O ninho
1 O silêncio
Notas iniciais
Antigamente, eu costumava gostar do silêncio. Como mãe solteira, era raro encontrar momentos de paz e sossego. Mas, ultimamente, a quietude tornou-se uma companheira da qual não consigo fugir, constante e desagradável.
De vez em quando, este mesmo silêncio prega peças na minha mente e posso jurar que escuto a risada de meu filho ou até mesmo a sua voz a chamar por mim. Eu gostaria de ser necessária, mas de forma gradual e tão de repente, meu filho cresceu e se tornou um adulto autônomo com ambições profissionais e uma família para cuidar.
Durante toda a minha vida, tudo que eu sempre quis foi ver meu filho sorrir e prosperar. Para criá-lo, precisei trabalhar duro durante anos e fazer sacrifícios inimagináveis. Hoje, estou aposentada, tenho muito tempo para aproveitar como quiser, mas meu filho mora muito longe. Também sou solteira e não tenho amigos ou um hobby com o qual me entreter, só me restando o ócio como companhia. O ócio e Gin, um pequeno pássaro que construiu seu ninho no topo da varanda de minha casa.
Dirijo-me à varanda com a intenção de tentar ouvi-lo cantar, mas não tenho sorte. Ele não está lá. Não sei o que aconteceu, mas tem sido raro vê-lo no ninho. Volto para dentro de casa e, na sala de estar, deparo-me com um retrato de meu filho com a sua esposa e meus dois netos. Não consigo evitar um sorriso. Apesar de sentir falta dele, eu não poderia estar mais feliz! Afinal, eu consegui! Meu trabalho deu frutos e consegui dar a meu filho a vida que ele merece! Não há nada melhor do que ver alguém que você ama com seus desejos realizados. Com a saudade ainda batendo no peito, pego o telefone e disco seu número:
— Alô? — A voz dele me faz abrir ainda mais meu sorriso.
— Alô, Tiago?
— Oi, mãe! Precisa de alguma coisa?
— Não, só queria saber como você está!
— Estou bem! Olha, posso te ligar depois? Estou no trabalho agora e preciso acabar logo porque prometi para Susana que levaria as crianças para o cinema.
— Ah, tudo bem. Mande um beijo aos meus netinhos e à minha nora, está bem?
— Mandarei! Beijos, te amo!
— Também te amo, filho!
Eu ainda seguro o telefone ao meu ouvido quando ele desliga. A conversa foi tão curta... E agora? O que eu faço? Já cansei de mudar os canais da televisão sem encontrar um programa que me agrade. Já não tenho mais interesse em ler livros, uma vez que me dão dor de cabeça e me deixam inquieta. Além disso, já dormi mais do que o suficiente para ficar o resto da semana acordada. Sinto que vou enlouquecer se continuar a não fazer nada.
Sem me conter, largo o telefone e vou até a escrivaninha de meu quarto, de onde tiro um papel e uma caneta. Começo instantaneamente a escrever tudo que eu gostaria de fazer, assim como o que sacrifiquei durante meus anos de trabalho. Meu filho já conseguiu a vida que ele merece, agora está na hora de buscar a vida que eu mereço!
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