O ninho
2 Coragem
Notas iniciais
O primeiro ponto que escrevi em minha lista foi viajar sem um destino planejado.
Eu deveria estar no aeroporto agora, mas, ao invés disso, vim para um bar porque decidi adiantar o quinto tópico de minha lista: Ficar bêbada. Algo muito simples, mas que nunca aconteceu comigo.
Antigamente, não via necessidade para isso. Achei que poderia ficar bêbada quando melhor me calhasse. Mas, após o nascimento do meu filho, achei que não seria apropriado beber a este ponto. Afinal, eu tinha que dar o exemplo e não ter minhas decisões sendo deturpadas pelo álcool. Mesmo assim, a partir do momento que beber se tornou uma prática "proibida", me vi com um enorme desejo de ficar bêbada.
Infelizmente, este não foi o principal motivo para antecipar a realização desse tópico da minha lista de desejos. A principal razão para isso era a coragem que eu precisava ganhar para fazer a viagem. Como poderia abandonar o conforto de minha casa e partir numa aventura desta maneira? Seria muito difícil, mas, então, como eu poderia não fazê-lo?
Um copo de coragem. Era tudo que eu precisava.
— Uma cachaça. — Foi a primeira bebida que consegui pedir ao barman. De repente, era quase impossível lembrar os nomes das bebidas. O barman levantou uma sobrancelha enquanto me olhava, sem saber se havia escutado bem. Eu repeti. — Uma cachaça.
Enquanto ele buscava minha bebida, percebi diversos olhares em minha direção e entendi o que estava acontecendo: Muitos estavam surpresos com a minha idade.
— Ela não sabe que já está velha demais para ir a um bar? — um homem disse a um amigo numa mesa atrás de mim.
O barman voltou com um copo de cachaça borbulhante. Eu não conseguia tirar meus olhos das bolhas, que subiam sem medo até a superfície, formando bolhas maiores e estourando logo em seguida. Uma dose de coragem.
Bebi alguns goles de álcool e me virei para a mesa.
— Ei, imbecil. — Deus me perdoe pelo palavreado. — Eu estou velha, não morta. Tente aprender a diferença: Morto deve estar o orgulho de sua mãe com sua falta de educação.
— D-desculpa… — o homem balbuciou com vergonha.
Não acredito no que acabei de falar. Que grosseria! Mas não posso me calar. Não agora. Eu sou uma bolha e ainda tenho muito para crescer antes de estourar.
Depois de tomar mais alguns copos de cachaça, sinto-me um pouco mais afetada pelo álcool. Mesmo assim, peço mais um último copo.
— Tem certeza que está em condições, senhora? — perguntou o barman.
— Primeiro, me chame de Joana, por favor. Não gosto de ser chamada de senhora. — Dei uma pequena pausa para respirar. — Segundo, tenho certeza que estou em condições.
— Tudo bem, Joana. Então, você poderia fazer o quatro? Só para termos a certeza.
Não entendi muito bem o porquê desse pedido estranho. Olhei confusa para ele, mas obedeci e mostrei-o minha mão com quatro dedos levantados. Ele riu um pouco antes de falar comigo novamente:
— Está bem, mas este é o último copo!
— Combinado!
Bebi minha última dose de coragem e sorri. Estava em êxtase, radiante provavelmente, nunca havia me sentido tão viva e pronta para o que estava por vir.
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