Notas iniciais
Parte final. Infelizmente tudo chega ao fim e com esse pequeno conto não seria diferente. É o momento de saber se eles irão superar as diferenças e serem felizes. Eu espero que sim, eles tiveram mais uma chance, o destino proporcionou-lhes mais uma chance e ela pode ser única.

— Aquele carro que eu vi... Está acontecendo como em Roma?

— Você fala do dinheiro? – O jovem concorda – Hum. Você sabe que o dinheiro é o deus desse mundo, mas não é mais importante do que o amor.

— Mas influencia e já os impediu de ficarem juntos.

— Ajeite sua saia! – A ama disse quando passeavam pelas ruas do mercado abarrotado de pessoas.

— A saia está se sujando nas poças de lama.

— Uma dama não anda mostrando as canelas dessa forma.

Abaixou a saia do vestido bufando e resmungou:

— Uma dama não devia precisar usar tudo isso de roupa.

— O que você disse, senhorita?

— Nada, nada.

A ama encarou-a por mais alguns segundos até voltar a se distrair com os temperos. O dia estava relativamente quente. A jovem olhava ao redor entediada com tudo aquilo. Odiava ir ao mercado, mas sua mãe insistiratanto para sair do quarto quefoi obrigada a ceder, justamente naquele dia. Nunca cedia, mas sentiu um forte desejo de andar ao ar livre, as linhas se conectaram aquele dia. Arrependeu-se no momento que pisou o pé pra fora de casa. O mercado estava cheio demais, pessoas suadas trombando nela e o cheiro de carne exposta. Preferia estar na igreja rezando diversas ave-marias, outra coisa que detestava, do que estar ali. Procurava nos rostos alguém conhecido, porém não viu ninguém, nada. Afastou-se da ama seguindo até uma barraca de joias. Uma pedra branca havia lhe chamado atenção, parecia neve, alva como a neve. A alguns metros da barraca, um jovem sujo sentado no chão com uma caneca esticada na mão pedia dinheiro.

— Uma moeda, por favor. – Um homem passou direto ignorando-o – Senhora, uma moeda. – A mulher desviou do caminho assustada.

A jovem parou em frente ao rapaz, seu rosto era sujo, com pelos. Ele olhava pros sapatos da moça e para a barra suja do vestido. Seus olhos seguiram a extensão do corpo dela até cruzar o olhar. Ambos ficaram hipnotizados por alguns segundos. Até ela quebrar sem entender porque estava encarando aquele homem, balançando a cabeça pegou uma moeda de dentro do vestido e colocou na caneca:

— Senhorita, o seu vestido está sujo.

Ela sorriu.

— Odeio esses vestidos.

O golpe foi rápido o suficiente para ela não conseguir desviar, sua orelha foi agarrada e viu-se ser arrastada pelo meio da rua, chamando atenção de todos:

— Nunca mais saia de perto de mim. O que você fazia conversando com aquele mendigo sujo.

Era ela, a namorada na outra vida, personificadana ama. Estava ali pra atrapalhá-los. Foi ela que os denunciou, quando eles planejaram fugir, depois daquele beijo no temporal. Eles iriam começar uma vida nova, em qualquer outro lugar, longe de tudo, da família, do dinheiro. Seu pai a trancara no quarto e prometera matá-lo. Gritara a todo s pulmões:

— Que futuro ele te dará? Você vai passar fome. Um pobre que não tem onde cair morto. Acha que amor é suficiente pra se manter uma vida. Filha minha não nos trará essa vergonha. Você casará com quem eu escolher. Ele será um homem morto.

Mesmo com as súplicas e o choro, a chave foi passada no ferrolho. Ele a esperava na praça em que sempre se via se amavam. A arma foi erguida mirando no rapaz de costas a procura dela. O som do tiro, ela parou de chorar levando a mão ao peito.

O jovem aprendiz acordou assustado com o som do tiro. Havia pegado no sono e sonhado com o passado. Coçou os olhos. Estava sozinho na sala, a senhora havia saído. Levantou-se e olhou para o corredor que levava até a porta. Sem sinal dela. Ela nunca se ausentava da sala. O fio estava sozinho, sem ninguém para olhá-lo. Queria se aproximar e tocá-lo, ver mais um pouco. Deu um passo em direção ao fio, olhando pra trás para a porta. Parecia que o fio brilhava. Tocou-o, seu corpo mergulhou em um espaço vazio e viu-se em um restaurante. A luz do local era fraca tornando o ambiente um pouco escuro. “Onde eles estavam?” Um garçom passou pelo seu corpo, mas ele não sentiu nada. Seguiu o garçom após o susto, ele levava uma garrafa até uma mesa ao fundo.

— Obrigada. – disse a mulher de cabelo platinado ao ser servida pelo garçom. – Você não vai beber? Acredito que não é todo dia que se tem a oportunidade de beber um vinho como esse lá de onde você veio.

— Obrigado. Eu prefiro não beber.

— Confesso que isso tudo me surpreendeu muito... O meu filho gay? Eu nunca tinha pensado que isso fosse possível até você aparecer. – Ela parou, respirou como se tentasse controlar a raiva e tomou um gole do vinho – Eu vim até você desarmada, não vim aqui pra brigar. Já percebi que isso não vai adiantar, a cabeça dele não anda no lugar, ele nem quer me ouvir. Disse que é com você que quer ficar. Eu não vejo outra escolha a te pedir, suplicar, implorar, como mãe. – Ela deixa a taça e toca a mão do rapaz. – Deixe o meu filho em paz. – O rapaz puxa sua mão, “então era isso que ela queria. Em pensar que talvez esse jantar fosse um tratado de paz”. Queria chorar, não iria suportar olhar pra ela. – Deixe-o viver a vida dele como ele já vivia antes de você. Meu filho terá um futuro brilhante fora daqui no exterior. Você sabia que ele já planejava um casamento? Acredito que ele não deve ter te contado. Ele iria pedi-la em casamento. Até já tinha comprado a aliança. Pode perguntar pra ele se duvidar de mim. – Ela sorri – Como você consegue dormir sem pensar nas vidas que você está interferindo, que você está destruindo, por uma paixãozinha boba, efêmera, uma vida inteira ser jogada fora. Isso é inaceitável. Ele não vai mudar de ideia. Eu vim aqui pra apelar para o seu bom senso de terminar com algo que nem deveria ter começado.

O rapaz se levantou afastando bruscamente a cadeira, as pessoas ao redor o olharam. Pegou sua mochila e não encarou mais a mulher. Aquilo tudo foi como um tiro.

O aprendiz voltou para a sala fria, ainda estava vazia. Onde ela deixava? Procurou pelos fios jogados no chão. Ela reluzia a pouca luz que entrava ali. Pegou-a, precisava fazer, precisava cortar. Abriu-a sobre o fio, mas ao momento do corte a senhora segurou seu pulso:

— O que você está fazendo?

— Eu preciso cortar. Ele está sofrendo.

— Não! Você não pode!

— Eu tenho que fazer. – Ele empurra a sua mão determinado a cortar.

A senhora, surpresa com a sua atitude, tenta tomar a tesoura de sua mão, segurando o pulso do rapaz. Ele tenta se desvencilhar e crava a tesoura em sua barriga:

— Esse sofrimento tem que acabar. – Ele espeta vezes consecutivas a tesoura na barriga dela, a ira em seus olhos.

A senhora segura o corte ensanguentando a mão e cai no chão. O rapaz se joga sobre o corpo dela batendo a tesoura mais vezes, chorando, gritando.

Ele se levanta enxugando as lágrimas com sangue e corta o fio. A linha cai no chão.

— Nós não podemos ficar juntos. – disse o rapaz mais baixo.

— Por quê? Eu pensei que nós estivéssemos bem.

— Eu pensei melhor e nós não temos nada a ver um com o outro. Isso não vai dar certo de qualquer forma, você sabe disso também.

— Eu não entendo. Aconteceu algo? Eu fiz algo?

— Não. Eu não posso ficar aqui mais. — O rapaz balança a cabeça começando a se afastar.

— Por que você está fazendo isso? Eu amo você. Eu quero ficar com você. Não faz isso comigo. Eu nunca me senti tão vivo antes. Lágrimas vinham em seus olhos.

O rapaz mais baixo se afastava. Olhou pra trás uma última vez, queria gravar na memória aquele rosto que tanto amou. Sentiu o choque e suspirou. Caiu no chão sem forças. O rapaz mais alto correu até ele abraçando o seu corpo, não conseguia sentir o coração dele:

— Não, não, não. Fica comigo. Por favor, não vai. Fica comigo. Eu te amo. – Abraçava mais forte. – Não faz isso comigo...

O aprendiz chorava. O que tinha feito? Ele não devia ter feito isso. Soltou a tesoura e olhou pra senhora que agonizava no chão. Ela em um último suspiro ergueu a mão e apontou pra roca. O aprendiz puxou o fio resignado e conectou-os na próxima vida.

Notas finais
Espero que tenham gostado desse pequeno conto e que tenham se apaixonado por ele como me apaixonei ao escrever. Gostaria muito de explorar essa história e contar mais sobre as outras vidas, quem sabem num futuro próximo, rss. Deixem um comentário, é muito importante. *-* Obrigado!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!