O filho do Presidente
26 Diário de sentimentos
Notas iniciais
Dia qualquer, mês qualquer, ano qualquer.
Querido caderno que eu supostamente vou chamar de diário, bem-vindo ao mundo.
Não sei exatamente o que fazer para chamar você pra cá, para o mundo dos vivos, mas dizer que você vai servir para ser meu companheiro e que irá fazer parte da minha vida por sei lá quanto tempo, deve ser um começo.
Espero que a minha relação com você seja mais promissora que todas as outras que eu já tive nessa vida. Acredito que, pelo menos, você não irá me julgar — sob qualquer perspectiva, a não ser pelas arestas das páginas brancas que lhe compõem.
Minha vida já é bastante complicada como está, eu não preciso de ninguém mais me julgando. Não que um caderno possa ter qualquer capacidade de analisar minhas possíveis ações e decisões e divulgar alguma coisa a respeito delas para a minha pessoa.
Mas só a possibilidade de mais coisas se aventurando na minha existência com o objetivo de interferir nas minhas decisões, me deixa maluco — e o fato de eu estar teorizando as possibilidades que um caderno tem de me julgar não me ajuda em nada a ter uma ideia do que isso diz sobre a minha mentalidade.
Bom, louco eu não sou, okay? É só que, bem, nos últimos dias eu tenho estado um pouco pirado? Como uma coisa normal que as pessoas passam vez ou outra, sabe? Quando elas ficam meio perdidas no próprio mundo, quando não sabem por onde começar contar os passos, por onde fazer as coisas acontecerem. Não sabem por onde viver — nem é como, mas sim por qual caminho a pessoa vai tropeçar seus passos para o futuro.
É bem assim que eu me sinto.
Depois que meu pai, o Presidente dos Estados Unidos da América, sofreu um atentado e teve que ir para o hospital para se tratar, duas semanas atrás, ele ainda não teve a chance de voltar para casa em tempo integral — ou qualquer tempo, pra ser bem realista.
Ele está bem, se recuperando e tudo mais, mas só de pensar que eu quase tive a chance de perder a única parte da minha família que ainda está viva me assustou. Eu ainda sinto o medo que me atacou naquela hora — se por acaso eu deixar minha mente vagar demais pelos lugares obscuros da minha cabeça eu vou lembrar-me das coisas, vou deixar me perder no momento.
Eu não consigo esquecer o som dos tiros, os gritos das pessoas e a confusão que se instalou naquele momento. Da minha cabeça aquelas coisas não saem — mas elas só aparecem como sons. É estranho eu não me lembrar das coisas com meus olhos, como se as imagens tivessem sumido.
Mas sempre que eu fico em silêncio os sons se mostram — e essas lembranças parecem mais vivas do que eu gostaria.
E não conseguem se esvair assim facilmente.
E como eles não se esvaem, minha doutora disse que seria bom e colocar eles em algum lugar, como uma espécie de transferência de pensamentos — ou qualquer coisa que, psicologicamente, se assemelhe a isso. Ao mesmo tempo em que eu posso desabafar com alguma coisa eu tenho a oportunidade de me conhecer e reconhecer, cada vez mais.
É tudo bastante filosófico e bonito — só não sei se dá certo.
***
Quando fui para trabalhar no café naquela manhã, alguns dias depois de ficar correndo atrás de Stiles, idas e vindas ao encontro dele, conversando e procurando informações sobre o futuro do Presidente, tudo parecia que tinha voltado ao normal.
Bom, pelo menos, parecia, com a sombra do pior tendo se mudado para algum outro lugar bem longe.
Eu não ia mais ao hospital ver ele, tanto porque os seguranças tinham fechado o cerco cada vez mais ao redor do Presidente e de Stiles, e também porque eu não fazia a mínima ideia de onde nós tínhamos ficado em relação a nós dois.
Durante os dias que se seguiram ao nosso primeiro beijo, nós ficamos próximos um do outro, mas nada evoluiu a partir daquilo. E não havia nem espaço para haver uma evolução — eu tinha que deixar Stiles priorizar as coisas certas para o momento, e a principal delas era cuidar do pai.
Então nós continuamos conversando por mensagens ou ligações de telefone à noite, que fizeram com nós nos aproximássemos mais ainda. Nós conversávamos sobre um pouco de tudo, principalmente o que cada um tinha na cabeça, as lembranças, as coisas legais que cada um passou, memórias importantes para cada um, fatos curiosos e tudo mais que cada um queria falar sobre si.
Coisas que as pessoas compartilham quando querem se conhecer.
E nós estávamos fazendo exatamente aquilo.
Era bom.
Era bom ter essa oportunidade de falar com alguém que estivesse nos ouvindo apenas porque nós importávamos, sabe? Era bom saber que tinha alguém que se dispunha a discutir coisas comigo e também alguém que eu poderia doar um pouco do meu tempo, alguém que iria apreciar isso e também daria alguma coisa de volta.
Eu era um alguém assim para Stiles e ele era esse um alguém para mim.
Eu não compreendo o que tudo isso significa na sua exatidão, sei que parece filosófico e tudo mais, mas parece importante.
E eu sinto como uma coisa importante. Sinto que as coisas são melhores quando nós podemos nos conectar, mesmo estando longe, que nós podemos lembrar um do outro de alguma forma, podemos colocar as ideias no lugar e seguir nosso caminho ao mesmo tempo em que podemos segurar um na mão do outro para conseguir suportar o nosso caminhar.
É estranho pensar em todas essas coisas e imaginar que elas já pairam sobre nós. Que os sentimentos surgiram, se mostraram e já fazem parte da nossa vida. E como eles são bons, como essa sensação se pertencer a alguém, de pertencer a alguma coisa faz bem, nos faz melhor.
E como pensar em como a vida é bela enquanto a gente faz um sorvete cria a possibilidade de a gente derrubar uma das bolas no chão e ter que limpar tudo enquanto todos os outros que trabalham se arrumam para ir embora.
Mas mesmo ajoelhado e esfregando o chão, o sorriso bobo não saía do meu rosto.
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