O que importa?
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I fell in to a burning ring of fire
I went down,down,down
and the flames went higher.
And it burns,burns,burns
The ring of fire
The ring of fire.
(Johnny Cash: Ring of fire – Ring of fire: the best of Johnny Cash, 1961)
— Um tracinho só... por favor... só um tracinho...
Bulma segurava diante dos olhos um pequeno objeto que parecia uma vareta, observando ansiosamente. Era um teste de gravidez dos mais simples, no entanto eficientes, que ela comprara na farmácia. Havia exatamente três semanas que ela e Vegeta haviam tido uma briga monstruosa e ele deixara de dormir no quarto dela, depois de dez dias que pareciam cada vez mais estranhos, conforme ela ia pensando neles.
No dia anterior à briga, seus pais haviam chegado. Ela ainda imaginava como ia contar a eles sobre o que o relacionamento deles tinha se tornado, mas também não sabia ao certo o que estava vivendo. Ele não movera uma única peça de roupa ou item pessoal para o quarto dela. No segundo dia após a tormenta ele voltou à câmara de gravidade e passou a treinar mais e mais, como se sua vida dependesse disso, e só tarde da noite ele aparecia no seu quarto e se agarrava a ela, que normalmente acordava assustada. Então, faziam um amor sentido, profundo e... silencioso, da parte dele. Pela manhã, ele acordava primeiro e ela o via mirando seu rosto em silêncio assim que abria os olhos. Um olhar estranho, pensativo.
Numa única vez entre todas, ele a abraçara forte e dissera seu nome, várias vezes, como um pedido de socorro que ela não conseguia compreender. Nessa noite ela tinha certeza que ele sequer dormira, e no dia seguinte, seus pais chegaram.
Os pais enchiam a casa de barulho e movimento, praticamente enlouquecendo-a, mas nada era mais complicado que ter seu pai alocando 24 novos espécimes no santuário particular que ele e a mãe mantinham, catalogando e consultando zoólogos e tratadores para cuidar dos bichos. E Vegeta parecia não estar em parte alguma da casa.
À noite, quando ele apareceu, ela perguntou a ele o que fariam, afinal, os pais dela haviam chegado e ela precisava dizer a eles porque estavam dormindo juntos. Ele ficou calado e só na manha seguinte, quando ela perguntou novamente o que fariam, enquanto tomavam café da manhã juntos, ele finalmente respondeu:
— Eles não precisam saber.
Bulma sentia-se furiosa. Nunca precisara esconder nada dos seus pais, eles haviam aceitado seu relacionamento com Yamcha, um rato do deserto, quando ela tinha 16 anos! O haviam acolhido, ajudado nos estudos. Agora ela era uma mulher adulta e não queria esconder nada deles, a não ser que...
— Qual o seu problema, Vegeta? Não quer que meus pais saibam ou não quer que ninguém saiba que à noite você se esgueira para o meu quarto, se agarra a mim e age como se fosse outro, que não esse sujeito frio e insensível diante de mim?
— Não é isso... – ele mesmo não sabia se explicar.
— Vergonha de mim, Vegeta? De ter uma mulher na Terra, esse planeta que você despreza? É isso? Sou fraca para seus padrões?
— Ora cale essa boca, mulher!
Exatamente nesse momento, o pai de Bulma apareceu e ficou olhando de um para o outro, atônito. Havia presenciado uma ou outra briga dos dois, mas sempre era Bulma que gritava. Naquele dia ele tinha uma amostra do quão irritado podia ficar o sayajin. Ele então, casualmente, dirigiu-se a Vegeta:
— Vegeta, eu tenho boas notícias. O protótipo funcional da nave que você solicitou foi aprovado pela equipe de segurança enquanto eu estava viajando, de acordo com as modificações que você sugeriu para torna-la parecida com as que você conhecia. Em pouco mais de 25 dias, a nave final estará pronta e você poderá fazer sua viagem.
Bulma não podia crer. Era por isso. Ele estava indo embora.
O pai dela saiu, deixando o casal silencioso e lívido. Vegeta estava sério, mas Bulma transbordava de ódio.
— Então... é isso? Você decidiu ir embora... e isso foi muito antes daquela tempestade, então... você se aproveitou de mim naquela noite e em todas as outras desde então. "Não foi sexo recreativo... pelo menos não para mim". Canalha. Por mim, você iria embora HOJE. Maldita hora em que eu disse que você ficasse aqui – ela virou as costas e ele a segurou.
— Me solte! – ela gritou
— Me escute – a voz dele era urgente, tinha um tom de súplica, mas ela não estava disposta a ouvir, saiu andando pelo corredor. Ele a conseguiu faze-la parar, disse, num impulso:
— Não estou fugindo da Terra, nem de você. Mas eu cheguei ao limite aqui, e não vou atingir os poderes de super sayajin se ficar aqui, brincando de namorar você, assistindo filmes, comendo pizza... Então decidi ir para um planeta hostil, treinar em condições que me levem ao limite que eu não tenho aqui! Bulma, se você quer seu planeta salvo, se você quer sobreviver... precisa me entender. Eu vou voltar!
— Vegeta, eu francamente não me importo mais em ter você ao meu lado ou não. Só quero que você suma da minha frente. Eu... eu tentei te evitar, depois eu tentei te entender... mas você não confia em mim, ou teria me contado o que pretendia fazer. Eu devia realmente ter desistido aquela noite, mas cometi o erro de acreditar que havia um coração em algum lugar dentro do seu peito... mas eu estava errada.
Ela o deixou parado, no meio do caminho, enquanto se dirigia ao laboratório para voltar às suas tarefas do dia a dia. Vendo-a se afastar, ele realmente acreditou que talvez aquela fosse a melhor solução para ambos, embora sentisse o peito pesado e angustiado, sabendo que sentiria falta dela.
E agora, ali estava ela, às vésperas de vê-lo partir apavorada com a ideia de estar esperando um filho dele, justo ela, que durante todos os anos com Yamcha havia sido tão cuidadosa para que não acontecesse uma gravidez indesejada... Ela tinha a respiração quase suspensa. Na pequena janelinha do teste começou a aparecer um primeiro tracinho. Ela engoliu em seco, achando que havia acabado quando logo ao lado, o reagente começou a sombrear e um segundo traço, tão firme quanto o primeiro, apareceu.
Positivo. Ela estava grávida.
Mordeu os lábios, aflita. A confirmação, na verdade, não a surpreendia. Ela, de alguma forma, soubera que era exatamente isso assim que percebera o atraso. De uma certa forma, negligenciara qualquer ideia de contracepção durante o curto período em que haviam ficado juntos. Alguma coisa dentro dela queria muito aquela gravidez mesmo antes dela acontecer.
Repentinamente, se deu conta do quanto queria aquele filho, tanto quanto jamais quisera um de Yamcha. Começou a fantasiar como ele seria: uma criaturinha como Gohan, de olhos e cabelos pretos, parecido com Vegeta, ou um menino lindo, com os olhos azuis como os dela?
Um sayajin de olhos azus.
Sacudiu a cabeça, porque o pensamento que apareceu nela era uma loucura sem precedentes. A pergunta de Goku, repetida duas vezes, sobre ela estar grávida também teimava em ecoar dentro dela. Mas parou de se importar com aquilo quando um arrepio de medo percorreu sua espinha: e se a criança tivesse aquela cauda dos sayajins?
Melhor não pensar nisso ainda. Antes precisava contar para os seus pais... e esconder de Vegeta.
Uma parte dela dizia que não era justo esconder dele que teriam um filho, mas a outra parecia gritar por vingança, já que ele havia escolhido esconder dela que partiria. Deitou-se na cama, ainda inquieta, e fechou os olhos. Por ela, ele não saberia que uma pequena vida crescia dentro dela, uma pequena fração dele se unira a ela num um laço impossível de ser desfeito.
Vegeta, depois de treinar à exaustão, saiu da câmera de gravidade interna, já perto da meia noite. Em vez de pegar o corredor que levava ao interior da casa, ele abriu uma porta para a área externa e ficou olhando para o céu, para o infinito escuro coalhado de estrelas acima dele. Era uma tortura voltar toda noite e ir para seu quarto, tão perto dela. Faltava apenas um dia para a sua partida, e ele precisava se familiarizar, no dia seguinte, com todos os controles da nave e decidir se ficaria em animação suspensa durante os oito meses da ida ou os oito meses da volta – porque não havia como passar toda a viagem desperto, a nave não tinha suporte de víveres para tanto.
Mas essas eram decisões que poderiam esperar. Ele deitou-se no gramado, pensativo. O cheiro de terra, sob a grama, era terrivelmente bom. O cheiro da grama, ainda melhor. O ar fresco da noite ia deixando gotas de orvalho na superfície lisa da armadura que ele havia testado ao longo do dia e que ele levaria com ele para sua jornada de triunfo ou morte e ele pensou que não haveria outro lugar melhor para voltar que a Terra.
Se ao chegar ele se sentira encarcerado, agora, como nunca, sentia-se livre. Pela primeira vez nos seus trinta e quatro anos de existência ele estava exercendo uma escolha livre, que era dele, que ninguém poderia tirar dele: tornar-se forte para proteger a Terra. Não pôde deixar de pensar em Kakarotto: a Terra o havia machucado, da mesma forma que machucara Kakarotto um dia, e havia tirado de ambos, por caminhos diferentes, a ambição de conquista-la. A Terra que os havia conquistado.
Uma lua redonda, restaurada pela segunda vez por Kami-Sama, o iluminava e ele fechou os olhos. Não havia resto algum da sua cauda, então a lua agora ela apenas bela, não se traduzia em poder ou em destruição. A Terra não tirava nada sem dar algo em troca, no entanto: era hoje um sayajin vinte vezes mais forte que o que chegara àquele planeta com Nappa para tentar conquistá-la. Mas seguia não entendendo o que seria perdão e misericórdia, e era isso que o diferenciava de Kakarotto, sempre tão nobre contra seus adversários. Ele não. Aquele que se pusesse no seu caminho, que ameaçasse a Terra, seria devidamente aniquilado. Piedade não fazia parte do seu vocabulário.
Seus olhos voltaram-se para a casa quando a janela da varanda do quarto de Bulma se iluminou e ele viu a silhueta dela movimentando-se contra as cortinas fechadas, uma sombra contra a luz. Os dias com ela haviam sido mais devastadores que o furacão. Não sabia que conhecia tão pouco sobre si mesmo. Bulma o tocara em alguma parte da alma que ele ainda não havia conhecido, com sua impertinência, teimosia e personalidade forte. Imaginou o que ela estaria fazendo e, instintivamente, buscou seu ki, tentando sentir se estava feliz ou triste.
Primeiro, sentiu um estranhamento. O ki de Bulma, de alguma forma parecia... maior. Fechou os olhos, para sentir melhor a energia que ela emanava. Nunca tinha sentido um ki com duas vibrações diferentes, e aquilo o intrigou, conforme tentava entender. Quando compreendeu, seus olhos se abriram, atônitos.
Enquanto Vegeta estava no Jardim, sem saber que ele a sentia, Bulma tomava a decisão de só contar aos pais que esperava um filho depois que Vegeta tivesse partido. Em momento algum pensou em não ter aquele filho, mas passara o dia aérea, negligenciando tarefas e imaginando como ele seria.
Seu filho. A aflição havia passado assim que ela decidira que aquele seria o centro de sua existência dali para frente. Não precisava de Vegeta. Não precisava, aliás, de homem nenhum. Era forte o suficiente para ser a mãe de um meio-sayajin, não era? Se ele nascesse com uma cauda, ela retiraria cirurgicamente. Se nascesse mau, ela o faria tornar-se bom. Ela só não o impediria de ser um guerreiro, não conteria aquela energia de luta típica dos sayajins.
Um vento entrou pela janela, um vento estranho, quente para a época do ano em que estavam, afastando as cortinas. Ela chegou até a porta da sacada do quarto para fecha-ls e conteve um grito. Vegeta estava em pé na varanda, braços cruzados, os olhos pretos a mirando com uma expressão indecifrável. Ficaram se olhando em silêncio até que ele disse:
— Eu sei.
Ela baixou os olhos e se afastou da porta, dizendo:
— Entre.
Ele atravessou a porta da Varanda e olhou em volta, para evitar o rosto dela. Parecia que tinha sido a uma era atrás que ele dormira com ela na mesma cama, naqueles mesmos lençóis. Ficaram um diante do outro em silêncio e ele perguntou:
— Você não ia me contar, ia?
— Não. Não queria que você achasse que eu estava usando isso para te impedir de...
— Isso não me impediria de ir. É algo maior que eu.
— Eu sei. Francamente, eu não sabia se você iria voltar, mas pretendia te contar, se você voltasse. Embora eu creia que o hábito dos sayajins seja abandonar os filhos. Eu estou preparada para criá-lo sem a sua ajuda, Vegeta.
Ele a agarrou pelos braços, assustando-a. Encarou-a, com uma expressão irritada e disse:
— De todas as mulheres do universo, acho que terei um filho com a mais difícil. Eu vou aonde for preciso para me tornar um super sayajin. Mas eu vou voltar, o único lugar em todo o Universo para onde eu posso e quero voltar, ainda mais agora, é a Terra.
Ele soltou seus braços e se dirigiu à porta, para sair. Ela o chamou e ele voltou-se, com uma expressão dura no rosto.
— Volte quando se tornar super sayajin... ou morra tentando. – ela disse.
Ele deu um sorriso, que ela conhecia bem, um sorriso maníaco e obstinado. Sem dizer nada, ele saiu. Por um instante, os dois desejaram ao mesmo tempo um beijo, um último beijo de despedida. Mas o orgulho de ambos impediu que admitissem isso.
Na madrugada seguinte, depois de um dia inteiro de preparativos, Vegeta partiu para o espaço. A janela de lançamento perfeita era às 2:00, e uma pequena equipe ajudou a colocar a nave em órbita. Bulma olhava pela janela do quarto, pensando na última coisa que dissera para ele, e murmurou para si mesma:
— Apenas volte, Vegeta. Volte para mim.
Na nave, Vegeta apertou um botão, deitado na câmara de animação suspensa, pensando em um sono longo e sem sonhos, uma escuridão tranquilizante. Seu último pensamento antes de adormecer foi que quando chegasse ao planeta de destino, seu filho estaria muito perto de nascer.
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