O espelho de duas sombras
1 Capítulo 1: O Simulacro de Vidro
A luz do entardecer em Konoha tinha a cor de uma ferida aberta, mas era uma ferida gelada. O sol de inverno, pálido e distante, não oferecia calor, apenas uma iluminação crua que destacava cada rachadura nas telhas da vila e cada ruga de cansaço no rosto do Sexto Hokage. Do alto da sacada de granito do gabinete, Kakashi Hatake observava as ruas começando a acender suas lanternas de papel. Eram pequenos pontos alaranjados que tentavam, em vão, expulsar a sombra azulada e gélida que avançava sobre o País do Fogo. Ele ajustou o protetor de testa por puro reflexo, sentindo o metal congelado contra a pele como se fosse um ferrete.
Ser o Sexto Hokage era, em última análise, um exercício contínuo de desaparecimento. Kakashi Hatake, o homem que buscava o isolamento sob as copas das árvores no verão, agora via-se confinado entre paredes de pedra que pareciam exalar o hálito do inverno. Ele havia se tornado uma imagem de pedra, um simulacro estático para o consumo de uma nação que demandava perfeição e sacrifício.
Ele suspirou, o ar quente ficando preso nas tramas do tecido da máscara, condensando-se em uma umidade que o lembrava de sua própria respiração. A máscara não era mais para esconder o Sharingan; era para esconder o fato de que, por trás da lenda, restava apenas um homem exausto de carregar fantasmas sob o céu cinzento. A solidão era uma velha amiga, mas desde que Iruka Umino entrara em sua vida de forma tão definitiva, a solidão havia se tornado uma tortura, um lembrete constante do que lhe era permitido ter no segredo e do que lhe era negado pela geada do dever público.
A batida na porta foi rítmica, precisa. Uma cadência que Kakashi conhecia antes mesmo de processar o som.
— Entre — disse ele, sem se virar. Sua voz era uma ferramenta bem calibrada, projetada para transmitir uma calma que ele mesmo não sentia.
— O relatório de danos da missão na fronteira e o cronograma de suprimentos para o inverno na Academia, Hokage.
A voz de Iruka Umino trouxe consigo um rastro quase imperceptível de giz e sândalo. Ele estava parado ali, com a postura impecável de um shinobi. Os olhos castanhos estavam fixos em um ponto neutro, evitando o contato que pudesse trair a barreira de vidro que ambos haviam construído.
— Obrigado, Iruka-sensei — respondeu Kakashi. Ele finalmente se virou, mas manteve a distância da mesa de carvalho.
Nesse instante, o silêncio se tornou uma entidade física na sala. Era o silêncio de quem tem o universo para dizer, mas as cordas vocais presas pela neve que cobria Konoha. Kakashi sentia que seu próprio "eu" estava migrando para o homem à sua frente. Iruka era o receptáculo de todas as suas partes humanas.
Kakashi olhou para as mãos de Iruka, que seguravam os pergaminhos com uma firmeza que escondia um leve tremor devido ao frio dos corredores. Ele sabia o calor daquelas mãos. Ele sabia como elas eram o único fogo capaz de aquecê-lo, mas ali, sob o olhar vigilante dos retratos dos Hokages anteriores, aquelas mãos eram estranhas, distantes.
— O Conselho está pressionando por novas diretrizes de defesa — Kakashi continuou, preenchendo o vazio. — Eles temem que a neve dificulte a patrulha e querem que a Academia reduza o tempo de teoria. Eles temem a paz tanto quanto temiam a guerra.
Iruka finalmente subiu o olhar. Por um breve segundo, a máscara de profissionalismo trincou. Não foi o Hokage quem ele viu; foi o homem que, na noite anterior, buscara abrigo em seus braços. O olhar de Iruka era um espelho onde Kakashi via sua própria alma refletida, mas era um espelho que ele não podia tocar em público.
— A paz é frágil, mas as crianças não devem ser o preço a pagar pela insegurança dos adultos, Hokage-sama — Iruka disse, a voz firme. — Se sacrificarmos a essência do que ensinamos para criar soldados mais rápidos, perderemos o que nos torna humanos.
"Perderemos o que nos torna nós", foi o que Kakashi ouviu.
A filosofia daquela relação era mística e cruel. Kakashi percebia que buscava em Iruka as respostas para perguntas que ele mesmo já portava. Ele buscava em Iruka a validação de que ainda existia. Eles eram metades de um mesmo ser, operando em frequências distintas para que o todo pudesse sobreviver. Se um caísse, o outro desmoronaria.
— Você está certo, como sempre — Kakashi murmurou, permitindo que um rastro de cansaço vazasse em sua voz. — Mas o País do Fogo exige força. Eles não entendem o sacrifício do silêncio sob a neve.
Iruka deu um passo à frente e então parou. O espaço entre eles parecia uma milha de distância.
— Talvez eles não precisem entender — sussurrou Iruka. — Desde que nós saibamos o que guardamos. O que eu sou em você, e o que você é em mim... isso pertence ao que sobra quando a máscara cai.
— Pode retirar-se, Iruka-sensei — Kakashi cortou, subitamente frio. A necessidade de protegê-lo era maior que a necessidade de estar perto.
Iruka assentiu e saiu, seus passos ecoando no corredor de mármore gelado. Sozinho novamente, Kakashi voltou-se para a janela. A noite havia caído e os primeiros flocos de neve começavam a dançar no vidro.
"Sou o seu reflexo", pensou Kakashi, sentindo o batimento cardíaco de Iruka ressoar no seu próprio pulso. Eles habitavam um ao outro de tal forma que a solidão era apenas um simulacro de vidro, pronto para ser quebrado assim que as luzes da vila se apagassem e o inverno lhes desse uma trégua de poucas horas.
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