O Último Ato
6 Parte 6
Notas iniciais
O retorno de Regina acaba não sendo nada remotamente próximo ao final feliz imaginado por Henry, e nos dias que se seguem, tanto ele quanto Emma tentam a todo custo se adaptar a estranha rotina estabelecida sob o teto da mansão da família Mills, ainda que a duras penas.
A verdade é que Henry possui uma resiliência que definitivamente não lhe foi ensinada pela sua mãe biológica e embora lhe entristeça a constatação de que mesmo que Regina não seja mais a Rainha Má, ela continue sendo uma figura distante e inacessível (muito mais do que nos anos que antecederam a chegada de Emma), o menino se esforça para lhe dar espaço e tempo, seguindo a orientação dada por Emma no primeiro dia em que sua mãe voltou para casa.
Orientação que, como era de se esperar, Emma acaba tendo grande dificuldade em seguir ela mesma.
A postura reservada adotada por Regina e a constante distância a qual ela faz questão de se manter do filho serve apenas para frustrar Emma em níveis aterradores. E o fato de que toda vez que está prestes a repreender ou recriminar Regina, Emma se depara com os olhos atentos e suplicantes de Henry, também não ajuda em nada, o que apenas resulta em uma Xerife extremamente descontente, prestes a explodir a qualquer momento. Ou pelo menos esta é a figura com a qual Archie se depara nas primeiras horas da manhã de uma terça-feira quando alguém o acorda golpeando violentamente a porta de seu apartamento até que o som das batidas, junto aos ganidos nervosos de Pongo, o arranquem de seu sono mais profundo.
"Archie, sou eu! Emma! Por favor, abra a porta." Limpando as lentes de seus óculos na manga de seu roupão enquanto Pongo se enrosca em suas pernas agitado, Archie se revela um tanto quanto surpreso com a inesperada visita de Emma Swan.
"Xerife Swan, aconteceu alguma coisa?" Archie percebe a redundância de sua pergunta no instante em que esta abandona seus lábios. Os vincos profundos na testa da Xerife confirmando categoricamente suas suspeitas.
"Preciso da sua ajuda Archie. Preciso que você me diga como consertar a Regina." Emma anuncia sem rodeios e entra no apartamento tomando a indisfarçada falta de reação do psiquiatra como um convite para entrar.
"Ela teve uma recaída?" Archie não esconde sua preocupação, fazendo referência ao estado catatônico que por semanas prendeu a ex-prefeita a uma cama de hospital.
"Não, nada desse tipo." Emma esclarece enquanto Pongo oferece-lhe boas vindas enterrando o focinho úmido em suas mãos.
"Então, o que aconteceu?" A loira deixa escapar um suspiro cansado e oferece ao cão um pequeno afago antes de voltar sua atenção a Archie.
"Eu te disse, é a Regina. Mas ao mesmo tempo, não é. Ela está quebrada. Ou seja lá qual for o termo médico que vocês usam..."
"Por que você não se senta e me explica melhor ao que está se referindo? Que comportamento chamou sua atenção particularmente?" Archie aponta para o sofá, e seguindo o próprio conselho se senta na poltrona em frente.
Ao ver o dono acomodado, Pongo imediatamente vai ao seu encontro deitando-se junto aos seus pés. "E o que você classificaria como 'quebrada'?"
"É difícil de explicar na verdade. São pequenas coisas. Coisas que eu notei desde que Regina voltou para casa. Como, por exemplo, a total falta de reação dela quando anunciei que estava morando no quarto de hóspedes."
"Talvez, em virtude dos últimos acontecimentos, sua perspectiva tenha se alterado e Regina não considere mais a sua aproximação uma ameaça."
Emma aperta os olhos, contrariada pela lógica do argumento do psiquiatra, mas decidida a dar continuidade a sua narrativa.
"Não é só isso. Mesmo estando acordada agora, é como se ela estivesse presa a este mundo só por um fio. A maior parte do tempo ela parece andar pela casa em piloto automático, a cabeça longe, perdida em algum outro lugar. Ao mesmo tempo, ela tem esse apego obsessivo certas coisas, como o ritual de café da manhã, por exemplo. Todos os dias, todo mundo têm que comer junto, na mesa, nada de cereal ou tomar leite direto da caixa. E ela prepara a coisa toda sabe; panquecas, torradas, suco natural feito na hora. E isso é só o café da manhã. Ela também faz questão de preparar os jantares. Entradas e pratos principais e sobremesas. Verdadeiros banquetes! Eu quase não sirvo nas minhas calças mais. E é claro, tudo é sempre servido pontualmente. Atrasos estão sujeitos a penalidades. É como morar em um hotel. Isto é, se o gerente fosse um general nazista."
"Algumas pessoas consideram rotinas reconfortantes. Esse tipo de estabilidade é especialmente apreciado por vítimas de grandes traumas que buscam de alguma forma retornar à normalidade de suas vidas. Não posso dizer que seja um comportamento incomum ou mesmo preocupante."
"Está bem. Henry disse mesmo que ela sempre foi assim, embora eu desconfie que com menos intensidade. Mas tem mais: ela não deixa o Henry tocá-la. Sem abraços ou beijos ou qualquer contato pra falar a verdade. Ela evita a qualquer custo. Como se o toque de outra pessoa fosse provocar algum dano permanente ou algo parecido. O que, sinceramente, não faz a menor diferença pra mim. Mas para o Henry... Ele não reclama, mas eu sei que ele fica magoado. Afinal que tipo de mãe não quer chegar perto do próprio filho nem com uma vara de três metros?"
"Bem, pelo que você está me dizendo, acho que podemos concluir que Regina está tendo dificuldades em sua reabilitação. Você já conversou com ela sobre isso?"
"Sobre o quê?" Emma se mostra momentaneamente perdida.
"Sobre tudo o que você acabou de me dizer." Archie esclarece sem compreender sua confusão.
"Claro que não! É da Regina que estamos falando aqui, esqueceu? Se eu sequer mencionar qualquer possível falha em suas habilidades maternas é capaz de ela me transformar em uma lesma ou pior."
"Ela recuperou seus poderes?"
"Não. Mas honestamente não acho que isso a impediria."
"Preciso dizer Emma, que fico surpreso. Até onde eu sei você nunca teve dificuldades para vocalizar suas discordâncias antes, especialmente no que se refere à Regina e o bem estar de Henry."
"Você mesmo disse: isso foi antes."
"E o que mudou?" Archie pergunta apoiando o queixo entre o indicador e o polegar, em uma postura bastante profissional e igualmente caricata. Algo que sequer parece lhe ocorrer enquanto ele aguarda pacientemente pela resposta. Emma reflete por alguns instantes antes de responder.
"Olha, quando eu cheguei, a primeira coisa que você me perguntou foi se a Regina tinha sofrido uma recaída. É isso! E se eu falar alguma coisa e ela tiver mesmo uma recaída? O garoto jamais iria me perdoar. Eu não iria-" As palavras de Emma se perdem pelo caminho.
"Escute Emma, a sua reação é compreensível. Mas então eu lhe pergunto: O que acontece se você não falar nada? O que acontece se as coisas continuarem exatamente como estão?"
"A vida continua, eu acho. Se é que se pode chamar isso de vida. No momento a Regina é um robô. Ela faz o que precisa ser feito, mas eu consigo ver como cada um de seus movimentos é calculado, como se ela estivesse medindo exatamente a quantidade de esforço necessária para cada um deles. Ela não dorme, não chora. Eu sei que a Cora era uma psicopata de carteirinha, mas ela ainda era mãe dela e eu sei que a Regina a amava. Ainda assim ela não derramou uma única lágrima. Eu não sou perita, mas isso não pode ser saudável, certo? E pra completar, tem o Henry..."
"Você disse que está preocupada com ele."
"A primeira vez que o Henry bateu na minha porta foi com um livro debaixo do braço, cheio de ideias sobre como eu deveria ser uma grande salvadora e como a mãe adotiva dele era na verdade uma Rainha Má. E então nós viemos para Storybrooke e era tudo verdade. E por muito tempo isso foi tudo. Mas então, depois do que a Regina fez para garantir a segurança dele, depois do que ela fez com a própria mãe, eu vi uma história que não estava escrita naquele livro, sabe?"
Archie não oferece qualquer comentário, apenas esperando que Emma conclua sua linha de raciocínio com um olhar intrigado, de modo que ela continua. "A questão é: sim, ela pode ser a Rainha Má, mas ela também é a mãe dele. Pela maior parte da vida do Henry até agora, Regina foi a única mãe que ele teve. O fato de que ela faria qualquer coisa pelo garoto é inquestionável."
"Matar Cora certamente confirmou isso." Archie colabora e os olhos de Emma parecem acender em virtude da compreensão expressada pelo psiquiatra.
"Sim! Eu sei! Mas não é só isso! O que eu estou dizendo é que, Henry a ama. Como um filho ama sua mãe, do jeito que tem que ser. E quando a Regina estava naquela cama de hospital, eu acho que ele percebeu isso com clareza. Talvez pela primeira vez. E agora o garoto não quer falar nada e insiste que eu não diga nada simplesmente porque ele tem medo de perdê-la."
"E o que você acha?"
"Eu acho que se as coisas continuarem assim, ele vai perdê-la de qualquer forma."
.::.
O jantar começa como qualquer outro. A mesa perfeitamente organizada. Copos e taças, talheres e arranjos, e o aroma quase torturante de mais um prato preparado com perfeição.
Regina e Henry já estão sentados em seus respectivos lugares, o menino com seus cabelos ainda úmidos pelo banho recém-tomado, e essa é a primeira coisa que Emma nota quando deposita os lábios sobre sua cabeça o cumprimentando com um beijo em sua chegada.
"Obrigada por nos conceder a honra de sua presença, Miss Swan." Regina a brinda com ironia. Sim, Emma está mais do que ciente de seus dez minutos (quase quinze) de atraso.
"Desculpe, fiquei presa na saída do trabalho. McDonald está crente que tem alguém roubando suas galinhas. Ele fez questão de prestar uma queixa formal." Emma relata revirando os olhos e assumindo seu lugar à mesa.
"Por favor, nos poupe dos detalhes enfadonhos de seu dia, sim?" Regina comenta enquanto serve o prato do filho e Henry contém um sorriso quando Emma o cutuca com o cotovelo.
"Sinto muito se os meus assuntos a aborrecem Senhora Prefeita. Por que você não compartilha conosco os pormenores de seu dia?" Emma replica em um tom afetado, que é deliberadamente ignorado por Regina.
"Não há muito que dizer realmente. Na verdade eu esperava que pudéssemos compartilhar uma refeição tranquila."
As palavras de Regina não chegam a ser uma ordem propriamente, mas nos minutos que se sucedem o único som a ser ouvido na sala de jantar é o do contato dos talheres e os pratos. Então Emma olha de esguelha para o filho e a melancolia é tão evidente em suas feições que ela não é capaz de seguir adiante com essa pantomima por nem mesmo mais um instante.
"Regina, por acaso você planeja voltar a assumir seu cargo enquanto prefeita?" A pergunta obviamente é recebida com surpresa não apenas por Regina, mas por todos os presentes à mesa, quando o som dos talheres cessa por completo.
"Eu não compreendo a sua pergunta." Emma quase sorri ao identificar a expressão de desagrado no rosto de Regina, sua velha conhecida.
"Eu acho que fui mais do que clara." Emma a desafia com um sorriso atrevido. Em sua cadeira Henry bebe um gigantesco gole de água, seus olhos passeando rapidamente entre as figuras de suas mães.
"Pois bem. Não que isso seja de sua conta, mas eu não creio que esta seja uma possibilidade viável. E tampouco eu estou interessada em persuadi-la."
"Entendo." Emma leva o garfo à boca, mastigando seu conteúdo casualmente, para então dar continuidade ao seu plano. "Então o que você vai fazer?"
Silêncio na mesa mais uma vez. Regina foca a atenção em seu prato por um breve instante, recolhendo seus pensamentos – e possivelmente se munindo do escasso estoque de tolerância que lhe confere.
"Em relação ao que você está se referindo Xerife?"
"Você sabe," Emma contribui com pretensa descontração. "O que você vai fazer da vida?"
Desta vez, um sorriso escarnecido escapa dos lábios de Regina antes que ela consiga se conter. "Me desculpe Miss Swan, mas eu tenho grande dificuldade em entender como isso possa ser relevante para a sua pessoa."
"Eu apenas estava pensando, você só fica trancada nessa casa, dia e noite. Pode ser bom arranjar uma nova ocupação. Sabe, você é tão boa na cozinha." No instante em que o pensamento cruza sua cabeça, Emma está ciente do estrago que suas palavras irão fazer.
Ao ouvir a menção à cozinha, Henry arregala os olhos, claramente ciente do perigo. Em sua defesa ele até mesmo tenta avisá-la. "Emma--"
Emma lhe oferece um pequeno sorriso cheio de confiança antes de retirar o pino da granada. "Eu já sei! Por que você não olha com a Granny se ela precisa de alguma ajuda no restaurante?"
O fato de que Regina abre a boca, mas absolutamente nenhum som sai por alguns instantes, é um sinal mais do que evidente de sua cólera. E quando as palavras por fim escapam, elas são exatamente tudo aquilo que Emma espera.
"Como você ousa?!"
"O que? Foi só uma sugestão." Emma se faz de desentendida, mas Regina está enxergando tudo em vermelho e nada fará com que ela recue agora.
"Sugestão?" Ela repete indignada. "Isso é uma afronta, isso sim!"
"Sinto muito, eu estava apenas tentando ajudar." O sorriso mal disfarçado em seus lábios desmente suas palavras.
"E quem disse que eu preciso da sua ajuda? De todas as pessoas? Você só pode estar completamente fora de si!" Regina se levanta de seu lugar, as duas mãos amparadas sobre a mesa enquanto sua fúria é despejada. "Preciso eu lembrá-la Xerife, quem está vivendo de favor sob o meu teto? Comendo a comida que eu preparei? Mais do que isso, preciso eu lembrá-la de com quem você está falando?"
"Mãe, ela não disse por mal." Henry tenta remediar com uma voz pequena, o que parece abrandar a ira de Regina, ainda que apenas por um breve instante.
"Mesmo que esse fosse o caso Henry, o que eu não acredito que seja de fato, talvez a Miss Swan precise ser lembrada de seu lugar."
"Meu lugar? Por acaso eu faço parte da criadagem e esse é um episódio de Downton Abbey?" Emma zomba, e se mostra decidida a não recuar dessa vez. "Quer saber Regina, você pode não gostar do que eu tenho a dizer, mas isso não significa que você não tenha que ouvir. Não enquanto nós fizermos parte da mesma família, o que vem a ser o caso quando você tem duas mães para o mesmo filho. Então aqui está a dica: Já passou da hora de você sair dessa redoma de vidro em que tem se escondido."
"Henry, vá para o seu quarto." A ordem de Regina é dada em tom imperativo e sem qualquer espaço para argumentações. Quando Henry obedece sem questionar, Emma está certa de que apertou os botões certos, muito embora os resultados possam ser irreversíveis.
No instante em que são deixadas a sós, Regina se volta na direção de Emma, sua raiva completamente desnuda de qualquer máscara.
"Como você se atreve a presumir saber o que se passa comigo. E mais, supor que cabe a você me dizer como ou não eu devo levar a minha vida?"
"Talvez eu soubesse mais se você falasse ou demonstrasse alguma emoção de vez em quando."
"Como eu escolho lidar com meus sentimentos não está aberto a discussões Xerife. Certamente não para a sua pessoa."
"É aí que você se engana Regina. Pelo menos quando diz respeito ao meu filho."
"O que você está insinuando?"
"Henry é uma criança Regina, mas ele não é cego. E no momento qualquer um é capaz de enxergar que você não está bem. Não importa quantos sorrisos falsos você estampe na cara, toda vez que você o afasta, você o machuca. E isso é algo que eu não vou tolerar. Então se você quer se fechar nessa casa e nas suas tristezas, sozinha, a escolha é sua. Mas a partir do momento em que Henry faz parte da sua vida, essa não é mais uma opção."
"Que comovente o seu discurso, Miss Swan. Agora você pode me explicar quando foi que você virou referência em maternidade? Porque até onde eu sei, era eu quem estava criando o seu filho por dez anos até você resolver fazer parte da vida dele. Perdoe-me então se eu questiono a sua autoridade parental."
"Eu sei que cometi erros, Regina. Mas eu estou aqui agora, e eu estou tentando fazer as coisas direito. E isso é mais do que você pode dizer nesse momento."
Emma sabe que passou dos limites no instante em que acontece. Ela consegue enxergar claramente no olhar de Regina, o fogo e então o gelo.
"Muito bem, você quer uma demonstração de emoção Miss Swan? Aqui está!" Regina cospe as palavras, carregadas de veneno e atira uma das taças de cristal contra a parede, o vidro se espatifando em alto e bom som. Instintivamente Emma fecha os olhos e quando os abre novamente é apenas para testemunhar a silhueta de Regina lhe dando as costas e marchando em retirada.
De repente, toda a adrenalina criada pela discussão parece desaparecer por completo e Emma deixa o corpo cair pesadamente sobre sua cadeira mais uma vez.
Não demora a que passos hesitantes anunciem a aproximação de Henry.
"Fique onde está Henry, não quero que você se machuque." Ela avisa, se referindo aos estilhaços de cristal espalhados pelo chão. Parado junto à porta, vestindo seu pijama, Henry de repente parece apenas um garotinho novamente. Mesmo sem olhar em sua direção, Emma é capaz de sentir o descontentamento do filho. "Não me dê esse olhar garoto, isso é a última coisa que eu preciso nesse momento."
"Por que você fez isso?" Nunca deixa de surpreender Emma o quanto de Regina ela consegue enxergar em Henry ocasionalmente. Nesse instante, a semelhança chega a ser tangível, na forma como ele trava seu maxilar com raiva e algo que se assemelha a altivez, em uma tentativa fútil de deter as lágrimas que estão em vertente de serem derramadas.
"Garoto, eu sei que é difícil para você entender, mas tente entender isso: quando você se importa com alguém, às vezes isso significa falar a verdade. Mesmo se for uma verdade que ninguém quer ouvir." Emma lhe oferece um sorriso abatido. "No momento, ela pode não gostar e você pode não gostar, mas esse é o meu papel. Então eu vou precisar que você confie em mim, está bem?"
O olhar oferecido por Henry sugere que nada está bem. E a Emma não resta outra opção senão concordar com um silencioso lamento.
.::.
Continua...
Fale com o autor