O que importa?
16 Ferindo o orgulho sayajin
I would say I'm sorry
If I thought that it would change your mind
But I know that this time
I have said too much
Been too unkind
I try to laugh about it
Cover it all up with lies
I try and laugh about it
Hiding the tears in my eyes
Because boys don't cry
Boys don't cry
(The Cure: Boys don’t cry – Concert, 1984)
Nas semanas seguintes comunicaram-se quase todos os dias, mas nada sugeria que se tratava de mais do que uma comunicação rotineira entre uma nave e a base que a monitorava. Nenhuma vez Vegeta demonstrou preocupação alguma em perguntar como ela estava, como se sentia. Simplesmente relatava o que havia para ser dito dos relatórios dos sistemas que não podiam ser monitorados.
Intimamente ele sentia-se ofendido pelo fato do filho deles não parecer com ele. Não tinha cabelos nem olhos negros. Não tinha uma cauda de sayajin. Ele não podia sequer saber se era minimamente forte, afinal, não podia dali sentir seu ki. E, para completar, quando o bebê via a imagem do próprio pai na tela, chorava copiosamente.
“Sayajins não choram” – ele pensava, ainda que sabendo que isso era mentira. Ele mesmo chorara em Namekusein e chegara perto, muito perto de chorar durante aquela viagem que o levara à beira da loucura. Mas a verdade é que ele queria manter-se distante de qualquer emoção que o pudesse tirar do estado de concentração, que ele achava essencial para seguir em frente tornando-se mais forte.
Podia esconder a emoção de ver o rosto de Bulma depois de todo aquele tempo, mas cada vez que a tela se apagava, ele fechava os olhos e desejava poder ter tido mais um segundo, mais um mísero segundo, olhando para aqueles olhos azuis. Mais de uma vez chegara a tocar o monitor ao desligar, imaginando que o tênue calor da tela apagada era o calor do rosto dela.
***
Bulma não sabia o que pensar. Aquele sujeito zumbificado na nave não se parecia em nada com o Vegeta que saíra da Terra determinado a se tornar mais forte. Suas palavras eram vazias e seu olhar, frio. De algum modo, conseguir o que tanto quisera corrompera Vegeta de alguma forma. Não que ele fosse um santo antes, pelo contrário. Mas agora ela parecia falar com um robô.
Mas se ele pensava que ela permitiria que ele a tratasse dessa forma quando chegasse à Terra, ele estava muito enganado.
***
Então, numa manhã pálida, exatamente dois meses antes do dia previsto para a chegada dos androides, a nave que o levara até o planeta não-identificado finalmente completou sua viagem, aterrissando nos fundos da Corporação Capsula com um grande estrondo, seus motores diminuindo o ruído pouco a pouco conforme desligavam-se depois de um grande esforço para equilibrar a nave e possibilitar uma suave reentrada na atmosfera.
Dois paramédicos, o pai de Bulma e alguns técnicos e cientistas esperaram pacientemente que todos os sistemas desligassem e as portas da nave se abrissem. Para a surpresa de todos, Vegeta saiu caminhando normalmente, ereto como o príncipe que era. Nos últimos dias na nave, ele finalmente se barbeara e se alimentara muito bem. Usava ainda a última armadura intacta das que levara para a viagem, impecável, afinal, tinha, no fundo, alguma vaidade e não queria chegar à Terra como o maltrapilho enlouquecido que parecera em alguns momentos da viagem, queria impressionar Bulma. Mas quando olhou em volta, não a viu. Ela não viera recebê-lo.
Os paramédicos e cientistas se aproximaram, com pranchetas de anotações e cheios de pergunta sobre a viagem e seu estado físico. Vegeta não queria, definitivamente, ser examinado ou tratado como objeto de estudo, então, simplesmente fez sua pior cara de assassino para eles e disse que estava bem e não precisava ser examinado, fazendo com que nenhum deles o importunasse. Mas o pai de Bulma se aproximou e o cumprimentou efusivamente e dizendo:
— Você deve querer saber onde está a Bulma... bem, o pequeno Trunks não estava muito bem essa manhã, um pouco febril, e ela ficou na casa para cuidar dele. Você pode vê-los agora, se quiser.
Ele não disse nada, apenas seguiu o velho para o interior da casa. Tinha que admitir que era bom voltar. A temperatura, os cheiros, tudo naquela casa lhe era familiar e o fazia, ele tinha que admitir, sentir-se em casa. O pai de Bulma o levou para seu antigo quarto, que, para sua surpresa, agora era decorado como um quarto de bebê. Sabendo que não seria uma conversa fácil, o velho o fez entrar no quarto e saiu de fininho, fechando a porta atrás de si. Bulma estava sentada numa poltrona com o bebê adormecido no colo. Ela o encarou altivamente e ele devolveu o olhar.
— Então, pelo menos agora ele não está chorando...
— Não viu sua cara feia ainda... mas ele amanheceu febril.
— Sayajins não tem febre.
— Você teve, quando se machucou na câmara de gravidade, sabia? Como você, ele se recupera muito rápido quando tem qualquer problema. E parece que acorda dez vezes mais faminto que antes.
Ele sentiu o ki do seu filho pela primeira vez, mas reprimiu o sorriso que quase veio à sua boca. Aquele era o ki de um guerreiro, mesmo adormecido ele podia sentir. Alguma coisa, afinal, o filho herdara dele. Repentinamente, viu que Bulma o encarava e desviou o olhar. Ela se levantou e o colocou o pequeno Trunks no berço, suavemente. O menino se aconchegou com um suspiro e ela se virou para encarar o sayajin.
— Você emagreceu – foi a única coisa que ele conseguiu dizer.
— Sou uma humana amamentando um bebê sayajin. Você não sabe como isso emagrece. – ela disse, e ele percebeu o cansaço na voz. Olhou em volta e sentiu-se irritado pensando em seu filho rodeado por todas aquelas coisas fofinhas que usavam para entreter os bebês terráqueos. E percebeu que sua cama havia sumido.
— E eu não tenho mais quarto, pelo jeito.
Ela o encarou. Não havia dito isso a ninguém, mas imaginara que, uma vez de volta, ele poderia mudar-se para seu quarto.
— Eu guardei as suas coisas – ela disse. – no meu quarto. E pus os móveis em outro cômodo. Você pode ficar no meu...
— Então era esse o plano? – ele interrompeu – papai e mamãe, uma família feliz?
— Não... – ela sentiu-se sem jeito. – Eu precisei do quarto para o bebê... era ao lado do meu. E você não estava aqui...
— Mas agora estou... e parece que fui despejado do meu próprio quarto.
— A casa é minha – ela disse, entre dentes.
— Você sempre fez questão de deixar isso claro para mim. Só não sabia que eu era parte da mobília, que você move a seu bel prazer.
— Está ótimo então – ela se levantou, de supetão. – eu tenho um bom lugar para você, na verdade, meu príncipe. – ela praticamente cuspiu a última palavra. – por favor, alteza, me acompanhe. Vou te levar aos seus novos aposentos.
— E o garoto? – ele perguntou, olhando o berço.
— Se ele acordar eu garanto que vou ouvir o choro... – ela abriu a porta e saiu, decidida, entrando no seu quarto em seguida. Ele fez menção de entrar, mas ela o fez esperar enquanto pegava uma caixa, onde colocara todos os pertences dele.
— Vamos – Ela disse, secamente, seguindo por um corredor que ele nunca prestara atenção, que levava até uma porta solitária que ela abriu, irritada. Mesmo sendo dia, ela precisou acender a luz. Era um quarto minúsculo e com uma única janela basculante que não deixava muita luz entrar. O cômodo era abafado e tanto o chão como os poucos móveis que antes mobiliavam seu quarto estavam cobertos de poeira: sua antiga cômoda, a mesa com uma cadeira e sua cama. Não havia nenhum armário.
Ela o entregou a caixa, que ele ficou olhando, perplexo, e disse:
— Volto em um minuto.
Logo ela retornou com uma vassoura, uma pá, espanador, produtos de limpeza e sacos de lixo. Deixou tudo ao lado da mesa e disse, olhando nos olhos dele:
— Estes são os novos aposentos de sua alteza. E se não quer ser o príncipe da sujeira, deixe o lugar habitável e seja feliz. Pode treinar o quanto quiser na câmara de gravidade, eu sei que só isso te interessa por aqui.
Ela virou as costas e ia saindo quando o ouviu dizer:
— Meus papéis e anotações. Estão aqui nessa caixa por quê?
Ela sentiu um ligeiro arrepio. Não queria falar sobre isso, mas estava sendo obrigada.
— Achei-os na cômoda quando arrumava o quarto para Trunks.
— Você os leu? – ele perguntou, e ela pôde sentir a aflição na voz dele. Pensou na única resposta honesta que poderia dar e disse:
— Estão em sayajin, seu idiota.
Ela saiu, aliviada por não ter que se explicar pelos papéis e furiosa graças ao comportamento ridículo dele. Bufando de ódio, voltou ao quarto do filho para ver como ele estava.
***
Quando ela saiu, Vegeta reprimiu a vontade de explodir o quarto, mas sabia que se fizesse isso, provavelmente, teria de dormir no relento.
— Esse lugar está nojento – ele disse em voz alta, muito irritado.
Era uma humilhação pegar a vassoura e a pá para tornar o quarto habitável, mas ele definitivamente não ia dormir naquela sujeira. Rapidamente tirou a armadura, a roupa e, olhando dentro da caixa que Bulma trouxera, achou uma das suas antigas bermudas de treino e vestiu.
Demorou horas até que não houvesse nenhum vestígio de poeira e o quarto estivesse próprio para ser chamado dessa forma. Toda sujeira havia ido parar nos sacos de lixo, tirando a parte que o emplastrava na forma de uma camada nojenta de lama formada pela poeira que se misturara ao seu suor, porque, além de tudo, o quarto era abafado e quente. Ele precisava de um banho, mas Bulma, além de não ter deixado roupa de cama alguma, ainda o confinara num quarto sem banheiro. Ele estava furioso com a mulher quando percebeu, localizando seu ki, que ela estava no próprio quarto. Um sorriso malicioso se formou nos seus lábios.
***
Bulma estava mentalmente exausta naquela tarde, então permitiu que sua mãe levasse o bebê para um chá com as amigas. A febre de Trunks havia passado, mas ele não parecia estar no melhor humor na roupinha cheia de frufrus que ela o vestiu, mas acompanhou a avó sem chorar. Era um ótimo bebê, na verdade. E Bulma precisava daquele descanso. Havia trabalhado furiosamente no laboratório nos últimos dias e toda a situação da volta de Vegeta a estressara demais. Pensou em tirar uma folga e ir às compras, mas a exaustão a havia feito apenas se jogar na cama com um livro. Decidiu que assim passaria a tarde.
De repente, a porta do seu quarto foi aberta e Vegeta entrou, imundo, descalço e usando apenas uma bermuda de treino. Carregava um saco de lixo que deixou à porta e disse apenas, com um sorriso irônico:
— Você continua não trancando essa porta. Onde eu jogo o lixo?
Ela havia se assustado com a entrada abrupta. Mas segurou a vontade de rir ao ver o príncipe dos sayajins coberto de poeira como um faxineiro comum.
— Deixe aí, eu mando alguém pegar.
— Ótimo – ele disse e em seguida tirou a bermuda, ficando nu e andando na direção do banheiro.
— O que você pensa que está fazendo?
— Eu não tenho mais um banheiro. Vou tomar banho no seu.
— E precisava ficar nu no meio do meu quarto?
O sorriso irônico dele se alargou quando disse:
— Ora, não tem nada aqui que você nunca tenha visto. E me arrume uma toalha e roupas de cama, pelo menos. E eu preciso que isso seja lavado.
Ele jogou a bermuda na direção dela e entrou no banheiro e Bulma se levantou e jogou a bermuda longe, pensando: “se ele pensa que vou cair nesse joguinho, está bem enganado...”
Ela pegou uma toalha no armário e pendurou no gancho ao lado do box, saindo em seguida do banheiro, irritada com a presunção implícita na atitude dele.
— Vou levar sua roupa de cama para seu novo quarto – ela disse, secamente.– e tem um banheiro em frente a ele, se você não percebeu.
Saiu do seu quarto, levando lençóis e travesseiros, que depositou de má vontade no quarto dele. Aproveitou para para pegar uma roupa limpa para ele, retornou ao quarto, deixou a roupa sobre a cama e saiu com o lixo, não pretendendo voltar enquanto ele não saísse. Foi assistir um filme.
Algum tempo depois ele apareceu na sala, completamente vestido e foi como no tempo em que ele parava ao lado do sofá enquanto ela assistia TV. De repente ele disse:
— Não sinto o ki da criança. Onde ele está?
— Minha mãe o levou para um chá. Queria exibir o neto para as amigas.
— Ele não estava febril?
— É meio sayajin, se lembra? Eu te disse que ele se recuperava rápido.
Um tênue sorriso apareceu no rosto dele.
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