O fio da roca
2 O primeiro beijo
— Eu quero ver. – Uma ponta de sorriso surgiu no rosto tristonho do jovem rapaz. – Ao menos deixe me ver.
A senhora também sorriu, não conseguiu se conter:
— Você sempre gosta de ver isso.
— Me dá esperança de que tudo vai ficar bem.
A senhora voltou para a linha e correu o dedo pela extensão dela, indo e voltando até parar em um ponto. Esticou a outra mão para o rapaz que a tocou hesitante. Já não estavam mais ali na sala fria, estavam ao ar livre. O jovem procurou por eles naquele parque até encontrá-los, deitados lado a lado, debaixo da sombra de um ipê branco florido como a neve. A senhora o encorajou a se aproximar. Ele deu alguns passos em direção ao ipê e se virou para vê-la sentada em um banco do lado de outra senhora que lia um livro. Ninguém podia vê-los, eram invisíveis, ninguém sabia de suas existências. Ninguém sabia o papel que cumpriam na vida de todos. A senhora, sua tutora, respirou a brisa e olhou para o céu. Era um fim de tarde agradável.
Criou coragem para se aproximar ao ponto de ouvi-los conversar. Poderia acontecer a qualquer momento.
— Não. – O rapaz mais baixo sorriu. – Aquela nuvem tem formato de um dragão.
— Pra mim é um cachorro.
— Não tem nada a ver com um cachorro. Vira a cabeça assim. Você consegue ver a boca aberta e as chamas saindo?
— Hummm. Não. – Ambos riram quando o mais baixo lhe deu um soco leve na barriga. – Muito bom estar aqui com você.
Houve um longo silêncio, quebrado apenas pelo som da vida ao redor no parque, quando eles viraram o rosto se olharam profundamente. As mãos se tocaram sentindo um leve choque ao se aproximarem tocando os lábios com desejo. Um celular tocou. Ambos se levantaram, ficando sentados.
— Minha namorada.
— Você não vai atender? – O mais baixo disse virando-se de costas e olhando para o lugar que estava o dragão, agora desmanchado, tentando disfarçar a frustração.
— Me desculpa.
— Pelo o quê?
— Isso não deveria ter acontecido.
— Concordo. – A voz não tinha força para afirmar isso.
Continuou de costas olhando o céu enquanto o outro observava seu cabelo, sentia seu cheiro, com vontade de tocá-lo. Não viu ele quase tocar suas costas.
— Olha pra ele, olha pra ele, olha pra ele... – O aprendiz murmurava vendo o rapaz desistir de tocá-lo, se levantar sem dizer nada, sem olhar pra trás tentando fugir no céu.
— Eu não sou gay. – O rapaz dizia ao se afastar, tentando afirmar algo que não estava em seu controle, que era muito maior do que ele, sem convicção alguma.
— Olha pra ele... – Já estava na sala, o calor do parque havia desaparecido, junto com o carro.
— Você sempre tenta fazê-los ouvir-te. – A senhora não aprovou, estava sentada em uma cadeira atrás dele. – Gostei de sentir o calor do sol na minha pele.
— Ela sempre aparece. – Rancor em sua voz.
A senhora ri:
— É o seu papel. Ela nem tem consciência disso. Acalme o seu coração aflito, jovem. Eles irão se encontrar outras vezes e irão se amar. Satisfeito com o que viu?
— Foi como das outras vezes. Foi como ver todos os primeiros beijos.
Os soldados se beijando naquela colina a luz do archote. Os jovens correndo pelas ruas de Roma em meio à chuva. Ele alcançando ela pela cintura, ela soltando um grito assustada por ele a ter alcançado na brincadeira virando-se apaixonada, rendida. Não queria correr mais, queria beijá-lo sem se importar com aquele dilúvio. As duas mulheres no oriente, um beijo rápido, escondido por trás das coxias.
A senhora pegou a tesoura e se levantou:
— O que você vai fazer? Não corte! — Ela não parou, seguiu até as linhas. – Não!
Tarde demais, ele fechou os olhos, não queria ver. Ela gargalhou. Ao abrir havia apenas um pedaço de fio em suas mãos.
— Uma ponta solta no nó. Você sabe o quanto sou perfeccionista. – Ele a encarou. — Não me olhe assim, você sabe que não posso cortar antes do tempo.
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