O que importa?

20 O que diferencia os homens dos meninos


I'll give you everything you want

Except the thing that you want

You are the first one of your kind

And you feel like no-one before

You steal right under my door

I kneel 'cause I want you some more

I want the lot of what you got

(U2: Original of Species – How to dismantle an atomic bomb, 2004)

Nota: Boa parte desse capítulo foca o ponto de vista de Trunks porque isso é essencial para a mudança que acaba se processando na personalidade de Vegeta. O capítulo engloba as duas passagens de pai e filho: primeiro, juntos antes do encontro com Cell e depois, na preparação para os jogos de Cell, quando Vegeta entra sozinho.

O trecho em flashback está em negrito e itálico.
Desculpem a demora, fiquei uns dias sem internet.

Entrar na sala do tempo era como contemplar de perto o infinito. Para o jovem Trunks, acostumado como era com paisagens devastadas, depois de dois meses na sala do tempo, contemplando sua paisagem clara e infinita, apesar do peso da gravidade, o fazia finalmente sentir alguma paz e tranquilidade.

Mas o infinito que ele contemplava na sala do tempo não era apenas de espaço, mas também, o tempo infinito, passado, presente e futuro em todas as direções. Quando entrara ali, pudera claramente ouvir vozes que vinham do seu passado, que ali ainda era um futuro que provavelmente jamais aconteceria, a voz de sua mãe, as vozes dos androides e, principalmente, a voz do seu mestre Gohan.

Muito provavelmente ele não estaria ali sem o sacrifício de seu mestre, e era estranho vê-lo na forma de uma criança. Tão estranho quanto conhecer o pai que sempre idealizara e descobrir que ele não se parecia nada com o que ele imaginara a vida inteira.

— Você vai treinar ou vai ficar aí olhando para o nada?

A voz do pai era rascante e nada animadora quando ele passou por ele e sumiu na imensidão branca. Trunks sabia que não adiantava segui-lo. Dia após dia, ele recusava-se a treinar com o filho e o ignorava. Sumia por horas, e Trunks acabava treinando só, frustrado com a ausência do pai, mas enfrentando as condições extremas da sala, frio, calor, gravidade aumentada. Precisava ficar mais forte, precisava agora de força para que conseguisse passar mais tempo como super sayajin, como o pai dissera que ele fizesse.

Não conseguia compreender: seu pai o destratava o tempo todo, e, ainda assim, ele desejava de toda forma corresponder a qualquer expectativa que ele tivesse. Desejava provar o valor a um pai que duvidava dele constantemente. Mas aquele dia seria diferente. Em vez de ficar próximo ao centro, perto de onde podia ter a noção de como se passava o tempo, Trunks decidiu que iria o mais longe que pudesse, procurando as condições mais extremas da sala.

E iria como super sayajin. E assim permaneceria o tempo que aguentasse.

***

Antes de treinar o corpo, Vegeta pretendia treinar a mente do seu filho, por isso o evitava sistematicamente, enquanto não negligenciava seu próprio treinamento, elaborara um programa intenso para si mesmo: primeiro se expor ao máximo às piores condições que pudesse encontrar na sala, mais frio ou mais quente, onde o ar fosse mais rarefeito e a gravidade ainda mais densa. Lá, ele se transformava em super sayajin e então, passava horas se exercitando com o peso do próprio corpo, forçando-se a ficar mais forte.

Mas chegaria a hora que deveria lutar com o próprio filho para que ambos treinassem, mas isso só aconteceria quando o menino se provasse um verdadeiro homem e o desafiasse para uma luta de verdade. Não queria um combate amigável como o que presenciara entre Goku e seu filho quando os observava escondido na floresta. Ele queria o filho atacando-o com todo ódio que pudesse encontrar dentro de si...

Erguido apenas pelas pontas dos dedos, de cabeça para baixo desafiando a gravidade aumentada dez vezes da sala do tempo, Vegeta lembrava-se de quando fora treinado pelo próprio pai...

Ele podia ainda ver claramente. As pernas fortes do pai, correndo à frente dele, não se importando se o pequeno príncipe conseguia acompanhar a corrida do monarca dos sayajins. O garoto não tinha mais que quatro anos, mas queria provar ao pai que era tão forte quanto ele. Não havia risos ou brincadeira entre pai e filho.

— Você é um príncipe, um guerreiro de primeira classe. Não se comporte como um verme inútil!

Um sonoro e pesado tapa em seu rosto completou a frase, e o menino sentiu muita vontade de atacar o próprio pai. Ele apenas havia reclamado que o pai corria muito rápido. Lágrimas encheram seus olhos, mas ele as secou antes que caíssem. O pai dizia sempre que cada lágrima que um sayajin derramasse seria uma vergonha que ficaria para sempre gravada em sua face. E tudo que ele queria era ser como seu pai. Tudo que queria, era lutar como o pai... e lutar com o pai, mas isso ainda não era permitido, e ele não sabia porquê.

A outra lembrança que ele tinha envolvia uma série gigantesca de pesos do metal mais pesado do universo. Seu pai queria obrigá-lo a pegar o maior e mais pesado e erguer sobre a cabeça, depois que erguera todos os anteriores, o último com imenso esforço. O peso, além de tudo, tinha a forma de um grande cubo com uma alça de cada lado, e era difícil até mesmo encontrar posição para tirá-lo do chão.

— Levante o peso!

— Mas é muito maior que eu!

— Isso não importa! Eu já despachei seu irmão fraco para um planeta patético porque ele não conseguiu levantar nem mesmo o menor dos pesos... não queira ser o próximo. Se não conseguir, nunca mais quero ver sua cara na minha frente.

Ele se lembrava de encarar os olhos pretos do pai antes de se posicionar e segurar as incômodas alças do cubo. Então, ainda encarando o pai, o garoto de 5 anos tirou toda sua força de onde ele nem imaginava que ela estaria e ergueu o cubo de uma vez, levantando-o acima de sua cabeça. O pai sorria, um sorriso que não era simpático ou encorajador... era um sorriso mau.

Num movimento contínuo, ele não devolveu o peso ao chão, mas sim atirou-o com toda força que ainda lhe restava, querendo atingir o Rei Vegeta em cheio. Por um segundo, o sorriso do rei deu lugar a uma expressão surpresa, que desapareceu quando o Rei ergueu um braço e segurou o peso com apenas uma das mãos, encarando o filho, que o olhava nos olhos, o ódio e a revolta transparecendo no seu minúsculo rosto suado.

O rei sorriu, um sorriso orgulhoso e satisfeito e disse:

— Você está pronto para lutar com seu pai.

Rapidamente, ele se tornou forte, embora seu físico franzino e sua altura diminuta enganassem bastante. Mas quando fez oito anos, foi a vez de Freeza o levar embora. Ouviu a discussão entre o pai e Freeza escondido, e entendeu que nada de bom o aguardava:

— Mas você já tem Nappa, Raditz e outros dos meus mais bravos sayajins... por que levar o meu filho?

— Meus observadores me falaram sobre o menino com a força de dez guerreiros, Vegeta. Espera realmente que eu o deixe contigo para crescer e liderar uma revolta contra mim?

— Esse seu comportamento paranoico... Freeza, já te dei muitas provas de fidelidade do meu planeta e da minha raça... Não tire de mim o único filho que eu amo.

— Você pode ficar com ele... e morrer com ele quando eu destruir seu planeta.

Sem saída, o rei abriu mão, e, quando entrou na nave de Freeza, o pequeno Vegeta pôde ver perfeitamente duas lágrimas rolando pela face do seu pai, que não as enxugou. A vida inteira ele soube que aquelas lágrimas eram a vergonha por abrir mão do seu filho e a tristeza de não poder lutar por ele sem colocar toda raça sayajin em risco...

Vegeta saiu de seu devaneio. O que ele queria do filho era exatamente o que ele fizera com seu pai, um ataque cheio de ódio para provar que ficar forte, tornar-se invencível era mais importante do que qualquer laço de sangue.

Voltou horas depois para o centro da sala, onde deveria comer e dormir. Dormir na sala do tempo era o mais difícil, pois ali sempre estava claro e só a exaustão fazia com que ele realmente conseguisse dormir profundamente com tamanha claridade.

Trunks não apareceu para comer. E horas depois, ele se levantou, ainda exausto e sonolento, constatando que a cama do filho, que se preocupava em ajeitar as cobertas cada vez que saía, ainda estava intacta. Eles haviam sido advertidos sobre os riscos de se afastar demais do centro da sala, poderiam se perder para sempre. Os olhos de Vegeta se estreitaram, procurando no horizonte mas ele decidiu que ainda era cedo para se preocupar, e decidiu continuar treinando. O garoto não era estúpido, apareceria logo.

Mas não apareceu. Ele realmente se preocupava, agora. Passou a mão no queixo, pensativo e resolveu buscar o ki do filho, embora esse expediente na sala do Tempo não fosse tão confiável quanto na Terra. Ele sentiu certo alívio quando sentiu o ki de Trunks em algum lugar na direção que ele decidira chamar de Oeste, tomando como base as duas ampuletas da sala.

O ki de Trunks oscilava entre muito forte e extremamente fraco... Vegeta sabia o que significava isso: ele tentava manter-se como super sayajin muito perto do seu limite físico e mental, e Vegeta presumiu que o filho corria risco de morte, porque manter-se naquele estado há tanto tempo sem comer e nem dormir era um risco imenso.

Sem pensar, Vegeta voou na direção de onde o ki de Trunks emanava uma energia que, alta ou baixa, parecia furiosa. Uma hora e meia depois, foi atingido por uma surpreendente nevasca. Não sabia que havia tal coisa na sala do Tempo. Seguiu, sempre na direção em que sentia o ki do filho até que o viu, de pé, no meio da torrente nevada, emanando calor e tentando repelir a neve que rodopiava em volta dele. Desceu, não sem alguma dificuldade de visão no meio da neve que parecia vir de todos os lados e chamou:

— Ei, Trunks!

O filho o encarou de longe. Estava transformado em super sayajin, mas parecia próximo a sucumbir. Ainda assim, juntou forças e correu na direção do pai, que percebeu o ataque antes que ele acontecesse. Vegeta sorriu, e quando o garoto o atingiu, ele segurou o ataque com as duas mãos, vendo o rapaz então revirar os olhos, e desfalecer, caindo na neve macia. Ficou olhando o filho no chão por instantes e então, o pôs nos ombros, levantando vôo na direção do centro da sala do tempo.

***

Trunks voltou à consciência aos poucos, e a primeira coisa que sentiu foi que estava deitado bem aquecido, mas sem suas roupas de treino, que estavam na cadeira ao lado da cama. Ele tentou se erguer e sentiu uma dor fraca nas costas e tossiu de leve. De repente viu o pai sentado numa cadeira, os cotovelos apoiados nos joelhos e as mãos juntas apoiando o queixo, olhando direto para ele.

— Pai... você me trouxe de volta?

— Sua mãe tinha razão em uma coisa: você se recupera bem rápido. Achei que ia passar pelo menos dois dias inconsciente. Você sequer teve febre, achei que podia ter pegado uma pneumonia.

O garoto o olhava perplexo. O pai jamais falara tanto com ele.

— Eu dormi por quanto tempo?

Vegeta deu uma olhada no relógio central, que não se movera quase nada e calculou:

— Umas dezoito horas. Eu te achei com hipotermia. Não estava pior porque estava transformado em super sayajin, mas agora está esgotado porque esgotou totalmente suas forças. Mas eu estou orgulhoso de você. Amanhã podemos começar a treinar lutando.

— Lutando? Mas o senhor disse...

— Você se lembra que me atacou?

— Sim – ele disse envergonhado – eu estava com ódio porque me coloquei naquela situação para provar ao senhor que sou forte...

— Eu sei que você é forte desde que te vi pela primeira vez. Mas eu queria saber se você teria coragem de atacar seu próprio pai – ele se levantou e foi na direção da cozinha – e você tem. E por isso vai treinar comigo. Tem sopa na cozinha. Levante-se porque eu não me chamo Bulma e não levo refeições na cama. E porque você precisa se recuperar plenamente para lutar com seu pai.

***

O golpe de Trunks atingiu o pai com força, mas Vegeta aguentou. E sorriu. Os dois se encararam e o rapaz também sorriu. Na sala do Tempo haviam se passado oito meses e os dois haviam ficado muito fortes, e agora Vegeta acumulava já quase dois meses vivendo como super sayajin. O filho o admirava mais que nunca, pois agora podia ver que, como sua mãe dissera, havia um coração dentro do peito do seu pai, um coração duro e sombrio, mas, ainda assim, leal e forte. E nada se comparava ao olhar admirado do seu pai. Receber a admiração de quem sempre parecia exalar desprezo era algo que não podia ser medido.

— Descanse, Trunks – o pai quase ordenou, e o rapaz saiu da forma super sayajin. Pela primeira vez em dois meses, Vegeta fez o mesmo. Ficaram os dois sentados, observando o infinito, até que o garoto disse:

— Não alcançarei sua força nessa sala, pai.

Vegeta, que tinha as mãos trançadas sob o queixo disse então:

— Não se simplesmente tentar me alcançar. – ele o encarou e o olhar intimidou o rapaz, mas ele completou: – Me supere. No mundo onde você vive eu já não existo. Você é o meu legado.

O rapaz ficou olhando o pai, que disse, de repente:

— Você tem os olhos de sua mãe. Nunca existiu um sayajin de olhos azuis. Você é o primeiro.

— Eu não sou um sayajin, pai. Sou apenas meio – um tapa interrompeu sua fala. Vegeta estava de pé diante dele e parecia furioso. O rapaz o encarava perplexo.

— Nunca mais diga isso. – os olhos do seu pai eram pura fúria. – você é um sayajin, não importam o que digam. Tem a força, tem a ira... tem a disciplina de um sayajin – Vegeta virou as costas para o filho e deu alguns passos adiante, mas parou quando ouviu o filho dizer:

— A força, apenas, te faz bruto. A ira, apenas, te faz tolo. A disciplina, apenas, te faz escravo. Mas a força, a ira e a disciplina, juntos, te fazem um guerreiro, e o guerreiro é forte, é sábio e é livre.

Vegeta voltou-se na direção do filho, lentamente, e perguntou:

— Sua mãe o ensinou isso?

O rapaz confirmou com a cabeça e disse então:

— Quando você foi morto, ela encontrou suas anotações. Ela me disse que lamentou o fato de Piccolo estar morto e não haver mais Kami-Sama para que ela usasse as esferas do dragão para aprender a compreender sua língua. Então, ela passou a usar todo seu tempo livre e tudo que sobrara das naves sayajins para tentar traduzir suas anotações. Ela dizia que o senhor vivia nesses papeis... quando eu tinha nove anos ela finalmente conseguiu traduzir algumas coisas... não tudo. Mas ela me disse que esse lema certamente era o seu legado para mim. Força. Ira. Disciplina. Ela nunca teve certeza se era isso mesmo que dizia a frase, no entanto.

Vegeta crispou os pulsos, tentando disfarçar a emoção. Mesmo com ele morto naquela linha do tempo onde seu filho crescera, Bulma, e somente ela, havia mantido sua memória. Bulma... fizera seu filho crescer como sayajin. Ela transformara seu menino chorão num homem que crescera muito rápido. Ele, Vegeta, se tornara um sayajin através do ódio. Mas seu filho devia muito ao amor de Bulma. E, sem que ele revelasse isso ao filho ou desejasse que alguém no mundo soubesse, naquele momento ele sentia a mais profunda gratidão pela mulher que agora ele sabia, amava profundamente.

— Pai? – Trunks o olhava intrigado, percebendo a ausência momentânea que o acometera. Ele respondeu rapidamente:

— Era isso mesmo que dizia a frase.

Ele mudou de direção e voltou para o centro da sala do Tempo, pela primeira vez em tanto tempo, pensando apenas na sua Bulma.

***

Quando a porta da sala do tempo se abriu e Vegeta entrou pela segunda vez, sentia um gosto amargo. Afinal, havia falhado mais uma vez, e acumulava derrotas dolorosas com uma frequência que não podia aceitar. Talvez a pior delas fosse perder para seu próprio orgulho, permitir que sua vaidade o tornasse estúpido o suficiente para por toda a Terra em risco. E o pior de tudo: seu filho o advertira da sua imprudência e ele o ignorara.

Nunca deixaria de lamentar aquele erro. Nunca se esqueceria de como sua vaidade o fizera ser derrotado por um inimigo que poderia ter sido facilmente vencido. Encarou o infinito, pensando que gostaria, na verdade, que o filho tivesse pedido para passar mais um ano com ele naquela sala. Mas se queria o filho com ele, também desejava a solidão. Desejava mergulhar no fundo de si mesmo e transformar todos os seus erros em força. Dentro dele uma confusão de ódio, inveja, raiva... tudo isso o consumia. Para enfrentar o monstro do lado de fora, precisava enfrentar o monstro dentro dele. Ou acabaria consumido.

Ele não sabia, mas esse monstro era muito mais difícil de matar do que ele imaginava.

Notas finais
1. Eu adoro a sala do tempo, Sério, meu lugar mega hiper super favorito em DBZ. Ela é o segundo elemento mágico que eu mais gosto na série, logo atrás da nuvem voadora. Me lembra a série Nárnia, Harry Potter (que foi escrito depois da série), etc. 2. Mirai Trunks, como já disse uma vez, é um personagem que eu acredito ser ESSENCIAL para a grande transformação que se processa em Vegeta na saga de Cell. E como vemos muito pouco desse treinamento, eu encaixei elementos da fic, como as anotações... 3. O que nos leva a elas. As famigeradas anotações, aquilo que quase acaba com a relação deles acaba por mostrar a Vegeta o que Bulma sente por ele. O empenho dela em se conectar a ele através das anotações acaba por derreter nosso coração de pedra. E veremos como isso vai ser importante no proximo capítulo. 4. Mais uma do U2, uma das minhas favoritas... que resume como a relação entre Vegeta e Trunks é complexa e como Trunks é o primeiro da espécie dele (pelo menos no ponto de vista do Vegeta). Eu te darei tudo que você quiser Exceto aquilo que você quer Você é o primeiro da sua espécie E você sente como ninguém antes Você rouba bem debaixo de minha porta E me ajoelho porque quero um pouco mais Eu quero muito do que você tem E não quero nada que você não seja