O fio da roca
1 O nascimento do fio
A mulher puxou o fio da roca de tear até o fim e o amarrou a outro fio que cruzava a sala:
— Você está entrelaçando a vida deles mais uma vez. – disse o jovem parado a porta com as mãos cruzadas a frente do corpo.
— Sim. – A mulher passou o dedo pela extensão da linha até o ponto onde os fios se encontravam procurando uma imperfeição, algum erro. As linhas seguiam como uma só após aquela intersecção.
— Isso é crueldade.
— Todos merecem mais uma chance.
— Sem saber o que foi, o que passou, não deixa de ser crueldade.
— Crueldade é insistir no mesmo erro.
O jovem entrou na sala caminhando até as duas linhas. Eram perfeitas, quis tocá-las mesmo sabendo que não era permitido. Ele ainda não estava pronto, tinha muito a aprender. Apenas um toque, um vislumbre.
— Não... Você sabe quais são as regras. – A mulher olhou nos olhos do jovem aprendiz. –O nosso papel é apenas tecer as linhas, cruzá-las e observar... sem interferências.
— Por que insistir nisso tudo? Por que você não simplesmente desfaz esse laço e cruza as vidas deles com as de outras pessoas.
A mulher sorriu afetuosamente dando pra ver as rugas de seu rosto por trás dos óculos.
— É o destino.
A tristeza no olhar do jovem era evidente.
— Não podemos fazer nada. Enquanto eles não aprenderem a superar as diferenças o ciclo nunca será quebrado, a história sempre irá se repetir. Não há nada que possamos fazer. – disse a senhora com pesar. – Eu nunca perco a fé, eu sempre acredito e digo pra mim mesma: dessa vez será diferente. Eu tenho que acreditar.
— Não sei se ainda tenho a mesma fé.
A senhora retirou os óculos pendurando-os na roupa. Tocou as mãos do jovem olhando com caridade. Aquele emprego não era pra qualquer um. Havia a exigência de ter o mínimo possível de empatia para não se envolver. O destino não estava nas mãos deles, apenas os fios. Ela balançou a cabeça positivamente apontando com o nariz para o cruzamento.
— Toque.
— Mas... – Não havia questionamento, há muito ele queria tocar os fios.
Tocou o nó sentindo seu corpo desaparecer da sala e parar em meio a uma multidão, sentia o cheiro do suor, do álcool, ouvia o som alto. Era um baile. Estava lá, mas ao mesmo tempo estava na sala. Era sua consciência, ainda sentia na pele o frio da sala. Avistou-os ao longe e não conseguiu conter o sorriso. Era linda a forma como eles se encontravam ao acaso. Não era o acaso, era ela, a senhora. Ela já recebera vários nomes, acaso era um deles.
Um trombara no outro. Isso era tão clichê, mas não perdia a singular beleza:
— Desculpa. – Um deles disse.
— Perdão, fui eu que trombei em você. Te molhei?
Procurou qualquer mancha na roupa, mas não encontrou nada.
— Tá tranquilo. – Ergueu o olhar para o rapaz a sua frente segurando a bebida na mão.
Ambos pararam se olhando por trás das máscaras, hipnotizados.
— Esse olhar. – A senhora estava do lado do rapaz. – As almas se reconhecendo.
— Dois homens?
— Almas não tem sexo.
— Mas eles já enfrentaram esse tipo de conflito antes.
Ela concordou apenas com um aceno de cabeça sem perder sua seriedade.
O rapaz lembrou-se das linhas cortadas no chão da sala, jogadas em um canto, de cada história perdida. Lembrou-se de quando eles se encontraram há muito tempo atrás. Um achara o outro ferido com um corte na barriga, moribundo, com o corpo deitado sobre o cavalo que andava perdido. O outro havia parado para o cavalo beber água em um riacho quando avistou o cavalo branco a passos fracos e o corpo do homem caindo no chão. Atravessou o riacho e levantou-lhe a cabeça. Eles se olharam como naquele baile, hipnotizados um com o outro, o reconhecimento. Tratou da ferida dele, cuidou do estranho até este poder estar melhor, até esse andar. O país deles estava em guerra, eram inimigos, mas não naquele momento de fragilidade. Eram humanos antes de tudo.
— Seus pensamentos vagueiam jovem. Você fala sobre crueldade, mas em todas às vezes eles tiveram escolha, tiveram livre arbítrio e escolheram errado. Pagaram pelas suas escolhas, sempre pagam.
— Há forças maiores que os impedem de ficar junto. Isso não é justo. A sociedade em que eles viviam...
— A guerra não era deles, nunca foi. Eles eram apenas peões em um jogo maior. E mesmo assim escolheram ficar frente a frente em trincheiras diferentes. Lembra-se como quando um olhou para o outro, a dor que eles sentiram...
— Eles cumpriram com a obrigação deles na época.
— O amor é mais importante do que qualquer uma dessas obrigações. Eles podiam ter abandonado tudo aquilo, fugido, sair do país, mas não, estavam matando, se matando. As espadas deles se tocaram e eles perderam a força, não conseguiam se machucar, era como ferir a si próprio. Mas quando ele. – Ela apontou para o rapaz mais baixo que sorria pro outro em uma conversa animada – Quando ele se feriu, ele jogou a espada no chão. Me lembro até hoje da forma como ele gritou ao ver o seu amor morrer. Em pensar que tudo isso poderia ser evitado. Eu te amo, ele murmurava, eu te amo. Mas já era tarde. Eu já havia cortado o fio.
— Sério? – O rapaz que derrubou a bebida, o mais alto, disse – Nós estudamos no mesmo lugar e eu nunca te vi.
Uma moça foi até eles e abraçou as costas do rapaz mais alto:
—Oi!
— Ela está aqui? – O jovem aprendiz perguntou.
— Eles os seguem não importa o lugar que eles forem. O papel deles é destruir a felicidade dos dois.
— Ela foi o general que convenceu ele a guerrear quando ele pensava em desistir e agora ela é...
— Sou a namorada dele, prazer.
Ela esticou a mão, ainda abraçada com o rapaz que ficou sem jeito. O mais baixo apertou sua mão, sentindo um choque, uma sensação estranha, um desconforto.
— O prazer é meu.
— Vocês estavam conversando animados. Eu tinha que vir até aqui saber qual era o assunto. – Ela riu.
— Nada importante, ele só estava me contando que estudamos na mesma faculdade. – Respondeu o namorado.
— Ah é?
O rapaz mais baixo afirmou com um aceno de cabeça e disse:
— Eu preciso ir. Meus amigos estão me esperando.
Afastou-se sem ao menos dizer um tchau. A decepção no olhar dos dois.
— Não olhe assim, meu querido. – Eles estavam de volta à sala fria, as pessoas ao redor sumiram. – Eles irão se encontrar de novo, irão se apaixonar e espero que tenham força para superar as diferenças.
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