In the burning heart
Just about to burst
There's a quest for answers
An unquenchable thirst
In the darkest night
Rising like a spire
In the burning heart
The unmistakable fire

(Survivor: Burning Heart – Rocky IV, 1985)

A reentrada era sempre a pior parte. Vegeta já havia viajado por muitos planetas, mas nunca se acostumava ou gostava da chegada. A nave estava programada para pousar bem na Corporação Cápsula, não num lugar deserto como ele gostaria, e ele teve que dar de cara com aqueles humanos irritantes e ainda ser confrontado por aquela mulher mal educada e impertinente. Mas a oferta inesperada de ficar por ali não era de todo ruim.

Pouco tempo depois, no entanto, a chegada de Freeza, sua destruição pelo Sayajin desconhecido (não, não podia ser um sayajin, ele dizia mentalmente toda vez que pensava no rapaz) e a chegada de Kakarotto mudaram todos os seus planos. Saber que ele morreria (não, não morreria, aquele guri só podia ser um idiota mentiroso) nas mãos de outro inimigo forte e desconhecido o haviam feito esquecer sua rivalidade com Kakarotto por um tempo. Era bem estimulante a ideia de treinar para superar um inimigo mais poderoso que Kakarotto.

Ele nem pensou em agradecer a Bulma ou seus pais pela hospitalidade. Eles que deveriam agradecer se ele ficasse e derrotasse os androides, salvando o seu maldito planeta. Mas é claro que a mulherzinha mal educada tinha que encher a sua vida de regras e enquadrá-lo de alguma forma. Na noite em que o garoto apareceu, assim que voltaram, Bulma o chamou para uma conversa no quarto que ela designara para ele, um confortável aposento de hóspedes com banheiro próprio, bem ao lado do quarto dela.

— Então, o que você pretende fazer? – ela perguntou, objetivamente, chamando-o em particular, longe de Yamcha, Kuririn e seus pais, assim que chegaram à casa dela.

— O que te faz pensar que eu te devo alguma explicação, mulher?

— Em primeiro lugar, eu tenho nome. Em segundo lugar, já faz algum tempo que você está comendo e dormindo nessa casa porque eu sou uma pessoa extremamente generosa...

— E porque queria ficar de olho em mim achando que eu ia querer destruir essa porcaria de planeta...

Ela o encarou por um instante, antes de admitir:

— Verdade. E ainda não estou muito certa de que você não queira fazer isso...

— Por que eu destruiria seu planeta sem ter para onde ir? Acha que eu sou burro?

Ela não se intimidou, sustentando o olhar inquisidor. Ele tinha de admitir que ela não era uma mulher covarde. Ele prosseguiu:

— Eu realmente já destruí planetas, mas nunca à toa. Embora eu tenha mil motivos para odiar seu planeta, pelo visto vou ter de ficar por aqui mesmo, afinal, não tenho nenhuma nave, não posso ir atrás dos meus antigos empregadores e não tenho nada melhor para fazer que treinar e tentar defender esse planetinha medíocre. Só preciso descobrir como treinar aqui.

— Você pode treinar na nave que você roubou. Lá há uma câmara de gravidade aumentada. Goku treinou em uma igual, acho que isso o ajudou a virar super sayajin.

— Por que insiste em me comparar com Kakarotto, mulher? Não vê que eu sou um príncipe? Kakarotto é um soldado de classe inferior, não pode se comparar a mim. E eu não roubei nave nenhuma, eu devolvi, não devolvi?

— Você se transforma em Super sayajin? – ela perguntou, com um inacreditável atrevimento.

— Não, mas...

— Você por acaso derrotou Freeza?

— O que isso...

— Então eu acho que temos que combinar que Goku é mais forte que você. Se quiser ficar e treinar, a oferta está de pé e amanhã eu te ensino a usar a câmara; mas, se quiser ir embora, eu peço que meu pai desenvolva uma nave como aquelas em que vocês chegaram a Terra. Vai ser um alívio ter um pé no saco como você longe do nosso planeta.

Ele queria retrucar, mas ela havia destruído qualquer argumento que ele pudesse imaginar. Sem ter nada melhor para dizer, ele apenas admitiu a derrota:

— Eu fico. Mas assim que derrotar os androides, quero a nave. Não quero morrer encarcerado nesse planeta estúpido.

— Você terá sua nave, e condições para treinar. E eu estive estudando sua armadura. É um material estranho, mas acho que com uma combinação certa de polímeros posso produzir algo parecido, já que a sua está praticamente destruída.

— Como você faria isso? – ele estava francamente duvidando. Até então acreditava estar diante uma mulher idiota e fútil.

— Da mesma forma como eu decodifiquei aquele seu rastreador.

— Você o quê?

— Acha que sou apenas linda? Sou inteligente e tenho muitas qualificações. Vou pegar o que sobrou de sua armadura e em breve você terá uma surpresinha. Aproveite seu quarto ou venha jantar conosco. Ninguém vai trazer comida para você aqui. – ela ia saindo quando ele a chamou:

— Mulher...?

— Eu tenho nome.

— Bulma?

— Sim?

— O que é um pé no saco?

Ela virou-se para ele, com um sorriso que evidenciava que ela estava se deleitando com aquela situação e disse:

— Bem, senhor príncipe – ela apontou o pé, calçado com uma bota, que ergueu levemente – imagine suas preciosas bolas reais bem aqui debaixo – ela deu um pisão, fazendo com que ele se encolhesse ligeiramente, imaginando a dor – isso é ser um pé no saco. – virou-se, com aquele sorrisinho pretensioso e irritante e saiu, deixando-o bufando cheio de raiva impotente.

Ele gostaria muito de ignorar a fome que sentia para não ser obrigado a se juntar aos demais, mas o estômago roncando falou mais alto, o que o fez esquecer o orgulho e o levou à sala de jantar, onde se sentou quieto no lugar que a mãe dela indicou à mesa. Comeu silenciosamente, sem olhar para ninguém e assim que se sentiu satisfeito, levantou-se e saiu, sem pedir licença ou cumprimentar ninguém.

— Você tem certeza que é uma boa ideia ter o Vegeta aqui? – ele ainda ouviu, mesmo de longe, a pergunta que Kuririn fez a Bulma em voz baixa. Deteve-se por um instante no corredor quando a ouviu dizer:

— É melhor ter alguém como ele do nosso lado que contra nós.

Sem saber exatamente porque, Vegeta sentiu-se satisfeito com as palavras dela. Trancou-se no quarto, tirou aquelas roupas ridículas que ela lhe dera e atirou-se na cama, exausto, pensando em treinar pesado dali em diante. Adormeceu quase instantaneamente.

Bem mais tarde, quando a casa já estava em silêncio, acordou com um barulho no quarto ao lado. Sentou-se na cama atordoado. Não havia ainda se habituado direito com a forma de se contar o tempo da Terra, e ao olhar o relógio marcando 01h20min não conseguia saber direito quanto tempo havia dormido. De repente ele se deu conta do que eram os ruídos, que vinham do quarto de Bulma, e sem exatamente saber por que, sentiu-se indignado.

Era óbvio que a garota e seu namorado fracote estavam fazendo sexo recreativo, e depois que se deu conta disso, não conseguia mais deixar de prestar atenção na animada movimentação, que ele só podia imaginar. Deitou-se e colocou o travesseiro na cabeça, procurando abafar as risadinhas e gemidos que insistiam em entrar pelos seus ouvidos, irritado.

Involuntariamente, começou a pensar nas muitas vezes em que fizera sexo recreativo. No grande exército de Freeza era bem comum que homens e mulheres usassem o sexo para relaxar, embora envolvimentos sentimentais fossem raros. Quanto mais forte e competente fosse um guerreiro, mais fácil era conseguir um entretenimento sexual, e, compreensivelmente, ele costumava ter a mulher que quisesse, afinal, era muito forte. Os mais fracos não se davam tão bem, afinal, o numero de homens superava em muito o de mulheres.

Sujeitos como Nappa e Raditz não tinham o mesmo sucesso que ele, mas compensavam arranjando-se com gente das populações que conquistavam e escravizavam. Raditz, inclusive, costumava não se importar com o sexo de quem se deitava, enquanto Nappa chegava a ser desagradável quando contava suas proezas sexuais, como a história que ele repetia sempre e envolvia uma Andariana de oito seios que se oferecera a ele pedindo clemência.

Mas Vegeta não gostava da ideia de ter uma mulher apenas porque seu povo fora subjulgado. Era bem melhor ser surpreendido ao entrar em seus aposentos e ver uma guerreira deitada em sua cama, esperando-o. Ele normalmente não mandava nenhuma mulher embora, mas costumava preferir também as mais fortes, justamente as que amedrontavam os demais. Ele preferia mulheres que não pareciam sentir medo dele.

Tinha sido esse o caso da sultana do Planeta Ulmar, Malaya. Era uma mulher de quase dois metros que chefiava um exército de mercenárias que havia entrado em rota de colisão com o de Freeza na disputa por um lucrativo planeta num distante sistema solar. Depois de uma exaustiva batalha de semanas, que acabara num armistício forçado por conta da equiparação das duas forças, ele havia lutado contra a sultana e tinha de reconhecer que ela era forte o suficiente para atraí-lo.

Não foi nem um pouco surpreendente, quando a trégua cessou e a batalha reiniciou, que ela o tivesse escolhido, atacando-o o tempo todo. Seus ataques o forçaram a afastar-se do campo de batalha principal e, numa área semidesértica, os dois passaram da luta feroz para um embate sexual que durou algumas horas mas terminou abruptamente quando ele viu no céu o rastro da nave de Freeza, que nunca soube como a Sultana acabou fugindo.

Enquanto contavam-se os mortos, Freeza ainda o questionou sobre a fuga da Sultana e de suas amazonas mais fortes, mas ele simplesmente desconversou. Ninguém, nem mesmo seus companheiros, soube que ele facilitou a fuga dela, indicando onde havia uma nave e recomendando que ela ficasse fora do caminho deles para sempre. Isso acontecera quando ele tinha 19 anos e não era tão forte e nem tão esperto. Lógico que Malaya não lhe deu ouvidos e acabou morta, junto com o que sobrou de seu exército, pelas forças Guinyu quando tentou buscar vingança contra Freeza.

Deitado no escuro, ele pensou no desperdício que havia sido a morte da sultana guerreira e seu pequeno exército. De certa forma, ela agora estava vingada e provavelmente tirava satisfações com Freeza no outro mundo. De repente, uma gargalhada de Bulma no quarto ao lado o trouxe de volta desse devaneio, e ele bufou irritado. Tornou a tentar abafar o som com o travesseiro enquanto pensava: "Ótimo. Estou encarcerado com um bando de idiotas..."

Notas finais
Nota: A andariana de oito seios e a sultana do planeta Ulmar nunca existiram no anime, estão no capítulo apenas para traçar uma linha entre Vegeta e seus companheiros no que tange a sexualidade. Inúmeras fanfictions desenvolvem o relacionamento entre ele e Bulma começando como meramente sexual, sempre com um jeito incômodo de estupro, dando a entender que esse é um traço da personalidade dos sayajins. Foi disso que eu quis fugir. Tradução da música do capítulo: No coração ardente Prestes a explodir Há uma busca por respostas Uma sede insaciável Na noite mais escura Subindo como uma torre No coração ardente O fogo inconfundível