O espelho de duas sombras

3 Capítulo 3: A Penumbra das Lanternas de Papel


Notas iniciais
O "Eu te amo" que nunca foi dito de verdade 💗

O festival de inverno de Konoha era uma Tapeçaria de luzes em meio à vastidão branca da neve. Barracas alinhadas ofereciam o calor do sake quente e o aroma doce do dango, enquanto os moradores se aglomeravam sob as lanternas de papel que balançavam com a brisa gélida. Para a vila, era um momento de celebração da resiliência; para Kakashi Hatake, era o ápice de sua própria encenação.

Como Sexto Hokage, sua presença era o centro do evento. Ele caminhava entre a multidão com a capa branca ondulando ao vento, cumprimentando os anciãos e sorrindo com os olhos para as crianças. No entanto, por dentro, ele sentia a estranha náusea da dissociação. Ele via a si mesmo de fora, como se o homem que apertava mãos fosse apenas um boneco de engrenagens, enquanto sua verdadeira consciência flutuava em algum lugar próximo, buscando desesperadamente o seu ponto de ancoragem.

Ele buscava Iruka.

A filosofia daquela busca era quase metafísica. Kakashi não procurava apenas a presença física de Iruka; ele buscava o pedaço de sua própria alma que Iruka guardava. Sem o olhar de Iruka sobre si, Kakashi sentia-se um rascunho inacabado, uma sentença sem ponto final. No País do Fogo, ser Hokage era pertencer a todos, o que, na prática, significava não pertencer a ninguém. Exceto por aquela conexão invisível.

Iruka estava perto da barraca de máscaras da Academia, cercado por alunos entusiasmados. Ele usava um kimono azul-escuro que destacava a calidez de sua pele contra a neve. Quando seus olhos se encontraram com os de Kakashi através da multidão, o tempo em Konoha pareceu sofrer uma dilatação. Não houve acenos, nem sorrisos exagerados. Foi apenas o reconhecimento de dois espelhos que, por um breve segundo, alinharam-se perfeitamente.

“Sou o seu reflexo”, a frase ecoava na mente de Kakashi como um mantra. Ele via em Iruka a alegria genuína que ele mesmo não podia mais manifestar de forma espontânea. Iruka era o seu "eu" que ainda acreditava na beleza das luzes, enquanto ele era o "eu" de Iruka que carregava o peso das decisões sombrias.

Aproveitando um momento em que os conselheiros se distraíram com uma apresentação de fogos de artifício, Kakashi moveu-se com a sutileza que só um mestre do assassinato poderia possuir, deslizando para as sombras atrás do grande Templo de Madeira, onde o barulho da festa chegava apenas como um eco abafado.

Segundos depois, Iruka estava lá. O encontro nas sombras era o ritual deles, o avesso do espetáculo público.

— Você está exausto — disse Iruka, sem preâmbulos. Ele não usou títulos. Naquela escuridão, a hierarquia de Konoha era uma farsa.

— O peso da coroa é mais frio que esta neve, Iruka — Kakashi respondeu, encostando as costas na madeira gelada do templo. — Às vezes, sinto que se eu parar de atuar por um minuto, a vila inteira perceberá que não há ninguém sob esta capa. Que sou apenas um simulacro de Hokage.

Iruka aproximou-se, eliminando a distância que o protocolo impunha durante o dia. Ele estendeu as mãos e segurou o rosto de Kakashi, o calor de suas palmas atravessando o tecido da máscara. Foi um gesto carregado de um lirismo trágico. No silêncio, a música implícita tornava-se o som da respiração de ambos.

— Eu vejo você — sussurrou Iruka, os olhos brilhando com uma intensidade que rivalizava com as estrelas de inverno. — E enquanto eu vir, você será real. Você busca em mim o que já possui, Kakashi. Essa força, essa bondade... elas são suas. Eu apenas as reflito para que você não as esqueça no meio do barulho.

A proximidade era perigosa. O País do Fogo não perdoaria aquela vulnerabilidade no homem que deveria ser seu escudo. Eles eram duas sombras fundindo-se em uma só, um beijo roubado ao destino sob o pretexto do dever. Kakashi fechou os olhos, permitindo-se, por um instante, não ser o Sexto Hokage. Naquele momento, ele era apenas o "eu" que Iruka amava.

De repente, o som de passos sobre a neve crocante estalou nas proximidades. O instinto shinobi de ambos disparou simultaneamente.

— Alguém está vindo — sussurrou Kakashi, sua voz voltando à frieza do comando, embora seu corpo ainda buscasse o calor de Iruka.

Eles se separaram instantaneamente. A geometria do silêncio voltou a se impor. Quando um jovem oficial da ANBU dobrou a esquina do templo, encontrou apenas o Hokage observando o horizonte com aparente indiferença, e o instrutor da Academia ajustando o cachecol, como se tivesse acabado de passar por ali.

— Hokage-sama, o Daimyo solicita sua presença para o brinde final — informou o oficial, a voz robótica por trás da máscara de porcelana.

— Já estou indo — respondeu Kakashi, o tom monótono e impecável.

Ele caminhou de volta para a luz, para o palco, para a mentira necessária. Mas, ao passar por Iruka, o roçar de suas mangas foi o suficiente para transmitir a promessa: o que eles tinham em si era maior que o festival, maior que a vila e mais eterno que o inverno.

Eles continuariam a ser sombras separadas pela luz das lanternas, mas no espelho de suas almas, eles sabiam que nunca mais estariam sozinhos. A busca pelo outro era, no fim das contas, a única forma que encontraram de finalmente voltarem para casa, para dentro de si mesmos.

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