O que importa?
12 Voltando à realidade
Notas iniciais
Everybody's goin' nowhere slowly
They're only fighting for the chance to be last
There's nothin' wrong with goin' nowhere, baby
But we should be goin' nowhere fast
It's so much better goin' nowhere fast
(Fire Inc: Nowhere fast – Streets of fire, 1984)
O dia seguinte chegou, e trouxe de volta o sol. Bulma abriu os olhos lentamente, mirando o rosto dele, adormecido ao seu lado. Sorriu. Depois de tanto tempo tentando fugir, acabara sendo inevitável. Ele parecia profundamente adormecido e ela ergueu a mão e levou até seu rosto, mas um segundo antes de tocá-lo, Vegeta segurou sua mão e a impediu, assustando-a. Ele tinha os olhos abertos, alerta e assustado e então, pareceu dar-se conta de que era ela e relaxou, soltando sua mão. Ela não o tocou, mas disse:
— Bom dia para você também. Te assustei?
— Me desculpe. A vida inteira dormi cercado por assassinos e traidores.
Ela sorriu, sem saber muito bem o que dizer. Depois da noite anterior, tudo parecia confuso dentro da sua cabeça. O que havia entre eles agora? Depois de um instante encarando-a em silêncio, ele olhou na direção da janela e disse:
— A tempestade fez um grande estrago lá fora. Você vai precisar de ajuda para consertar.
Ele sentou-se na cama, e então, levantou-se, andando pelo quarto completamente nu. Bulma pensou em como o corpo dele era bonito, perfeito – mesmo ele sendo bem baixo para seus padrões. Ele olhou então para suas roupas destruídas e para a armadura no chão e entrou no banheiro, saindo de lá com a uma toalha enrolada na cintura. Só então pareceu notar que ela não saíra da cama e disse:
— Preciso me vestir. Quem chegar primeiro na cozinha pode fazer o café, certo? – ele abaixou-se, segurando a toalha na cintura e pegou a roupa do chão, que de tão rasgada só servia para ir para o lixo, e a armadura, que ainda podia ser usada, e seguiu na direção da porta.
— Certo. – disse ela, ainda sem muita certeza do que significava a atitude dele.
Quando chegou à cozinha ele já estava lá, usando roupas comuns e não de treino, e parecia concentrado em fazer os ovos. Sem saber muito bem porque, ela começou a ajudá-lo. Quando terminou, ele serviu ovos para os dois, ainda em silêncio e ela finalmente perdeu a paciência:
— Então... o que é isso?
— Café da manhã – disse ele, impassível.
— Não é isso... você sabe do que eu estou falando.
— Na verdade, sei. – ele disse – mas não acho que precisemos falar sobre o que aconteceu.
— Ah, é mesmo? Então... curtiu o sexo recreativo e agora não quer falar nisso?
A resposta dele surpreendeu-a mais que tudo.
— Não foi recreativo apenas, pelo menos não para mim. Achei que você tivesse percebido.
— Eu...
— Acho que você deveria pensar em outras coisas por enquanto. Sua propriedade está coberta de escombros, e isso não vai se consertar sozinho, concorda?
Ela não soube o que dizer, e ele prosseguiu.
— Você precisa da minha ajuda para colocar as coisas em ordem.
— Os empregados...
— Levariam dias sem a minha ajuda.
— E o seu treinamento?
— Um dia não vai fazer tanta diferença. Alem do mais, não tem energia para usar a câmara de gravidade interna e aposto que a da nave enguiçou quando foi jogada na porta da sua casa pelo vento. Fazer um pouco de força carregando coisas ajuda, pouco, mas ajuda, no treinamento.
Ela não sabia ainda o que dizer. Mas concordou:
— Vamos terminar o café da manhã, então veremos os estragos.
Ele apenas assentiu, sério.
Ao longo do dia, Bulma entendeu o que ele queria dizer. Havia duas caminhonetes e três carros virados com as rodas para cima no jardim da frente, alem de dezenas de coisas espalhadas ao longo da alameda, como bicicletas, placas de trânsito, um pobre cachorro morto e muitos escombros.
Vegeta virou os veículos e os carregou até rua em frente, como se pesassem nada, depois recolocou a nave sobre seu suporte, enquanto dezenas de empregados se ocupavam em limpar o quintal e reconstruir a frente da casa. Bulma pensou que seria melhor deixar realmente tudo em ordem o mais rápido o possível, mas ficou um pouco apavorada com a ideia de aquilo tudo ser em vão, caso ocorresse outra tempestade. Ficou aliviada ao verificar a previsão do tempo e saber que, apesar de ainda haver possibilidade de chuvas, não só nenhuma tempestade como aquela estava prevista para os próximos dias como, devido ao fim próximo do verão, era pouco provável que mesmo uma tempestade menos devastadora viesse a acontecer.
Quando não pensava mais em Vegeta, de repente, o viu diante da nave, que ele colocara no lugar e examinara por dentro para verificar os estragos. Ele estava parado, de braços cruzados, sem fazer nada de relevante. Apenas a observava em silêncio. E ela não sabia há quanto tempo. Ainda sem saber o que fazer, ela sorriu, e se sentiu intimamente satisfeita quando ele retribuiu o sorriso, antes de chamar um dos homens que fazia os reparos e dar instruções para que prendesse bem os suportes da nave. Ele veio na direção dela e disse:
— Está bem danificada.
— Sem meu pai aqui não sei bem o que fazer. Acho que o conserto dessa nave pode esperar, afinal está sem uso. Mas você precisa esperar a energia voltar se quiser treinar, os geradores são insuficientes para ligar a câmara interna.
— Uma pausa não me fará mal – ele disse, saindo de perto dela para ajudar os funcionários que reparavam a frente da casa a retirar entulhos e restos de lixo.
Com a prolongada falta de energia, que durara parte da tarde anterior, toda noite e ao longo do dia, Bulma temeu que toda comida guardada no refrigerador estivesse imprópria para consumo, então ela achou que não havia muita alternativa a não ser pedir o almoço para todos os que faziam os reparos em um restaurante que entregava em domicílio.
Quando a comida chegou, Bulma mandou que entregassem todas as refeições no quintal, mas chamou Vegeta para casa e disse:
— Vamos comer na cozinha.
Ele a seguiu obedientemente. Ele havia tirado a camisa e jogou-a sobre os ombros, e ela pode ver o ar espantado dos empregados quando eles entraram pela casa pelos fundos. "Bando de fofoqueiros" – ela pensou.
Enquanto comiam, ele foi inventariando os estragos para ela, que sentia-se um pouco aborrecida com a conversa. Ele parecia realmente faminto. Quando acabou de comer a refeição, muito rápido, ficou olhando com um ar ainda esfomeado para ela, que entendeu e disse:
— Tem comida na geladeira, mas eu não sei se está boa...
— O meu olfato sayajin não se engana. Se houver algo estragado eu vou saber.
Em pouco menos de cinco minutos toda comida que havia na geladeira estava sobre a mesa. Ele não perdeu tempo esquentando, e ela achou engraçado vê-lo devorar um presunto inteiro, alguns queijos, todos os restos de comida que não estavam estragados e uma montanha de doces.
— Pelo menos os empregados não vão precisar limpar a geladeira – ele disse.
Quando ele acabou de comer, Bulma pôs a louça na lava-louça com um ar aborrecido, pensando nas tarefas da tarde, mas assim que terminou, foi surpreendida por ele, que a virou de frente e, abraçando-a pela cintura, beijou-a com sofreguidão, longamente. Quando se separaram, ele perguntou:
— Era disso que você estava sentindo falta?
— Talvez de algo mais... – ela riu.
— Aquiete-se, mulher. – ele disse, afastando-se com um sorrisinho enviesado – ainda há muito o que fazer no quintal...
— Boa sorte então – ela respondeu, pegando a chave do laboratório, que deixara sobre a mesa – eu preciso verificar geradores e monitorar sistemas no laboratório. Espero que a energia volte antes de acabar a autonomia dos geradores...
— Ok... eu fico com o trabalho pesado, então – ele disse, pegando a camisa e jogando sobre o ombro.
"Provocador" – ela pensou, vendo-o se afastar.
Quando Vegeta entrou em casa, à noitinha, a energia acabara de ser restabelecida, mas ele estava coberto de poeira, suor e pedaços de reboco. Bulma, passara a tarde no laboratório para ver se os geradores haviam conseguido dar conta de manter os sistemas de computadores da empresa funcionando, e depois de passar o dia todo nessa tarefa, havia se jogado no sofá, exausta. Pouco depois, ela percebeu que a luz parava de oscilar e fez um pequeno gesto de comemoração porque, aparentemente, a energia não cairia outra vez. Assustou-se quando o viu, de pé, no limiar da sala. Ficaram mudos, se encarando, e ela disse:
— Cara... você precisa de um banho de banheira.
— Meu banheiro não tem banheira.
Ela sorriu e disse:
— Eu não me importo em dividir a minha.
Apesar de todo problema que Vegeta certamente tinha com contato físico, ele pareceu gostar muito de dividir a banheira com ela, que sentou atrás dele logo que ele entrou na água quente e enlaçou seu tórax com as pernas. Ele murmurou qualquer coisa em protesto, mas desistiu quando ela usou um chuveirinho para jogar uma boa quantidade de água nos seus cabelos e, depois de passar shampoo, passou a massageá-los gentilmente, fazendo-o fechar os olhos.
Ela nunca diria isso a ele, mas o cabelo dele tinha exatamente a mesma textura dos cabelos de Goku, que ela lavara quando ele era apenas um menino. Quando ela acionou novamente o chuveirinho e os enxaguou, ele a puxou para frente de si e lhe deu um longo e profundo beijo.
Depois de um minuto, separaram-se e ficaram finalmente face a face e ela disse:
— O que você está me escondendo, Vegeta?
Ele meneou a cabeça, como se não quisesse falar.
— Então há alguma coisa errada?
— Não. Não há nada errado. Mas existem coisas... que eu ainda não posso te dizer. Me dê um tempo.
Ela deu de ombros, não o obrigaria a falar. Ele puxou-a para si e retomou o beijo que ela interrompera, e ela tornou a envolver suas pernas nele, mas desta vez, na altura dos quadris. Os dois se encaixaram e ela começou a se mover, segurando a borda da banheira e encarando aquele olhar faminto que se habituara a ver nos olhos dele, aproveitando a vantagem de tê-lo preso sob seu corpo, no ritmo que ela queria.
Mantendo seu jeito silencioso e sem deixar de encará-la, Vegeta a segurou pela cintura e ela sentiu novamente que ele usava alguma forma de energia para tocar sua intimidade. Ela gemeu alto, e o sorriso dele se ampliou ao perceber que ela perdia o controle, jogando a cabeça para trás e tremendo enquanto ele dava a ela mais e mais. Ele mesmo não conseguia mais segurar e, de olhos cerrados a abraçou, sentindo-se explodir dentro dela.
Sentindo as pernas moles e o corpo relaxado, Bulma deixou-se ficar sobre ele um bom tempo, gostando do contato do peito dele com o dela, amando a respiração dele no seu pescoço e os braços fortes dele em volta dela.
Quando finalmente saíram da banheira, ela lembrou-o que não havia mais comida alguma na casa e perguntou se ele queria sair para jantar fora. Ele fez a cara, que ela já conhecia bem, que dizia "não me obrigue de novo a interagir com um ambiente cheio de gente". Ela riu e disse:
— Acho que está na hora de apresentar a você uma das maravilhas da humanidade. Chama-se pizza.
Bulma vestiu um roupão felpudo cor de rosa e achou graça nele sentado na cama, ainda nu, olhando com um ar chateado para as roupas sujas no chão, então, jogou para ele outro roupão felpudo, este amarelo forte, dizendo:
— Eis um item de vestuário que você não tem ainda. Pode ficar com esse. Nunca gostei de amarelo.
Mais tarde, as três pizzas gigantes que ela pediu – já bem familiarizada com o apetite sayajin – chegaram e ela disse que comeriam na sala, vendo um filme.
Vegeta olhou uma fatia de pizza com um ar de desprezo, achando que era um dos alimentos mais feios e pouco apetitosos que ele vira na vida, mas não disse nada. Vendo a hesitação dele ela disse:
— Prove. Duvido que você não goste.
Bulma guardaria para sempre na memória a expressão dele quando mordeu a pizza – um segundo antes de devorar o resto da fatia, e ela riu com vontade quando ele percebeu, revirando as caixas vazias, que comera o último pedaço.
— Por que acabou tão rápido? Como uma coisa tão feia pode ser tão gostosa? – ele perguntou, enquanto ela pedia mais uma rodada pelo telefone. –
— Tendo todas as calorias do mundo – ela disse, completando – e um pouquinho de orégano.
Quando as outras pizzas chegaram, eles já estavam assistindo um filme juntos, e era a primeira vez que ele estava sentado ao lado dela no sofá, e não na outra ponta, mas ainda conservava sua postura usual, com os braços cruzados, aparentemente repelindo qualquer contato físico, o que ela aos poucos aprendia a respeitar.
— Então, é assim que os humanos fazem uma guerra?
— Sim. E, acredite, já fizemos muitas. Mas esse filme fala de uma guerra há muito, muito tempo atrás, quando ainda se usava apenas espadas e escudos. Hoje as armas são bem mais letais...
— Vocês são bem frágeis. Duvido que essas armas façam algum estrago num sayajin de verdade...
— Apesar disso, ainda temos nosso planeta inteiro e vocês não... – ela disse mordendo um pedaço de pizza e dando uma piscadela maliciosa para ele, com um sorriso provocador.
Vegeta a encarou. Era impressionante como ela tinha boas respostas. Ele se lembrou de uma frase de seu pai "Braços fortes ganham batalhas, mas para se vencer uma guerra, são necessários cérebros que funcionem bem". Aquela mulher tinha o tipo de inteligência ao qual o velho rei Vegeta se referia.
A história do filme, no entanto, o impressionara um pouco, porque falava de um grupo de soldados corajosos morrendo aos poucos numa batalha perdida para proteger seu reino, onde mesmo o rei acabava morto, crivado de flechas. Nenhum deles, no entanto, parecia ter desempenhado um papel covarde, todos morreram com honra e dignidade e o único sobrevivente, que narrava a história, não era exatamente um vitorioso, mas isso não o diminuía. Quando o filme terminou, Bulma o olhava, curiosa, ao ver que ele parecia pensativo.
— O que foi?
— Nada. As histórias dos sayajins nunca falam sobre os que perdem as guerras... e foi a primeira vez que eu tive essa perspectiva.
— O que contam as histórias sayajins?
— Contavam. Não existe mais ninguém para conta-las. Kakarotto não as conhece, e eu não sou um bom narrador. – ele a encarou – talvez as melhores histórias tenham morrido com meu pai. Ele, sim, era bom nisso.
Ela tomou a iniciativa e o abraçou. A primeira reação dele àquele toque foi retrair-se, mas ela beijou-o gentilmente no rosto, e ele descruzou os braços e a envolveu no seu abraço. Ela não o beijou, mas disse no seu ouvido:
— Haverá outras histórias sobre os sayajins. Aquelas escritas na Terra.
Ele a carregou nos braços, e dessa vez, foi direto para o quarto dela. Quando a livrou do roupão e fez amor com ela, pela primeira vez teve consciência da dor que sentiria quando tivesse de partir.
Vegeta sentou-se na cama angustiado, observando Bulma adormecida. Não tinha a pretensão de saber como funcionava o universo inteiro, mesmo já tendo estado em muitos planetas, sabia que só chegara a conhecer um milésimo, se tanto, do que havia nas estrelas. Mas se convencera, há muito tempo, que só existiam dois tipos de criaturas: as fortes, que dominavam e venciam e as fracas, que eram dominadas e morriam ou imploravam pela vida.
Mas Bulma parecia fraca como um gatinho, e ele tinha plena consciência da força que ela tinha, nas suas ideias, nos seus argumentos e do poder que ela tinha sobre ele. Uma parte dele queria muito ser dominado por aquela força de espírito, mas outra, bem mais sensata, dizia a ele que antes de qualquer coisa, vinha a batalha que já apontava no horizonte, aquela em que ele poderia morrer diante do adversário supostamente mais forte.
Ele já havia se convencido, há muito tempo, que não conseguiria se tornar super sayajin treinando apenas na câmara de gravidade aumentada, e sua experiência durante o furacão o convencera que sua suspeita de não havia no inteiro planeta Terra condições para chegar ao seu objetivo era acertada, porque ali ele estava bem confortável, ali não estaria testando o seu real limite. O furacão havia sido a sua derradeira tentativa de se tornara super sayajin na Terra.
Talvez diante de um enorme perigo ele poderia chegar lá, mas não havia um inimigo à sua altura naquele momento, a não ser Kakarotto, com quem ele jamais treinaria e a quem ele não desafiaria para uma luta de vida ou morte, porque sabia que o desafio não seria aceito. Um adversário que se recusa a lutar ainda seria mais humilhante que uma derrota.
O que Bulma não sabia era que três meses antes, já pensando que poderia precisar sair da Terra, ele havia pedido ao pai dela, em segredo, uma nave para leva-lo a um lugar onde ele realmente poderia alcançar o limite e, certamente, superá-lo. Um planeta gigantesco e desabitado onde a gravidade era muitas vezes mais forte que a da Terra onde o ambiente hostil forçaria seu corpo a reagir muito além do que reagira na noite do furacão. Mas aquela seria uma viagem muito longa, de pelo menos dezoito meses... e ela sequer imaginava que aquilo estava nos seus planos e agora teria de acontecer.
Agora, irremediavelmente envolvido, não sabia como dizer a ela que em breve embarcaria para uma aventura de vida ou morte. Por um lado, se recriminava por ter cedido, mas por outro, sabia que se morresse, morria sem nenhum arrependimento, porque cada minuto com ela valera a pena. E, pelo tempo necessário, ele gostaria de evitar esse assunto, afinal, o pai dela viajara antes de dar a ele a resposta definitiva.
Sob a luz suave que entrava pelas janelas, ele a observou, adormecida, e deitou-se, olhando seu rosto que tocou de leve, fazendo-a sorrir no meio de algum sonho. Ele fechou os olhos e pensou: "É mais que atração. Eu estou apaixonado por ela."
Durante toda noite, ele permaneceu deitado. Mas não conseguiu dormir.
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