Notas iniciais
Então... acho que vamos esperar um pouquinho pelo casamento rs.

Fiquei de costas para o espelho enquanto colocava o vestido de noiva.

Não sei se o motivo disso era um desejo de me surpreender quando visse o efeito de tudo junto, vestido, maquiagem e cabelo – o coque intricado com a tiara delicada reluzindo contra meus cachos brilhantes e escuros – ou se eu estava com medo de olhar o reflexo e não me achar tão bonita quanto esperava.

– Tem certeza de que não quer ajuda? – gritou Mindy pela porta que ligava os dois quartos da suíte que Quinn reservara na propriedade dos Fabray para que eu me arrumasse. – Sou sua dama de honra!

– Não, tudo bem. Já vou terminar.

Queria estar sozinha quando me visse pela primeira vez como Quinn iria me ver...

Puxando a seda pesada e branca em volta do corpo – das minhas curvas – apertei o vestido contra a barriga com a mão esquerda, mantendo-o no lugar enquanto levava a direita às costas para puxar o zíper o máximo que pudesse.

Quando minha mão parou, incapaz de ir mais longe, comecei a sorrir, lembrando-me de como Quinn tinha me surpreendido fechando um vestido semelhante, numa loja do condado de Lebanon.

Esta noite Mindy ou mamãe iriam me ajudar. No futuro, porém, fechar aqueles últimos centímetros seria sempre trabalho de Quinn. Eu sentiria seus dedos frios roçarem minhas costas, como ela havia feito da primeira vez. Só que não tentaria lutar contra o arrepio, como tinha feito na ocasião.

– Rach, estamos morrendo de ansiedade aqui fora! – gritou Mindy. – Anda logo!

– Estou indo – prometi, rindo do entusiasmo de Mindy.

Mas ainda me demorei alisando o tecido, sentindo a maciez da seda e a aspereza da renda e das contas – um contraste que me lembrava a própria Quinn – antes de finalmente me virar para olhar no espelho.

E a pessoa que vi refletida ali...

Uau!

– Uau! – Mindy falou em voz alta o que estava no meu pensamento, praticamente derrapando depois de passar correndo pela porta.

Ela parou e olhou para mim. Depois chegou mais perto, andando devagar, como se tomada por um espanto reverente pelo vestido. Ou talvez um espanto reverente por mim. Talvez, pela primeira vez, me visse realmente como uma princesa; porque era assim que eu me sentia, era isso o que minha postura anunciava.

– Uau! – repetiu ela, se aproximando, de modo que nós duas víssemos meu reflexo no espelho.

Mamãe também se juntou a nós, parando atrás de mim e pondo as mãos nos meus ombros nus. Vi que ela também me achou linda. Diferente.

– Você vai deixar a Quinn sem ar – garantiu ela.

Não falei nada, porque não queria parecer convencida. Como poderia explicar que eu não era uma garota “bonitinha”, que naquele momento me sentia a mulher mais linda da face da Terra?

O corpete do vestido caía em mim como uma luva, acentuando as curvas que Quinn tinha me ajudado a aceitar, antes de se abrir numa cauda larga, branca como neve. Mas o corpete não era apenas branco, como um vestido de noiva tradicional. Tinha sobreposta uma seda preta tão delicada, tão transparente, que criava um lindo efeito de névoa, suave e gris, em volta de mim.

Esse detalhe poderia bastar para tornar meu vestido pouco convencional. Mas eu queria mais do que um vestido diferente. Queria um vestido que mostrasse a pessoa que eu tinha sido no passado – aquela garota virginal – e também a mulher, a governante, que eu sabia que estava me tornando. E assim instruí o alfaiate a acrescentar uma cascata de flores de renda preta, bordadas à mão com contas, retorcendo-se como uma trepadeira selvagem em volta do meu corpo. Um toque escuro, dramático, que, para mim, simbolizava o que Quinn chamava de “lado obscuro da natureza”, ao qual eu havia me juntado quando ela me tornou vampira e que eu estava destinada a governar com ela.

No espelho encarei meus olhos – escuros e dramáticos também, graças à maquiagem feita por Mindy – e então acreditei nas palavras de minha mãe. Eu realmente poderia tirar o fôlego da Quinn, como tinha esperado.

O espelho também refletia a janela do outro lado do quarto e notei que a luz lá fora ia se esvaindo. Os vampiros talvez já estivessem se reunindo no local secreto que Quinn havia escolhido para a cerimônia. E eu estava quase pronta, a não ser por uma coisa...

De repente o silêncio que havia caído no quarto foi interrompido por uma batida à porta que dava no corredor. Esqueci meu vestido por um momento – e que mamãe e Mindy estavam ali para fazer coisas como abrir portas para a noiva – e corri para atender.

Abrindo a porta, encontrei a pessoa que eu havia previsto, de certa forma com pavor, que estaria me esperando. Com a garganta subitamente apertada, assenti para que ele entrasse, sabendo que o serviçal não precisaria de fato de nenhuma instrução.

E, como eu esperava, ele caminhou diretamente, sem dizer nada, até uma mesinha e pousou a bandeja de prata que trazia.

Então, ainda sem dizer nenhuma palavra, ele se retirou para esperar do lado de fora enquanto eu realizava o primeiro ritual do meu casamento. O que mais me preocupava.

Parei diante da mesa examinando os objetos na bandeja, não totalmente pronta para tocá-los. Havia uma pequena taça de prata com tampa, o padrão de videiras gravado nela escurecido pelo correr de gerações e o azinhavre tão forte que nem o melhor polimento removeria. Os desenhos lembravam as rosas de renda que contornavam meu vestido, o que me deixou mais feliz ainda por ter escolhido esse detalhe. Parecia que, enquanto criava meu vestido, eu tinha de algum modo me ligado à minha mãe, à mãe dela e a todas as mulheres Dragomir que haviam usado aquela taça antes de mim.

Minhas ancestrais também tinham usado a faca de prata posta ao lado da taça. E a colher onde havia um punhado de ervas. E as tiras de tecido de algodão dobradas sob a faca.

Mamãe pôs as mãos nos meus ombros de novo. Eu nem havia percebido que ela e Mindy tinham se juntado a mim perto da mesa. Virei-me um pouco para ver o rosto dela.

– Mamãe...?

Mas eu não sabia direito o que queria perguntar. Sabia o que tinha de fazer.

Mamãe me deu um sorriso tranquilizador e eu ganhei um pouco de força com a calma que ela aparentava.

– Você vai ficar bem – prometeu ela. Depois me virou de frente para ela e me puxou, apertando-me com força. – Vou me juntar aos outros convidados – disse, recuando, mas ainda segurando minhas mãos, mantendo-nos ligadas.

– Mamãe! – reclamei, apertando seus dedos. – Não vá ainda!

Mas ela balançou a cabeça.

– Não, Anastácia. Esta na hora de eu ir.

Eu conhecia minha mãe o bastante para entender que ela havia escolhido deliberadamente aquele momento – e que usara de propósito meu novo nome. Ela estava me lembrando de que eu era adulta agora. Meu casamento estava começando e eu não a teria por perto para me ajudar a enfrentar as dificuldades que certamente viriam no futuro. Era hora de começar a encará-las.

– Sei que é difícil, mas tente não sentir medo – acrescentou mamãe, como um último conselho. – Quero que você saboreie cada momento desta noite. Não se trata de fazer tudo certo e sim de você e Quinn se comprometerem uma com a outra. Só isso importa.

Respirei fundo e concordei.

– Eu sei.

– Eu te amo – disse ela, me abraçando de novo.

– Eu também te amo – falei baixinho.

Então mamãe saiu, deixando-me com Mindy, sem dizer mais nenhuma palavra, porque tínhamos dito todas as coisas importantes.

Quando a porta se fechou, Mindy se virou para mim com os olhos arregalados, nervosos, como se desejasse que a calma e competente Dra. Corcoran ainda estivesse conosco.

– Ai... O que eu faço, Rach? – perguntou ela, os olhos virando rapidamente para a bandeja. – Eu... ajudo você?

Balancei a cabeça.

– Não. Só fique no quarto para o caso de alguma coisa dar errado.

Minha dama de honra ficou meio pálida, mas confirmou com a cabeça.

– Tudo bem.

Então, parecendo sentir que eu precisava de um pouco de espaço, de um pouco de privacidade, Mindy recuou alguns passos. Eu me sentei à mesa e, sem me dar mais tempo para hesitar, estiquei o braço esquerdo sobre a bandeja e usei a mão direita para erguer a faca.

Mas no momento em que encostei a lâmina no pulso, parei.

Aquilo iria doer e, se a faca entrasse fundo demais, eu poderia sangrar além da conta. Cortar os pulsos é uma forma de se suicidar.
Eu sabia que não iria morrer de verdade naquela noite – não podia ser destruída desse modo. Mesmo assim, vi que minha mão tremia um pouco quando encostei a lâmina no ponto onde uma veia azul era visível logo abaixo da pele.

Uma coisa era deixar Quinn rasgar minha carne suavemente num momento de paixão. Outra, muito diferente, era estar ali sozinha, como um cirurgião sem treinamento, tirando meu próprio sangue em quantidade suficiente para encher uma taça que agora parecia muito maior.

Mindy se remexeu atrás de mim, fazendo farfalhar seu vestido preto e simples, e eu soube que precisava agir logo. Estava ficando tarde e eu não queria fazer nossos convidados esperarem – acima de tudo, não queria fazer Quinn esperar.

Quinn...

Em algum lugar nos recessos do castelo Fabray, onde quer que ela estivesse se preparando, estaria realizando o mesmo ritual que eu. Mas eu sabia que sua mão não tremeria. Podia imaginá-la erguendo calmamente a faca, encostando a lâmina na carne e riscando uma linha quase invisível pelo braço. Uma linha que em segundos ficaria vermelha, quando o sangue começasse a sair. Ela viraria o pulso para a taça e permitiria que ela recolhesse as gotas.

Com a mão já mais firme, apertei a faca contra minha carne. A lâmina afiada como um bisturi rompeu a pele, me fazendo encolher. Então apliquei só um pouco mais de pressão, focalizada naquele fino traço de veia azul.

Ouvi Mindy ofegar enquanto o sangue escuro e denso jorrava subitamente da ferida, cobrindo meu pulso.

A princípio o talho fino não havia doído, mas então começou a arder e eu prendi a respiração e me forcei a ignorar a dor aguda, latejante.

Faça isso pela Quinn. A pior parte já passou.

Preparando-me para mais dor, puxei a lâmina por mais um centímetro e meio pelo braço, depois virei o pulso rápida e cuidadosamente, de modo que o sangue que agora saía mais depressa pingasse num ritmo constante na taça que o esperava.

Eu sabia que Mindy provavelmente estava horrorizada, talvez até um pouco enojada com aquilo. Se eu estivesse no lugar dela, se nunca tivesse provado ou compartilhado sangue, me sentiria do mesmo modo. Mas eu havia mudado e, enquanto o líquido quase preto se derramava da veia, não pude deixar de pensar, apesar da dor, em como ele era lindo. Eu queria compartilhar essa minha essência com Quinn, naquela noite e muitas, muitas vezes no futuro...

– Rach?

A voz insegura de Mindy interrompeu meus pensamentos. Ergui os olhos e vi que ela havia chegado perto e estava curvada ao meu lado, com uma expressão preocupada.

– Acho que já chega – disse, olhando meu braço. – Acho que você deveria parar.

– É – concordei, notando que a taça já tinha uma boa quantidade. – Chega.

Virei-me e girei o braço de modo a deixá-lo sobre a bandeja, depois usei a outra mão para levantar a colher cheia de ervas – gengibre e folhas de salgueiro – que impediriam o sangue de coagular rápido demais. Joguei-as dentro da taça e levei a mão em direção às tiras de tecido.

– Pode deixar – disse Mindy. Ela me surpreendeu puxando o pano antes que eu pudesse pegá-lo e segurando meu braço que sangrava. – Deixe que eu ajude, para você não sujar o vestido.

– Tudo bem – respondi, deixando-a enfaixar o ferimento.

Depois de cerca de um minuto, quando o sangue parou de atravessar o tecido, Mindy levantou com cuidado uma ponta e espiou embaixo.

– Acho que acabou – disse. E me encarou. – Mas vou deixar o machucado coberto, para não corrermos o risco de o corte abrir acidentalmente, certo?

Concordei balançando a cabeça.

– Obrigada.

Não era exatamente a resposta adequada para a pergunta de Mindy, mas eu queria que minha amiga soubesse quanto eu era grata pela calma e a habilidade com que ela estava lidando com uma situação que a maioria das damas de honra não precisava enfrentar. E também me sentia agradecida pela expressão dos olhos dela, que mostrava que não sentia repulsa por mim.

Olhei-a enrolar a bandagem em volta do meu braço com o mesmo cuidado que tinha arrumado meu cabelo e pensei que tinha escolhido a pessoa certa para ser minha dama de honra. Tinha escolhido a garota certa para ser minha melhor amiga.

– Obrigada – repeti, enquanto ela enfiava a ponta do pano por baixo da parte enrolada, para que o curativo ficasse o mais arrumado possível.

Quando Mindy se levantou, ergui o braço e olhei para a bandagem. Em vez de estragar meu visual, como eu temera, ela me pareceu estranhamente adequada. Era um lembrete de que, apesar do cuidado que Quinn e eu estávamos tendo para tornar nosso casamento perfeito e parecermos perfeitas uma para a outra, nós duas tínhamos defeitos. Levaríamos para o casamento não somente amor, mas também velhas feridas com as quais a outra sempre precisaria ter cuidado. Eu sempre teria que levar em conta a infância horrível de Quinn e entender quando ela ficasse quieta e fechada. E Quinn sempre teria que me assegurar de que seu lado obscuro jamais se viraria contra mim.

Passei os dedos pelo tecido, encolhendo-me de novo quando eles roçaram acima do corte, que ainda ardia um pouco. Quinn teria uma bandagem praticamente idêntica, amarrada por Samuel, e a mesma dor.

– Devo levar isso para fora? – ofereceu Mindy, estendendo a mão para a bandeja.

– Não, espera – respondi, segurando seu braço. – Ainda não terminei.

– Não? – Mindy ergueu as sobrancelhas e o modo como sua voz saiu como um gemido me disse que, mesmo fazendo um ótimo trabalho para enfrentar um casamento vampiro, ela já havia me visto derramar sangue suficiente por uma noite.

Mas eu não tinha escolha. Peguei a faca de novo, desta vez sem medo, porque sabia que aguentaria a dor. Então, usando a mão esquerda, marquei a palma da direita com um X fundo. O sangue saiu de novo e eu peguei o último pano limpo, apertando-o com força para estancar o fluxo.

– Quinn vai marcar a mão esquerda dela – contei a Mindy, que pareceu compreensivelmente confusa. – Assim, quando nos dermos as mãos na cerimônia para dizer os votos, nossos sangues vão se misturar.

– Ah, nossa...

Dava para ver que Mindy, sempre romântica, estava dividida entre pensar que esse era o gesto mais lindo do mundo ou o mais errado.

– Alguns vampiros ficam com a cicatriz pelo resto da vida – acrescentei. – Como uma aliança que nunca pode ser tirada.

Por isso eu tinha tentado cortar a palma da mão tão fundo. Minha primeira cicatriz de verdade. Quinn obviamente faria seu corte fundo e grande. Eu sabia que, tendo suportado tantos ferimentos graves no passado, ela nem se encolheria ao acrescentar mais uma cicatriz à mão, para se marcar como sendo minha.

– Agora terminei, se você tem certeza de que não se importa – anunciei, orientando minha amiga, que parecia não saber o que pensar a respeito daquilo, e indicando que era hora de ela levar a bandeja (e de parar de se preocupar se eu usaria a faca de novo).

– Ah, claro – disse ela, pondo a tampa na taça e equilibrando a bandeja com uma das mãos enquanto abria a porta.

O empregado silencioso que esperava pegou a bandeja das mãos de Mindy e ela fechou a porta. Quando voltou para perto, perguntou:

– E agora?

– Agora esperamos quem vai nos levar para a cerimônia.

Apesar do conselho de mamãe, comecei a sentir um frio na barriga. Em algum lugar do castelo nossos convidados – vampiros e humanos – já estavam reunidos e Quinn estaria a caminho da cerimônia e...

Quem viria me buscar?

Outro empregado? Um dos guardas de Quinn?

Não precisei esperar muito. Antes mesmo que Mindy pudesse decidir se deveria se sentar e correr o risco de amarrotar o vestido, houve outra batida à porta do quarto. Mais uma vez corri para atender, nervosa e impaciente demais para deixar minha dama de honra fazer isso.

Dessa vez, quando abri a porta para revelar o corredor, vi que alguém estivera muito, muito ocupado enquanto eu derramava meu sangue por Quinn. E também recebi, com enorme felicidade, meu acompanhante para a cerimônia.

– Você está linda – disse papai, os olhos ficando meio úmidos enquanto entrava sorrindo no quarto para nos cumprimentar. – Vocês duas estão!

Ele percebeu minha bandagem e o pano que eu segurava e uma sombra atravessou seu rosto, diminuindo o brilho do sorriso. Eu sabia que, por ter viajado pela Romênia com mamãe enquanto ela estudava a cultura dos vampiros, ele devia estar familiarizado com os rituais do casamento e provavelmente sabia muito bem o que eu tinha feito. Apesar disso, fiquei com a sensação de que, mesmo sendo uma pessoa de mente aberta, ele não gostava de ver a filha sangrar. Mas ele não disse nada.

Como mamãe, ele estava deixando que eu seguisse meu caminho.

– O senhor também está muito bem, Sr. Berry – observou Mindy.

Verifiquei a aparência de papai, também, avaliando-o da cabeça aos pés. Quando cheguei às pontas dos sapatos engraxados, levantei o rosto para o dele e ouvi a surpresa na minha voz:

– Papai...

Eu esperava que papai se vestisse de modo especial para o casamento, mas o smoking que ele estava usando parecia algo que Quinn teria escolhido. Tinha um caimento perfeito nos ombros e a calça terminava no local exato sobre aqueles sapatos brilhantes. Além disso, ele usava uma gravata-borboleta com um laço não apenas muito benfeito, mas que parecia ter sido medido com régua.

Resumindo, meu pai também parecia bastante um membro da realeza.

– É o casamento da minha filha – lembrou ele, entendendo claramente meu choque. – Claro que estou usando smoking! – Depois ele riu e observou: – Se bem que vou admitir que é um smoking bem chique. Quinn o encomendou. Parece que ela tem algo contra roupas alugadas.

Comecei a rir enquanto papai acrescentava, imitando Quinn:

– Passei a entender sua paixão pela reciclagem, Leroy, mas devo estabelecer um limite no quesito calças. Principalmente no meu casamento!

– Parece coisa da Quinnie — concordou Mindy, rindo.

Eu sorri também. É, parecia mesmo coisa da Quinn.

Então papai me ofereceu o braço e disse:

– Vamos? Seus convidados e sua noiva esperam a princesa!

Apesar de o gesto também ser uma espécie de brincadeira – um floreio pomposo para combinar com a roupa dele – nós dois ficamos sérios. Num instante todo o riso terminou.

Mindy também sentiu a mudança de clima e, sem mais palavras, ficou atrás de mim enquanto eu pegava o braço de papai. Esperei enquanto ela segurava a cauda do vestido para que não arrastasse no piso quando andássemos até o lugar secreto onde a cerimônia aconteceria.

Estava na hora.

– Papai – falei baixinho, enquanto íamos para a porta, de braços dados. – Você sabe aonde nós vamos? Este castelo parece um labirinto!

Eu não queria que meu pai revelasse o local surpresa de Quinn, ainda mais depois de ter esperado tanto tempo, mas estava honestamente preocupada com a possibilidade de me perder.

– Ah, Quinn pensou nisso também – disse papai com um brilho nos olhos.

Ele estendeu a mão para abrir a porta e, enquanto me levava para fora, tive a visão completa de algo que só havia vislumbrado quando meu pai entrou no quarto, talvez propositalmente me impedindo de olhar pelo corredor.

– Ah, é lindo – ofeguei, parando na porta.

Ou talvez Mindy tenha dito isso. Talvez nós duas tenhamos dito.

Todo o corredor estava ladeado por centenas de velas tremeluzentes em pequenos suportes de vidro. Estavam a cerca de um passo umas das outras e eram a única luz no corredor. Um caminho em fogo para seguirmos. Um lindo gesto da parte de Quinn.

Como sempre acontecia quando eu estava prestes a encontrar Quinn, comecei a sentir um frio na barriga. Mas, apesar do nervosismo, apertei o braço de papai, sinalizando que deveríamos ir, e nós três começamos a seguir o caminho luminoso que serpenteava e se aprofundava no coração do castelo.

Caminhamos pelo que pareceu um longo tempo, os três em silêncio, indo para partes do castelo silencioso que eu jurava não me lembrar de ter visto antes. Ou talvez Quinn tivesse mostrado esses lugares e eu não conseguisse lembrar. Naquela noite, tudo parecia diferente, mágico, estranho e silencioso.

Meu coração, que havia ficado mais lento quando me tornei totalmente vampira, começou a bater com mais força a cada passo. No entanto, ao mesmo tempo, fui ficando estranhamente calma.

Quinn estaria no fim desse caminho.

O momento que eu estivera esperando – para o qual havia nascido – ia acontecer...

Chegamos a uma curva no corredor, tão fechada e estreita que, por um segundo, tive a impressão de que era um beco sem saída, uma parede vazia. Quando demos mais um passo, senti uma brisa quente no rosto e o perfume de flores no ar puro.

As velas terminavam poucos metros adiante e o que parecia um arco surgia na parede de pedras. Olhei rapidamente o rosto de papai e vi que ele estava sorrindo de novo, como se tivesse certeza de que eu ficaria feliz com o que havia ali.

Alguns instantes depois, quando eu não sabia se queria que a expectativa se satisfizesse finalmente ou que continuasse para sempre, de tão maravilhosa, chegamos ao fim do caminho e Mindy soltou a barra do meu vestido, deixando tocar o chão.

Quando passamos sob o arco, apertei o peito com as mãos, esquecendo que poderia manchar o vestido de sangue, e exclamei baixinho:

– Ah, Quinn!

Notas finais
Eu tinha calculado errado gente, mas no próximo capítulo sai O CASAMENTO.