O que importa?

21 O mais amargo vazio


Notas iniciais
Nota: Este capítulo, obviamente, se passa após os jogos de Cell, o que significa um grande salto na historia. Assistir a saga de Cell ajuda a compreender esse capítulo melhor.

This is the end, beautiful friend
This is the end, my only friend, the end
Of our elaborate plans, the end
Of everything that stands, the end
No safety or surprise, the end
I'll never look into your eyes, again

Can you picture what will be, so limitless and free
Desperately in need, of some, stranger's hand
In a, desperate land

(The Doors: The End. – The Doors, 1967)

"Nunca mais irei lutar"

A frase ecoava dentro dele e parecia soar no vazio do seu espírito. Os ombros de Vegeta estavam caídos, seus olhos contemplavam o nada. Os outros haviam partido, levando o corpo do seu filho, inerte e morto, para o templo de Kami-Sama e ele havia ficado para trás. Propositalmente para trás. Não queria estar junto daqueles vermes. Nem do filho de Kakaroto... e, principalmente, não queria encarar seu filho quando ele voltasse dos mortos se ele não conseguira fazer absolutamente nada para evitar seu assassinato por Cell.

Olhou e viu ao longe aqueles humanos patéticos que haviam aparecido acreditando que seriam páreo para o monstro, o tal Mr. Satan e seu séquito de idiotas. Em outros tempos, ele os mataria apenas para aliviar a frustração, mas agora ele sabia que esse era o tipo de coisa que aumentava o vazio em seu peito em vez de preenchê-lo. Precisava fugir dali, apenas fugir. Olhou para o céu e partiu, sem saber exatamente para onde.

Pela primeira vez desde que voltara a Terra, não tinha um objetivo, não tinha motivo algum para ficar mais forte ou desejar lutar, e isso o consumia. Era como se todas as derrotas seguidas que havia sofrido agora o esmagassem: a derrota na Terra, a morte pelas mãos de Freeza, a dificuldade imensa para se tornar super sayajin, a humilhação nas mãos da Androide 18, a sua falha em escapar do jogo tolo de Cell e, finalmente, a batalha final contra Cell que acabara com seu filho morto. Era insuportável ficar ali.

Voou na direção do horizonte, onde o sol ia morrendo, deixando o céu rosado e as montanhas brilhando com uma aura alaranjada. Às vezes a beleza da Terra quase o ofendia. Ele pousou no cume de uma montanha, e para todos os lados que olhasse, só havia mais e mais montanhas. Ficou ali, com a mente vazia e de repente, pensou em Kakarotto.

A morte do rival o lançara nesse vazio. Nada mais havia a ser provado, afinal. Ele poderia afirmar que era um soldado de classe superior, que era o mais forte. Mas no fundo sabia que morreria com essa triste derrota a humilhar seu espírito: não conseguira provar que ele era o mais forte, logo ele, o príncipe dos Sayajins. Respirou fundo e, de repente, explodiu:

— KAKAROTTO! – ele gritou, furioso, tornando-se super sayajin. Energia emanava do seu corpo, suficiente para destruir o pico, provocando avalanches pelas quatro faces da montanha. Não era o suficiente para aplacar a sua frustração nem sua raiva. Mas antes que ele destruísse qualquer outra coisa, ouviu seu nome:

— Vegeta...? – a voz de Kakarotto, nítida e forte, como se ele estivesse diante do rival. Como ele não respondeu a voz repetiu: – Vegeta... sei que você está me ouvindo.

Ele arregalou os olhos, espantado e voltou a sua forma original, pousando no platô que se tornara o pico da montanha após sua explosão de raiva. Hesitante, respondeu:

— Kakarotto? É você?

Uma risada antecedeu a resposta:

— Sou eu mesmo, Vegeta. Estou falando contigo através do senhor Kaioh.

— Por quê? Não sou um dos seus amigos ou seu filho. Eles que gostariam de falar contigo.

— Já falei com eles. E você não estava lá, então, te procurei, porque precisava falar com você também.

— Te ocorreu que eu posso não querer falar contigo, seu maldito covarde?

O outro riu.

— Eu precisava fazer o que fiz, Vegeta. Não ia me perdoar nunca se a Terra fosse destruída por Cell. Em vez de bilhões de pessoas, apenas eu morri. Acho uma troca justa.

— Mas com você morto jamais poderemos lutar.

— Não conte com isso. Um dia você vai morrer também. Então poderemos ver quem é o mais forte sem risco de ferir ninguém inocente.

— Você não pode usar aquelas malditas esferas para voltar? Eu não quero morrer, não tão cedo.

— Na verdade, Vegeta, você é um dos motivos para eu pedir que meus amigos não tentem ir ao planeta Namekusein para usar as esferas de lá. Não acho que eu e você tenhamos mais que medir forças, mas você não concorda comigo. Se eu voltasse, acabaríamos lutando e esse seria um risco desnecessário para a Terra.

— Eu estou me lixando para a Terra.

— Isso é mentira – afirmou Kakarotto, e ele não teve coragem de desmentir – Já é tempo de você admitir que gosta da Terra. Que quer ficar aqui.

Ele continuou mudo. Kakarotto continuou:

— E você é o último sayajin vivo.

— Não sou o último. Você teve seu filho e eu tenho o meu e eles são sayajins. Não importa que tenham genes humanos...

A risada de Kakarotto o pegou novamente de surpresa. Ele percebeu, repentinamente, o que acabara de afirmar.

— Você mudou, Vegeta – a voz do outro era contundente. – Não despreza mais os humanos. Nem a Terra. Acho que temos agradecer a Bulma por isso.

Vegeta bufou de raiva e disse:

— O que você tem a ver com isso?

— Vegeta... Bulma é minha amiga, a primeira amiga que eu tive. E eu acredito que ela ame você. Espero sinceramente que vocês dois se entendam.

— Já te disse que você não tem nada a ver com isso, Kakarotto.

— Está bem... – o outro respondeu, e, no silêncio que se seguiu, ele se sentiu obrigado a responder:

— Por que eu voltaria para Bulma derrotado?

— Você realmente acredita que foi derrotado? Vegeta, não sei se você notou, mas só quando você se juntou aos outros que Gohan conseguiu a força para derrotar Cell. Acredite ou não, você não luta mais sozinho, então, quando um inimigo como Cell é derrotado, você é parte da vitória, mesmo que não seja seu o golpe fatal.

Vegeta ficou em silêncio. Então Goku completou:

— E eu tenho certeza que você sente a falta de Bulma. E do seu filho. Acredite em mim: a única coisa que me entristece em estar morto é saber que sentirei falta de Chichi e Gohan todos os dias.

Ele pensou em responder. Mas percebeu, repentinamente, que não ouviria resposta alguma de Kakarotto.

***

Bulma havia acompanhado a luta contra Cell pela TV até onde fora possível. Então, ela pensou que não queria ver a morte de nenhum amigo ou mesmo de Vegeta ou seu filho... embora ela soubesse que havia a chance de seu filho ressuscitar através das esferas do dragão, Vegeta não teria a mesma chance, e era isso que secretamente a afligia. Ele já fora morto uma vez e para ele não haveria segunda chance.

Refugiou-se no quarto dela com o filho, mas era impossível lidar com a criança naquele estado. O bebê parecia perceber sua aflição, e quando ela não sabia mais o que fazer para acalmar seu choro, sua mãe veio em seu socorro e disse:

— Eu fico com ele, Bulma. Vá fazer qualquer outra coisa.

A TV já não mostrava a luta: as câmeras aparentemente haviam sido destruídas. Isso significava que ela estaria às cegas dali em diante. De alguma forma, o interior da casa a oprimia, então, ela seguiu até uma escada e foi para um lugar onde ela há muito tempo não ia.

Havia um terraço na ala norte da Corporação Capsula, um lugar onde sua mãe cultivava um enorme e exuberante jardim onde havia até um pequeno lago com uma cascata e peixes. Tinha sido seu lugar favorito quando criança, e ela acreditava que seria um lugar que o pequeno Trunks amaria, assim que tivesse idade para brincar em um jardim. Mas ela havia esquecido aquele jardim, se tornara adulta demais, talvez, para apreciar a beleza daquela paisagem artificial idealizada por sua mãe. Sentou-se num banco, segurando as próprias pernas, numa posição aninhada e deixou-se ficar ali, olhando a cascata por horas, até que sua mente estava vazia e ela não sabia mais direito o que estava pensando.

De repente, ao longe, começaram a soar buzinas, gritos... parecia o fim de uma partida esportiva particularmente disputada que acabara em vitória. Correu para a sala, onde seu pai e alguns funcionários acompanhavam o noticiário que falava sobre a derrota de Cell.

Ficou surpresa quando viu o rosto barbado de Mr. Satan na tela, anunciado como o vencedor do combate. Aquilo não fazia o menor sentido. Não havia a mínima chance daquele lutador fajuto ter vencido o combate. Quando alguém disse que ele havia sido "O vencedor e sobrevivente", uma aflição tomou conta dela e ela correu para o seu quarto, onde enterrou a cabeça no travesseiro e chorou, chorou... se aquele havia sido o sobrevivente, isso significava que...

— Vegeta – ela murmurou, tentando abafar as palavras no travesseiro. Se ele estava morto, isso significava que ele não voltaria... e provavelmente nem Goku, nem seus amigos Kuririn, Tenshinhan e Yamcha. Só havia esperança para Goham e seu filho... Lágrimas desciam pela sua face, ela só conseguia pensar nas palavras nunca ditas entre ela e Vegeta, que agora estavam perdidas para sempre. Foi quando ouviu, atrás de si, uma voz:

— Mãe?

Ela levantou-se para ver o jovem Trunks, com a armadura destruída na altura do peito, o rosto sujo e as roupas bem esfarrapadas, mas ainda assim, vivo.

— Filho! – Ela gritou e o correu para os braços dele, que imediatamente caiu no choro, como uma criança. Ela o abraçou e disse: – O que houve, meu filho? Eu vi na TV que estão dizendo que o tal do Mister Satan derrotou Cell... isso não pode ser verdade.

— E não é – ele enxugou as lágrimas e disse: – foi Gohan, mamãe. Gohan destruiu Cell, mas eu não pude ver porque... – ele hesitou um instante, mas depois sorriu – no meu mundo ele também era um super sayajin muito forte... mas não tão forte quanto é agora... graças a ele, e também a Goku, meu pai e os outros, o monstro foi destruído.

Ele sorriu e ela retribuiu o sorriso, dizendo:

— Imagino que Goku deve estar muito orgulhoso.

O sorriso dele desapareceu e ela disse:

— Ah, não...

— Goku está morto. E eu também estive.

— Seu... pai?

— Ele sobreviveu... mas não sei onde ele está – Trunks recomeçou a chorar e ela disse: – O que é isso, meu filho?

— Ele se recusou a ir para a plataforma celeste, mãe... ele não quis estar lá. Eu fui levado morto por Tenshin han! Meu próprio pai...

Bulma encarou o filho, séria. Apesar de tudo, ela sabia exatamente o motivo porque Vegeta não havia ido à plataforma, e perguntou, suavemente:

— Onde seu pai estava quando você foi morto?

— Bem ao meu lado... mas eu não me lembro... só sei que fui atingido e...

— Trunks – ela sorriu brevemente – eu sei porque seu pai não estava lá quando você voltou, acredite em mim... ele jamais conseguiria te encarar quando acredita que sua morte foi uma falha dele. O orgulho dele não o permitiria encará-lo nesse momento...

Um brilho apareceu nos olhos do jovem, e ela completou:

— Acredite... isso significa que ele se importa com o que você pensa dele. E quando ele se importa com o que alguém pensa... é realmente muito incomum, porque normalmente ele não está nem aí para o que ninguém pensa.

— Acha que ele vai voltar, mãe?

Ela o encarou e deu um suspiro profundo. Essa era uma pergunta que ela mesma se fazia, e que agora, com a morte de Goku era mais difícil de responder.

— Quem sabe? Se ele voltar, ele voltou... mas é você que está diante de mim agora, precisando muito de um banho e de descanso.

Ela o levou até o quarto da versão mais jovem dele onde, desde que descobrira que ele era seu filho vindo do futuro, ela mandara por uma cama para ele. Providenciou roupas e disse a ele que tomasse um banho e se deitasse na cama ao lado do berço. Baixou as luzes do quarto, deixando-o na penumbra e ficou ao seu lado até que ele adormecesse. Já havia anoitecido há bastante tempo, e sua mãe trouxera também o pequeno Trunks para o quarto, que agora a olhava do berço, na expectativa de ser amamentado antes de dormir.

Ela sorriu para o filho e o pegou no colo, sentando-se na poltrona que usava para amamentá-lo. O bebê mamou tranquilamente, ficando mais e mais sonolento, até que ela o pôs para arrotar e colocou no berço, onde ele se mexeu por um instante antes de se acomodar e dormir... agora, aos onze meses, ele dormia doze horas toda noite, o que para ela era uma benção. Sentindo-se ela mesma cansada, foi para o seu quarto.

Queria dormir, esquecer, mergulhar num sono profundo e sem sonhos... mas, quando entrou no seu quarto e sentou-se na penteadeira, viu algo atrás dela que a fez virar, com o coração aos pulos.

Vegeta estava em pé na sua varanda, com os braços cruzados e o rosto sério, olhando diretamente para ela.

Notas finais
1. Uma das cenas mais marcantes para mim na saga de Cell é justamente o Vegeta dizendo que jamais iria lutar novamente. Fico imaginando o tamanho do sentimento de derrota dele naquele momento. 2. Na cena da Bulma angustiada deveria, por questão de coerência, mostrá-la fumando. Mas decidi não colocar esse detalhe porque sou contra o fumo. 3. Faltam apenas dois capítulos. E no próximo respondemos a pergunta que é o título dessa história. 4. A música do The Doors é sobre a morte. Mas nesse capítulo falo de uma morte simbólica. A morte daquele Vegeta do primeiro capítulo, indiferente e egoísta, substituído pelo Vegeta que conhecemos depois, Este é o fim Meu único amigo, o fim Dos nossos planos elaborados, o fim De tudo o que resta, o fim Sem salvação ou surpresa, o fim Eu nunca olharei em seus olhos de novo Você pode imaginar o que será? Tão sem limites e livre Desesperadamente precisando de alguma mão estranha Numa terra desesperada?