O que importa?
15 O silêncio que grita
Don't want to close my eyes
I don't want to fall asleep
'Cause I'd miss you baby
And I don't want to miss a thing
'Cause even when I dream of you
The sweetest dream will never do
I'd still miss you baby
And I don't want to miss a thing
(Aerosmith: I don't want to miss a thing – I don't want to miss a thing, 1998)
Já fazia três meses que Vegeta conseguira tornar-se super sayajin, e ele, treinando na nave enquanto viajava de volta rumo à Terra, já dominava a transformação perfeitamente e conseguia se transformar no momento em que desejasse. Era um poder muito maior que qualquer coisa que ele poderia imaginar antes de obtê-lo. Sentia-se invencível e mal poderia esperar para ter um adversário e um desafio à altura daquele poder.
Se não pudesse treinar ao ponto da exaustão, talvez aquela viagem de volta já o tivesse enlouquecido. Jamais fizera uma viagem como aquela, tão longa, totalmente desperto. Toda vez que precisara passar por dobras espaciais e saltos estivera adormecido, e quando precisou passar pela primeira dobra à velocidade da luz sentiu-se muito mal, bastante nauseado. Não era nada animador saber que haveria mais cinco.
Havia um outro grande problema: estar no espaço sozinho por tanto tempo, sem nenhuma companhia, completamente sozinho, era algo para o qual ele não sabia estar tão despreparado. Era um náufrago em uma ilha em movimento, perdido com seus próprios pensamentos que nem sempre eram confortáveis. Ele não era boa companhia para ele mesmo.
Treinar à exaustão, portanto, preenchia também sua mente, fazendo com que quase esquecesse que não era apenas o adversário que o aguardava quando retornasse à Terra, mas ela... E quanto mais evitava pensar em Bulma, menos doía. Mas às vezes ele não conseguia evitar imaginar que naquele momento, muito distante dali, Bulma já era mãe de seu filho. Não conseguia imaginar como seria ser pai. Se tomasse como referência o próprio pai, a única coisa que poderia pensar é que deveria mostrar ao filho o quanto ele era poderoso e capaz de derrotar um inimigo, ainda que a última grande batalha do pai tivesse acabado com a sua morte.
Vegeta encarou a escuridão do espaço imaginando se algum dia ensinaria ao filho (ou filha, quem sabe) alguma técnica de luta. Ele só não podia imaginar que isso aconteceria bem mais cedo do que ele podia imaginar.
***
Os olhos de Bulma percorreram pela milésima vez a última frase que Vegeta escrevera nas suas longas anotações. Quando pedira a Shenlong para ser capaz de ler e compreender o idioma Sayajin imaginava que poderia estar abrindo uma caixa de Pandora, cheia de medo de decepcionar-se... mas o que encontrara nos escritos, na verdade, havia mudado para sempre a forma que ela via o pai de seu filho, o bebê que naquele momento dormia em seu berço enquanto ela lia novamente tudo que Vegeta escrevera.
Na primeira folha havia um provável resumo de filosofia de vida que a intrigava: “A força, apenas, te faz bruto. A ira, apenas, te faz tolo. A disciplina, apenas, te faz escravo. Mas a força, a ira e a disciplina, juntos, te fazem um guerreiro, e o guerreiro é forte, é sábio e é livre”. Ela leu aquilo várias vezes, pensando em como aquilo o resumia: força, ira e disciplina. Era o perfeito retrato de Vegeta.
As folhas seguintes eram cobertas de anotações, relatos frios sobre seu progresso, não muito diferentes das que ela acumulava quando precisava acompanhar um experimento. Ele comparava o seu desempenho com o anterior e frequentemente se depreciava com frases como “não é possível que eu continue rastejando como um verme quando aumento a gravidade. Já deveria estar voando”; “Se não deixar de ser medíocre dessa forma, posso me preparar para morrer. E merecer essa morte”.
Na terceira página, ela aparecia pela primeira vez: “a mulher é mal educada, grosseira, mas é inteligente como um maldito demônio. Os robôs ajudam muito. Penso que sem eles demoraria uma era para melhorar... mas a fragilidade deles é um problema. Acho que posso quebrá-los mais rápido do que ela é capaz de consertá-los...”
Depois dessa primeira aparição, ela era citada aqui e ali, sempre em tom de reclamação: “Não consigo dormir. Gostaria de nocautear aquele verme e a garota cada vez que eles resolvem se divertir sexualmente. O barulho incomoda demais. Ainda bem que nunca é tão demorado, hehehe...Não me admira o sujeito perder para um saibaman... alguém cuja energia sexual parece se esgotar tão rápido não pode aguentar mesmo uma verdadeira batalha” Bulma ruborizou pensando que, como ela desconfiava, ele havia escutado ela e Yamcha mais de uma vez. Outra anotação sobre ela apareceu mais adiante: “Não devia ter esse tipo de fantasia. Aliviar-me sexualmente relaxa... mas eu não deveria imaginar a mulher do quarto ao lado. Não quero correr o risco de desejar algo que pode ter um efeito deletério na minha concentração... mas eu não consigo realmente evitar... o cheiro dela parece estar em toda parte aqui”
“Ugh... ele teve fantasias sexuais comigo...” ela pensou e logo em seguida ruborizou pensando que ela fizera o mesmo... apenas não havia confessado por escrito. A briga dela com ele sobre Yamcha era relatada brevemente: “Essa manhã ela veio ver se eu estava melhor... foi gentil e logo em seguida explodiu quando eu fui sincero sobre o que achava sobre seu agora ex-parceiro de sexo recreativo. Eu não tenho culpa se ela brigou com o verme. Ou será que tenho? O que interessa é que terei paz e silêncio à noite por um bom tempo... ou pelo menos silêncio. Assim espero”.
As anotações se tornavam caóticas mais adiante, correspondendo ao perído em que ela foi viajar e ele ficou só com seus pais. Era engraçadíssimo ler as queixas apavoradas dele: “Não posso explodi-los. Eu não teria um lugar melhor para treinar... além disso... Bulma ficaria furiosa comigo.” Ela sorriu ao perceber que, pela primeira vez, ela era citada pelo nome, não como “a mulher”. A conversa dos dois na volta foi resumida a uma frase: “Ela está livre... mas estamos sendo sensatos mantendo distância, eu creio... ela pode me ajudar e eu posso ajudá-la. Isso basta”.
A partir dali, em todas as páginas ele acabava falando sobre ela. Referências às conversas deles no café da manhã, uma série de elogios à armadura que ela havia reproduzido, reflexões sobre seu hábito de assistir filmes “histórias parecem encantar terráqueos, mas nunca vou entender os musicais. Isso é muito chato!”; comentários sobre as saídas noturnas dela: “Ela sai para dançar. Parece querer esquecer que o planeta está sob ameaça... Por que terráqueos dançam? Coisa mais inútil.”
No alto de uma página, uma pequena confissão: “Discutimos sobre um filme. Ela disse que eu invejo Kakarotto. Odeio admitir que ela está certa” – ela lembrou-se do filme que provocara a discussão e sorriu. A confissão seguinte era mais divertida ainda: “Eu a vi nua por acidente. Creio que ela não sabe. E logo depois ela cuidou do meu ferimento... o toque dos dedos dela logo depois da visão que eu tive... precisei de todo meu autocontrole, mas ainda assim, fugi logo assim que ela acabou. Eu a desejo como jamais desejei mulher nenhuma.”
Então... ela percebeu que ele não escrevera nada, ou destruíra tudo que havia escrito na semana que eles haviam passado juntos; e as anotações seguintes voltavam ao padrão metódico do começo, com uma diferença: ele parecia se culpar mais por não conseguir os objetivos: “Eu estou mais forte que jamais estive... mas não é o suficiente, talvez jamais seja. Talvez, no fim, a morte seja minha única recompensa...”
Ela pensou naquelas semanas... em como ele parecia cabisbaixo e carrancudo e lamentou que ela não o pudesse ter apoiado. A derradeira anotação a fazia querê-lo por perto... e fazia, ao mesmo tempo, com que ela se arrependesse de ter desejado saber o que havia naqueles papéis: “Estive com ela pela última vez e ela vai ter um filho...Meu filho! Que vai nascer quando eu estiver longe ou morto. Me afasto de tudo que se tornou importante para mim: a Terra, essa mulher... Um filho. Talvez eu morra longe de tudo isso... mas se eu não me tornar super sayajin por que voltar? Se eu não conseguir é porque não sou digno de proteger o que importa para mim. Por que não a beijei uma última vez? Por que meu orgulho é mais forte que minha vontade?”
Bulma também gostaria de saber. Ela tinha lágrimas nos olhos novamente. Não havia nenhuma confissão de amor... mas a palavra em si era desnecessária diante de uma única expressão: “o que importa para mim”. Lembrou-se da noite da tormenta e entendeu que aquela era a forma que Vegeta confessava o que sentia. Ele se importava, e, de alguma forma, ela sabia que isso era mais importante que uma confissão de amor.
***
Os olhos de Vegeta estavam vermelhos e injetados. Depois de uma viagem de ida em que dormira – e enfraquecera por falta de treino – ele precisava se manter em forma, afinal quando chegasse à Terra faltaria menos de dois meses para a chegada dos Androides. E ele deveria se manter concentrado e treinando se quisesse sobreviver à batalha. Mas cada vez que passava por um salto espacial seu corpo protestava de exaustão e ele sentia-se nauseado e doente. Mas logo voltava aos treinos. Já estava nessa rotina havia seis meses.
Seria tão mais fácil deitar e adormecer até que estivesse perto o suficiente da Terra para despertar um mês antes do desembarque. Mas ele não podia e nem queria deixar o treinamento.
A obsessão por se manter naquele estado de força o consumia, e ele sentia-se mais solitário que nunca. A única coisa que o consolava era a certeza que estaria mais forte que Kakarotto. Isso o animava. Quando acabasse com os androides... Mas se matasse Kakarotto, talvez perdesse Bulma. Crispou os pulsos pensando nisso.
Sua mente às vezes se enevoava quando ele pensava em Bulma. Mas repelia o pensamento com força. Bulma o atrasara. Bulma o havia seduzido e o tornara fraco, tolo. Ele era um príncipe sayajin e na sua mente não havia espaço para nada que não fosse força e luta.
Mas ela agora era mãe de seu filho. Um herdeiro da linhagem real sayajin. Parte dele se orgulhava por isso, mas a outra parte perguntava-se o que seu pai, o grande rei Vegeta, diria se soubesse que ele havia escolhido uma mulher de uma raça tão fraca para gerar um filho. Um híbrido. Havia a história, que ele conhecia, de um outro príncipe, em outro tempo, que deixara o planeta para trás por causa de uma mulher... e em algum lugar do universo ele e ela haviam gerado híbridos, coisa que o Rei Vegeta contava a ele, quando criança, com ares de quem descrevia uma abominação.
Vegeta tentava se enganar dizendo a si mesmo que não havia escolhido nada, que fora um acidente... força das circunstâncias. Mas quando dormia, Bulma povoava seus sonhos, uma imagem tentadora e sensual que ele tentava esquecer sem o mínimo sucesso. Dizia-se que Sayajins só se apaixonavam uma vez em sua existência... ele tinha motivos para crer que isso era verdade.
Treinava à exaustão, mantinha-se no limite. A dor o impedia de pensar. Mas cada vez que seu corpo protestava, cada vez que ele sentia-se no limite, ele pensava que valeria a pena. Ele estava mais forte agora, e estaria no máximo de sua capacidade quando chegasse à Terra, para enfrentar todas as lutas que o esperavam lá.
Inclusive a sua luta interna.
***
Quando Trunks completou seis meses, Bulma começou a leva-lo para o laboratório, onde instalou um cercadinho que encheu de brinquedos. Às vezes sua mãe o levava dizendo que ali não era ambiente para um bebê, mas na verdade isso era apenas desculpa para passear com o neto pelo jardim e exibi-lo eventualmente para a vizinhança.
À noite, Bulma se pegava olhando para o céu, pensando em que lugar nas estrelas estaria Vegeta. Há muito tempo admitira para si mesma que o envolvimento dos dois não fora apenas uma paixão motivada por aquela atração irresistível. Ela o amava, ainda que soubesse que ele era um cretino egoísta e teimoso, porque via além daquela casca dura sob a qual ele insistia em se esconder. E nesses momentos ela queria apenas que ele voltasse.
Numa tarde seu pai a chamou. A nave entrara na zona de comunicação, o que significava que dera o último salto de dobra espacial e que já era possível monitorar os seus sistemas e, quem sabe, até mesmo falar com Vegeta. Monitorando a nave, seu pai teve acesso aos sistemas e disse a ela que em três semanas ele estaria pousando na Corporação Capsula. Os sistemas ainda indicavam que ele tinha comida e água sobrando e que chegaria em boas condições físicas à Terra. Então seu pai olhou um monitor e disse:
— Ele está desperto. Pelo jeito preferiu voltar em estado normal e ir no modo de animação suspensa. Ele poderia ter voltado dormindo também, seria fisicamente menos cansativo que uma volta desperto. Talvez ele chegue em condições de exaustão. Não é fácil passar por dobras espaciais e logo em seguida acionar a gravidade aumentada tantas vezes como ele acionou.
Quando as leituras da nave terminaram, quase vinte minutos depois, seu pai disse:
— Podemos nos comunicar com Vegeta, se você quiser. Não sei se a câmera da nave vai funcionar. Mas ele vai poder nos ver e ouvir.
O coração dela deu um salto no peito. Como ele estaria? Teria conseguido o que tão ansiosamente fora buscar? Ela esperava que sim.
***
Vegeta sentia-se naquele momento exausto. Sem noites ou dias para controlar seu metabolismo, seu relógio interno estava uma bagunça. Alternava períodos longos de vigília e exaustão absoluta, quando apagava como se seu organismo não conseguisse mais manter-se desperto, mas não deixava que isso abalasse seus treinos, o que, sem que ele percebesse, o havia levado ao limite da sanidade.
Se fosse menos disciplinado, talvez tivesse sucumbido à tentação de deitar-se na câmara de animação suspensa e se deixasse levar até chegar à terra. Mas devia a si mesmo superar o limite imposto a ele por aquela viagem insana que, ele sabia, estava perto do fim, agora que o sexto e último salto de dobra havia passado. Havia treinado doze horas antes do salto e não conseguira dormir depois disso. Também estava há horas sem conseguir comer, sabendo que o efeito da náusea que sentia a cada salto não passaria tão cedo.
Na sua exaustão, tomou o pequeno bip que começou a ouvir à sua direita como um sinal de emergência, e, mesmo com os sentidos embotados, começou a tentar ler os monitores atrás de anomalias até que viu uma frase piscando no monitor central: “Tentativa de comunicação da Terra com a nave em andamento”
Ele apertou o “enter” do teclado e apareceu outra frase, desta vez fixa: “responder comunicação? (s) sim (n) não”.
Hesitou um instante, pensando se estava preparado para aquilo. Por outro lado, mesmo não tendo certeza que quem chamava, pensou que seria bom finalmente sair daquele torpor solitário. E, ao mesmo tempo, imaginou que aquela tentativa poderia significar que veria novamente Bulma.
E isso, a princípio, o fez digitar (n) no seu teclado, fazendo o monitor escurecer. Arrependeu-se. Por que ele queria prolongar aquele estado? Por que negava para si mesmo que era o rosto dela que ele ansiava ver? Fechou os olhos com raiva, crispando os pulsos e pensando que talvez aquela fosse a maior admissão de fraqueza e covardia que ele podia ter.
Foi quando o bip retornou. Abriu os olhos e viu novamente a primeira frase piscando à sua frente na tela do monitor. Sem pensar muito, apertou a tecla “enter”, em seguida a tecla “s” e, lentamente, ergueu os olhos para o monitor.
***
Bulma olhava o monitor. Primeira tentativa: abortada. Ela riu. De alguma forma, sabia que aquilo era a cara de Vegeta. Negar a primeira comunicação. Não desistia tão facilmente, ele devia saber disso. Ela insistiu “Tentar comunicação: (s)sim, (n)não?”
Ela apertou a tecla “s” e, de repente, o monitor brilhou: comunicação aceita, aguardando sinal. Seu monitor piscou algumas vezes e, repentinamente, o rosto de Vegeta apareceu na tela, estranhamente encovado e macilento e, para a surpresa dela, um pouco barbado. Ele encarava o monitor, sério como ela imaginava que ele estaria. Ela sorriu e disse:
— Olá.
Depois de uma demora de alguns segundos, já que a nave ainda estava muito distante, ele respondeu:
— Diga frases úteis, Bulma, não acho inteligente esperar 10 segundo para responder um olá.
Ela riu e disse:
— Já vi que a viagem não mudou em nada esse seu agradável humor. Vou direto ao assunto: achou o que foi buscar?
Quando ele ouviu a pergunta, olhou para o monitor, com aquele velho meio-sorriso cínico que ela já conhecia. Contrariando a regra que ele mesmo sugerira, disse simplesmente:
— Sim.
Alguma coisa fez o peito dele aquecer ao ver a forma como ela sorriu quando ouviu a afirmação dele. Ficaram um longo tempo se olhando antes dela dizer:
— É um menino e o nome dele é Trunks. Nasceu saudável. Não tem cauda sayajin... – ela hesitou um instante antes de dizer – e tem olhos azuis.
Ele ouviu tudo, pacientemente sem demonstrar a mínima emoção e então disse, ainda sério:
— Quero vê-lo.
— Ele está aqui – disse Bulma, levantando-se e interrompendo a brincadeira do pequeno Trunks, que distraía-se segurando os próprios pés dentro do seu cercadinho.
Talvez por não ter gostado de ser retirado do cercado, ou porque já começava a ficar incomodado de fome, ou por qualquer outra razão, o pequeno Trunks já parecia emburrado quando ela o pegou no colo e o segurou diante do monitor. Quando olhou para a tela e viu o rosto sério do pai, no entanto, o menino começou a fazer um beicinho e, diante da expressão impassível de Vegeta, desatou num choro alto e assustado.
Bulma o aninhou no colo, de costas para o monitor e ele imediatamente parou de chorar. Ela encarou o sayajin, carrancudo do outro lado do monitor e disse apenas:
— Custava ter dado pelo menos um sorriso?
— Ele não se parece comigo – disse Vegeta, secamente, interrompendo subitamente a comunicação.
Na nave, Vegeta bufou, exasperado. Maldito pirralho chorão.
Na Terra, Bulma levou o filho ao peito para mamar e pensou: “Vegeta, seu grosso... custava sorrir para o menino?”
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