O Último Ato
5 Parte 5
O inverno ainda não chegou em Storybrooke, mas um vento frio assopra em um dia particularmente cinzento. Usando apenas o seu pijama de cetim por baixo de seu trenchcoat preto Regina estremece, os raios de Sol da manhã tímidos demais para oferecer qualquer conforto.
Ao lado do carro de patrulha do departamento de polícia, ela aguarda Emma terminar de assinar os papéis que autorizam a sua liberação do hospital ainda que contra as indicações médicas do Dr. Whale. Os papéis não passam de mera formalidade, razão pela qual Regina atravessa as portas do hospital sem olhar para trás. Mesmo sem os seus poderes, após os últimos acontecimentos, ela não tem dúvidas de que ninguém ousaria se colocar em seu caminho.
Talvez Emma. Mas desta vez, em uma ocorrência fora do comum, a Xerife parece estar do seu lado.
Quando a loira finalmente se junta à Regina do lado de fora do hospital, a paciência da ex-prefeita está prestes a bater em retirada definitivamente.
"Finalmente." Regina declara sem emoção, esperando que Emma destrave a porta do carro, o que ela faz, mas não sem antes revirar os olhos.
"Não teria demorado tanto se eu não tivesse que ter assinado um termo de responsabilidade quanto aos danos provocados à propriedade do hospital."
"Isso é ridículo." Regina se acomoda no banco do passageiro, ajustando o cinto de segurança imediatamente após sua entrada. "Eles tem sorte de eu não estar processando essa espelunca."
"E de que adiantaria isso? Você criou o hospital." Emma questiona, sem entender a lógica do argumento de Regina. "Junto com tudo mais nessa cidade."
"Sinto muito desapontá-la Miss Swan, mas eu não fui a responsável pela criação da maldição."
Não. Você é apenas responsável por torná-la real. É a resposta que imediatamente ocorre a Emma, mas que morre em seus lábios no instante em que seus olhos recaem sobre a figura de Regina. Mesmo com os cabelos desgrenhados e uma palidez que não lhe é natural, a ex-prefeita mantém o queixo erguido e a postura perfeitamente ereta, quase imponente. A imagem é reconfortante em sua familiaridade e mesmo um alívio após o testemunhar das semanas em que Regina permaneceu completamente inerte.
É algo que Xerife não pode deixar de apreciar, ainda que apenas no formato de um circunspecto sorriso.
"Bem vinda de volta, Senhora Prefeita." São as palavras que Emma oferece à Regina. E para sua surpresa, a ironia com a qual ela espera sua entrega parece se perder pelo caminho, restando apenas a mais pura sinceridade.
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O percurso de volta para casa é feito sob um silêncio maciço o que, apesar de não ser exatamente desconfortável para ambas as partes, não diminui a inquietude de Emma, servindo apenas para amplificar sua capacidade de observação aos detalhes.
De soslaio a Xerife estuda a pose impenetrável de Regina, seus olhos escuros fixos na estrada e os pensamentos que povoam sua mente completamente mascarados sob uma expressão vazia. O único sinal visível de qualquer atribulação, residindo nas evidentes marcas escuras sob seus olhos.
Para alguém que passou as últimas semanas de cama, Regina certamente parecia estar se movendo agora apenas em virtude de sua mais pura obstinação, seu nível de exaustão quase palpável. Emma não se lembra de jamais tê-la visto assim.
"Como é possível que mesmo o seu silêncio seja tão... ruidoso?" A voz de Regina surpreende a loira, afugentando seus pensamentos como uma revoada de pássaros, suas palavras a puxar-lhe de volta à realidade.
"O que você falou nem mesmo faz sentido." Emma se defende, sem esconder sua indignação. No entanto Regina não a dignifica com uma resposta, seus olhos escuros meramente visitando sua figura de relance, antes de reencontrar refúgio na paisagem idílica de Storybrooke.
Com a ansiedade formigando pelas pontas dos dedos que volta e meia tamborilam sobre o volante, Emma não demora a se render aos seus impulsos, mordendo a isca.
"Existe algo que você provavelmente deveria saber." Emma começa, desta vez sendo ela quem propositalmente evita qualquer contato visual. "Sobre a sua casa."
"O quê?" Regina inquire e a reticência inicial de Emma apenas incita sua mordacidade. "Por acaso a minha propriedade foi incendiada pelos meus leais súditos em um motim?"
Emma não sabe dizer o que a incomoda mais: se é o escárnio no tom oferecido por Regina ou a legitimidade de tal suposição.
"Não houve nenhum motim, ok?" Ela lhe assegura, ligeiramente ultrajada. "Apenas... algumas mudanças."
O fato de sua resposta ser mais do que vaga não é completamente deliberado, embora se revele suficientemente eficaz ao atrair por completo a atenção de Regina. De repente é como se Emma conseguisse sentir fisicamente o peso do olhar inescrutável lançado pela mulher ao seu lado.
"O que precisamente você quer dizer com mudanças?" A voz de Regina escapa lenta e sorrateira, a suspeita serpenteando a pronúncia de suas palavras. O tom é o suficiente para persuadir Emma a passar por cima de seus sentimentos pessoais e ir direto ao assunto.
"Henry voltou para a mansão há algumas semanas." O olhar inexpressivo com o qual Regina recebe a notícia é no mínimo desconcertante, o que em nada auxilia o nervosismo que acomete a loira quando ela complementa. "E eu também."
O silêncio que recai sobre as duas se faz exponencialmente desconfortável, até que Emma se veja compelida a preenchê-lo com justificativas. "Eu não podia simplesmente deixá-lo morando lá sozinho então ocupei o quarto de hóspedes."
A explicação parece de alguma forma insuficiente embora a lógica seja irrefutável. "Espero que isso não seja um problema."
"Eu não estou certa do que você espere que eu diga Miss Swan." Regina se manifesta finalmente, embora sua resposta esteja longe de oferecer algum conforto. "Esta solução... É permanente?"
"Eu não cheguei a pensar a respeito realmente. Na época apenas fez mais sentido."
"Entendo." Regina fecha os olhos, a notícia pesando sobre suas feições. "Certamente isso nos coloca em uma situação um tanto quanto inusitada."
"É um jeito de colocar as coisas."
"E o que acontece agora?" A pergunta de Regina é simples, direta.
O que não significa que sua resposta possua as mesmas qualidades.
"Eu não sei." Emma responde com sinceridade. "Mas não acho que o garoto vá querer se mudar de novo. E onde ele for, eu vou."
Pela janela do carro as duas mulheres são capazes de identificar a fachada da residência de Regina à medida que o carro se aproxima de seu destino.
Emma não está certa do que esperava. Uma declarada oposição, talvez. Ou indisfarçado descontentamento. No mínimo o velho e conhecido sarcasmo. Regina não lhe concede nada além de sua mais estoica passividade. O que, por sua vez, não é apenas preocupante – dado a sua natureza passional – mas é também desorientador, fazendo com que Emma analise suas motivações com certo receio.
A lógica faz com que ela imediatamente suspeite do comportamento de Regina. Esta é, afinal de contas, a mulher cuja sede de vingança a levou a amaldiçoar todo um povo. Planos e esquemas são para ela praticamente uma reação pavloviana. Mas então Emma a observa saindo do carro, e mesmo o seu queixo erguido não é capaz de esconder o arco de suas costas, o peso sobre seus ombros ou a opacidade que parece cobri-la como uma constante penumbra.
A mulher que Emma tem diante de si pode ainda ser Regina, mas algo não está mais lá. Algo se perdeu naquele dia no vale, em meio ao nevoeiro de magia negra. E a Emma não deixa de perturbar a possibilidade de que, com o cessar dos batimentos do coração de Cora, Regina tenha perdido o que restava do seu.
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Debaixo do chuveiro, a ducha caindo sobre sua cabeça enquanto a massa de cabelos negros se espalha sobre suas costas, Regina perde a noção do tempo, seus olhos fixos na água que lava os pequenos cortes de seus pés e escorre pelo ralo, observando o contraste do tom avermelhado com a cerâmica branca que cobre o chão.
As horas passam, largas e sem pressa, até que a água quente dê lugar a um jato frio, a forçando a despertar do ruído branco que cerca seus pensamentos.
Enrolando o corpo em um roupão preto e macio, Regina não encontra seu reflexo junto ao espelho até que o vapor que cobre sua superfície se dissipe. Então, a figura com a qual ela se depara revela-se estranhamente familiar ainda que inesperada.
Com os cabelos úmidos e soltos pendendo-lhe sobre os ombros, é com surpresa que Regina enxerga diante de si a jovem que foi um dia, em um passado que agora mais do que nunca parece tão ridiculamente distante.
Quase inconscientemente Regina toca as pontas de seus cabelos, observando seu reflexo fazer o mesmo, somente para que seu braço caia inerte quando ela é lembrada dos crimes que cometeu com essas mesmas mãos.
Elas podem estar limpas agora, mas Regina ainda pode ver o sangue que mais de uma vez as cobriu.
Daniel. Seu pai. Sua mãe.
O cheiro acre e metálico se misturando com a vibração da mágica permeando seus poros, se espalhando pelas suas veias, envenenando suas memórias.
Todas as pessoas que ela já amou um dia. Todas as pessoas que ela já perdeu.
Uma onda de náusea turva seus sentidos, mas antes que Regina possa reagir, o som de batidas junto à porta, seguido pela voz de Emma, atravessa as paredes afastando os fantasmas que repetem seu nome.
"Regina." As batidas se tornam mais fortes, impacientes. "Regina, tá tudo bem aí?"
Com as mãos tremendo, Regina abre a porta apenas para encontrar um par de olhos azul-esverdeados a encarando de perto. Perto demais.
Com um passo desajeitado, Emma se afasta subitamente, as palavras que ela deseja falar se embaralhando na saída.
"Você ficou trancada aí um tempão." Emma engole seco, o silêncio de Regina, mais uma vez, não lhe oferece qualquer auxílio. "Eu fiquei preocupada."
"Pensou que eu pudesse ter me afogado na banheira?" Regina arqueia uma sobrancelha impecável. Emma revira os olhos, a tensão esvanecendo entre as duas.
"Posso ver que você está bem agora."
"Nova em folha." Regina força um sorriso, uma ação que lhe parece repentinamente custosa. Se Emma nota o tremeluzir de seus lábios, é sem lhe dar a devida atenção.
"Eu só queria avisar que estou de saída. Com tudo que aconteceu essa manhã, eu não cheguei a passar na delegacia e tenho algumas pendências pra resolver. Nada que vá levar mais do que uma ou duas horas."
Regina a observa com um olhar curioso, a pergunta 'Por que isso seria de meu interesse?' cristalina, sem a menor necessidade de ser enunciada.
"Pensei em passar na escola mais cedo pra pegar o Henry." A loira elabora desconfortavelmente.
"Com qual propósito?"
"O que você quer dizer? Para trazê-lo para casa, é claro."
"Isso é completamente desnecessário, Miss Swan. Eu sinceramente não vejo qualquer razão para que a rotina escolar do Henry seja interrompida."
"Eu diria que o fato de a mãe dele ter saído do hospital é um bom motivo." Emma argumenta, estranhando a reação de Regina.
"Eu ainda vou estar aqui no final do dia letivo Miss Swan."
"Está bem." Emma decide não insistir, contradizendo seus instintos. "O que você achar melhor Regina."
"Muito bem. Suponho que irei vê-la mais tarde então." Regina procura finalizar a conversa, o esforço para aparentar normalidade demandando uma energia que ela já não possui.
Emma aceita sua deixa, embora o faça imaginando que a urgência inferida em seu tom de voz se deva a impaciência que a ex-prefeita tem para com todos os Charming, ela incluída. No entanto, antes de sair, com a mão sobre a maçaneta da porta, Emma hesita.
"Você vai ficar bem? Sozinha?"
Regina, que traz em seus lábios o que resta de seu fôlego, prestes a perder a compostura, se força a um último ato.
"Quando foi que eu não fiquei, Miss Swan?"
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Emma tenta preparar Henry explicando-lhe que o fato de sua mãe ter voltado para casa não significa necessariamente que ela esteja 100% bem. Que quando alguém sofre um trauma muito grande, demora um tempo para que as feridas cicatrizem, o que exige um cuidado e paciência especiais das pessoas à sua volta.
Henry escuta suas recomendações atentamente, e Emma não tem dúvidas de que ele seja capaz de compreender o que ela está dizendo. Mas, no final do dia, ele ainda é apenas um garoto e, sentado no banco do passageiro no percurso de volta para casa, suas pernas não param de se mover inquietas exibindo claramente o nível de sua ansiedade.
Assim, antes mesmo que Emma estacione o carro, Henry já está abrindo a porta e correndo na direção da casa, sua mochila esquecida sobre o gramado do jardim, passos largos dados por pernas cada dia mais compridas e sua voz alta, preenchendo todos os espaços vazios daquela casa imensa no minuto em que ele cruza a porta.
Ele sobe as escadas pulando de dois em dois degraus, e sua presença quase pode ser sentida apenas pela vibração das paredes. Emma acaba de depositar a mochila surpreendentemente pesada de Henry sobre a mesa que fica junto à entrada quando o menino desce as escadas feito um tornado.
"Eu não consigo achá-la em parte alguma." Ele anuncia com olhos imensos e Emma tenta não deixar transparecer sua preocupação.
"Ela não está no quarto dela?" O menino balança a cabeça em sinal negativo. "E quanto ao banheiro?"
"Emma, ela não está lá em cima."
Antes que Emma tenha a chance de responder, seus ouvidos identificam os passos de Regina no instante em que a morena surge da cozinha. Usando um robe de seda com estampas orientais sobre um conjunto de pijama de cetim em tom púrpura, Regina traz os cabelos presos em um rabo de cavalo baixo, os fios longos contornando seu pescoço e caindo sobre um de seus ombros. Com os braços cruzados sobre o peito e uma expressão grave, ela se dirige à mãe e filho sem se preocupar em cumprimentá-los.
"Posso saber o porquê de todo esse alarde?" Qualquer censura contida em sua voz parece não ser registrada por Henry, que ao ver a mãe se lança em sua direção sem hesitar, a envolvendo em um abraço apertado.
"Você está mesmo aqui!" O menino profere, mas sua voz escapa abafada pelo contato com o roupão de Regina. Com olhos arregalados, a ex-prefeita não esboça qualquer reação a princípio, completamente despreparada para a demonstração de afeto por parte de Henry.
Não é que Regina jamais tenha recebido um abraço do filho. É apenas que, verdadeiramente, ela não sabe dizer quando foi a última vez que isso aconteceu. Não de forma espontânea e sincera. E então existe a intensidade do gesto, o contato físico inesperado desencadeando uma carga de sentimentos e emoções para os quais ela não está preparada. Com os quais ela simplesmente não tem condições de lidar nesse momento, quando todas as suas energias estão sendo canalizadas para atos menores como sorrir e respirar.
Com os olhos presos em Emma, sua máscara de normalidade sendo desalojada com o passar de cada instante em que o toque de Henry persiste, Regina respira fundo e com as mãos firmes sobre os ombros do filho, procura criar uma distância entre seus corpos. Seu gesto é mecânico, quase um reflexo, e embora não o faça de forma brusca, seu significado não passa despercebido aos olhos de quem a observa.
O sorriso no rosto de Henry dá lugar a uma expressão confusa, e percebendo o impacto de suas ações, Regina procura amenizá-las. "Obrigada pelas boas vindas. Estou feliz por estar de volta."
Suas palavras são sinceras, mesmo que seu sorriso não seja, algo que Emma parece notar quando, para o alívio de Regina, se coloca entre os dois.
"Garoto, por que você não leva as suas coisas lá pra cima?" A loira sugere, seus olhos acompanhando a ex-prefeita com suspeita.
"Sim, aproveite e adiante seu dever de casa. Então nós poderemos todos jantar juntos." A sugestão de Regina é o suficiente para que momentaneamente Henry esqueça a rejeição sofrida.
"Jura? Com a Emma também?" A excitação do garoto é o suficiente para afastar a atmosfera que os cerca.
"Sim, a Xerife também. Isto é, se ela não se opuser a experimentar uma de minhas receitas."
Emma consegue ver claramente o esforço feito por Regina, e mesmo sua provocação indisfarçada não é capaz de ofuscar-lhe gesto. Com um sorriso, ela responde sem tirar os olhos da ex-prefeita, decidida a equiparar-se em seu empenho. "Eu como tudo o que você preparar Regina, contanto que você experimente primeiro."
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Continua...
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