O vendedor de livros
6 Capítulo 6 - Mãos invisíveis
Notas iniciais
John estava sentado tomando o seu chá matinal quando percebeu o movimento dos passos céleres de Sherlock na sala, em seguida o corpo alto e esguio do detetive invadiu a cozinha vestindo apressadamente seu sobretudo.
— Vamos, John! – o detetive convidou animado.
— Para onde? – John limitou-se a parar a xícara próxima aos lábios.
— Dar um passeio no St. James’s Park. – o detetive respondeu pegando a xícara de chá que John segurava e sorveu um gole enquanto encarava com ar inocente o namorado diante dele.
— Com esse clima horrível? – John ponderou estreitando os olhos.
— Só estou tentando ser romântico. – o detetive respondeu com expressão brincalhona.
— Ah, mas não está mesmo. – John concluiu rindo.
— É, não estou. Na verdade o funcionário dos correios que ficou de localizar o pacote postado em Alnwick para Londres entrou em contato, ele encontrou a encomenda e se encontrará comigo no St. James’s Park para me passar o objeto. Quero que vá comigo. – disse sorvendo o resto de chá que havia na xícara que roubara da mão do médico.
— Ah, bom. Esse é o Sherlock que eu conheço. – respondeu o médico levantando-se para pegar seu casaco e luvas para frio, seguindo o moreno em seu passeio no meio de um dia de céu fechado e baixa temperatura.
O trânsito estava tranquilo, a ameaça de neve varria das ruas boa parte das pessoas, favorecendo o percurso dos veículos pelas vias. Em pouco tempo o médico e o detetive chegaram a seu destino no coração de West End, ponto onde surgia amplamente arborizado, cheio de imensos tapetes gramados e grandes lagos espelhados, o St. James’s Park, o mais antigo dos parques reais britânicos, com um de seus acessos plantados bem de frente ao palácio de Buckingham. O St. James’s Park foi um parque de cervos no século XVI e um rico jardim durante o século XVII, até ser remodelado pelo arquiteto John Nash, que imprimiu elegantemente sua marca na reurbanização de Londres no século XIX, tornando aquele ponto um dos mais visitados por nacionais e estrangeiros.
Quando John e Sherlock chegaram ao parque, a chuva que havia varado a madrugada e se arrastado por boa parte do dia, havia cessado. Os bancos de madeira estavam úmidos e as copas das árvores gotejavam o excesso de precipitação pluviométrica desencorajando o ato de colocar-se debaixo de suas galhas.
O detetive avançou pelo parque parando no acesso que dava de frente ao palácio real e olhou ansioso para o relógio.
— Chegamos alguns minutos antes do horário marcado. – o moreno destacou voltando a olhar em volta.
O lugar estava vazio, o inverno desanimava passeios, de modo que um parque pós chuvas prolongadas era o último lugar a ser procurado para lazer em Londres. Com frio, John esfregou as mãos e soprou ar quente entre elas enquanto Sherlock observava atentamente o parco movimento da rua adiante, tentando distinguir qualquer sinal da pessoa pela qual aguardava.
— Senhor Holmes! – alguém chamou se aproximando a passos apressados.
— Olá! – Sherlock cumprimentou um rapaz moreno que se adiantava de forma animada.
— Eis a sua encomenda, Senhor. – o rapaz esticou na direção do detetive um pacote pardo lotado de selos.
— Obrigado. – o detetive disse recebendo.
— Disponha, eu lhe devo muito. – o rapaz comentou sorrindo. – Bem, eu tenho que me apressar, estou no horário de trabalho! Se precisar de mais alguma coisa, Sr. Holmes, qualquer coisa, é só me dizer! Até mais! – o rapaz despediu-se saindo às pressas.
John observou o jovem sumir no acesso próximo onde estavam, e não suportando a curiosidade, perguntou:
— O que você fez por ele?
— Provei que ele não tinha participação no desvio de encomendas de alto valor na empresa de entregas para qual ele trabalha. Ele havia sido escolhido como bode expiatório por uma gangue de desvio de cargas. Livrei-o da cadeia e salvei seu emprego. Foi muito simples. – Sherlock respondeu colocando o pacote debaixo do braço, pondo-se em marcha.
Ao saírem do parque, John pediu para que almoçassem em um restaurante no caminho, tendo em vista que já passava do meio dia e não haveria tempo nem ânimo para preparar comida no apartamento, isso seria o mais lógico a fazer. Sherlock não reclamou, apesar de estar ansioso por abrir o pacote pardo em mãos, aceitou comer na rua antes de voltar ao 221B.
O detetive acompanhou John até um restaurante simples perto do St. James’s Park e esperou pacientemente pelos pratos. Ele estava contente com sua encomenda e tamborilava alegremente os dedos longos por sobre o tampo da caixinha repleta de selos postais como uma criança esperando a hora de abrir um presente debaixo da árvore de natal.
De volta ao apartamento, o detetive removeu o cachecol e o sobretudo, atirando-os de qualquer jeito numa cadeira, sentou-se perto da mesa de leitura e abriu o pacote pardo puxando de dentro dele uma colorida boneca oval feita de madeira. Com ansiedade, o moreno foi desencaixando as réplicas uma de dentro da outra, esperando esbarrar a qualquer momento com o objeto que supunha ter o vendedor de livros escondido dentro do brinquedo. Ele puxou uma, duas, três ... desencaixou todas as peças até chegar à quarta pequena e maciça réplica da matrioska camponesa. E nada. Não havia nada entre as peças, era uma boneca perfeitamente normal.
— Não pode ser, tem que ter algo errado! – Sherlock exclamou inconformado batendo a palma da mão direita sobre a madeira da mesa.
— A boneca parece totalmente normal... – John comentou observando o detetive reanalisar cada uma das réplicas de madeira voltando a constatar que estava tudo na mais perfeita normalidade.
A Boneca não possuía nada. Era só um brinquedo simples sem mais nada de especial.
Sherlock levantou-se da cadeira próxima a mesa de leitura e pôs-se a andar inquieto de um lado para o outro da sala, lábios movendo-se silenciosos, mãos sacudindo e gesticulando em torno da cabeça e uma veia saltando na têmpora esquerda denotando uma avalanche de informações sendo celeremente processadas pela mente do detetive.
John observava atentamente os movimentos agitados do namorado tendo a sensação de que se não fizesse algo para acalmar a o moreno, ele iria entrar em curto a qualquer momento. Então, o médico resolveu agir.
John se aproximou de Sherlock e o puxou pelo pescoço plantando-lhe um beijo firme, prolongando-o como uma massagem calmante até sentir o corpo do detetive relaxar sob o seu toque. Depois de alguns longos segundos, o médico separou lentamente os seus lábios dos lábios do companheiro que o encarou com um riso levemente ofegante.
— Você tem que dar um tempo para sua mente, Sherlock. Você não é uma máquina. – o médico disse encarando-o com olhos gentis, puxando-o para sentar-se no sofá.
— Algumas pessoas discordariam de você. – Sherlock afirmou lambendo os lábios enquanto sentava-se no sofá junto com John.
— Essas pessoas não te conhecem. E até as máquinas precisam esfriar para não entrar em colapso. – o loiro respondeu massageando a coxa do detetive. – você precisa relaxar. – John completou deslizando as pontas dos dedos pelo peito do moreno, correndo-os pelos botões da camisa e libertando-os de suas casas diante do olhar expectante e curioso de Sherlock.
Depois de abrir a camisa do companheiro, John roçou os lábios no pescoço do detetive e iniciou uma lenta descida com sucessivos beijos e lambidas morosas, úmidas e quentes, parando aqui e ali para sugar poções de pele alva no corpo do moreno que aos poucos foi se inclinado sobre o sofá até estar deitado com a cabeça descansada na almofada encostada no braço do móvel, liberando pequenos suspiros de apreciação enquanto John se acomodava entre suas pernas, distribuindo quentes toques e beijos em seu tronco exposto.
Os gemidos baixos que o moreno deixava escapar estimularam John a ir mais para o sul no corpo do parceiro, desafivelando o cinto, desabotoando a calça e descendo o zíper desta para extrair de dentro da peça íntima já bastante distendida, o excitado pênis de Sherlock.
John lambeu os lábios para deixá-los o mais úmido possível e tocou a ponta do membro ereto, com lentidão quase enlouquecedora. Sherlock passou a língua pelos lábios repentinamente secos e depois buscou por ar ao sentir John sugar a ponta do seu falo. O loiro sugava apertando o músculo túrgido com os lábios, pressionando a ponta com a língua enquanto suas mãos massageavam os testículos do namorado.
Sherlock espremeu os olhos e apertou os lábios, buscando administrar os abalos escaldantes de prazer que estouravam por todo o seu corpo. Suas mãos subiram para a almofada que acomodava sua cabeça, e lá os longos dedos se cravaram em busca de sanidade. John continuou a massagear o membro do moreno, sugando e apertando o músculo com sua língua quente e úmida, buscando desconectar Sherlock de qualquer outro pensamento que não fosse voltado a eles dois ali, naquele sofá.
Para intensificar as sensações, John deixou apenas uma das mãos ocupadas em massagear os testículos do namorado e deslizou a outra para um dos mamilos rosados do moreno, aplicando ali deliciosas pressões repetitivas. O gesto causou um forte abalo no corpo de Sherlock que com um denso grunhido, soltou a almofada e agarrou a cabeça de Watson com ambas as mãos movendo os quadris para cima, implorando para que o loiro lhe permitisse afundar mais o membro em sua boca quente e molhada. John deu espaço separando mais ainda os lábios para que o pênis do moreno deslizasse até a sua garganta. Sherlock fez isso com lentidão e cuidado, apesar de estar louco por intensificar sua experiência na boca do médico, sabia que não devia se exceder, caso contrário, sufocaria o outro, provocando sucessivos engasgos. Ele não queria isso.
Manteve o vai e vem lento, permitindo que John moldasse da melhor maneira possível os lábios em torno de sua ereção, buscando fazê-lo acostumar-se com a invasão cada vez mais profunda do membro que passou a tocar repetidamente a garganta do loiro que começou a gemer em torno do falo duro do moreno.
John havia abandonado a massagem ao testículo do namorado e libertado o próprio pênis de dentro das calças e estava engajado em masturbar-se enquanto Sherlock fodia lentamente a sua boca.
O detetive mordeu o canto direito dos lábios, respirando pesada e entrecortadamente, sentindo que podia se mover com um pouco mais de vigor e sua dedução não estava errada. John acomodou habilmente o falo que ia e vinha mais rápido e mais fundo em sua boca. A sensação de forças escaldantes percorrendo seu corpo impiedosamente se acumulando para estourar e se dissolver, deixavam a mente de Sherlock em branco. Era uma perfeita e deliciosa perda de percepção de espaço, tempo e identidade. Tudo se resumia em sensações as quais o corpo primitivamente buscava satisfazer e sentir em plenitude.
Repentinamente, o corpo do detetive se curvou, surpreendendo-o, ele pensava que poderia prolongar por mais tempo aquele momento, mas seu corpo o traiu, um forte jato de esperma estourou na garganta do médico, fazendo-o buscar por ar como alguém que fora tragado de surpresa por uma onda marinha muito grande.
— John... – Sherlock, ainda se sentindo consumido pelo forte orgasmo, forçou o corpo a sentar para analisar o loiro que tossia. – Desculpe, você está bem?
— Não se desculpe – repreendeu o outro meio rouco buscando dar-lhe um sorriso. – Eu estou bem. – John respondeu limpando a garganta.
Guardando o membro satisfeito dentro das calças e afivelando o sinto, Sherlock olhou para o baixo ventre do médico e viu que havia uma pendência ali. A ereção de Watson ainda esta pedindo por alívio. O moreno deslizou do sofá para o chão e se colocou entre as pernas do companheiro, deslizou seus longos dedos em torno do membro diante dele e o aproximou dos lábios dando uma leve lambida na glande avermelhada.
— Meu Deus! Sherlock!Oh! – John exclamou jogando a cabeça para trás arfando ao sentir o moreno iniciar a sucção de seu pênis, dando uma mordida leve aqui e ali.
O detetive alojou todo o membro dentro de sua boca, podendo sentir a ponta tocar a própria garganta, ato contínuo, o detetive começou a mover a cabeça para cima e para baixo provocando um entra e sai vertiginoso do membro do médico que ia e vinha entre os lábios rosados de Sherlock. Não demorou e o médico puxou o amigo pelos cabelos a tempo de ejacular fora de sua boca, desabando no encosto do sofá ante os olhos ávidos do moreno.
— Você gozou mais rápido do que eu, John. – Sherlock constatou olhando-o com um riso de canto.
— Não tenho culpa. – John suspirou. – Suas carícias são únicas no universo, Sherlock. – o loiro completou com um riso bobo.
Ao ouvir o médico, o detetive ficou repentinamente sério e o brilho quente dos seus olhos deram lugar a um tom afiado e metálico de uma dedução que cortou sua mente como uma lança em alta velocidade.
— É isso... – Sherlock murmurou se levantando.
— O que foi? – John parecia muito confuso.
— Você é um gênio, John! É isso! Peça única! – Sherlock tinha um riso de orelha a orelha.
— Como é que é? Não estou entendo nada. – reclamou o loiro guardando o pênis dentro das calças abotoando-a e pondo-se numa posição mais decente no sofá.
— O vendedor de livros não colocou nada dentro da boneca, ela veio pronta para ele! – o detetive exclamou pondo as mãos unidas sobre os lábios.
— Como é que é?
— Voltemos ao relato da vendedora de bonecas em Alnwick. Ela disse que o homem foi até a prateleira de matrioskas onde havia vários modelos, mas ele se interessou pelo lote de matrioskas camponesas.
— Certo, e daí?
— E daí que bastava pegar qualquer uma, eram visualmente idênticas exceto pela numeração gravada após a sigla da manufatura de origem. – disse catando a boneca que deixara sobre a mesa de leitura. – Veja, há um código numérico. – disse apontando a base inferior da réplica maior.
John levantou-se do sofá e observou o ponto em que o dedo de Sherlock repousava indicando as inscrições L&V 245.
— Espera, eu lembro dessa referência. – o médico afirmou.
— Claro que lembra, estava escrita à caneta no pedaço de papel encontrado no corpo do vendedor de livros. Ele não comprou a boneca para recheá-la, ela veio recheada para ele e tudo o que precisava era identificá-la. Lembra que a mulher na loja de bonecas disse que o lote era recém-chegado?
— Lembro. – John respondeu.
— Ele sabia quando o lote estaria naquela loja, por isso apareceu bem cedo no mesmo dia em que o produto chegou, não podia permitir que outra pessoa o levasse por engano.
— Mas não há nada na boneca, você mesmo atestou isso, o que ele iria querer com uma matrioska oca? – John insistiu.
— Nem todas as peças são ocas, John. – Sherlock afirmou voltando a desencaixar as bonecas – a última réplica do brinquedo é maciço. – concluiu mostrando a miniatura de uma camponesa oval medindo aproximados cinco centímetros.
O detetive catou um pequeno pilão para macerações químicas e deu um único e certeiro golpe na peça que cedeu em duas partes medianamente simétricas expondo em seu centro um pequeno retângulo de plástico azul.
— O que é isso? – John indagou analisando o pequeno pedaço de plástico.
— Um microcard. – Sherlock respondeu analisando a peça.
Sherlock voltou a sentar-se próximo a mesa de leitura e ligou o notebook. Ao conectar o microcard no leitor de cartões e tentar acessar seu conteúdo, uma janela com dois espaços em branco surgiu com as inscrições: “Digite a chave de acesso”.
— Certo, isto era bem óbvio. – Sherlock murmurou olhando atentamente para a tela do notebook. – Pelo estilo da chave, posso deduzir que ela pertence à categoria de tentativa única.
— Tipo, se você errar a senha na primeira tentativa, já era tudo? – John perguntou meio alarmado.
— Exatamente. – Sherlock respondeu sem desgrudar os olhos do computador.
— Voltamos para o zero, não é mesmo? – John inquiriu meio amuado ao lado do detetive.
— Uma senha de dois dígitos... – o detetive murmurou juntando as mãos adiante do queixo. – Preciso ter dados sobre o vendedor de livros. – continuou levantando-se agitado. – o que sabemos sobre ele, John? – Sherlock incitou o médico a falar.
— Ah... sei lá... vendia livros próximo à estação de Waterloo, foi encontrado morto no meio da loja de livros, esteve em Alnwick há alguns dias, comprou uma boneca de madeira e mandou para o próprio endereço. Bem, acho que isso é tudo. – John resumiu.
— É pouco...Preciso de mais... – Sherlock murmurou andando de um lado para outro na sala.
— Mas é tudo que temos, Sherlock. – John insistiu.
— Preciso de mais! – Sherlock exclamou pegando seu cachecol e sobretudo saindo disparado para fora do apartamento.
Surpreso, John pegou um casaco e o seguiu sem entender o que Sherlock estava pretendendo fazer àquela hora, pois a noite já estava deslizando pelo céu de Londres e a temperatura caia de forma desanimadora. Quando conseguiu alcançar o detetive, este já estava abrindo a porta de um táxi e informando algum destino ao motorista. John entrou logo em seguida observando o moreno olhar fixamente para a rua através da janela do veículo e comprimir repetidamente os lábios como se travasse conjecturas internas.
Minutos de um trajeto com trânsito relativamente fluido, o táxi parou próximo à estação ferroviária de Waterloo. O detetive pagou a corrida e disparou pela rua seguindo em direção a um prédio de três pavimentos, já conhecido por John que não resistiu e perguntou:
— Sherlock, por que voltamos para o local do crime que estamos investigando?
— Preciso de complementos. Para descobrir uma senha é necessário um mínimo de informações sobre aquele que a utiliza ou deve utilizar, eu preciso de informações sobre os hábitos e comportamentos do vendedor de livros.
— E a loja dele vai fornecer isso?
— O lugar não era só uma loja, John, ele morava lá, não prestou atenção?
John franziu o cenho e tentou recordar a noite em que esteve observando um corpo no meio da loja de livros perto de Waterloo. Havia uma sala ampla lotada de prateleiras com publicações às centenas e... sim... ele lembrava de Lestrade vindo de uma sala contigua que não parecia ser comercial... Sherlock havia percebido o outro cômodo também, mas ao contrário do médico, o detetive concluiu por meio de algumas especificidades passadas despercebidas ao companheiro, que aquele compartimento pertencia a uma residência conjugada ao trabalho.
Quando estavam perto do prédio, John percebeu a presença de uma outra pessoa também interessada em entrar no prédio.
— Lestrade? – John inquiriu confuso.
— Oi! Demoraram, hem? Muito trânsito? – o inspetor perguntou remexendo-se em seu lugar para espantar o frio.
— Um pouco. – Sherlock respondeu. – Trouxe a chave?
— Aqui. – Lestrade mostrou. – Tava esperando vocês para entrar, vamos, está frio demais aqui fora.
O inspetor abriu a porta e os três homens entraram na livraria.
— Eu fiz aquela busca que você pediu, Sherlock. – Lestrade comentou.
— E? – Sherlock arqueou uma sobrancelha incentivando-o a continuar.
— Rastros totalmente invisíveis. Isso é coisa de gente treinada para se manter invisível ao sistema, verdadeiros profissionais! – o inspetor respondeu.
— Eu já esperava por isso. – o detetive comentou avançando pela loja.
— Já? Então por que me mandou fazer a busca?
— Apenas para ter certeza, inspetor. – Sherlock rebateu com um riso de canto.
O moreno andou pelas prateleiras de livros até chegar à parte onde havia um acesso para outro ambiente, sendo acompanhado por John que não resistiu perguntar:
— Você chamou o Lestrade?
— Chamei. – o detetive respondeu puxando as fitas de isolamento que havia na porta de acesso.
— Quando? – John voltou a perguntar.
— Descendo as escadas antes de parar um táxi e ser alcançado por você. – o detetive respondeu de modo célere.
— Ah...- John murmurou.
— Mais alguma pergunta? – o moreno inquiriu encarando-o com uma ponta de impaciência.
— Não, isso é tudo.
— Bom. – o moreno disse entrando no quarto aos fundos da loja seguido por John e Lestrade.
O lugar era um quarto que reunia a função de dormitório e sala, ao centro havia uma mesa de trabalho lotada de livros, uma luminária e muitos papeis empilhados. Sherlock rodeou a mesa e sentou-se na cadeira que rangeu como se tentasse ofender ou advertir o intruso. O moreno começou a pegar e analisar as folhas espalhadas sobre a superfície de madeira, descartando-as uma após a outra sem se importar se as atirava de canto na mesa ou no chão. Lestrade moveu-se do seu lugar postado de frente para um Sherlock revirando papéis e começou a andar em volta observando as paredes decoradas com um papel floral brega de cores primárias, depois espanou um canto no assento do sofá e sentou-se aguardando o resultado da busca desordenada de do detetive.
John ainda dedicou alguns minutos observando Sherlock revirando papéis e livros até que se cansou e deixou os olhos deslizarem pelo recinto. Havia acúmulo de pó nos poucos móveis e nos montes de livros escorados pelas paredes, mas no meio de todo o ar de abandono, o médico se interessou pela estante que cobria toda uma parede de frente à mesa que Sherlock revirava.
O loiro aproximou-se e viu que tratavam-se de publicações antigas, muitas delas raras e com um bom preço de mercado, pelo visto, o vendedor de livros colecionava publicações velhas pelo valor histórico que muitas possuíam. John tinha que admitir que várias delas possuíam um bonito aspecto e fazia boa figura na prateleira, imaginava que o dono devia ter muito ciúmes de seus tesouros de papel.
Suspirando, o médico deslizou os dedos pelas lombadas gastas e puxou um largo livro de capa roxa onde havia um pedaço de papel amarelado fazendo marcação de uma página entre tantas, mas John não se importou com esse detalhe, certamente alguém havia parado a leitura naquele ponto. Ele abriu a publicação e constatou que era ricamente ilustrada. Estava tão entretido com a beleza do livro que não percebeu Sherlock se aproximar celeremente dele e puxar o encadernado de suas mãos.
— Ei! O que foi? – John perguntou surpreso com o gesto rude do namorado.
— É isso! – o detetive exclamou olhando avidamente para o livro que havia arrancado das mãos do médico. – Você descobriu, John!
— Descobri? Descobri o quê?
Antes que Sherlock pudesse dizer qualquer coisa, um baque foi ouvido no sentido da entrada da loja de livros.
— Mais alguém entrou aqui. – Lestrade disse levantando-se rapidamente do sofá enquanto puxava a arma do colete abaixo do casaco.
Nesse momento John sentiu-se frustrado por não ter posto sua arma dentro do próprio casaco também, por isso limitou-se a manter cautela ao seguir Lestrade na averiguação do ambiente que teve suas lâmpadas desligadas pelo invasor. Enquanto isso, Sherlock ocupava-se em foliar o livro arrancado das mãos do médico.
A loja tinha tamanho razoável e detinha alguns corredores de prateleiras que delimitavam sessões de literatura. As estantes eram altas o suficiente para ocultar quem transitasse por elas e isso fazia com que o médico e o inspetor mantivessem cuidado redobrado ao percorrer os corredores nebulosos parcamente iluminados pela iluminação da rua que atravessava as frestas da persiana da vitrine.
Caminharam dois metros de corredores em linha reta sem encontrar nada fora do lugar, ao chegar à esquina da longa estante, John puxou um atlas mundial de tamanho e peso razoável sendo encarado com estranheza por Lestrade que continuava empunhado sua arma.
— Livros também podem virar armas perigosas, sabia? – John comentou apertando firmemente o atlas.
— Sei, ainda mais quando empunhados por quem saber transformá-los em armas. – Lestrade respondeu rindo dobrando a esquina seguinte prosseguindo na verificação do ambiente.
Já haviam verificado três dos sete corredores de livros quando ouviram algumas publicações caírem no corredor ao lado deles, John fez sinal de que iria avançar pela esquerda para que Lestrade avançasse pela direita no intuito de fechar ambas as saídas do corredor seguinte. Os dois foram rápidos na ação, mas deram com um lugar vazio. Ambos resmungaram a frustração que roeu-lhes as entranhas, mas o momento não durou três segundos. Ambos tiveram sua atenção chamada pelo som de dois homens em luta corporal em algum ponto entre os corredores de livros.
— Sherlock? – John chamou.
Era óbvio que o segundo homem na briga devia ser o detetive. O médico correu esbarrando em livros e prateleiras guiando-se pelo som de coisas caindo e grunhidos de sufocação e contenção a alguns metros no meio do ambiente penumbroso.
— Sherlock! – John gritou avistando o homem se contorcendo no chão.
O médico se aproximou alarmado tentando ajudar o detetive a sentar-se. Sherlock tossia e puxava o ar com dificuldade enquanto apontava para a porta aberta de acesso à rua, tentando falar, mas sem muito sucesso. Não conseguindo falar claramente, o moreno forçou o corpo e ficou de pé com uma agilidade razoável e correu para a rua. John correu atrás sendo seguido por Lestrade que ainda atrasou-se uns segundos fechando a entrada da livraria.
Uma coisa era certa para John, Sherlock havia sido atacado pelo invasor e estava perseguindo-o agora.
O detetive atravessou a rua movimentada e seguiu para a estação ferroviária de Waterloo, descendo as escadas com uma rapidez espantosa. John continuava mais atrás tentando não perdê-lo de vista em meio a um mar de gente que circulava na estação que costuma receber uma média de cinquenta e sete mil pessoas por dia nos horários de pico. Aquele não era exatamente um dos horários mais movimentados em Waterloo, mas havia centenas de cidadãos circulando rumo à plataforma de embarque e desembarque. Correr por entre essa massa humana enquanto tenta-se manter o foco em uma pessoa apenas, não é uma tarefa muito fácil.
Sherlock corria esbarrando eventualmente em uma pessoa aqui e outra li, sendo xingado e não se importando com o conjunto de palavras feias que os esbarrados lhe dedicavam, mantendo seu olhar atendo a um vulto específico que avançava pela multidão, o homem corria bastante, mas os olhos do detetive permaneciam grudados nele disposto a alcançá-lo com as mãos que continuavam empurrando as pessoas pelas plataformas, abrindo passagem. No entanto, a quantidade de gente transitando no caminho de Sherlock parecia triplicar, atrapalhando sua aproximação do vulto e consequentemente fazendo-o perder o homem de vista.
— Droga! – Sherlock praguejou girando o corpo em várias direções em busca de algum indício da presença do indivíduo que havia perseguido até ali.
O súbito aumento de movimento de pessoas foi justificado pelo longínquo som de um trem se aproximando, dando sinal de que em alguns minutos as composições parariam ante a plataforma de embarque para colher seus passageiros. Sherlock estava muito irritado e andava inquieto de um lado para o outro às margens da plataforma, murmurando pequenos impropérios não perceptíveis em decorrência do característico rumor do trem se aproximando trazendo leve trepidação no piso e uma onda de ar expandida com o avanço do seu maquinário.
Sherlock girou mais uma vez no próprio eixo corporal próximo ao vão de passagem do trem que deslizava a poucos metros. Percebendo Lestrade e John se aproximarem do outro lado da depressão de concreto que guardava a linha férrea, Sherlock ergueu a mão para acenar na direção deles antes que o trem tapasse sua visão dos dois, mas não chegou a completar o gesto, pois um violento par de mãos ágeis socarem suas costas empurrando-o de modo brusco para dentro dos trilhos no momento em que o trem passava.
John congelou no lugar ao ver Sherlock cair no meio dos trilhos e segundos depois o trem passar por cima do detetive, tornando inútil qualquer tentativa de salvamento.
Continua...
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