O vassalo de Aither

2 Bolachas, conversas e lâminas.


Pelo que pareceu uma eternidade, Marta permaneceu com os olhos fechados. Ainda sentia uma dor fina na região abdominal por consequência da pancada do maldito Passos Longos. Se tivesse chance, jurou que iria dar um soco naquele rosto despreocupado.

Quando abriu os olhos, viu imediatamente que estava em um lugar diferente. Ao fazer um pouco de força, pôs-se sentada na cama macia daquele quarto simples e segurou a cabeça, ainda tonta. Olhando para baixo, viu que estava com roupas limpas bem diferentes de suas habituais. Provavelmente as outras haviam sido destruídas pela lança.

A porta do quarto foi aberta após alguns minutos, dando espaço para Lucian entrar imerso em seus pensamentos e fitar uma Marta bastante irritada.

— Está com fome Mielikki?

— Sim, estou – e não me trate por esse nome! O que está acontecendo? Exijo expl...!

— Uma coisa de cada vez, Marta. Eu trouxe chocolate quente e alguns biscoitos.

— São bolachas.

Ele moveu a mão para o nada, como sempre, e de lá retirou o pacote junto a uma garrafa térmica de meio litro. Logo quando entregou tudo para a garota, não se passaram nem cinco minutos e tudo já havia sido devorado.

— Imagino que deva ter muitas perguntas. Por onde quer começar?

— Na verdade vai demorar um pouco, senhor Passos Longos. Para início de conversa, o que é este nome idiota que você me chama?

Lucian se adiantou e sentou ao lado da garota. Ele parecia relaxado – quando não estava? – e bem à vontade, pegando um dos biscoitos do pacote semidestruído de Marta.

— Creio que se lembre de aceitar ser minha Vassala. Como seu Suserano, tive de lhe dar um novo nome; é parte do contrato. Além de Marta, a partir de hoje você também é Mielikki.

— Eu não vou atender esse nome, vou logo avisando. Aliás, quais são os termos desse maldito papel que fui obrigada a assinar?

— A partir de hoje, eu sou seu Suserano; logo deve perceber que minhas ordens serão muito fortes para você. Não gosto nem pretendo usar este recurso, mas lembre-se: recusar um comando meu será desafiador a partir de hoje.

— Está de brincadeira, né?

— Peça desculpas Mielikki.

— E... Desculpe Lucian.

Um instante depois, Marta ficou com uma expressão irada, que contrastou com o sorriso divertido de Lucian.

— Como eu disse, não pretendo abusar. Além disso, você basicamente tem sua vida ligada à minha: caso eu venha a morrer, você vai junto.

— Além desta obediência idiota, você assinou minha sentença de morte?!

— Bem, você já teria morrido sem esse contrato.

Ela rangeu os dentes. Era irritante como ele falava destas coisas tão tranquilamente – e mais irritante ainda era o fato dela não conseguir se irritar por muito tempo. Sua personalidade calma e gentil não lhe permitia. Ou seria mais uma ordem idiota?

— Porém Marta, os benefícios são bem proveitosos. Imediatamente você ainda não é capaz, mas logo deve aprender a alterar o espaço como bem entender.

— Estou confusa. O que quer dizer com... Alterar o espaço?

Ela piscou sem entender bem e no instante seguinte ele sumiu. No instante seguinte, ele havia voltado. Nem é preciso registrar o susto que Marta levou, não é?

— Alterações leves, como transportar a si. No seu caso, seus poderes devem ser o suficiente para alguns quilômetros apenas.

— Não vou negar, parece bem interessante.

Ele sorriu e balançou a mão, pegando sua lança novamente. Marta sentiu um leve calafrio quando ele colocou aquela arma no colo como quem não quer nada. Encarar a lâmina que havia perfurado sua barriga há pouco tempo era macabro. Ele prosseguiu:

— Além de que agora você tem proficiência com a maioria das armas marciais.

A confusão deve ter ficado bastante aparente no rosto de Marta. Ele logo explicou:

— A partir de agora, você deve ser capaz de usar qualquer arma branca com a habilidade de um campeão. No momento ainda deve estar em processo de aprendizado inconsciente, mas em breve você deve ter essa habilidade.

— Espera um pouco. Quer me dizer que simplesmente armas com lâminas são fáceis para que eu possa usar? Tipo, qualquer uma?

— Absolutamente. E por isso, eu tenho um presente para você.

Depois que a última proposta dele havia terminado com uma lança atravessando o corpo de Marta, ela estava um pouco cautelosa em aceitar qualquer coisa sem pensar.

— E seria...?

Ele agita a mão novamente e pega um pedaço de pano enrolado. Antes de receber o pacote, Marta decidiu matar a curiosidade:

— Como diabos você pega coisas assim do nada?

Um sorrisinho no canto dos lábios de Lucian era visível assim que ele passou o pano enrolado para a mais nova.

— Cheguei a comentar que sou Vassalo do Senhor do Espaço Aither? Pois bem, senhor do espaço. Uma das minhas habilidades é ter um espaço privado onde guardo algumas tranqueiras. Nada muito grande ou muito pesado, nada vivo também; porém tudo que guardo lá vem a mim com o menor dos comandos. Um truque muito útil para evitar bagagem.

— Eu também tenho isso?!

As possibilidades eram infinitas. Com algo tão incrível, nunca mais ela precisaria carregar os livros em uma mochila pesada para a escola, ou mesmo as compras que os pais pediam para ela fazer.

— Não tenho autoridade o suficiente para lhe permitir usar um espaço também, eu sinto muito.

Marta estava desapontada, mas transferiu sua atenção ao embrulho.

— Tome cuidado ao abrir. O que tem ai são armas que eu estou lhe dando para proteção pessoal caso eu não esteja disponível para ajudar.

Ela abriu e engoliu em seco, esperando para ver a tal arma. Ao terminar encontrou terríveis... Pauzinhos japoneses.

—... É algum tipo de piada?

— O que quer dizer? São os hashis mais mortais que você verá na sua vida!

— Espera que eu me defenda de que, se bolinhos de arroz?

A garota pegou um palitinho e fingiu espetar Lucian, que desviou e se jogou no chão como se ela tivesse apontado um facão afiado. Ela começou a acreditar então que tinha algo de oculto ali – ou era só uma pegadinha mesmo.

Ela decidiu continuar a brincadeira.

— Então Lucian... Sinta a fúria do palitinho de madeira!

Ela avançou com o hashi apontado para o mais velho, que deu um peteleco na parte inferior do mesmo, que imediatamente reagiu. O palito ficou maior e metálico, tornando-se uma espada curta em um piscar de olhos.

Marta engoliu em seco. Quase assassinara Lucian com um ex-palito afiado.

Ele pulou para trás e apontou a lança para a garota.

— Basta apertar o palitinho de leve para que ele se torne uma lâmina mortal. Caso deseje, ele irá retornar à camuflagem. Vamos testar sua habilidade?

— Eu não qu...

Muito mais rápido do que ela era capaz de acompanhar, a lança teria a empalado se seus reflexos agora semidivinos não tivessem impedido. Ela inconscientemente pegou a segunda espada e pôs-se em posição de combate. Agora que havia se enfiado nessa confusão, não podia mais recuar.

— Vou lhe dar uma última informação, Marta. Estas lâminas são Fobos e Deimos, conhecidas por uma habilidade sobrenatural de intimidação. No momento, você não é capaz de usar isto ainda.

Fora o fio mortalmente afiado de ambas as armas, Marta não era capaz de ver nada tão aterrorizante. Ela perguntou com voz trêmula, temendo um ataque surpresa:

— E sua lança, também tem nome estranho?

— Ela é Gungnir. Seu povo crê que era a lança do Pai de Todos na mitologia nórdica. Basta eu dizer que ela é um absurdo de força, mas ainda não sou capaz de controlar seus poderes. A partir de agora, é cada um por si. Por favor, não arruíne meu cabelo.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.