O vendedor de livros

7 Capitulo 7 - Os dois espaços


Notas iniciais
Galerinha, o sétimo capítulo vai exigir um pouquinho da força do coração de vocês, preparem água com açúcar e sentem-se confortavelmente antes da leitura. Lembrem-se de compartilhar suas impressões comigo, viu? Boa leitura, amores!

Lestrade ficou branco feito uma folha e John não conseguia sentir o próprio corpo, pois seus músculos ficaram dormentes ante a visão medonha do trem passando impávido, mantendo os seus regulares trinta e três quilômetros por hora, deslizando pelos trilhos.

Uma chama irracional gritava para que John movesse seu corpo para cima do veículo de cento e sessenta metros, oito vagões e trezentos e sessenta toneladas, na tentativa de pará-lo, de arrastá-lo para longe do caminho onde Sherlock desapareceu em segundos engolido pelos carros ferroviários. Queria desesperadamente recolhê-lo daquela cova. “Recolhê-lo”... O coração do médico petrificou... Quantos pedaços de Sherlock ele seria obrigado a recolher?

John estava em completo choque e só de fato não cometeu a insanidade de atirar-se sobre o trem em movimento, porque Lestrade agarrou firmemente seu braço, aplicando toda a sua habilidade de contenção humana para manter um desnorteado John Watson no lugar até que o trem terminasse a sua passagem e pudessem ver o que encontrariam nos trilhos.

Lestrade temia internamente o momento do fim da passagem, não queria permitir que seu cérebro trabalhasse nas possibilidades nada agradáveis do que iriam ver quando o último vagão passasse pela linha férrea, então, com um frio correndo a espinha feito gelo líquido, fechou os olhos suspirando profundamente quando o último carro passou.

John manteve seus olhos bem abertos no sentido dos trilhos que denunciaram um corpo imóvel ao centro, as retinas do loiro estavam atentas, como as do médico militar que nada entre corpos no meio de um campo de batalha barulhento em busca de um gemido, um movimento entre o entulho de barro e sangue que denuncie vida, um fio de esperança para que ele possa puxar e não deixar se esvair.

Lestrade abriu os olhos e viu o corpo imóvel trajando o inconfundível sobretudo escuro deitado no meio dos trilhos, não havia se despedaçado, mas a cabeça boiava numa poça vermelha nada animadora. O Inspetor deduziu rapidamente que, em um último ato reflexo, Sherlock havia se deitado o mais reto possível ao centro da linha, para evitar ser dilacerado pelas rodas de ferro do trem, aproveitando o espaço proporcionado pela altura das rodas e eixos das composições, e no gesto célere, teve a cabeça ferida por uma das barras de ferro que estruturam os trilhos.

Em segundos, John havia pulado na depressão dos trilhos sem se importar com qualquer medida de segurança que a situação exigia, acercou-se do corpo do detetive forçando-se a manter o equilíbrio emocional necessário para prestar assistência médica, sentir vida, por Deus, John queria sentir vida correndo naquele corpo estendido e com o rosto coberto de sangue.

Na parte superior da plataforma, Lestrade providenciou a rápida chamada de uma ambulância e da guarda ferroviária e em seguida pulou para os trilhos.

John puxava e tateava trêmulo o corpo do detetive em busca de pulso e a única coisa que sentia era a temperatura do corpo do companheiro descer gradualmente como uma casca desabitada, sem respiração, sem batimentos cardíacos, sem vida.

— Oh, meu Deus! – John assustou-se iniciando uma desesperada massagem cardíaca. – Você não tem o direito de fazer isso comigo, Sherlock!

A sensação de morrer é algo estranho, pensava Sherlock no meio de uma sala sem móveis, mas com duas portas fechadas em sentidos opostos. Num momento você sente um golpe, algo muito forte, a dor parece que vai te enlouquecer, mas no momento seguinte, tudo se esvai e sobra só uma sensação de dever fazer algo que nem sempre se sabe o quê.

Ele estava ali parado no meio de uma sala de piso em porcelanato branco sem móveis, com paredes nuas e duas portas trancadas, uma em cada extremidade do ambiente, ele diria que ambas estavam perfeita e diametralmente opostas como reflexos num espelho e ele sentia que devia passar por uma delas, mas não entendia ainda por quê e qual delas deveria escolher.

— Anda, Sherlock! Volta! – John gritava massageando seu peito com força.

O detetive sentiu uma suave brisa fria correr em torno do seu corpo incitando-o a mover-se do meio da sala, então ele andou alguns passos no sentido da porta à sua direita percebendo que uma dor começava a penetrar seu corpo e aumentar de intensidade à medida que se aproximava dela, então parou e deu alguns passos para trás ficando mais próximo da porta à esquerda, notando que a dor se esvaia por completo ao se aproxima do ponto oposto e era uma sensação de alívio muito boa e bem-vinda.

— Sherlock! – John soluçava sem interromper a massagem cardíaca.

— John... – Lestrade tentou argumentar sobre aquilo que ele mesmo não queria aceitar. –Eu acho que...

— Não! – John berrou – Não diga! – o médico continuou a aplicar os movimentos de reanimação no peito do detetive.

Sherlock virou em direção à porta que lhe trazia alívio e paz, parecia uma boa ideia sair daquela sala tediosa, e se ele tinha duas alternativas de saída, por que não usar aquela que lhe trazia conforto? A escolha lhe parecia muito lógica, muito óbvia, então pôs a mão na maçaneta e girou. Mas antes que pudesse ver o que tinha do outro lado da porta que escolhera, sentiu a porta oposta vibrar e murmúrios desesperados e ininteligíveis escaparem pelas frestas arrepiando-lhe os pelos da nuca.

— Sherlock! Não ouse me deixar! – John insistia sem cessar a massagem cardíaca. – Está me entendendo? Não vou deixar!

Os braços do médico tremiam com o esforço de manter a massagem ininterrupta, mas ele não parava e nem permitia que Lestrade revezasse com ele.

— Onde está a ambulância? – Lestrade gritou para a aglomeração de pessoas na plataforma.

O socorro estava demorando muito se bem que o inspetor acreditava que nada mais poderia ser feito, os paramédicos o ajudariam a conter John, tranquilizantes seriam bem vindos ao homem.

Sherlock soltou a maçaneta da porta à sua esquerda e olhou para a porta à direita franzindo o cenho. Por mais que não fosse a escolha mais lógica e confortável a fazer, algo nos murmúrios vazados pelas frestas lhe despertaram curiosidade e interesse, de modo que voltou a acercar-se dela, tornando a sentir dor e desconforto.

— Sher... Sherlock... por favor... – John ofegava. – Volte...

Sherlock tocou a maçaneta da porta à direita e caiu de joelhos chiando e fechando os olhos com muita força. A dor esmagava-o, estalando seus ossos, moendo seus músculos, gelando seu sangue tentando a todo custo afastá-lo dali, convencê-lo a seguir para a porta contrária onde poderia mergulhar na completa ausência de inquietação, na mais profunda paz... Como a paz que ele sentia na companhia do seu companheiro John...

“John” – o detetive pensou no meio da névoa de dor que cortava seu corpo e então Sherlock arregalou os olhos em súbita compreensão do que estava ocorrendo, ele não podia mergulhar no vácuo sensorial, tinha que fazer o caminho oposto, tinha que ir em direção a dor, a dor o levaria de volta para John.

O moreno usou o trinco da porta como apoio para erguer um pouco o corpo castigado pelo desconforto que aumentava a cada mínimo gesto executado no sentido de atravessar aquela passagem, o trinco era duro e o metal era frio e ao toque parecia mil agulhas perfurando a carne.

— Afaste-se senhor. – disse um paramédico tentando tirar o corpo de Sherlock das mãos de um John transtornado. – Nós assumiremos a partir daqui.

— Eu sou médico, droga! – John respondeu sem cessar as massagens.

— Tudo bem, Sr. Watson. – o paramédico afirmou encarando-o. – Mas agora o senhor precisa se acalmar.

Aquela era uma das típicas frases que um profissional de atendimento emergencial utilizava para preparar parentes e amigos de uma vítima para a nefasta notícia do falecimento do indivíduo.

— Não me venha com esse papo! Eu não vou desistir! – John não parava o que estava fazendo.

— John. – Lestrade agachou-se perto do médico. – é sério, você já fez tudo que podia, você é médico, sabe que Sherlock...

— Não! – John berrou sentindo sangue fluir na garganta.

Os braços do médico pinicavam e já não tinham mais força para continuar por mais que a vontade ordenasse que os movimentos seguissem pelo infinito. John parou de pressionar o peito do detetive, sentou-se e puxou o corpo para seus braços apertando-o com o resto de forças que ainda possuía e murmurou:

— Sherlock, eu te amo, volta...por favor...

A maçaneta estalou e a consciência do detetive cambaleou para um mar de ruídos confusos, pessoas, sirenes e alguém murmurando bem perto do seu ouvido alguma coisa que ele não compreendeu, mas achava que lhe dizia respeito.

— Pulso! – o paramédico que tentava remover o corpo dos braços do loiro, gritou alarmado e incrédulo! Aquilo era um milagre. – Ele voltou a ter pulso! Rápido, dose de noradrenalina para estabilizar!

John foi privado do corpo de Sherlock por vários pares de mãos que ergueram o detetive e depositaram na padiola para removê-lo da linha férrea e colocar dentro da ambulância, O médico não ficou para trás, recobrou energia e ergueu-se dos trilhos seguindo os paramédicos, enfurnando-se dentro da viatura médica junto com os profissionais que dedicavam-se em manter estável a pulsação cardíaca milagrosamente restaurada em Sherlock.

A maca com um Sherlock desacordado irrompeu pelos corredores do University College Hospital, abrindo caminho com a agitação e comandos dos socorristas. John percorria o caminho junto a Sherlock, mantendo-o sob sua vista, sentindo o temor irracional de que o simples desviar de seus olhos ansiosos fosse fazer perder-se o fraco pulso recuperado no corpo do detetive inconsciente.

Foram longos e tensos minutos acompanhando o procedimento dos médicos em volta do detetive, até que a movimentação em torno do corpo esguio e pálido sobre a cama, acalmou-se. Enfermeiros e médicos afastavam-se com a típica expressão casada de mais uma luta árdua pela vida de um paciente que teimava em escorregar por entre seus dedos, luvas eram descartadas em cestos próximos, batas eram remexidas e ampolas vazias de medicamento eram afastadas da cama. O mau entendedor se alarmaria com a súbita cessação das ações médicas sobre o paciente, mas John conhecia aquele comportamento, o reproduziu infinitas vezes em plantões no São Bartolomeu. Os calmos bips disparados pelo aparelho de acompanhamento de trabalho cardíaco, formavam uma doce música que anestesiava a mente do loiro que deixou-se escorar na parede e respirar profundamente como se só agora lembrasse de preencher os pulmões com ar suficiente para uma adequada oxigenação do seu corpo. Sherlock estava bem.

John ajudou os enfermeiros a trocar as roupas sociais de Sherlock por um folgado pijama de algodão azul celeste, depois ficou ao lado do leito do detetive enquanto refletia sobre os rumos que a investigação do caso do vendedor de livros estava tendo.

Definitivamente a coisa toda era muito maior do que supunha. O homem morto detinha uma informação muito importante e ao que parece, havia pessoas lá fora dispostas a tudo para que a informação permaneça oculta, mas o que seria? Que tipo de informação promoveria a morte de um homem e colocaria em risco a vida de outro que resolveu investigar?

O médico começava a refletir se o que estava oculto não deveria permanecer oculto, há coisas que devem permanecer na ignorância, pois quando reveladas são capazes de provocar mais danos do que benefícios. Fosse o que fosse, Sherlock estava perto de descobrir o que era e alguém já sabia disso e não iria descansar até impedi-lo permanentemente de seguir com sua investigação, o pior é que a única maneira de fazer o detetive parar é matá-lo e as pessoas envolvidas nesse mistério não pestanejarão em usar este recurso para se livrar da curiosidade dele.

As horas passaram e o cansaço cobrou do corpo do médico a necessidade de cochilar, mas sua mente não permitia que sono desligasse sua consciência, temia que o ritmo cardíaco do companheiro sofresse alteração brusca enquanto dormia.

— John... – Sherlock murmurou ainda de olhos fechados.

— Eu estou aqui. – o médico respondeu aproximando-se mais do leito para apertar a mão do detetive entre as suas e fazê-lo sentir sua presença.

O detetive estava meio grogue por conta da medicação que foi ministrada em seu corpo, mas John percebia que o moreno fazia força para sair da cama.

— Não, Sherlock, você vai ter que esperar mais um pouco para sair dessa cama, o efeito dos remédios ainda estão no auge, não vai conseguir ir muito longe. – John ponderou forçando-o a deitar-se.

— O caso... – o homem insistiu com voz arrastada cedendo à pressão das mãos do médico, voltando a afundar a cabeça no travesseiro.

— O caso vai ter que esperar até você se restabelecer decentemente. – John determinou entrando no modo operacional “médico”.

Sherlock não voltou a tentar sair da cama, o efeito da medicação era mais forte que a sua vontade de fugir do hospital. Em poucos segundos sua respiração tornou-se tranquila e compassada, denotando haver caído em sono profundo. John o observou adormecer e quando percebeu que o namorado havia sido derrubado pelo sono, puxou o lençol para cobrir-lhe o corpo até os ombros. O ato o fez olhar para a pele do pescoço de Sherlock e perceber algumas manchas roxo-esverdeadas deixadas pelo indivíduo que tentou estrangulá-lo na livraria. O médico subiu seu olhar para a expressão adormecida do detetive e encarou um longo curativo que escondia o ferimento ponteado no lado esquerdo da testa do moreno. John sentiu o ar travar nos pulmões ao deixar-se atentar para o fato de que quase perdeu Sherlock em duas oportunidades naquele mesmo dia.

Sentou-se sentindo as pernas enfraquecerem com o terror das situações pelas quais passou nas últimas horas, todo o desespero bloqueado para poder prestar auxílio médico ao detetive, caiu como navalhas congeladas em seu corpo. Sherlock havia morrido em seus braços por vários minutos! O que seria dele agora se o homem não houvesse voltado? Com qual nível de dor estaria lidando?

John sacudiu esses pensamentos dolorosos da mente e entrelaçou seus dedos por entre os dedos de Sherlock, apertando sua mão para senti-lo e certificar-se de que ele estava ali, ao lado dele, nada e ninguém tinha o direito de arrancar Sherlock da sua vida.

Meia hora depois de Sherlock haver recobrado a consciência e voltado a dormir, Lestrade apareceu no quarto onde John e o detetive estavam. O inspetor ainda parecia alarmado com tudo que havia acontecido no começo daquela noite e olhava para o homem deitado na cama como quem ainda não acreditasse que aquele que dormia tranquilamente com apenas alguns pontos na testa, era o homem que havia sido atropelado por um trem.

— Como ele está? – Greg perguntou para John aproximando-se do médico.

— Acordou há uns trinta minutos, quis sair da cama, mas eu o fiz voltar. Não demorou muito e voltou a dormir. – o loiro respondeu. – Conseguiu descobrir quem fez isso com ele?

— Você vai ficar surpreso. – disse Lestrade pegando alguns papéis guardados no bolso interno do seu casaco. – Eu pedi para ver as imagens das câmeras do ponto da estação onde Sherlock foi jogado nos trilhos e olha só quem aparece o empurrando.

John pegou os papéis que Lestrade ofereceu e franziu o cenho.

— Não reconheço, quem é?

— Ah, claro, você não teve acesso as fotos dos jardineiros procurados, só aos nomes falsos. – Lestrade disse numa súbita compreensão da estranheza. – Este é jardineiro que atendia pelo nome de Samuel Green. Ao que parece ele está em Londres.

— Certo, então ele veio para Londres e está muito interessado em dar um fim no Sherlock. É isso? Muito animador. – John resmungou apertando a mão do moreno desacordado.

— Sherlock devia estar muito perto de alguma coisa que eles não querem que seja descoberto.

John ficou calado, o detetive não havia falado para Lestrade sobre a matrioska e muito menos do que havia encontrado dentro da boneca, o médico preferiu deixar que o namorado decidisse o momento de compartilhar a informação com o inspetor.

— Bem, eu já vou indo, vou informar o ocorrido aos federais, afinal, o caso é deles agora. Se precisar de alguma coisa, me liga. – Lestrade disse acenando e saindo do quarto.

“Ótimo”, John pensou, um dos supostos assassinos do vendedor de livros queria matar Sherlock.

Durante a madrugada John deu pequenos cochilos encostando a cabeça no colchão do leito de Sherlock, mas ficou atento a qualquer movimento do detetive, mantendo sempre uma das mãos sobre o corpo do moreno para detectar qualquer mínima agitação muscular.

Às seis da matina, o médico resolveu esticar o corpo, ergueu-se da cadeira e alongou-se, depois olhou para Sherlock que ainda dormia profundamente. Ele tinha que admitir que a dose de medicação administrada foi cavalar, mas necessária. Sentiu necessidade de um copo de café e por isso arriscou-se a sair de perto do namorado, buscando dar a maior celeridade possível aos passos, para não deixá-lo sozinho por muito tempo.

Quando voltou com seu copo de café, quase o largou no chão, pois chegou a tempo de flagrar Sherlock de pé ao lado da cama, tentando trocar o pijama hospitalar por suas roupas deixadas dobradas ao lado.

— Ei! Vá com calma. – disse o médico se aproximando do detetive induzindo-o a sentar-se no leito.

— Preciso voltar para casa... – Sherlock falou meio aborrecido e sonolento.

— Eu sei, mas se não lembra, você foi atropelado por um trem!

— Em tese, sim, efetivamente, não. – o moreno respondeu parecendo mais alerta.

— Ok, mas você esteve debaixo de um trem em movimento por vários segundos, bateu a cabeça numa barra de aço e teve uma parada cardíaca, então vamos com calma, certo? – John insistiu.

— Quero trocar de roupa e ir para casa. – o detetive disse em meio a um suspiro enfadado.

— Tudo bem, eu te ajudo a fazer a troca e vou conseguir a sua alta, cuidarei de você em casa.

Dito isto, John iniciou a remoção do pijama e auxiliou Sherlock a vestir a roupa com a qual dera entrada no hospital na noite do dia anterior. Depois disso, procurou o médico plantonista e obteve a alta do paciente.

Ao saírem na porta, foram colhidos de cheio por um paredão de repórteres e flashes de câmeras que deixaram Sherlock zonzo e John um tanto irritado. Todos queriam saber como Sherlock Holmes havia escapado ileso do atropelamento de um trem.

— Por favor, nos deixem passar. – John pedia empurrando jornalistas para os lados enquanto puxava Sherlock pelo braço.

O médico foi nadando entre as pessoas aglomeradas na calçada até conseguir chegar às margens da avenida e parar um táxi. Pôs Sherlock dentro do veículo e mandou seguir para a rua Baker Street, 221B.

A chegada na calçada do apartamento não foi a esperada, para o desgosto de Watson, havia um grupo de jornalistas na porta, esperando pacientemente a chegada do detetive e seu parceiro. John suspirou audivelmente, teria que abrir caminho no braço novamente. Desceu, pagou a corrida e puxou Sherlock pelo braço e nadou por entre os jornalistas até conseguir entrar no térreo do apartamento.

— Oh, meninos! É verdade o que estão dizendo? – A senhora Hudson comentou ao sair na porta por conta do movimento.

— É. – John respondeu puxando Sherlock para as escadas.

— Eu não quis acreditar, tentei ligar para seu celular diversas vezes, mas não dava certo. – a mulher continuou.

Nessa hora John pegou seu aparelho e percebeu que a bateria havia descarregado, agradeceu por não ter precisado dele.

— Está tudo bem agora, Sra. Hudson, o Sherlock só precisa de repouso agora. – respondeu conduzindo um Sherlock estranhamente silencioso e dócil rumo ao apartamento.

Já dentro do apartamento, o detetive estancou no meio da sala puxando o braço que John segurava no intuito de levar Sherlock para o quarto.

— Aqui está perfeito, John, não preciso descansar agora, preciso do meu computador. – o detetive declarou movendo-se para a mesa da sala.

— Mas, Sherlock...

— Preciso acessar o conteúdo do microcard agora, John. – moreno disse se sentando próximo à mesa de estudos.

— Você já sabe a senha?

— Sei.

— Mas como? Pensei que a senha estava no livro e pelo que parece, você o perdeu ontem.

— Não preciso mais do livro, eu li a fábula necessária para desvendar a senha enquanto você e Lestrade brincavam de polícia e ladrão por entre as estantes de livros.

— Não estávamos brincando, tinha um invasor naquela livraria.

— Eu sei. – disse o detetive apontando as marcas roxas no próprio pescoço.

— Mas como descobriu a senha? – John perguntou desviando o olhar das marcas de tentativa de estrangulamento.

— Como eu disse: lendo o livro.

— Leu aquele livro todo nos poucos minutos antes de ser atacado?

— Era um livro infantil, a leitura é obviamente bem rápida.

— Percebi. – John falou puxando uma cadeira para sentar-se ao lado de Sherlock.

— Fato é que uma das fábulas daquele livro continha a senha. É bem a cara de um vendedor de livros. – disse o detetive com um riso enviesado nos lábios enquanto ligava o notebook.

— Ok, e como a fábula dava a senha?

— John... você vê, mas não observa... O livro estava marcado com o mesmo tipo de papel que encontrei no bolso do morto com as referências da boneca de madeira. Como sei que é o mesmo papel? Simples a textura lisa e acetinada remete inconfundivelmente ao velino, um tipo de papel nobre usado em livros e códices de grande importância. Sobre a mesa do vendedor de livros havia um velho códice de 1658, uma raridade muito cara por sinal, mas a folha de rosto foi rasgada e adivinhe só, a proporção de papel arrancado é perfeitamente compatível com o pedaço no bolso do morto e o pedaço encaixado no livro que você pegou na estante. – o detetive respondeu num fôlego só. – Obviamente ele marcou a referência da senha na mesma oportunidade em que anotou o código do brinquedo e esqueceu de desmarcar antes de viajar. – comentou voltando a dar atenção à tela do computador.

— Tudo bem, entendi essa parte, mas o que isso tem a ver com a senha?

— Tudo. A fábula marcada contava que um artesão esculpiu uma boneca de madeira e a chamou de Matrioska, a boneca ganhou vida e gerou uma réplica, chamada Oska, a réplica Oska gerou outra chamada Oca e Oca gerou Ka, uma peça que permaneceu maciça pois era masculina e não podia replicar-se como as peças femininas. Um dia Ka encaixou todas as réplicas, as fechou e fugiu com elas, deixando o artesão desolado.

— Ok, uma fábula muito bonitinha para contar para crianças antes de dormir, mas o que tem a ver com a senha? – John piscou.

— Você não prestou atenção... – o detetive bufou. – Que tipo de boneca o vendedor de livros comprou?

— Uma matrioska. – John respondeu meio confuso.

— Onde estava o microcard?

— Na última peça. – algo na mente do médico começava a juntar o quebra-cabeça.

— E quantos espaços para senha estão em branco na tela?

— Dois... – súbita compreensão iluminou a mente do loiro que arregalou os olhos achando aquilo absurdo.

— Portanto... – o detetive disse digitando duas letras nos dois espaços dando um enter. – “Ka”, o nome da última peça, é a senha!

A barra de leitura de acesso disparou e em poucos segundos a frase “acesso permitido” piscou na tela liberando o conteúdo protegido.

— O quê? – John remexeu-se na cadeira. – Quer dizer que a chave estava junto com o cadeado esse tempo todo?

— Exato, o nome da peça onde o microcard estava escondido era a senha.

— Passar por tudo que passamos nas últimas horas para descobrir que a senha estava conosco... – John resmungou balançando a cabeça negativamente.

— Coisas do tipo acontecem, meu caro. O importante é que agora podemos avança. – Sherlock ponderou clicando na primeira pasta de arquivos.

Com a liberação do acesso, dezenas de documentos contendo esquemas intrincados de componentes biológicos e seus respectivos testes e efeitos surgiram na tela. Sherlock absorvia tudo com avidez enquanto John parecia desorientado em meio a tantos esquemas e fórmulas.

Depois dos esquemas químicos, surgiram arquivos de engenharia bélica associadas ao alojamento e conservação de agentes biológicos letais em ogivas, seguidos de dezenas de relatórios contendo estatísticas exponenciais de efeitos e estimativas de resultados dos agentes biológicos aplicados em ambiente populoso, possuindo além de texto detalhado sobre o alcance e taxa de letalidade, imagens chocantes de testes em seres humanos. John sentiu o ácido gástrico refluir no esôfago com aquelas imagens.

O penúltimo arquivo aberto por Sherlock exibiu a seguinte mensagem: “Bonfire Night” 15:00 PM (h dd° mm’ SS.s”) N51° 0’36.4” W 0° 8’ 4.8”; 16:00 PM (h dd° mm’ SS.s”) N51° 30’ 11.9” W 0° 7’ 13.5”(C.13); 17:00 PM (h dd° mm’ SS.s”) N51° 30’ 11.4” W 0° 6’44.3”; 18:00 PM (h dd° mm’ SS.s”) N51° 29’ 58.1” W 0° 7’ 29.3”.

John franziu o cenho ao ler o código sequenciado que não lhe era estranho, depois de alguns segundos identificando o sistema referencial, um frio cortou a sua medula e sua boca escancarou. Ele definitivamente não acreditava no que sua mente havia decodificado. Olhou para Sherlock e o brilho selvagem que encontrou naquelas supernovas não lhe deixaram dúvidas. O caso era muito mais complexo e perigoso do que podia supor até ali.

Se o que ele traduziu era real, em breve Londres viveria um pandemônio em alta escala. E o arquivo seguinte a ser aberto pelo detetive dava a entender que o inferno arderia muito em breve.

Continua...

Notas finais
Não matei o Sherlock, viram? Só machuquei um pouquinho... mas já soprei os machucados e ele está novinho em folha de novo (descontando os hematomas e os pontos na testa, claro). Nosso detetive soube usar os poucos segundos que lhe restavam para se posicionar no centro dos trilhos e sobreviver. E sim, é possível sair inteiro se a pessoa ficar deitada em postura reta enquanto o trem passa, assisti um tempo atrás um vídeo de um rapaz que deitava na linha férrea e esperava o trem. O veículo passava por cima e depois da passagem ele levantava ileso comemorando sua façanha. Algo impressionante, mas não repitam essa brincadeira, certo? É perigoso. Preparem-se para muita adrenalina no próximo capítulo! Deixem seus comentários, por que eles me estimulam, beijos e até o próximo sábado.