O que importa?
5 Incômodo
I cheated myself,
Like I knew I would,
I told you I was trouble,
You know that I'm no good,
(Amy Winehouse: You know I'm no good – Back to Black, 2006)
Na mesa ao ar livre, Vegeta manteve a mesma postura que tinha em qualquer refeição: comia em silencio, como se não existisse mais ninguém à mesa. Isso era um tanto constrangedor, mas para Bulma era mais que isso: era irritante. Ela então, começou a obrigá-lo a falar:
— Prefere carne ou peixe, Vegeta?
— Tanto faz.
— Quer arroz? Salada?
Responder cada pergunta, para ele, era um suplício. Ele não se importava muito com o que comia, contanto que houvesse comida. Mas procurava não demonstrar irritação, apenas porque achava que era mais proveitoso concentrar-se no seu treinamento que ficar batendo boca com aquela mulher mimada e vulgar. Uma hora, ele acreditava, ela desistiria de perturbá-lo.
Naquele dia não havia convidados adicionais, apenas o sujeito idiota que ela chamava de namorado e seu gato estúpido. Vegeta não compreendia como alguém podia ser tão palhaço, ao vê-lo fazendo piadinhas para que ela e a mãe rissem. Para completar, o pai da garota parecia ter um interesse estranho no próprio Vegeta, perguntando coisas sobre a tecnologia sayajin. O velho estudara as naves que haviam sobrado da malsucedida invasão deles à Terra e acreditava que poderia aproveitar a tecnologia e desenvolver outras naves espaciais a partir daquelas. Ele respondia o que sabia, de forma seca e nada gentil, não entendendo como o sujeito não percebia que ele não queria saber de conversa.
Quando acabou o almoço, Bulma o chamou e disse:
— Vai voltar a treinar?
— Por que não voltaria?
— Imaginei... Escuta, eu vou sair agora com Yamcha, ele tem jogo hoje e eu vou assistir, meus pais também vão.
— Jogo?
— É. Ele é jogador profissional de baseball.
— O que é baseball e por que isso me interessaria?
— Deixa para lá. O que eu quero dizer é que você vai ficar sozinho aqui. Por favor não faça nenhuma besteira.
— Gostaria de entender por que você acha que eu faria "alguma besteira"...
— Deve ser porque não confio em você. – ela o encarou – não tem modo mais direto de dizer isso.
— Entendi. Não confia em mim, mas quer que eu proteja seu planeta de androides ou seja lá o que aquele garoto disse que vai destruir a Terra. Livrei-me de Freeza, mas pelo visto continuo sendo um escravo.
Parte da segurança e da empáfia dela evaporaram instantaneamente. Ela mudou de assunto, hesitante:
— Não vamos voltar para jantar, se sentir fome, a cozinha tem bastante comida. É só pegar na geladeira.
— Eu me viro.
— Escuta... Você não é um escravo. Desculpe-me. Eu vou dar um jeito de compensá-lo melhor. Prometo.
Ele não disse nada. Apenas virou-se e foi na direção da nave.
O jogo de Yamcha foi um sucesso. Como sempre, ele foi o melhor jogador em campo e eles venceram. Mas Bulma não estava radiante como imaginava que ficaria ao ver que o time dele estava apenas a um jogo de ir para a final.
As palavras de Vegeta, acusando-a de tratá-lo como escravo ainda ecoavam nela. E havia a questão de que Yamcha não estava treinando, pelo menos não como Vegeta. Ela sabia que o namorado, mesmo sendo muito forte, não era tão forte quanto Vegeta ou Goku, talvez nem mesmo como Tenshihan, Kuririn e certamente não como Piccolo. Talvez a melhor ideia fosse demover Yamcha de lutar contra os androides, e foi isso que ela tentou fazer aquela noite, assim que eles chegaram em casa. Eles deveriam ir a uma festa pós-jogo juntos, mas ela pediu que fossem antes à casa dela porque queria conversar. Assim que ficaram sozinhos ela externou toda sua preocupação, mas ele reagiu com total incredulidade:
— O que você está me pedindo?
— Você não entende... Não é um torneio, Yamcha!
— Eu sei perfeitamente que não é um torneio. Acho que você esqueceu que eu já estive morto. Eu já me arrisquei antes!
— E morreu! E se morrer agora, não tem como...
— As esferas de Namekusein poderiam nos ajudar
— E elas estão em outro planeta! Yamcha, por que você não me entende?
— Entendo, Bulma. Entendo que você quer que eu seja um covarde. Mas eu não vou desistir, esqueça isso. Vai à festa comigo ou não?
— Não. Não estou a fim de festas hoje.
— Então fique. Mas não me espere essa noite. Eu vou para o meu apartamento. E amanhã é folga do time, mas eu vou começar o meu treinamento para lutar contra os androides, afinal, já estou bem atrasado. Te vejo à noite.
Ela não disse nada. Ficou apenas sentada na cama ouvindo os passos dele se afastando.
Yamcha saiu furioso, acompanhado do atônito Pual, que normalmente dormia numa caminha na sala quando ele passava a noite com Bulma. O gato queria saber o que havia acontecido, mas ele não dizia nada. Parou olhando a nave onde Vegeta ainda treinava, podia ver pelas luzes acesas. Talvez Bulma estivesse certa. Podia ser que ele não fosse conseguir derrotar nenhum androide, e podia ser que acabasse morto, mas ele não ia se acovardar. Irritado como nunca com Bulma, Vegeta e toda aquela história ele entrou no carro com Pual e disse:
— Amanhã começamos a treinar. Mas hoje vamos fazer algo diferente, Pual... Vamos à festa pós-jogo do time.
— Mas... E a Bulma?
Yamcha não respondeu, apenas deu a partida e saiu cantando pneus.
Muito mais tarde, quando Vegeta entrou, coberto de suor e exausto, passou pela sala e viu Bulma no sofá, recostada, assistindo TV. Ia passar direto, mas ela olhou na direção dele e, por algum motivo, ele parou onde estava. Ficaram os dois se olhando sem jeito, até que Bulma perguntou:
— Você está com fome?
— Eu comi, mais cedo, antes de vocês voltarem. Acho que acabei com tudo que sobrou do almoço.
— Ok – ela deu de ombros, com um ar aborrecido e tornou a afundar no sofá. Por algum motivo, Vegeta olhou para a TV, curioso. Já tinha visto que os terráqueos costumavam ficar parados diante daquele aparelho, mas nunca prestara atenção nas imagens, que ela via com tanto interesse, e. por um instante, ficou distraído, tentando entender o que se passava na tela. De repente, Bulma, olhou para ele e disse:
— Você precisa de alguma coisa? Se quiser ver o filme, fique à vontade. Mas se quiser sentar no sofá vai ter de tomar banho primeiro.
Ele sentiu-se desconfortável de repente. Não sabia o que ainda estava fazendo ali. A mulher o encarava e ele disse:
— Preciso dormir. – saiu da sala sem ao menos dizer boa noite.
Bulma ficou olhando-o se afastar pelo corredor escuro por um instante e então, tornou a prestar atenção no filme.
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