O que importa?
18 Feito cão e gato
I hate everything about you
Why do I love you?
You hate everything about me
Why do you love me?
(Three days grace: I hate everything about you – Three days grace 2003)
No dia seguinte, Bulma acordou muito cedo e procurou Vegeta em seu quarto, para descobrir que ele não estava lá, aliás, não estava em parte alguma, nem mesmo na câmera de gravidade. Por um instante achou que ele havia ido realmente embora, mas a nave continuava lá, exatamente no lugar onde aterrissara. Olhou as câmeras de monitoramento e viu que ele acordara antes do amanhecer e partira voando para algum lugar incerto. Suspirou e pensou que talvez ele voltasse quando tivesse fome.
***
Vegeta estava, naquele momento, muito longe. Depois dos eventos daquela noite, pensou que não queria ficar na mesma casa que ela. Voou sem rumo até sentir um ki familiar no horizonte... aliás, mais de um. Cuidadosamente escondeu o próprio ki e enquanto se aproximava cautelosamente de uma cadeia de montanhas. Desceu até o chão e andou um bom pedaço até que chegou a uma cachoeira. Escondido entre os arbustos, com o ki bem reduzido, ele observou Piccolo e Kakarotto, que treinavam no céu, os golpes se sucedendo com uma força e uma agilidade que o surpreenderam. Mas, por estar muito atento, percebeu uma leve oscilação do ki do rival quando ele usava um pouco mais de força e pensou: “Talvez, sem que ele perceba, a doença já esteja no seu coração...”
Nesse momento, Kakarotto chamou seu filho e mandou que Piccolo descansasse um pouco. Diante da negação do Namekuseijin, o outro deu de ombros e disse:
— Treine com Piccolo, Gohan.
Vegeta ficou observando o menino. O filho de Kakarotto, afinal, parecia-se com ele. E havia nascido com uma cauda. Invejou o outro mais uma vez e pensou se um dia teria a chance de treinar o próprio filho ou se Bulma o esconderia dele. Parou um instante e pensou no que o menino se tornaria se ele fosse embora da Terra, se buscasse outras lutas em outros planetas. Nesse momento, Gohan acertou Piccolo no meio do estômago, fazendo o Namekuseijin curvar-se. Kakarotto deu uma gargalhada alta e o menino se voltou para ele.
— Você evoluiu muito, Gohan!
Mas o garoto atacou o próprio pai, que conseguia segurar todos os golpes. Kakarotto ainda era muito forte. E ele não podia deixar de desejar muito medir forças com ele. Mas vendo o sayajin com o filho pensou: “Não sei se o mataria... nós dois somos os últimos sayajins puros, e não sei se quero ser o último.”
Não sabia de onde viera esse pensamento. Silenciosamente, foi andando pelo caminho por onde viera, e, mais adiante, levantou vôo, pensando que ainda precisava treinar muito para poder estar pronto para os desafios que teria pela frente.
***
Piccolo olhava fixamente para um ponto da mata, abaixo, ao lado da cachoeira. Goku o viu e perguntou:
— Alguma coisa?
— Havia alguém ali.
— Não senti nenhum ki...
— Estava oculto. Mas eu podia ouvi-lo se mexendo. Ficou parado e acho que pude vê-lo através da folhagem, embora eu ache que não tinha intenções hostis.
— E quem poderia ser, senhor Piccolo? – perguntou Gohan, ainda ofegante da luta com o pai.
— Creio que era o Vegeta – disse Piccolo. – mas ele se foi.
— Deve ter vindo nos observar – disse Goku – que tolo. Poderia pedir para treinar conosco.
O Namekuseijin sorriu, olhando para Goku e disse:
— Às vezes você é muito ingênuo, Goku... se ele começasse a treinar conosco não ia resistir a tornar as coisas sérias. E, pelo que posso presumir, um mataria o outro.
— Ah, eu não faria isso – disse Goku – Nós somos os últimos Sayajins, não acho que seja inteligente um matar o outro.
— Mas sayajins não são uma raça conhecida pela inteligência... – disse Piccolo, emendando uma risada.
— Você já descansou o suficiente – disse Goku, partindo com tudo para cima do companheiro de luta, dando início a mais um pequeno combate.
***
Quando chegou à Corporação Capsula, Vegeta estava faminto, mas queria evitar Bulma a qualquer custo. Pensou em ir direto para a câmara de gravidade e pedir pelo comunicador que o pai de Bulma mandasse alguém levar a comida para ele. Mas, para seu azar, Bulma estava no jardim, observando o pequeno Trunks, que rolava e engatinhava num tatame aberto no jardim.
Ele desceu atrás de uma pequena cerca viva, onde o filho não podia vê-lo, e ficou observando a criança e percebeu que o ki do menino se elevava cada vez que ele rolava ou se movimentava com mais vigor. De repente o menino se sentou e começou a socar um urso de pelúcia. O pequeno Trunks tinha sangue sayajin, afinal. Ele riu quando o menino pegou o brinquedo e atirou realmente muito longe. Quando Bulma se levantou para pegá-lo, ela o viu e ele virou as costas, rumando decidido para dentro da casa.
Pediu que entregassem as suas próximas refeições direto na câmara de gravidade e se trancou para treinar. Como no espaço, queria chegar à exaustão para conseguir esquecer tudo que o tirava do estado de concentração ideal. Quando voltou para a casa, já bem tarde, não viu nenhum movimento, mas, ao passar pelo corredor, viu luz saindo por baixo da porta do quarto de Trunks. Tentou resistir, mas abriu a porta, dando de cara com Bulma, que amamentava o menino, sentada na sua poltrona. Os dois se encararam por um tempo, em silêncio, até que ele disse:
— Quando ele tiver idade, e isso vai ser em breve, eu vou começar a treiná-lo, queira você ou não.
— Por que eu iria me opor? – Perguntou Bulma, com a expressão desafiadora no rosto – Mas antes, acho bom que você crie algum vínculo com o seu filho, logo ou ele que não vai querer saber de você.
— Depois que eu lutar com os androides... eu vou dar um jeito de me estabelecer na Terra. Caso você não queira que eu fique aqui eu dou um jeito...
— Ah, isso não é problema meu, Vegeta. Você que terminou tudo entre nós. – Ela colocou o menino no berço e fez um gesto para que ele saísse. Fechou a porta do quarto e então entrou no seu, dando a ele um boa-noite frio.
Ele ficou parado, diante da porta do quarto. Queria muito entrar. Mas o orgulho o impedia. Se ele deixasse para lá, nunca mais ela o respeitaria. Foi direto para o banheiro e tomou uma ducha fria, pensando se algum dia conseguiria criar algum vínculo com o seu filho.
***
Os dias foram passando, e, por pior que tivesse parecido no primeiro momento o rompimento, Vegeta e Bulma conseguiram conviver em paz. Mas Trunks seguia caindo no choro cada vez que via o pai, e, talvez por causa disso, uma tensão foi crescendo entre os dois, demolindo aos poucos a cordialidade inicial.
Logo, cada detalhe acabava numa pequena e inútil discussão. Uma hora ele aparecia no laboratório reclamando da armadura que já quebrara (e ele quebrara duas de propósito) e na outra, ela o culpava pelo choro do garoto, dizendo que ele já tinha nove meses e jamais convivera com o pai, por isso, não tinha culpa se ficava com medo dele.
Numa tarde ela chegou ao seu quarto e viu a terceira armadura que fizera para ele quebrada, junto com um robô que vazava óleo e uma peça da câmara de gravidade sem importância, coberta de sujeira. Tudo em cima da sua cama. Era demais.
Ela pôs tudo numa caixa e foi até a porta da câmara de gravidade, fazendo aquilo que ela sabia que mais o irritava. Desligou a gravidade aumentada, fazendo ele, que estava transformado em super sayajin, voar pelos ares e bater numa parede lateral e cair, por causa do esforço que fazia para flutuar. Reprimindo uma risada interior, ela entrou na câmara e o viu, caído no chão passando a mão num galo imenso na cabeça. Jogou tudo em cima dele e disse:
— Olha, Vegeta... eu estou cansada desse seu jogo de gato e rato. As suas implicâncias, suas provocações sem sentido. AMADUREÇA. Eu li suas anotações, li realmente... porque eu queria estar perto de você, queria estar com você... mas toda essa vontade está sendo destruída porque você continua se comportando como um idiota prepotente e mimado. ME DESCULPE se li suas preciosas confissões sobre como você se masturbava no chuveiro pensando em mim...
Ela virou-se para sair mas ele a segurou pelo tornozelo e disse, com ar suplicante:
— Eu também estou cansado. Me desculpe.
Ela o olhou, de cima para baixo e disse:
— Eu desculpo. Mas não quero continuar sofrendo a cada momento porque você não conseguiu atingir esse ou aquele nível de ki. Até você derrotar os androides, ou o que seja... eu não quero saber de você. Você tem me feito mais mal do que bem.
Ela saiu, pisando duro e ele pensou em como as desculpas dela haviam sido sentidas. Fechou os olhos. Era melhor assim, não era? Ele havia rendido mais e melhor longe dela. Podia agora se concentrar, faltava menos de um mês para a luta e ele sentia-se a cada dia mais forte.
E, concentrado no treinamento e na luta, pôde finalmente sentir uma certa paz, embora toda noite, deitado no quarto abafado e quente, pensasse que ela ainda estava ali tão perto...
...e ela, por mais duras que tivessem sido suas palavras, admirou o quanto ele mudou de atitude, o quão respeitoso e educado foi com ela nos últimos dias antes da fatídica data anunciada para a chegada do grande mal.
Na véspera do dia em que os androides apareceriam, ela o chamou na câmara de gravidade pelo comunicador e perguntou se podia ir até lá. Ele a autorizou e ela apareceu com uma caixa que entregou a ele. Parecia um presente. Ele abriu e seus olhos arregalaram-se, com espanto. Era uma nova e visivelmente aperfeiçoada armadura completa. Quando a segurou, viu que era mais leve que nenhuma outra que ela fizera, e ela disse:
— É mais resistente, também. Eu chamo de armadura 2.0. Venho trabalhando nisso há alguns meses. Eu espero que seja... eficiente.
Ele ficou olhando para a armadura um tempo e então disse:
— Você certamente se superou. – ele a encarou por um instante, reprimindo a vontade de se aproximar mais dela. – Obrigado.
Depois de um instante de silêncio, ela sorriu e respondeu:
— Mate os androides com isso, ok? Eu quero ver você destruindo aquelas coisas usando a armadura que eu fiz.
Ele ficou sério, de repente, ao perceber o que ela dissera.
— Como assim, você quer ver? Bulma, você não pode ir até lá. Você enlouqueceu?
— Eu não acho que seja tão perigoso. Confio que você e os outros vão dar conta dos monstros. E eu quero estar lá para ver...
— Você não deve ir. É muito arriscado.
— Escuta aqui, Vegeta... acha realmente que manda em mim? Que eu vou sentar aqui e te obedecer?
— Não é isso! Será que você não entende que um campo de batalha não é lugar para alguém que não luta?
— Pois eu vou. E vou levar o pequeno Trunks comigo, se você quer saber. Você mesmo diz que ele precisa ser treinado...
Vegeta não podia acreditar no que estava ouvindo.
— Você só pode ter enlouquecido, mulher. Por mais que ele seja metade sayajin, ele tem o seu sangue... e como você sempre faz questão de dizer, é apenas um bebê!
— E daí? Eu vou ficar longe o suficiente para não nos acontecer nada. Eu sei me cuidar e sei cuidar muito bem do meu filho. – ela disse, mantendo o tom desafiador.
— Bulma... se é assim, então você está por sua própria conta... eu juro que não farei absolutamente nada para te salvar... ou para te por a salvo. E se alguma coisa acontecer ao meu filho, a culpa vai ser toda sua!
Ela não tinha mais o que dizer, diante das ásperas palavras dele, saiu, irritada e foi para o quarto do filho, onde ficou olhando o menino, adormecido na sua soneca da tarde.
O que ela achava que seria uma oferta de paz praticamente acabara como um rompimento inevitável. Será que seria melhor ela ficar quieta, de longe, apenas esperando?
Ela ergueu os olhos do bebê e viu seu próprio olhar no espelho, perguntando a si mesma se não estava estragando tudo. Com um suspiro, decidiu que não podia ficar longe da ação. Não dessa vez. Sabia que se todos acabassem mortos, ela pelo menos poderia saber com antecedência. E preparar seu filho para se tornar um guerreiro poderia ser sua próxima tarefa, se o pai não sobrevivesse...
Vegeta experimentou as luvas da armadura que Bulma acabara de entregar, flexionando os dedos repetidas vezes. Um sorriso apareceu no seu rosto e ele pensou: “Ela é mesmo um demônio... muito melhor que as anteriores. Como consegue?”. Mas, pensando no risco que ela pretendia correr, ficou sério e pensou: “Ela que não ouse...”. Mesmo sabendo que provavelmente ela ousaria, sim, ele pensou que manteria sua promessa... e ela estaria lá por sua conta e risco.
No dia seguinte, antes do amanhecer, Vegeta estava pronto, a armadura nova, sem um único arranhão, pronta para ser testada em campo. Quando passou pelo corredor, em frente ao quarto de Bulma, não resistiu e entrou. “Nunca fecha a maldita porta” ele pensou, observando-a profundamente adormecida, aninhada de lado na imensa cama que a fazia parecer tão pequena. “Fique” ele pensou, desejando imensamente que tudo que ela dissera na véspera tivesse sido apenas um blefe.
Voou na direção do Norte, esperando que seu treinamento tivesse sido o suficiente. Decidiu observar de longe um tempo antes de entrar em combate. Se alguém tivesse que ser o primeiro a morrer, que não fosse ele.
Bulma não disse aos pais onde iria. Apenas pegou uma cápsula, jogou-a para fazer surgir uma pequena nave e partiu, levando o pequeno Trunks com ela. Uma vez no ar, pensou “Tudo vai ficar bem, não corremos perigo algum...”
Nada disso era verdade.
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