O que importa?
6 Rotina
I wanted to be with you alone
And talk about the weather
But traditions I can trace against the child in your face
Won't escape my attention
You keep your distance with a system of touch
And gentle persuasion
I'm lost in admiration, could I need you this much?
Oh, you're wasting my time
You're just, just, just wasting time
(Tears for fears: Head over hills – Songs from the big Chair, 1985)
No dia seguinte, ao acordar, Vegeta se surpreendeu ao chegar à cozinha e ver Bulma vestida de uma forma completamente diferente do habitual, usando um jaleco branco e com os cabelos presos. Ela preparava algo no fogão. Ele ia procurar comida na geladeira quando ela disse:
— Bom dia para você também. Aceita um prato de ovos mexidos? Estou fazendo para mim.
— Eu como o que tiver.
Ela riu e quebrou mais ovos na frigideira. Ele continuava em pé, sem saber o que fazer direito enquanto ela preparava a refeição. De repente ela apontou o armário atrás dele e disse:
— Pode pegar dois pratos aí atrás? Estão na prateleira mais baixa.
Ele obedeceu. Uma regra básica para ele era não deixar de colaborar com quem oferecesse comida. Logo ela pediu talheres e guardanapos, sempre dizendo onde estavam e, quando viu, ele havia posto a mesa. Ela então despejou os ovos nos dois pratos e cortou algumas fatias de um grande e vistoso pão. Colocou duas fatias para cada um, serviu café nas duas xícaras e sentou-se, dizendo a ele:
— Vai comer em pé?
Ele sentou-se olhando em volta e ela disse:
— Costumo fazer meu desjejum sozinha nos dias de semana. Por isso prefiro ficar aqui na cozinha. Meus pais acordam bem mais tarde, os empregados também chegam mais tarde, então eu aprendi a me virar, mesmo não sendo grande coisa na cozinha. Te aconselho a se fazer o mesmo quando acordar antes de mim e não quiser ir treinar com fome .
Ele já ia dizer que aquilo não o interessava, mas acabou perguntando:
— O que é isso? – apontou o café.
— Café
— O que é café?
— É uma boa bebida para acordar. Principalmente quem dorme tarde como você. Eu já adocei, mas se achar forte, posso colocar leite também.
— Você também foi dormir bem tarde – ele disse sem pensar, logo se arrependendo.
— Estava acordado quando fui deitar? – ela riu. – podia ter ficado assistindo o filme comigo, se estava sem sono.
Ele segurava o café, hesitante, achando o cheiro bom. Provou um pouco e, apesar de achar o gosto diferente de qualquer coisa que já houvesse experimentado, gostou.
— É bom. – ele disse – o café.
Ela sorriu e começou a comer os seus ovos e o pão. Ele a acompanhou e tinha que admitir que estava tudo muito bom. Quando ela terminou, perguntou se ele aceitava mais ovos, e ele disse que sim. Ela preparou mais para ele, mas ficou apenas observando-o comer. De repente disse:
— Eu creio que vou te colocar na folha de pagamento da Corporação Cápsula.
— Folha de pagamento? – ele disse, intrigado. O que é isso?
— Significa que vou te pagar para que você treine. Em dinheiro da Terra.
— Por quê? Não preciso de dinheiro da Terra. Tenho tudo aqui.
— Você me disse que se sentia um escravo no exército de Freeza, mas aqui pode ser livre. Com dinheiro você pode não ficar apenas aqui, preso treinando o tempo todo. E pode sair para comprar roupas melhores que aquelas velhas que eram do meu pai e eu te dei, por exemplo.
Ele a encarou e disse:
— Está bem. Eu aceito, se é para limpar sua consciência.
Ela bufou.
— Você não está me fazendo nenhum favor, seu hipócrita. Nem à Terra. Eu vi como os seus olhos brilharam quando ouviu que teria inimigos poderosos para enfrentar. Não tente me fazer sentir culpada por querer te dar um tratamento justo e decente.
Ela se levantou, recolheu seus pratos, talheres e xícaras e pôs na lava-louça, indicando a ele:
— Faça o mesmo quando terminar. E tenha um bom dia. Vou para o laboratório porque tenho muita coisa para fazer.
Ele a observou sair, conservando uma expressão neutra e terminou seu café calmamente. Quando pôs os pratos na lava-louça, pensou: "Não a devia ter provocado. Poderia ter pedido mais café se ela não tivesse ficado tão furiosa".
Treinou o dia inteiro, parando para as refeições quando ela o chamava. Sentava-se à mesa em silêncio, respondia secamente qualquer coisa que o perguntavam e logo depois, voltava ao seu treino obstinado. Naquela noite quando ele entrou ela não estava sozinha no sofá, Yamcha assistia a um filme com ela, sempre com seus gracejos idiotas. Sentiu uma onde de antipatia involuntária quando o outro olhou na sua direção. Quando ele passou, Bulma disse:
— Não quer ver o filme conosco? Está começando.
— Não. Boa noite.
— Boa noite! Que bom que você aprendeu – disse Bulma, de forma debochada.
Ele ignorou a vontade de respondê-la e foi direto para o seu quarto. Quando estava debaixo do chuveiro, sentindo ainda os efeitos do treinamento pesado, que vinham na forma de uma intensa exaustão, pensou que provavelmente ele teria que aturar outra noite de gemidos e sussurros no quarto ao lado e sentiu uma onda de raiva. De repente, percebeu que, involuntariamente, sentia-se excitado pensando na garota. Amaldiçoou a sua imaginação por um segundo e ficou imaginando se aquele tipo de desejo repentino não ia acabar atrapalhando seu treinamento.
Era a primeira vez em muito tempo em que ele realmente sentia falta de sexo, e imaginou que isso ia perturbar sua concentração. Baixou a temperatura da água repentinamente, para tentar superar a vontade de aliviar a excitação, quando uma voz maliciosa dentro dele disse que afinal de contas não devia atrapalhar tanto assim ter sexo constante, afinal, Kakarotto tinha uma mulher e não parecia desconcentrado quando lutava. Lentamente, ele voltou o controle da água para elevar a temperatura e, fechando os olhos, deixou-se levar e cuidou do problema da melhor forma que conhecia.
O banheiro tinha um espelho. Ele não ligava para a aparência, mas surpreendeu-se quando olhou de relance e se viu refletido, enquanto se enxugava. Podia ver o quanto seu rosto parecia aliviado e relaxado. Ele riu e pensou que talvez tivesse descoberto algo que o ajudaria a dormir melhor. Deitou-se completamente nu, mas não sentia o corpo tão pesado quanto na noite anterior. Ou começara realmente a se acostumar aos efeitos da gravidade aumentada ou sua brincadeirinha no chuveiro realmente ajudara a relaxar. Sem saber qual dos dois seria a verdade, fechou os olhos e adormeceu.
No dia seguinte, foi Bulma que o encontrou na cozinha preparando ovos. Ele deu bom dia sem se virar e ela sorriu, perguntando:
— Teve uma noite tranquila?
Por um segundo, Vegeta gelou. Será que ela sabia o que ele fizera no chuveiro pensando nela? Depois de um instante ele percebeu que esse era um pensamento ridículo e irracional e disse:
— Dormi bem.
— Então talvez você esteja realmente se habituando ao treinamento na gravidade aumentada. Eu tenho algo para ajudar seu treinamento no laboratório. Antes de ir para a nave passe lá comigo.
— Ok. Estou fazendo ovos para mim. – ele disse, tentando deixar bem claro o "para mim".
— Eu aceito – ela disse e quebrou mais dois ovos na frigideira, fazendo com que ele a olhasse irritado.
— Não vou fazer ovos para o seu namorado.
— Ah, não, Yamcha não passou a noite aqui. – ela riu e completou, maliciosa: – achei que tivesse percebido pelo silêncio.
— Eu tenho o sono pesado – disse ele, evitando o olhar dela e percebendo que ela ria do seu embaraço – você vai ter que fazer o café. Não vi como se faz, então, não aprendi.
— Ok – ela respondeu, ainda rindo – vou te ensinar, então.
Ela o mostrou como funcionava a cafeteira e como se fazia o café, e aproveitou para mostrar a ele onde guardavam o pão. Sentaram-se então e começaram a comer. Ela provou os ovos e disse:
— Muito bom! Aprendeu a fazer apenas me observando ontem?
— Sim. Pareceu fácil.
— Como Sayajins aprendiam as coisas? – ela perguntou, parecendo autenticamente interessada.– Vocês tinham uma escola ou algo assim?
— Não como as suas, creio. Muito tempo atrás roubamos uma tecnologia dos Tsufurujins que implantava conhecimento no cérebro. Por isso podíamos mandar crianças para outros planetas para dominá-los, os que ficavam aprendiam alguma coisa, mas a maioria do conhecimento era implantado no cérebro. Tudo que fosse útil para uma missão. Quem não servia para forma nenhuma de combate, acabava trabalhando na nossa engenharia de guerra. Os que fossem fortes, mas não perfeitos guerreiros, se tornavam "infiltrados" em outros planetas.
— Como fizeram com Goku?
— Kakarotto foi mandado com o conhecimento necessário para a missão dele, sim, mas perdeu tudo com uma pancada na cabeça. Eu tive muito conhecimento implantado em mim porque era um príncipe, e precisava saber muitas coisas, para fazer parte do exército de Freeza. Como você acha que eu aprendi sua língua? Quando eu e os outros decidimos que Raditz viria atrás de Kakarotto, buscamos o que ainda havia sobre a Terra nos arquivos e usamos a câmara de implante de conhecimento. Mas não tínhamos informações completas...
— Por isso você não sabia nosso sistema numérico.
— Exatamente. E tenho uma certa dificuldade com seus relógios. Mas estou aprendendo. E sei ler e escrever na sua língua. É uma boa vantagem.
— Interessante... E como é essa câmara de conhecimento?
— Era. Não existe mais. Ficava numa nave-mãe onde os últimos Sayajins ficavam, no sistema solar do planeta Cold. A essa altura, o que restou do exército de Freeza já tomou tudo, ou destruiu.
— É uma pena. Adoraria entender como isso funcionava.
— Não posso ajudar. Apenas usava a câmara, não sabia como funcionava.
Ela se levantou quando terminaram a refeição, e disse:
— Vamos ao laboratório comigo?
Ele a seguiu pela construção, por alas que ainda não conhecia até uma sala grande, com muitas divisões, onde havia vários instrumentos e aparelhos que ele não fazia ideia do que seriam. Chegaram diante de uma bancada onde havia uma bagunça de protótipos, e ele reconheceu sua armadura totalmente desmontada. Ela percebeu que ele observava e disse:
— É para fazer um molde. Estou quase chegando ao material ideal. Mas é isso que quero que você leve. – ela mostrou a ele uma caixa enorme de madeira cheia de aparelhos esféricos. – são robôs de luta. Atacam, defendem e aguentam a gravidade aumentada bem. Você vai poder treinar com eles.
— E como isso funciona?
— Liga e desliga no botão vermelho. – ela apontou – Mas não ligue eles aqui, estão ajustados para gravidade + 20. Você pode aumentar a resistência no botão do lado, até o máximo que a câmara aguenta. Eles vão reagir a você, e você pode usar muitos ao mesmo tempo.
— Quem desenvolveu isso?
— Eu mesma. Não temos câmaras de conhecimento, mas eu estudei bastante, fui para a Universidade aos 17 anos e sou especializada em robótica, programação e ciências.
Ele não pareceu impressionado com os títulos dela, mas ficou admirando os robôs. Ela disse:
— Leve isso logo daqui e vá treinar. Estão ocupando muito espaço por aqui.
Ele pegou a caixa com os robôs, que devia pegar mais de 100 quilos e ia saindo quando ela disse:
— Se algum deles quebrar, leve à noite para eu consertar.
— Ok, obrigado – ele respondeu.
Ela pensou satisfeita que ele finalmente aprendera a agradecer.
Naquela noite ele entregou a ela seis robôs danificados, e, a partir desse dia se tornou uma rotina para os dois tomar café da manhã juntos, separarem-se enquanto ela ia para o laboratório e ele ia treinar. Por um tempo, as coisas funcionaram muito bem assim.
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