Sonhos. Os sonhos possuem muitas definições mas nada certo ou errado. Há aqueles que acreditam que sonhos são conjuntos de memórias passadas e memórias que obtivemos naquele mesmo dia, misturadas e então contadas em nossa própria mente. Há aqueles que dizem que sonhos possuem significados, tendo seus medos, desejos, sonhos, dentre outros, expostos em forma de uma história. Certo dia, eu tive um sonho um tanto que comum, onde me vi nele, só que, nesse sonho, esse "eu" era na verdade mulher. Obviamente, não achei estranho, então não cheguei me assustar. Lembro-me de pouca coisa.

Lembro de estar sentado, conversando com essa garota. Ela parecia ser gentil e carinhosa, e conforme nós conversávamos, sentia que ficávamos mais íntimos. O que eu mais me lembro era de fazer algumas perguntas que somente eu sabia as respostas, como por exemplo, cheguei a perguntar se ela sabia quantas vezes eu já namorei na vida.

Essa garota olhou para mim com certa dúvida e então riu, e isso me incomodou um pouco, então ela me respondeu, dizendo "Você nunca namorou... Não até agora.". Eu estranhei a resposta e me lembro de ter tentado perguntar mais alguma coisa, mas fui impedido, já que tinha acabado de acordar. Eu sentei na minha cama e fiquei pensando nesse sonho. Algo nele me incomodava, e tudo por causa de uma resposta que recebi de uma versão minha só que feminina. Naquele momento, eu só consegui rir de mim mesmo, e assim comecei aquele dia. No momento que me levantei, fui ao banheiro e fiz minhas necessidades.

Mesmo sabendo que era só um sonho, eu fiquei "perturbado" com ele, e não sabia dizer o porquê. Depois de ter tomado um banho pra me acalmar, escovei meus dentes e comecei meu dia. Teria ido até a cozinha, onde lá tomei meu café da manhã sem muita pressa, já que era um domingo calmo. Eu liguei a televisão e procurei algo de interessante mas, como sempre, não tinha nada, e nas notícias, só as mesmas coisas: mortes, drogas, roubo e acidentes. Decidi por desligar a TV e só terminar de comer enquanto viajava em pensamentos. Quando terminei meu café, fui até a cozinha e lavei tudo que sujei, e então fui até meu quarto. Todos os domingos e sábados eu saía para caminhar um pouco, então eu troquei minhas roupas naquele momento para uma regata um pouco velha e preta, coloquei também um short que ia até o joelho, tendo a cor preta com algumas listras finas e longas em azul-claro. Calcei um tênis de caminhada, possuindo as mesmas cores que meu short. Antes de sair de casa, me certifiquei de colocar uma pequena bolsa em minha cintura, sendo "pochete" seu nome.

Nela, guardei minha carteira, meu celular, bloquinho de anotações, um lápis, uma borracha e um apontador, sem falar também as minhas chaves de casa. Tranquei as janelas e portas e então saí de casa. Dei uma olhada no meu celular para conferir as horas e eram oito e quarenta e sete da manhã, e como estava no outono, as manhãs eram frescas, apesar do ar ser um tanto seco, o que incomodava bastante. Não demorei muito para começar a me locomover, andando sem rumo. Conforme eu passava pelas casas de meus vizinhos, eu era recebido com calorosos bom dias, e eu os devolvia com um sorriso no rosto.

Nessa cidade onde eu morava, meus vizinhos eram mais experientes, possuindo uma idade mais avançada, por isso, era um lugar calmo e bom de se viver. Caminhei bastante e lembro de ter visto uma loja de conveniência. Ela era pequena e parecia ser um pouco famosa, pelo menos era o que eu julgava ser, já que tinha bastante gente lá dentro. Nunca fui uma pessoa festeira, que gosta de multidões e de barulhos altos, mas mesmo assim eu aprendi a conviver com tais coisas, por isso, suspirei profundamente e entrei naquela lojinha.

Lá dentro, peguei uma cesta de compras vermelha e caminhei pelo local. O primeiro lugar que dei uma olhada foi nos freezers, procurando alguns energéticos. Naquela época, os energéticos Beast eram bem famosos entre os adolescentes, mas eu gostava dessa marca mais por ser boa do que por sua fama. Coloquei seis desse energético na cesta de compras e entrei na fila, tendo mais três pessoas na minha frente. Um método meu para não ficar entediado numa situação monótona era simplesmente ficar perdido em meus pensamentos, e assim o fiz, mas algo me tirou dos pensamentos.

—-... Obrigada! Volte sempre!

Eu já ouvi aquela frase várias vezes, mas não foi isso que me chamou a atenção, e sim a voz daquela pessoa. Quando direcionei meu olhar para a operadora de caixa ali, senti meu coração parar de bater, minhas mãos ficarem totalmente trêmulas, minha boca se abrir e um frio percorrer meu corpo todo. O motivo? Aquela pessoa que estaria atendendo os clientes do local era a mesma mulher que sonhei! Era literalmente a minha versão só que mulher! Foi como eu me olhar no celular com aqueles filtros de gênero oposto. Eu voltei a realidade quando vi que eu era o próximo cliente. Dei uma tossida pra tentar disfarçar a minha face espantada e, timidamente, caminhei até ficar frente a frente com a, até então, desconhecida.

—- Bom dia!

—- A-ah! É... B-bom dia... Eu acho...

Eu estava confuso e assustado naquele momento, e acho que a moça ali tinha percebido aquilo, já que minha pele parda estava pálida naquele momento.

—- V-Você está bem? Está pálido!

—- I-isso? Não é nada... Não se preocupe, o-obrigado...

Peguei então as seis latinhas de Beast e coloquei na frente da caixa, e quando levantei meu rosto para olhar a moça ali nos olhos, senti meu coração congelar novamente, pois ela estava sorrindo pra mim, ou... Eu estava sorrindo pra mim?... Não! Definitivamente não! Ela estava sorrindo pra mim, sei bem disso porque eu sentia minha boca seca e travada. Como se já não pudesse piorar aquela situação toda, aconteceu algo naquele momento que fez meu corpo todo arrepiar, até posso jurar que senti minha alma abandonar meu corpo. Aquela moça, com aquele sorriso fofo e olhar atraente, parecia penetrar minha alma, e já não bastando meu estado de choque, ela disse

—- "Você nunca namorou... Não até agora"... Não é, Koda?

E então veio a risada dela, a mesma que escutei em meus sonhos. Nesse momento, eu parecia estar flutuando, já que não sentia mais o chão. Eu me afastei lentamente dela, e ela apenas me olhava com um sorriso no rosto, parecendo se divertir com aquilo. Ela percebeu que mais clientes entravam na loja, o que a fez suspirar, assim pegando um papelzinho e anotando algo, assim me entregando e passando os meus produtos.

—- Esse é o meu número. Me adiciona depois, tá? Imagino que queira explicações. Bem, vai ficar ¥1098,16.

Eu senti que minha mente foi lida por ela, mas não questionei, afinal, minhas expressões já denunciavam tudo o que eu estaria sentindo e pensando. Paguei pelos produtos e então saí do local, dando uma última olhada para ela. Decidi encerrar minha caminhada e voltei para casa o mais rápido possível. Quando entrei em minha residência, guardei as minhas latinhas Beast de sabores e cores diferentes e fui até meu quarto, onde lá troquei de roupa para algo mais confortável. Guardei minha pochete e guardei o que tinha dentro dela, e com o celular em mãos, adicionei o número daquela garota. Mal a adicionei e recebi uma mensagem dela.

—- " Apressadinho você, Koda. Não te julgo, afinal, deve estar querendo algumas explicações, como eu disse antes, não é? "

—- " Sim, eu quero explicações. Como você sou eu só que uma versão feminina minha?! "

—- " Sabe... Sonhos possuem significados. Mas certos sonhos são tão carregados de desejos e de significados que alguns se tornam realidade, literalmente. Já faz dezenove anos, Koda, que você esteve e se sentiu sozinho, não é? Aliás, feliz aniversário atrasado! Enfim... Seu desejo por ter uma namorada começou com seus treze anos, e desde então, esteve sozinho e procurando por alguém, mas nunca achou, então começou a desejar a sua própria companhia mais que tudo, só que seu desejo por ter sua própria companhia saiu de controle e fez com que você se imaginasse numa versão feminina sua, uma versão, na sua visão, mais atraente, fofa e popular. Então eu surgi! Eu surgi de seus sonhos, Koda. "

—- " Uou... Isso é muita coisa pra se absorver. Tá, certo... Então, qual é seu nome? "

—- " Você sabe qual é o meu nome, Koda. Afinal, quem me deu meu nome foi você mesmo! "

—- " Espera... Seu nome então é Agatha? "

—- " Na mosca, Koda! Parece que você entendeu. Não é de se surpreender, já que sempre foi um garoto rápido nas coisas. "

Não sei se era apropriado eu ficar contente e constrangido com aquele elogio, já que era basicamente eu mesmo me elogiando

—- " Então... Agatha... Você é eu mesmo só que uma versão feminina? "

—- " Bem, só de aparência, pois de resto, você me imaginou de outra forma, com outra personalidade, jeito, por aí vai. "

—- " Então quer dizer que... Se eu sonhar com você de novo, eu posso te modificar? "

—- " Essa pergunta foi um tanto indecente... Mas sei que você só está assustado e curioso, então vou relevar. E bem, não sei. Depende do seu desejo de me mudar. Talvez me mude, talvez crie outra de mim, não sei dizer. "

—- "Ah, me desculpe. Eu realmente fui indelicado. Obrigado por responder. "

—- " Não se preocupe, Koda! Mesmo você não me conhecendo, te conheço to-di-nho! Sei até mesmo que está envergonhado agora. Mas bem, preciso ir. Conversamos mais tarde, tá ? "

—- " Tá certo. Bom trabalho, Agatha "

Agatha. Agatha era seu nome. O nome que dei a minha versão do gênero oposto. Agora ela estava viva, e falava, pensava, respirava. Aquilo tudo era muito para mim, mas estava tentando pensar numa razão daquilo ser real e não um sonho bem realista. Me belisquei e acabei por confirmar que realmente era tudo real. Guardei meu celular e fui até a minha geladeira, peguei um Beast e abri o mesmo, e sem perder tempo, o bebi todo, refletindo naquilo tudo.

Notas finais
Bem, esse é o primeiro capítulo de minha primeira história aqui! Por favor, deixe seu comentário, dicas e críticas! Obrigado!