiantou-se Jones enquanto apontava para Riley o caminho da trilha que deveriam entrar. – Nunca espere entender ele por completo.
Riley o encarou confusa.
—Então agora você aprova a minha amizade com Matt?
—Não e talvez eu nunca ache um jeito de afastar Matt dos problemas, mas vocês se escolheram e de certa forma vão se ajudar. –balançou a cabeça e riu. – Essa última parte quem me disse foi a Nora, eu costumo ouvir seus conselhos.
—Pensava que depois de saber a história de Will eu fosse capaz de entender como Matt vê as coisas... E ele me faz pensar que eu o entendi, quando na verdade ele está apenas me afastando de algum jeito. –Riley vagou nas próprias lembranças. — Ele sofre e eu não sei se é pela falta de Will ou por ver o irmão dele em mim. Eu queria ajuda-lo tanto quanto ele está disposto a me ajudar.
Jones se sentou em uma raiz gigante de uma arvore que era quase impossível ver o topo. Ficou pensativo. Riley se perguntou o que passava na cabeça dele. Só quando ele se ajoelhou e começou a tremer que ela entendeu que ele se preparava para uma transformação. Os ossos se suas costas se mexiam quebrando e remontando. Ela teve que segurar o impulso de ajuda-lo, aquilo estava a deixando angustiada. Tampou a boca quando a fera gigantesca pareceu explodir de dentro dele, rasgando suas roupas e afundando a terra com suas pesadas patas.
A forma de lobo do Jones era surreal. Muito maior do que Nora ou Matt, aterrorizante demais com seus pelos pretos desbotados e presas do tamanho de uma mão. Riley sentiu a impotência do alfa da matilha e não pode reprimir o instinto de cair de joelhos. Era o lobo que a comandava mesmo que ela não estivesse transformada. Cada parte de si sentia uma confiança inexplicável em Jones naquele momento.
O lobo respirou mais perto do rosto de Riley e ela estremeceu, não por medo, mas pela audácia daquela situação. Estendeu a mão, mas não o tocou. Estava mais uma vez maravilhada por uma transformação, seus olhos diziam por si só que ela encontrou felicidade em ver que ele também era assim por dentro. Especial e forte.
Jones avançou mais e deixou que a mão de Riley tocasse o topo do seu focinho. O pelo quente e macio fez com que ela se enchesse de expectativa porque sabia o que viria a seguir e mal podia se aguentar por mais lembranças de um passado que ela não conhecia.
O céu era tempestuoso e embora a paisagem indicasse uma tempestade iminente, a chuva que caia era fina e constante fazendo o chão ficar lamacento. Dois garotos ofegavam de joelhos naquela terra, um de cabelos cor de madeira e outro de um tom de loiro escuro, como um amarelo manchado de marrom. Estavam exaustos, a chuva encharcava suas roupas e escorria de seus rostos abatidos. Hematomas aqui e ali lhe davam um ar fraco e prestes a quebrar.
—Não mandei que vocês parassem, continuem treinando. –ordenou Henry apontando para os garotos. Ele e Jones se encontravam na varanda do casebre, sentados e secos, observando.
Jones o encarou abismado.
—Não deveria cobrar tanto assim de suas transformações, são apenas crianças.
—Não posso dar a eles o luxo de serem fracos. –justificou – São filhos do alfa da matilha.
—Não seja tão egocêntrico irmão, nos dois sabemos que você demorou anos para conseguir controlar a raiva nas suas transformações. –entregou Jones sorrindo. – Eles não têm que provar nada a ninguém, ainda mais o Will.
***
Naquele tempo, quando Matt e Will eram crianças, Henry e Jones costumavam frequentar o casebre onde Will ficava escondido do mundo. Na maioria das vezes Henry trazia algo ao filho bastardo, lhe ensinava coisas sobre seu lado licantrope e voltava para o acampamento. No entanto quando os garotos começaram a crescer, viu que precisava prepara-los para os maiores desafios que viriam com o passar dos anos. Cobrava deles responsabilidade e habilidades bem treinadas.
Contudo as transformações não são nem de longe tão simples, principalmente as primeiras. Dentro de um licantrope existe algo que o corpo humano nunca vai ser capaz de suportar por completo, sempre vai doer e cada vez se tornará mais traumatizante. A transformação não é só física, mentalmente a besta que irrompe de um licantrope vai colocá-lo em um estado torturante a sua personalidade e sensível aos seus sentimentos.
***
—Já não sei mais como lidar com Matt. –desabafou Henry. – Mesmo depois de tanto meses treinando ele ainda sofre com os ápices emocionais, desse jeito ele nunca vai conseguir se controlar nas luas cheias.–pensou enquanto observava o Matt ainda no meio de uma transformação.
—Não cobre tanto do garoto, ele vai conseguir. –tranquilizou Jones. – Veja só Will, já consegue se transformar quase tão rápido quanto um adulto, é impressionante.
—Mas Matt é meu sucessor, ele precisa ser perfeito nisso. –explicou com um tom de fúria na voz. – Will não... Ele não precisa ser tão bom, o que eu quero dizer é que sinto as coisas com ares diferentes e se acontecer alguma coisa comigo, Matt precisa ser forte pela nossa família.
***
Mesmo com o passar dos anos houvesse pequenos progressos nas habilidades de Matt, ficou claro que ele nunca seria tão bom nisso. Sua instabilidade emocional não o permitia ser totalmente racional nas batalhas e Henry por muito tempo se cegou ao filho mais velho com medo de culpa-lo por algo que ele não tinha controle. Já Will demonstrava aptidão em tudo o que se propunha a fazer, era bom naquilo e ponto, sem muita dificuldade alcançava um caminho glorioso.
***
Henry encontrava-se pensativo em sua cama ao lado de Valerie que lia um livro em silencio. Matt os observava atento pela pequena brecha na porta, esperava que eles conversassem algo sobre o treinamento que aconteceu mais cedo naquele dia.
—Alguma coisa te preocupa? –perguntou Valerie fechando o livro e encarando o marido. – É sobre o Will? – e sussurrou tão baixo o nome do garoto que Matt duvidou por um momento se tinha ouvido certo.
—Não tanto dessa vez. –respondeu Henry afundando na cama. – Alias Will está quase perfeito em sua transformação, você precisava ver como agora em quase um minuto ele está completamente...
Valerie tossiu seco para interrompe-lo. Nunca foi segredo para ninguém que embora ela aceitasse Will, nunca aprovou uma aproximação ou mesmo gostou do garoto. Aceitava principalmente por Matt, que amava o irmão acima de qualquer traição envolvendo aquela criança.
—E o nosso filho? –perguntou conduzindo a conversa.
Henry suspirou cansado e antes que Matt pudesse ouvir as palavras do pai, Jones o pegou de surpresa tirando ele de perto da porta.
—É muito feio ouvir a conversa dos seus pais. –advertiu levando para longe.
—Mas eu... –procurou uma desculpa rápido, mas não encontrou. – Papai estava de novo falando como Will é bom em transformação, mas quando...
Jones tapou a boca do garoto. Os olhos arregalados olhando ao redor. Se ajoelhou para ficar da altura de Matt. Respirou fundo, ajustou o tom de voz:
—Não fale do seu irmão no presente.
Matt bufou revirando os olhos. Ele sabia de tudo aquilo, foi o próprio Jones que havia lhe explicado: “Isso precisa continuar em segredo. Não fale dele com ninguém. Se possível nem pense muito nele, são poucos os pensamentos que não são compartilhados nessa matilha. Proteja o seu irmãozinho.”
—Odeio isso.
—Vamos lá Matt, precisamos ser discretos. –incentivou Jones. – Sei que te incomoda como seu pai valoriza seu irmão, mas precisa se lembrar que Will é sozinho, não tem muitos privilégios como você e seu pai apenas quer dar um pouco mais atenção a ele.
—Meu pai tem raiva porque não sou tão forte como Will. –resmungou Matt cruzando os braços. – Eu juro que tento, tento mesmo ser igual.
—Eu sei que se esforça. –Jones colocou as mãos sobre o ombro de Matt. – Da próxima vez não faça tentando ser igual ao Will, faça como o Matt faria.
***
A verdade é que Matt continuou tentando, mas em determinado momento na sua adolescência foi apresentando uma alternativa torta para resolver seus problemas na transformação. Quando seu pai e irmão foram mortos e sua mãe se suicidou, Matt se mostrou incapaz de controlar sóbrio a licantropia nas luas cheias, mesmo que agora ele dominasse no decorrer dos outros dias e lutasse com perfeição nunca se mostrou totalmente estável em acessos de fúria.
As drogas o levaram para um caminho vicioso. Nas vésperas de lua cheia se dopava de tal forma que nem mesmo conseguia se transformar, obviamente isso nunca lhe levaria a problemas de saudade, mas mostraria para a matilha suas fraquezas se um dia viesse a ser um alfa.
(...)
Tyler abriu os olhos sentindo a cabeça pulsar no ritmo do coração. A luz do dia invadia o seu antigo quarto na casa da mãe, um cômodo vazio com uma cama e uma mesinha. Nada de troféus ou desenhos. Nada que o fizesse recordar dos momentos em que viveu lá. Sentiu-se deslocado, como se não pertencesse ao lugar.
Passou a mão no cabelo. Não se lembrava bem como havia chegado ali, mas por sorte Caleb estava sentando ao lado da cama lendo algumas fichas medicas. Tampou o rosto com a coberta porque algo dentro dele implorava para que ele não esforçasse muito.
—Como você me achou? –questionou Tyler embrulhado da cabeça aos pés na coberta, a voz abafada.
—Me avisaram. –respondeu curto.
Tyler mostrou o rosto estava indignado pela tranquilidade do irmão. Tudo o que havia acontecido na festa era motivo para se sentir angustiado só por estar vivo.
—Você atirou em duas garotas e é assim que você fica.
—Esse sou eu quando salvo a sua vida. –o irmão se virou para olha-lo. – Outra coisa é que elas não eram só garotas.
—Eu não consigo entender o que aconteceu lá.
—Nem eu, a única coisa que eu sei é que me avisaram sobre o que acontecia nessa festa, alguém sabia que você estava lá. –Caleb pegou o celular e jogou para Tyler ler as mensagens na tela. – Há dois dias alguém vem me mandado informações sobre a doutora Nora e meios de conseguir documentos médicos, no início pensei que fosse alguma brincadeira idiota, pensei até que fosse Riley. Mas as coisas começaram a bater, era como se misteriosamente alguém me jogasse coringas que completava a minha investigação.
—Você vai acabar sendo preso se continuar assim.
—Aí que está Tyler, seja quem for parece jogar comigo, sabe a verdade sobre a morte de Josh e quer que eu descubra algo grande. –Caleb tomou fôlego. – Você precisava ver como aquelas garotas pareciam se divertir com você tomando o sangue delas, pareciam demônios prestes a tomar o seu e sempre fui cético nessas coisas.
—O que? Vai me dizer que estamos falando de vampiros? -ironizou duvidando da sua própria memória. Custava acreditar que tinha bebido o sangue de alguém.
—Sabia que isso parecer loucura, mas as coisas se encaixam Tyler. –começou a mexer na papelada e entregou alguns papeis para o irmão. – Depois do que eu vi ontem, não dá para ignorar isso.
Tyler viu que os papeis se tratavam de pesquisas sobre seres sobrenaturais. Iam de vampiros, lobos, bruxas e outros. As mensagens no celular continham endereços, senhas e arquivos de mídia antigos. Caleb esperava a reação do irmão pacientemente e quando Tyler devolveu os itens, ele o incentivou a falar.
—Tudo bem, você definitivamente enlouqueceu. -disse afinal.
—O quê? Vai me dizer que beber sangue de uma garota é algum meio de seduzi-la? Eu vi a sua situação, não venha me dizer que aquilo era normal. –Caleb estava perplexo, jogando a cabeça para trás e passando a mão no rosto. Quando voltou a encara-lo, estava vermelho. – Você viu como aquilo de ontem foi estranho e sabe o que é pior? Eu atirei na cabeça daquela garota loira e na barriga da outra, mas nenhum hospital da região atendeu qualquer pessoa com essas características nas últimas 24 horas e o necrotério não recebeu nenhum dos corpos. Alguém as escondeu ou elas não morreram.
—Existem milhares de explicações para isso, certo? –Tyler pegou seu celular e começou a digitar.
—Pergunte ao Scott ou ao Thomas, eles foram mordidos.
—O que você quer dizer com isso?
—O que eu quero dizer Tyler é que os dois foram parar no hospital entre a vida e morte.
—Suponhamos que eu acredite nisso. Onde entra a Riley?
Caleb balançou a cabeça preocupado, fazia um ar de mistério mal controlando a ansiedade:
—Você não vai acreditar na história que eu tenho pra te contar...
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