O vassalo de Aither
1 Prólogo - Explosões e queda livre.
O garoto corria com todas as forças que seu corpo ferido lhe permitia, o que não era grande coisa – o lado esquerdo de sua jaqueta estava pingando seu sangue ainda fresco. A mão direita segurava o ferimento numa tentativa irracional de estanca-lo, enquanto a esquerda segura firmemente uma lança de batalha que logo evapora em pura energia.
Sem perceber muito para onde andava, Lucian apenas se concentrou em se jogar no primeiro beco que encontrou e lá desmaiou. O sangue já iniciava o processo de coagulação quando uma capsula foi ingerida pelo já semiconsciente garoto; o medicamento acelerou sua regeneração e trabalhou para que em no máximo duas horas estivesse pronto para fugir.
Por mais que pareça exagero curar-se em tão pequeno período de tempo, ainda mais um ferimento que provavelmente seria fatal para um humano comum, era tudo em função de dois fatores. O primeiro era o remédio, obviamente; aquele aglomerado de ervas e substâncias raras era extremamente efetivo, então era natural que fosse milagroso.
O segundo era que Lucian era Vassalo de um deus.
Explicando em poucas palavras, isso queria dizer que ele realizara um pacto. Em troca de diversos benefícios, ele deveria cumprir alguns termos – e dentre os benefícios estava a de uma resistência física incrível, tornando-o o humano mais difícil de matar no universo. Sendo assim, feri-lo já era uma tarefa trabalhosa, mata-lo nem se fala.
Pouco mais de uma hora depois, uma garota saiu apressada de casa. Tendo comido apressada e vestido uma roupa arco-íris qualquer, havia acordado atrasada para ir à escola e agora estava correndo como se sua vida dependesse disso – o que não era tão longe da verdade, pois a primeira aula seria de alemão.
— Como eu cometi essa cagada logo hoje?! Se eu me atrasar de novo, minha mãe vai buscar pudim de Marta na escola, socorro!
Ela andava apressada por becos para cortar caminho, correndo o mais rápido que seus sapatos cheios de pom-pons lhe permitiam. Talvez até conseguisse chegar a tempo se não acabasse por tropeçar em um cadáver.
Quando bateu o pé no garoto que estava deitado, instintivamente parou para se desculpar e quem sabe ajuda-lo a se levantar; mas não esperava olhar para baixo e encontrar uma poça de sangue ao lado de um rapaz aparentemente morto.
Um grito fino pôde ser ouvido em um raio de meio quilômetro. Marta recuou e ficou com as costas contra a parede, sentindo as pernas bambearem. Não sabia como reagir a um corpo recém-morto. E não sabia o que fazer também quando o garoto fez um pouco de força e levantou coçando a cabeça.
— Você grita bem alto, garota. Conseguiu até mesmo me acordar no estado que estou.
— Vo-v-você não está... Morto, não é?
Lucian toca o ferimento já fechado e se espreguiça pronto para voltar à ação.
— Neste mundo mortos agem como vivos? Será que...?
Ele então retirou um livro do nada, com um simples balançar de mãos, e pegou uma caneta que estava presa a ele. Após breves anotações, ele guardou o diário da mesma forma que o pegou e olhou para Marta, que estava confusa e assustada com o ex-cadáver.
Descontraído e agindo como se fosse tudo normal, perguntou:
— Qual o seu nome?
— Marta. E o seu?
— Sou Lucian, O Passos Largos.
Se a situação não fosse tão tenebrosa, provavelmente ela teria rido.
— Que tipo de sobrenome é este? Uma piadinha?
— Sobrenome...? Bem lembrado. Havia esquecido esse conceito. O nome 'Passos Largos' foi-me dado pelo meu mestre, que escolheu este título com base em meus poderes!
— Poderes...?
Neste momento, uma explosão pôde ser ouvida há dois quarteirões. Lucian fechou a cara e decidiu que era de fugir – mas não antes de salvar aquela menina.
— Preciso de sua compreensão Marta. Se ficar aqui, provavelmente vai morrer em alguns segundos. Gostaria de fugir comigo?
— M-morrer!?
— De uma forma bem dolorosa, provavelmente. Interesse?
— Claro que não! Mas... Tenho minha escola e...
Não teve tempo para responder por completo. No instante seguinte, ele segurou o pulso de Marta firmemente e ela instantaneamente sentiu um enjoo horrível seguido de uma fraqueza nos joelhos. Lucian caiu junto, mas de dor – ele ainda não estava totalmente curado.
Naquele momento de desespero, havia alterado a realidade em apenas alguns quilômetros. Agora estavam na cobertura de um prédio, que era por coincidência o mais alto da cidade. Quando Marta recuperou-se da tontura, encontrou Lucian olhando para o horizonte, procurando sinais de luta.
— Que merda está acontecendo...?
— Já acordou? Bom, preciso da sua ajuda.
— Se vai me dar outro enjoo pode esquecer, Passos Longos.
— Passos Largos, criaturinha. E o que eu queria pedir era para decidir se quer viver uma vida de aventuras comigo ou morrer em um minuto.
— Eu não estou entendendo mais nada! O que diabos você quer dizer com tudo isso?
— Existe um conselho de Senhores que criaram o mundo e acabaram por perder o controle sobre ele, mas ainda assim são seres absurdamente fortes. Sou o discípulo de um deles, meu senhor Aither. Para ser mais exato, fiz um pacto com ele, o que me garantiu muita força, mas muitas obrigações – e dentre elas está à exigência de me preparar para tomar o trono dele para mim como Senhor do Espaço.
Ela já estava no limite da confusão e já respondia irritada.
— O que esta merda toda tem a ver com morrer em um minuto?
— Agora trinta segundos. O que quero dizer é que não estou em condições de transportar carga extra no momento devido o meu ferimento e estou sendo perseguido por aqueles caçadores de recompensas. Como sou um cara legal, não quero lhe abandonar sem mais nem menos. E, se eu for lutar, você ficará desprotegida em seu simples corpo mortal. Se eu fosse você, decidiria imediatamente se quer fazer um pacto comigo e salvar sua pele.
— Fazer um pacto...?
No momento seguinte, a cobertura explodiu com um estrondo fortíssimo. Enquanto caiam em queda livre, Marta começou a gritar desesperada e Lucian esticou a mão para a direita, pegando sua lança espiritual de volta. Ele olhou novamente para a garota.
— Sua última chance. Irá fazer o pacto?
— Sim, só me tira daqui!
Ele não precisava de mais nada. Apontando a lança para a menina, ela sentiu o sangue gelar como nunca havia sentido.
— Lucian, você...?
— Não prometo que não vá doer, Mielikki. Bons sonhos.
Quando foi atingida pela lança, sentiu seu corpo explodir em dor.
Sua visão embaçou.
E sentiu um calor bem diferente, como se recebesse muito poder.
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