O que importa?
2 Uma garota de sorte
Looks like a girl, but she's a flame
So bright, she can burn your eyes
Better look the other way
You can try but you'll never forget her name
She's on top of the world
Hottest of the hottest girls say
Oh, we got our feet on the ground
And we're burning it down
Oh, got our head in the clouds
And we're not coming down.
This girl is on fire
She's walking on fire
(Alicia Keys: Girl on Fire – Girl on Fire, 2012)
Bulma ajeitou-se impaciente numa confortável poltrona da plateia da XXX conferência científica da Cidade do Leste. Seria a próxima a falar, mas, enquanto isso, era obrigada a assistir uma chatíssima palestra do Dr. Mac Gero sobre cibernética e robótica de última geração. O assunto podia ser interessante, mas o palestrante era um velho feio e chato que não conseguia fazer com que ninguém se interessasse por nada do que dizia, com tantos termos técnicos complicados e sem a mínima conexão com o que seria sua aplicação prática.
Forçou-se a prestar atenção para não bocejar, e começou a considerar que, talvez, o caso fosse que o Dr. Gero simplesmente não queria que prestassem atenção no que ele dizia. "Os protótipos 12 e 14 apresentaram falhas consideráveis nos subcircuitos periféricos". O que seriam esses protótipos? Ele não dizia e ninguém se sentia animado em perguntar. Mas Bulma não seguiu esse raciocínio muito tempo, porque começou logo a rever os pontos de sua palestra, que seria logo em seguida. Ela era sempre a escolhida para falar em nome da Corporação Capsula porque seu pai era muito enrolado para explicar qualquer coisa, embora fosse um gênio e ela, além de brilhante, era carismática.
Quando subiu ao palco, Bulma sabia que ia brilhar. Ela podia se gabar de ser parte dos 5% de seres humanos que não tinham a mínima vergonha ou embaraço ao falar em público e dominava a plateia porque era divertida, engraçada, inteligente e muito bonita – e ela concordaria com todos esses elogios, se alguém os fizesse, porque esbanjava autoconfiança. Começou falando dos projetos da Corporação Capsula na área de transporte, novos protótipos de carros, aviões e navios que cabiam numa capsula, inclusive naves espaciais como a "recentemente testada". Omitiu o fato de que a viagem já havia acontecido e porque acontecera, e o fato da nave ter sido feita a partir da tecnologia alienígena das naves de Kami-Sama e dos Sayajins.
Não achava muito correto esconder tudo que havia acontecido, mas como aquele projeto de espaçonave especificamente era sinalizado para não ser lucrativo, não se sentia se apropriando de algo que não haviam inventado. Logo depois falou de projetos na área de medicina e saúde e terminou com todos os seus avanços em comunicação, computação e programação – a área que ela dominava perfeitamente – e quando terminou foi tão aplaudida que se sentiu uma verdadeira estrela: "Arrasei!" – pensou.
Desceu do palco, entusiasmada, e foi logo cercada por uma multidão de cientistas de diversas áreas, cada um com uma pergunta diferente, e era muito bom se sentir no centro das atenções. Ela ficou imaginando o que aquelas pessoas diriam se soubessem que há pouco tempo ela estivera num distante planeta alienígena lutando pela própria vida. Ok, ela não estava exatamente lutando, mas reclamando, chorando se perguntando o que tinha ido fazer ali, mas tinha corrido risco de morte do mesmo jeito.
Quando a sua conferência finalmente terminou ela estava exausta e queria sair dali o quanto antes, mesmo que o evento fosse durar ainda a tarde inteira. Ela marcara um almoço com Yamcha e ele já devia estar esperando por ela. Correu ao toalete, ajeitou seus cabelos e passou uma fina camada de batom nos lábios, dando uma ultima olhada no conjunto e aprovando o que via. Desceu correndo as escadas que levavam ao hall do centro de convenções do Hotel Internacional da Cidade do Leste, que ela atravessou rapidamente para sair pelas portas automáticas, conferindo a hora ao sair: doze e trinta em ponto. Ficou satisfeita com a própria pontualidade e olhou em volta, procurando por Yamcha.
Um vistoso carro esporte amarelo estava parado bem adiante e Yamcha estava em pé na calçada, usando um elegante blazer sobre suas roupas esportivas. Bulma viu que uma mulher morena e alta conversava com ele, que respondia animadamente, e respirou fundo. Tinha que superar essa coisa primitiva de ciúmes. Yamcha a amava, certo? Ok, ele era um cara lindo e as cicatrizes só deixavam o rosto dele ainda mais charmoso, e, como ele ainda por cima depois que voltara da morte conseguira um contrato fabuloso com o seu antigo time de Baseball, em vias de vencer o campeonato, ainda estava ganhando muito dinheiro, tinha um carrão e toda hora seu rosto aparecia na TV. Claro que ele atraía mulheres como um pão doce atrai moscas.
Ela marchou decidida ouvindo os estalos ritmados dos saltos de seus sapatos na calçada, acelerando à medida que se aproximava do animado par. Yamcha a viu antes da moça, e seu rosto passou de descontraído a tenso em um décimo de segundo. Para ela, uma confissão de culpa: já havia terminado aquele namoro cinco vezes por causa de traições e sabia que Yamcha, mesmo quando se mantinha fiel, não era capaz de perder uma oportunidade de flertar com uma garota bonita, e aquela garota era realmente linda, mas isso jamais abalaria a autoconfiança de Bulma Briefs.
— Olá – ela disse assim que se aproximou do casal – estou muito atrasada para o nosso almoço?
— Err... Oi, amor – começou Yamcha, sem jeito – de forma nenhuma. Você chegou bem na hora...
Ela olhou para a moça, que também sorria sem jeito, e, mesmo sendo uns bons 18 centímetros mais baixa, Bulma a encarava de igual para igual, sorrindo exatamente com a expressão de um sayajin antes de desferir um golpe fatal. Yamcha percebeu que deveria dizer alguma coisa e resolveu apresentar as duas:
— Bulma... Essa é Aura. Ela trabalha aqui no hotel e me reconheceu...
— E pedi um autógrafo – completou a garota – eu sou muito fã de baseball! E torço pelos Taitans há muito tempo, foi uma sorte e tanto encontrar o senhor Yamcha aqui! Sei quem é você! Ele me disse que estava esperando sua linda noi...
— Muito prazer, Aura. Eu sou Bulma, a NAMORADA do Yamcha.
— Ué – não era noiva? – disse a garota, com um olhar confuso, e Yamcha completou, um pouco desapontado:
— É como se fosse... Bem, eu espero que seja, em breve... Se ela... Aceitar... O pedido... Quando eu fizer...
O olhar de Bulma para Yamcha era devastador. Aura tentou consertar a situação, escolhendo palavras que achou adequadas:
— Mas que garota de sorte... Digo... Ser pedida em casamento pelo principal jogador dos Taitans!
Foi a vez de a pobre garota ser fuzilada pelo olhar de Bulma, que disse:
— Sorte? Como assim, sorte, querida? Eu tenho 29 anos e já chefio um dos maiores departamentos de pesquisa científica do país. Acabei de dar uma palestra representando a Corporação Capsula, que aliás pertence à minha família, já ouviu falar? Sorte terá o "Senhor Yamcha" se um dia eu aceitar me casar com ele, que demora uma ETERNIDADE para se decidir a fazer esse pedido. Quer um conselho? Nunca conte com a sorte. Você não sabe o que ela vai te trazer – ela disse e olhou para o arrasado namorado dizendo apenas – vamos?
Eles entraram no carro e a garota ficou lá, muito sem graça na calçada. Bulma não lia pensamentos, mas tinha certeza que quando se despediu dela a menina pensou "vaca" com todas as forças do seu ser.
— Você não precisava ter sido tão grossa – começou Yamcha assim que deu partida no carro – a garota realmente só tinha me pedido um autógrafo.
— E você já saiu falando tudo sobre nós e inventando um noivado imaginário.
— Não é nada imaginário, para mim. Já estamos juntos há 12 anos, Bulma!
— Corrigindo: vamos e voltamos há 12 anos e não parecemos mais próximos de nos casar do que estávamos quando você estava morto.
— Eu já te disse que eu mudei! Mas eu não tenho culpa se me ofereceram um contrato muito vantajoso para jogar baseball outra vez! Quando eu apareci dizendo que minha morte fora um "boato" eles enlouqueceram. E você tem que admitir que eu estou jogando melhor que nunca! O treinamento com o senhor Kaioh não me ajudou apenas a ficar mais forte, mas a ser um jogador completo. Se eu ganhar o prêmio de jogador do ano meu passe vai dobrar de valor!
— Eu sei.
— E se eu ainda não te pedi em casamento é porque você sempre deixa bem CLARO que ainda não pensa em se casar comigo. Aliás, nem sei se algum dia vai querer se casar!
— Ora, faça-me o favor, Yamcha! Eu estou no auge da minha vida profissional! Depois do meu doutorado, quando assumi a divisão de tecnologia da Capsula, é que eu percebi que primeiro quero chegar a algum lugar, depois vou pensar em casar e ter filhos. Não sou como Chichi que agarrou o Goku para nunca mais soltar aos 17 anos!
— Às vezes acho que, no fundo, você queria estar no lugar dela – disse Yamcha, não disfarçando a amargura – mesmo sendo bem mais velha que o Goku...
— Ora, não seja ridículo – ela disse, no entanto, ruborizada – O Goku era uma CRIANÇA quando eu o conheci – não que eu também não fosse bem novinha. Não sou assim TÃO mais velha que Goku.
— A Chichi também era uma criança quando eu a conheci e nem por isso você deixou de ter ciúmes dela – ele riu e ela suspirou.
— Eu realmente não queria brigar contigo hoje. A minha palestra foi tão boa...
Ele parou o carro porque haviam chegado ao restaurante. Olhou-a de lado. Estava mais bonito que nunca, com seu sorriso de covinhas no rosto marcado, e a expressão pidona que ela conhecia muito bem. Ele disse, então:
— Então não vamos brigar. Você sabe que eu te amo, não sabe?
Ela sorriu e ele a puxou e deu um beijo demorado. Quando se separaram ele disse, olhando no espelho retrovisor de um jeito cômico:
— Ai, não. Estou de batom! – Ela riu e limpou o rosto dele com um lencinho de papel enquanto ele dizia – então, me conte sobre a tal palestra. Ficaram todos apaixonados pela minha cientista brilhante?
— Eu te conto lá dentro, no restaurante – ela disse, passando a ajeitar o próprio batom – estou morrendo de fome.
Entraram no restaurante de mãos dadas e ela ainda ouviu uma das recepcionistas comentar com a colega:
— Como é elegante a namorada do senhor Yamcha, não?
— Que garota de sorte – suspirou a outra.
Não tinha jeito. Ela nunca era reconhecida antes dele.
Fale com o autor