O que importa?

22 Afinal, o que importa


Notas iniciais
Em primeiro lugar, quem ficou esperando a atualização, me perdoe. Fui hospitalizada com uma infecção renal e só recebi alta no último sábado. Mas aqui está o desfecho da história dos dois. Espero que gostem

I'm gonna take a little time, a little time to look around me
I've got nowhere left to hide, it looks like love has finally found me

In my life there's been heartache and pain
I don't know if I can face it again
Can't stop now, I've traveled so far, to change this lonely life

I want to know what love is, I want you to show me
I want to feel what love is, I know you can show me

(Foreigner: I wanna know what love is – Agent Provocateur, 1994)

— Eu posso entrar? – ele perguntou, calmamente.

Ela o observou por um longo instante. Da cabeça aos pés ele estava coberto de poeira e tinha arranhões e equimoses visíveis no rosto e nos lugares onde a roupa dele se rasgara. Ele tirara as luvas e boa parte de sua armadura estava quebrada. Sem saber porquê, ela perguntou:

— Quer tomar um banho?

— Não antes de falar com você.

— Entre.

Ele andou até ela e parou, braços cruzados, mudo, esperando que ela se levantasse de sua cadeira. Ela ficou de pé, para encará-lo e ele ainda hesitou por um bom tempo antes de conseguir dizer qualquer coisa.

— O que você quer me dizer, Vegeta?

“Céus”, ele pensou “... como é difícil.”

— Eu senti o ki de Trunks aqui... ele já voltou, certo?

— Sim. Eu o pus para descansar, acho que tudo que aconteceu hoje o esgotou emocionalmente, na verdade. E ele está magoado com você.

Ele baixou os olhos e disse:

— Eu não pude encará-lo... a morte dele foi minha responsabilidade.

— Ora, não faça drama, Vegeta – ela se surpreendeu com a impaciência do próprio tom – pelo menos as esferas puderam ressuscitá-lo. Se você tivesse morrido seria algo irremediável... assim como a morte de Goku é.

Ela não estava facilitando nada as coisas para ele.

— Então você já sabe que...

— Sim. Pobre Chichi. Imagino como vai ser duro para ela daqui em diante.

Ele percebeu a oportunidade e perguntou:

— E se tivesse sido eu?

Ela olhou para ele. Desde que a haviam começado a conversar ele evitava olhar para ela, passava a maior parte do tempo olhando para baixo ou para o lado. Percebendo a demora na sua resposta, ele arriscou uma olhada para ela, que então disse:

— Como você imagina que eu ficaria, Vegeta?

Ele tornou a baixar os olhos. Então disse:

— Eu creio... tenho motivos para crer... que você sentiria minha falta...

— Sim, lógico. Talvez mais que isso. Talvez eu ficasse devastada, como fiquei, hoje mais cedo quando o imbecil da televisão anunciou o Mr. Satan como único vencedor do combate... e sobrevivente.

Em outros tempos, ele ficaria indignado e iria atrás do tal Satan para mata-lo pela insolência de tomar os méritos da vitória para si, mas, em vez disso, disse:

— Talvez seja melhor que os demais humanos não saibam da extensão dos poderes dos sayajins, e talvez isso seja melhor para Gohan, que é bem jovem... deixe esse idiota ter seus minutos de fama. Isso não é importante. A Terra estar salva é o que importa.

Ela o olhou espantada e então disse:

— O que aconteceu contigo?

Era o momento que ele mais temia. Mas agora, não havia mais como parar sua confissão:

— Não me sinto mais como o sayajin que eu era. Houve momentos em que achei que morreríamos todos... e me senti impotente, inútil. Kakarotto não morreu em combate... ele se sacrificou. Ele evitou que o monstro se explodisse e destruísse a Terra. Kakarotto está morto, agora, e eu, que fiquei aqui a princípio apenas para medir forças com ele... e eu não seria capaz, acredito, do sacrifício que ele fez.

— Então... a morte de Goku provocou uma mudança tão repentina e drástica assim?

— Não apenas por isso... – ele não sabia definir o que sentia – eu não sinto mais vontade de treinar, lutar, ficar mais forte...

Ele foi surpreendido pelo ríspido toque do dedo indicador dela no centro do peitoral da sua armadura e a encarou espantado. Ela disse:

— Nem pense em dizer algo assim, Vegeta. Você pode mudar o quanto quiser. Mas não seria mais você mesmo se desistisse de se tornar mais forte, de estar sempre pronto para lutar. O sayajin por quem me apaixonei não desiste nunca, mesmo ferido, machucado... ou morto.

Os dois se encararam por um instante e ela disse:

— E eu te peço que me perdoe por ter posto nosso filho em risco naquele dia dos androides. Você estava certo, eu não deveria ter ido.

— Você não precisa que eu te perdoe... — ele disse — Nem por isso e nem pelo que você fez com as minhas anotações.

Dessa vez ela não conseguiu conter o espanto. As anotações haviam sido o motivo da pior e mais definitiva briga entre eles, e ela admitia sua parcela de culpa:

— Também foi outro erro que cometi... Eu soube que as anotações eram importantes para você assim que comecei a lê-las, elas eram algo privado. E por isso mesmo foi um erro seguir adiante. Você tinha razões para se sentir traído, Vegeta. Eu não tinha esse direito...

— Na verdade, agora eu entendo porque você fez aquilo... – ele disse, baixando os olhos – também senti sua falta quando estava no espaço... mas até ali eu não podia admitir o que sentia, tanto não admitia que no tempo em que estivemos juntos eu não escrevi nada... eu tinha medo do que poderia confessar a mim mesmo.

— Vegeta...

— O Trunks do futuro me disse que, no tempo em que ele vive, você não usou as esferas do dragão para ler as anotações, porque as descobriu depois que eu já estava morto e não havia mais as esferas, graças à morte de Piccolo. Então, segundo ele, você se debruçou sobre meus papéis depois da minha morte e tentou de toda forma traduzir o que eu escrevera... mas só conseguiu descobrir o significado de uma frase...

— O seu lema sobre força, ira e disciplina?

— Sim.

— Tudo que importa para você...

— Não mais. Não é mais apenas isso importa para mim... mas a versão de você que criou nosso filho sozinha nunca soube disso, mas ainda assim... honrou meu legado e tornou aquele menino um sayajin forte e honrado, digno de ser super sayajin. – ele disse, com o orgulho perceptível na sua voz, e finalmente a encarou – e quando eu soube disso eu pensei que realmente só alguém que realmente se importasse profundamente comigo faria algo assim.

— É claro que eu me importo profundamente com você – ela virou as costas a ele, para que ele não visse suas lágrimas. – afinal... eu o amo.

Um calor espalhou-se pelo peito de Vegeta quando ela disse isso. De repente, ele já não se sentia tão vazio.

— Eu também.

— Eu também o quê? – ela perguntou, olhando para ele de lado, sem se virar ainda.

— Eu também amo você.

Ele a segurou pelo braço e a puxou para si, e a beijou, e foi, pela primeira vez, um beijo que era mais que apaixonado, era terno e sem medo. Ele a envolveu nos seus braços, e só então ele percebeu porque tinha tanta sede do seu toque, do seu amor: para ela haviam sido dez dias, mas ele, depois de passar dois dias na sala do tempo, a tocava e sentia pela primeira vez depois de dois longos anos.

Quando pararam para tomar fôlego, ela disse:

— Sua boca tem gosto de sangue...

— Acho que eu quebrei um dente... ou dois.

— E está imundo.

Ele a encarou e disse:

— Acho que vou aceitar aquele banho. Mas só se você for para a banheira comigo.

Ela sorriu.

***

Já estavam há muito tempo na banheira. Ela havia lavado os cabelos dele, limpado cada ferida, tocado cada parte do corpo dele. Haviam se amado e agora estavam abraçados, e ele tinha a cabeça recostada na borda da banheira, quase adormecido quando ela sussurrou:

— Não durma.

Ele abriu um olho e disse:

— Não estou dormindo. Estou relaxando, mulher. Você devia saber a diferença.

Ela riu. Iria se acostumar com esse Vegeta mais descontraído um dia, mas antes, precisava tirá-lo da água que começava a esfriar, então disse:

— Já estou bem relaxada. Mas não quero ficar enrugada por que fiquei muito tempo na água.

— Eu sou um sayajin, essas coisas não me afetam.

— Sei... – ela disse, levantando a palma da mão dele, apenas para mostrar os sulcos nas pontas dos dedos. Ele riu e a encarou maliciosamente:

— Se queria ir para a cama comigo, era só pedir...

— Então tá – ela se levantou nua, e saiu da banheira de costas para ele, puxando a toalha languidamente e se enxugando. – O que você está esperando?

Ele riu.

***

Amanhecia quando Bulma acordou e o viu adormecido, deitado de lado. Ela pensou que nunca havia visto seu rosto tão relaxado. Esticou a mão timidamente, ainda se lembrando do problema que ele tinha com contato físico. Mas então pensou que, afinal de contas aquele Vegeta travado, que fazia amor com ela em silêncio, havia ficado para trás... e se ele agora não tinha medo de expressar seu prazer, quem sabe tivesse também superado o problema de ser tocado. Foi em frente e, suavemente, acariciou seu rosto adormecido.

Ele não abriu os olhos imediatamente, mas sorriu. Então segurou sua mão e levou aos lábios, beijando-a antes de abrir os olhos para ver seu rosto sorridente.

— Bom dia... você dormiu bem? – ela perguntou.

— Como nunca havia dormido antes – ele admitiu.

— E agora? – ela perguntou, timidamente. – o que vamos fazer?

— Precisamos fazer alguma coisa? Eu já te disse que você é minha...

— Mas você não fez aquilo de me morder no ombro novamente...

— Já te disse que sayajins só fazem isso uma vez – ele riu. – o que se faz na Terra, então?

— Bem... as pessoas se casam, sabe? É assim que elas ficam juntas... – ela disse – o homem pede e a mulher aceita.

— Você vai se casar comigo, então. – ele afirmou e ela disse, rindo:

— Isso não parece um pedido.

— Porque não é. É um fato.

— Um momento... sendo você um príncipe, me casando com você eu me torno uma princesa?

— Me parece óbvio.

— Então eu aceito.

— Eu disse que era um fato.

Quase no mesmo instante, o choro do pequeno Trunks, que provavelmente acabava de acordar, ecoou na babá eletrônica ao lado da cabeceira da cama dela. Antes que ela fizesse menção de levantar, ele a impediu e disse, suavemente:

— Já está na hora dele se acostumar comigo.

Ele se levantou da cama e pegou o roupão amarelo que sempre usava quando estava com ela e o vestiu rapidamente. Então, pegou outro roupão e jogou para ela. Ela fez menção de segui-lo, mas ele a impediu, dizendo:

— Ele não vai chorar.

Vegeta abriu a porta do quarto e viu as duas versões do seu filho, juntas, numa espécie de paradoxo vivo. O jovem segurava nos braços o bebê, o que fazia que parecessem irmãos, e não a mesma pessoa. Vegeta se aproximou e os dois ficaram estranhamente olhando para o seu rosto com expressões idênticas. Ele parou diante deles e disse para o jovem:

— Nós precisamos conversar, mas primeiro eu preciso levar essa sua versão menor para sua mãe. – ele então encarou o bebê e disse, suavemente: – acho que você precisa se acostumar comigo, filho. Creio que vou ficar por aqui por um bom tempo...

Estendeu as mãos e, para sua surpresa, o pequeno deixou que ele o pegasse no colo facilmente, sem, no entanto, deixar de encará-lo com alguma suspeita. Não sabia exatamente o que fazer, mas o fato do bebê não estar chorando já o aliviava. Quando o entregou a Bulma ela disse:

— Parece que estamos evoluindo...

***

A conversa com Trunks acabou sendo mais fácil do que ele imaginara que seria. Bulma havia facilitado as coisas para ele quando conversara previamente com o rapaz, dizendo exatamente os mesmos motivos que ele acabou confessando. A compreensão de que o filho não era tão diferente do que ele mesmo fora naquela idade, o ajudou a compreender a necessidade do rapaz de ser aprovado por ele, de ser admirado pelo pai.

— Eu me orgulho de você, Trunks – ele disse. – embora eu não tenha grande mérito no homem que você se tornou.

— Não diga isso, pai. – o rapaz o encarou, enfático – com tudo que o senhor me ensinou, com o seu treinamento... eu sei que vou acabar com a ameaça dos androides no meu mundo. Eu sei que posso.

— Eu não espero menos do que isso de você – Vegeta disse, sabendo que o filho teria sucesso. Naquele mundo, naquela linha do tempo, ele poderia estar morto. Mas seu legado vivia.

Quando o rapaz foi embora, ele não o abraçou. Apenas ergueu um dedo, num silencioso lembrete que dali em diante ele deveria seguir sem o pai, mas honrando seu lema de força, ira e disciplina.

Notas finais
1. Ain, Aline... não teve hentai? :( Não, gente, nem vai ter mais. Nessa narrativa colocar mais cenas de sexo poderia ficar apelativo e desnecessário. Não quis abrir uma porta na cena romântica para colocar erotismo e depois fechar de novo. E eu quis deixar espaço para que cada um imagine como foi o amor deles nessa noite. 2. O mais importante desse capítulo, no entanto, é que, pela primeira vez em toda fic um diz ao outro, textualmente, que o ama. E isso vocês nem tinham notado, aposto. ;) 3. O último capítulo, que vem depois desse, é quase um filler. É só o casamento dos dois. Porque eu quis que fosse assim, casamento convencional, caretinha. Se não gosta de casamentos, então, pode dar a fic por encerrada. 4. A música desse capítulo é LINDA. E se encaixa perfeitamente para o Vegeta. Minha gravação favorita é a do Foreigner, não a da Mariah Carrey, desculpe quem é fã dela. Eu vou levar algum tempo Um tempo para olhar à minha volta Não tenho nenhum lugar para me esconder Parece que o amor Finalmente me encontrou Na minha vida Tem havido sofrimento e dor E eu não sei Se eu posso encarar isso de novo Eu não posso parar agora Eu já fui longe demais Para mudar esta minha vida solitária