O Último Ato
4 Parte 4
Emma não se recorda do percurso que a levou até o hospital ou de qualquer coisa que tenha cruzado seu caminho nesse meio tempo.
Seus pés não se movem suficientemente rápido ao passo que sua mente parece ter alcançado um ritmo que nem mesmo seu raciocínio é capaz de acompanhar.
Ao passar pela recepção, seguindo diretamente na direção do quarto de Regina, Emma é acompanhada pelo som de vozes ecoando em seu encalço, embora nenhuma delas tenha força o suficiente para alcançá-la ou detê-la.
A visão do quarto de Regina, no entanto, é pesada e sólida como um muro de concreto, atingindo-lhe com semelhante impacto.
Com um súbito mal estar Emma cataloga os menores detalhes em busca de respostas, explicações, pistas.
A cama está vazia.
Os lençóis revirados, travesseiros e cobertas espalhados pelo chão.
E o chão...
O chão está coberto de vidro, estilhaços incalculáveis brilhantes e reluzentes, vestígios do que foi uma janela.
E então o sangue.
Não é algo que cubra todo o chão do quarto, mas é o suficiente para que Emma tenha certeza de que alguém foi ferido. O vermelho manchando o branco imaculado do piso e na parede a marca de uma mão, dos dedos que ali buscaram amparo e que em determinado momento perdem a forma em um grande borrão.
Em sua linha de trabalho, presente e passado, Emma já viu cenas tão caóticas quanto. Talvez mais.
Mas nenhuma delas tem o peso deste momento.
Com a mão sobre seu diafragma, lutando contra o mal estar que insiste em fazer seu estômago dar voltas, Emma pela primeira vez desde que entrou no hospital escuta uma voz que não pertence aos seus instintos sobrecarregados.
"Xerife Swan," Uma jovem enfermeira cujo rosto lhe é familiar embora o seu nome não seja, deixa a mão repousar suavemente sobre o ombro de Emma, a fazendo despertar de seu transe. "você está bem?"
Emma não responde imediatamente. Antes que as palavras possam lhe escapar é preciso que ela domine a náusea que a acomete. A enfermeira aguarda pacientemente embora em seu rosto sua preocupação se faça evidente. Quando por fim Emma consegue falar, é através de um sussurro quase inaudível. "Cadê ela?"
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A enfermeira informa que Regina foi transferida para o terceiro andar e Emma não precisa ouvir o resto, seus passos antecipando seus pensamentos. Ela tampouco consegue esperar o elevador, a impaciência a guiando pelas escadas até o momento em que, abrindo a porta que dá para o corredor do andar indicado, Emma se depara com as vozes alteradas de Archie e dr. Whale.
"Você está fazendo a coisa errada!" Archie contesta efusivamente, a ansiedade lhe escapando pelos poros. Whale balança a cabeça em desacordo, as mãos nos bolsos de seu jaleco branco. Um jaleco no qual as manchas de sangue seco agora ganham um tom escurecido.
"No momento ela é um perigo para si mesma e para os outros. Não há outra opção."
"Ela está em choque, Dr. Whale." Archie alega enfaticamente, mas outro médico se mostra irredutível.
"Archie, você sabe do que ela é capaz. Você viu com seus próprios olhos lá embaixo."
"O que de fato aconteceu lá embaixo?" Ganhando a atenção de ambos com o som de sua voz, Emma faz notar sua chegada. "Cadê a Regina?"
Dr. Whale é o primeiro a responder, o queixo erguido com o uso de toda sua autoridade médica.
"A Srta. Mills despertou de seu estado de catatonia, mas apresentou um comportamento altamente agressivo e perigoso. Para prevenir que ela se ferisse ainda mais e que viesse a ferir algum dos funcionários que estavam encarregados de seus cuidados, fomos obrigados a retê-la em uma ala especial."
"Ela... Ela feriu a si mesma?" Emma repete sem conseguir acreditar, mas Archie imediatamente se manifesta, desfazendo qualquer equívoco.
"Foi um acidente!"
"Dr. Hopper, a paciente atirou uma cadeira contra a janela do hospital. Tal comportamento dificilmente pode ser descrito como um acidente, além de apresentar um grande risco." Whale insiste, e ao julgar pela exasperação em seu tom de voz, não pela primeira vez.
"Sim, foi uma reação extrema, mas nós devemos tentar ser compreensivos perante as circunstâncias em questão. Se pelo menos me fosse dada a oportunidade de conversar com a paciente--"
"Espera! Então ela não se machucou de propósito?" Emma pergunta confusa, tentando entender o que de fato aconteceu. "De onde é todo aquele sangue então? Ela machucou alguém?"
"Uns ferimentos menores, nada grave. Regina não machucou ninguém!" Archie afirma categoricamente.
"Ainda." Victor acrescenta sem hesitar.
"Dr. Whale, essa é uma avaliação prematura. Nós não temos como saber isso sem examinarmos o atual estado da paciente."
"Nós estamos falando sobre a Rainha Má, Hopper. Acho que essa avaliação é tudo menos prematura."
"Já chega!" Emma interrompe a discussão entre dois médicos de forma definitiva, um olhar severo lançado na direção de Whale. "Eu quero ver a Regina. Onde ela está?"
"Eu já lhe disse Miss Swan, ela está contida para sua própria segurança." Whale explica novamente, sem se deixar intimidar pelo tom da xerife.
"Então me leve até lá."
"Como eu estava explicando ao Dr. Hopper, eu realmente não recomendo que a paciente receba visitas no momento."
"Muito bem. Então me permita explicar uma coisa para você: não se trata de um pedido. Me leve até ela." Emma cruza os braços sobre o peito e não resta qualquer espaço para dúvidas em seu tom de voz. Ainda assim, ela faz questão de enfatizar com autoridade. "Imediatamente."
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O quarto no qual Regina está 'contida' trata-se na verdade de uma jaula acolchoada, ou ao menos essa é a impressão que Emma tem quando seus olhos reconhecem a ex-prefeita através da janela de vidro que as separa.
Andando de um lado para o outro, os pés descalços ainda manchados de sangue, bem como o pijama que ela vestia — um item de sua coleção particular, que Henry havia escolhido pessoalmente e levado ao hospital assim que sua mãe fora internada -, Regina apresenta um semblante de absoluta fúria, quase selvagem.
"Vocês podem me dizer o que aconteceu para que ela despertasse dessa forma?" Emma pergunta preocupada, incapaz de tirar os olhos da figura de Regina.
"Eu não tive a chance de conversar com ela. Quando cheguei ela já estava sendo trazida para cá." Archie explica, embora tenha pouco a oferecer. Assim, é Whale quem primeiro lança uma luz sob os fatos que tomaram parte logo cedo.
"De acordo com os relatos das enfermeiras que estavam de plantão ela acordou confusa, sem memória clara das últimas semanas ou dos eventos mais recentes."
"Ela não se lembra de ter... Do que aconteceu com a Cora?" A possibilidade de que Regina não se recorde de ter derramado o sangue de sua mãe com suas próprias mãos, alimenta um poderoso receio em Emma.
Uma coisa foi o trauma provocado pelos eventos vivenciados em primeira mão. Mas enfrentar esse mesmo trauma mais uma vez, é uma possibilidade que Emma não havia sequer cogitado até então e ela não pode deixar de temer suas implicações.
"Perda de memória é comum em casos como esse." Whale esclarece. "No entanto, tenho razões para acreditar que este não seja o caso em questão."
"O que faz você dizer isso?" Intrigado, Archer conserta o óculos em seu rosto.
"Eu acredito que além do esgotamento nervoso e emocional que a deixou em estado catatônico por todo esse tempo, Regina também tenha sofrido um efeito semelhante no que se refere às suas habilidades mágicas."
"Ela não tem seus poderes." Emma conclui aturdida, seus olhos imediatamente buscando Regina mais uma vez, uma névoa de compreensão tornando tudo mais claro.
Ignorando por completo os três pares de olhos que acompanham seus movimentos do lado de fora de seu quarto, Regina continua sua marcha impaciente de um lado para o outro, como uma fera enjaulada.
"Sim. Ao menos não no momento. E essa é a razão pela reação violenta que ela apresentou."
"Mas você tentou explicar para ela que essa pode ser uma situação temporária? Que nós não fizemos isso com ela?" As palavras de Emma são ansiosas e oscilantes, em parte porque mesmo ao proferi-las ela não acredite inteiramente em sua sinceridade.
No fundo, Emma não pode deixar de sentir o peso da responsabilidade por tudo o que aconteceu com Regina a partir do momento em que ela entregou a batalha em suas mãos. A batalha que deveria ser sua, enquanto 'salvadora'.
A falta de resposta de Whale faz com que a atenção de Emma recaia sobre o médico mais uma vez. "Por que não? Por que você não disse isso a ela?"
Ao repetir a pergunta, dessa vez seus olhos fixos na figura pálida do médico, Emma é capaz de reconhecer a verdade em seu olhar sem precisar do uso de palavras. De repente, o medo de Whale se torna quase palpável. Tal reconhecimento provoca tamanha repulsa na xerife, que por muito pouco seus impulsos não se mantém sob seu controle.
"Whale, você mesmo disse: Ela não tem poderes!" Ela tentar conter sua raiva com a razão.
"E você acha que são os poderes dela que fazem de Regina uma perigosa assassina? Ela é uma psicopata!" A declaração de Whale escapa quase cuspida.
"Este por acaso é o seu diagnóstico, Dr. Frankenstein?" Emma rebate com igual intensidade e cabe a Archie se colocar entre os dois, temendo por um confronto que exceda palavras.
"Talvez nós devêssemos deixar a xerife tentar conversar com a Srta. Mills." O psiquiatra sugere em meio à tensão.
"Eu deixei minha opinião perfeitamente clara. Qualquer decisão que vocês venham a tomar a partir de agora recai sobre seus ombros."
"Eu não esperaria nada menos de você, doutor." Emma responde à sua arrogância com indisfarçado desagrado, e o médico toma sua resposta como deixa para ir embora.
No entanto, antes que Emma entre no cômodo aonde Regina está sendo detida, Archie coloca a mão sobre seu ombro, impedindo que ela siga sem ouvir o que ele tem a dizer.
Ela espera um aviso de cautela, mas se depara com olhos repletos de genuína solicitude. "Escute o que ela tem a dizer. Mas também o que ela não ousar falar."
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Acontece mais rápido do que Emma é capaz de processar, o que diz muito considerando quão afiados costumam ser seus reflexos.
Uma vez dentro do quarto, Emma é jogada com força contra a parede e por causa do forro acolchoado que a cobre, o único som que ela consegue registrar é a lufada de ar que escapa de seus pulmões com o baque.
"O que vocês fizeram comigo?" Os olhos de Regina, negros e furiosos não escondem uma grama da turbulência de seu descompasse e Emma não pode deixar de notar como ar de ferocidade incontida é absorvido com perfeita harmonia pela beleza da mulher que parece prestes a oferecer-lhe um fim.
Psicopata, foi o termo que Whale utilizou. E mesmo detestando conceder-lhe razão em qualquer instância, os instintos mais primais da loira reconhecem o perigo.
"Reg--Regina" A voz de Emma escapa com dificuldade enquanto o braço da Rainha pressiona com força sua laringe. "Me solta."
"E por que eu deveria?" O brilho exibido pelos olhos escuros da Rainha faz com que Emma estremeça involuntariamente.
"Porque--" Emma consegue sentir o seu fôlego chegando ao fim, sua vista escurecendo. Ela poderia reagir, lutar, mas algo em seu íntimo a leva a crer que essa seria a escolha errada. Assim, ela persiste, usando suas últimas forças e nada além da mais pura intuição. "Porque eu estou aqui... pelo Henry."
É um golpe baixo.
Um gesto calculado.
E embora Emma não esteja preparada para admitir conscientemente, é apenas parcialmente verdade.
Mas nada disso diminui sua eficácia.
Com a mesma rapidez com a qual a atacou, Regina deixa Emma escapar de suas garras.
"Cadê ele?" Regina pergunta e de repente toda a sua fúria parece ter se dissipado, dando lugar a mais sincera preocupação.
"Seguro." Emma fala inspirando profundamente, buscando recuperar todo o oxigênio que lhe foi momentaneamente negado. "E na escola, eu espero."
"E a minha mãe está..."
"Morta." Emma completa, buscando enxergar em Regina a lucidez de seus atos. Mas, ocupados demais procurando conciliar suas emoções, os olhos de Regina fogem sem oferecer a Emma o contato desejado.
Emma lhe oferece então seu silêncio, por respeito e consideração, entretanto existe apenas tanto tempo para que certas verdades sejam contidas. E as incertezas não toleram o compasso das horas.
"Então, você se lembra?"
Apesar da voz de Emma deixar seus lábios pequena, quase imperceptível, ela ainda assim alcança seu destino. A resposta de Regina é acompanhada de um sorriso devastador que congela e derrete em seus lábios.
"Como se algum dia eu fosse esquecer."
Os braços de Regina caem sem vida, soltos à medida que a postura altiva é colocada de lado, como um cavaleiro que abandona uma armadura após uma longa e pesada batalha.
Em um piscar de olhos a Rainha Má desaparece. Fica em seu lugar apenas Regina, mas uma versão que Emma não é capaz de reconhecer. Uma versão que, a loira desconfia, ninguém jamais viu.
Com os cabelos negros mais longos do que Emma jamais viu, o corpo magro demais dentro do pijama de cetim sujo de sangue e os pés descalços e feridos, Regina é um espectro de todas as versões de si mesma.
Toda essa vulnerabilidade subitamente exposta, viola todas as certezas que Emma acreditava carregar no que se refere à mulher que ela tem agora diante de si. E Emma simplesmente não sabe o que fazer com essa desconcertante revelação. Assim, a xerife oferece o pouco que tem e que não lhe custa mais do que ela é capaz de dar.
"Whale diz que é possível que a perda dos seus poderes seja temporária." Sua voz nunca pareceu tão inapropriada.
Uma violação de privacidade.
Se Regina escutou o que ela, nada em seu semblante oferece qualquer indicação, até que um longo e arrastado suspiro escape por entre seus lábios, retirando o último de seus véus e expondo à mais completa nudez todas as suas tristezas.
Desconcertada, Emma busca a visão familiar de suas próprias mãos, dividida entre o desejo de escapar e um desconhecido e singular anseio que não permite que ela o faça.
É quando a voz de Regina, a única parte sua que aparentemente permanece intacta, quebra o desconfortável silêncio que se colocou entre as duas.
"Miss Swan, me leve para casa, sim?"
.::.
Continua...
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