O casamento CSLDVA
6 Capítulo 6
Notas iniciais
Fiquei boquiaberta com a cena, porque Quinn não havia escolhido um salão grandioso para nos casarmos e sim um pátio pequeno, íntimo – como uma gruta –, delimitado por paredes de pedra cobertas por trepadeiras e ramos de boa-noite que serpenteavam em direção ao céu. As últimas flores brancas e luminosas do fim do verão estavam abertas e pareciam estrelas caindo em volta de nós.
A iluminação era feita apenas pela lua cheia e as muitas velas presas nos parapeitos das altas janelas em arco ao redor, arrumadas às dezenas na mesa de pedra onde as pequenas taças de prata esperavam e acomodadas entre as flores que cresciam em profusão por todo o jardim.
Era tudo perfeito, como Quinn havia prometido. Apesar de estarmos no centro de um castelo que ela mantinha com ordem e precisão, o pátio possuía uma beleza caótica, como o próprio amor. Pelo menos como o amor que eu sentia por Quinn, que parecia incontrolável. Era um lugar em desordem, selvagem, no fundo do meu coração, que um dia também insistira na ordem racional.
É, foi o jardim que me fez respirar fundo.
Mas foi a visão da própria Quinn, e não o cenário incrível que ela havia criado para nós, que me compeliu a dizer seu nome.
Ela estava me esperando no fim de um corredor formado entre a folhagem, diante da mesa de pedra, e eu nunca a tinha visto tão séria, tão solene. Mas aquele não era o lado sombrio de Quinn. Não, era como se ela estivesse tão feliz que não conseguisse sorrir. Eu entendia isso porque estava sentindo a mesma coisa. Era como um júbilo tão intenso que só poderia ser expresso com os olhos. Parecia profundo demais para ser demonstrado apenas com um sorriso.
Naquele momento, eu sabia que nossos convidados estavam ali, nos observando das cadeiras enfileiradas nos dois lados do caminho, mas mal os percebia. E não andei até Quinn imediatamente. Ficamos em silêncio, perdidas no tempo, no espaço – e uma na outra. Mesmo a distância, na escuridão, eu podia ver que ela estava emocionada, que ela jamais se esqueceria de como eu estava ao entrar no jardim vestida de noiva, assim como eu jamais esqueceria a imagem de Quinn de pé ali confiante, os ombros alinhados um pouco puxados para trás e as mãos cruzadas às costas, como sempre fazia.
Mas naquela noite Quinn não baixou a cabeça nem andou de um lado para o outro. Ficou perfeitamente imóvel, costas eretas, olhos fixos em mim enquanto compartilhávamos aquela felicidade extraordinária, profunda, as duas cientes de que aquele era um momento único.
Poderíamos ter ficado assim durante horas se papai não tivesse tirado o braço do meu e beijado meu rosto. Finalmente desviei o olhar de Quinn e me virei para o meu pai, cujos olhos novamente brilhavam com lágrimas enquanto ele me dizia:
– Eu te amo, Rach.
Quis dizer ao meu pai que também o amava, mas de repente fiquei com um nó na garganta e precisei confiar que ele entendia que eu não conseguiria falar.
Então ele deu um passo para o lado, porque a tradição era que eu caminhasse sozinha os últimos metros até minha mulher. Nem flores eu carregava. Deveria me aproximar de Quinn com as mãos vazias, para simbolizar que, a partir daquela noite, não haveria nada entre nós.
Assenti para Mindy, que ficou à minha frente e começou a ir devagar pelo caminho. Quando ela chegou a seu lugar e olhou de volta para mim, todos os convidados se levantaram e se viraram também. Mas eu ainda mal os notava, nem dava atenção a Mindy, que esperava à esquerda da mesa de pedra, nem percebia Samuel parado à direita de Quinn. De novo estava hipnotizada pela imagem de Quinn, concentrada não somente em seus olhos, mas na mulher inteira, a vampira, com quem eu iria me casar.
Seu cabelo loiro brilhava ao luar que, juntamente com as velas, também iluminava suas feições. As maçãs do rosto definidas, o nariz reto e o queixo forte que eu tinha notado pela primeira vez numa escola da Pensilvânia, num dia e num lugar que pareciam infinitamente distantes. Ela usava uma roupa tão socialmente “Quinn” e tão clara quanto seus olhos e que era tão adequada quanto o jardim era perfeito para nossa cerimônia. Era discreta – sem nada exagerado ou seda brilhante –, mas sua simplicidade só parecia enfatizar a segurança de Quinn, como se ela confiasse o suficiente em seu poder a ponto de não precisar de qualquer aparato extra. De algum modo ela conseguia mostrar que era uma princesa mesmo usando nada mais do que uma veste simples e elegante, como a que usara no jantar que oferecemos antes do casamento.
Quinn me esperava ereta, porém à vontade, como a guerreira que fora criada para ser, e eu mal podia acreditar que ela era minha.
Algum dia ela já parecera tão alta? Tão dominadora? Tão capaz de comandar?
Enquanto eu começava a andar até ela, jamais afastando os olhos, vi que Quinn usava um toque sutil de cor. Um pequeno colete cinza, quase da cor do meu corpete.
Quando cheguei mais perto, ela tirou as mãos das costas, como se não pudesse esperar nem mais um segundo para me tocar, e também vi uma ponta branca em seu braço, um pedaço de tecido aparecendo, logo acima da mão.
– Anastácia, eu, eu... – disse ela, quando eu estava suficientemente perto para ouvi-lo sussurrar. Suficientemente perto para ver a admiração, o fascínio, em seus olhos, emoções fortes o bastante para deixar até mesmo Quinn Fabray sem fala, provavelmente pela primeira vez na vida.
Então eu sorri, porque tive a certeza de ter alcançado o que queria: Quinn, sempre tão eloquente, nem conseguia encontrar palavras para se expressar ao me ver.
Ocupei meu lugar ao seu lado e Quinn sorriu também, revelando, pela primeira vez naquela noite, os dentes de um branco puro que eu finalmente sentiria de novo em meu pescoço.
Encarei seu rosto bonito e ela estendeu a mão esquerda – a mão marcada, dominante – e segurou forte a minha direita, também marcada, unindo-nos diante de todos e reabrindo suavemente os ferimentos, de modo que nosso sangue se misturasse. Foi o momento mais feliz da minha vida.
A incisão na minha mão, tão recente, doeu ao ser perturbada. A pele se separou e Quinn observou meu rosto atentamente, com preocupação e um pedido de desculpas nos olhos, mas balancei a cabeça de leve, dizendo que estava tudo bem, que ela deveria se certificar de que o sangue saísse.
Então ela apertou os dedos com mais força em volta da minha mão, torcendo nossas palmas ligeiramente. Eu me obriguei a não demonstrar a dor do corte que se abria. Pude sentir o sangue começando a sair e, mesmo sabendo que Quinn também sangrava, era impossível dizer qual sangue era de quem – assim como deveria ser, a partir daquele momento.
Antes eu pensava que o momento em que Quinn cravou as presas no meu pescoço pela primeira vez seria sempre o melhor da minha vida, mas nada poderia se comparar a me unir a ela para sempre na presença da nossa família e dos nossos amigos. Nada jamais se compararia àquele olhar caloroso e de adoração de Quinn por mim, que se abria tão sem reservas enquanto nosso sangue sereno se fundia no ponto em que estávamos conectadas.
Demoramos mais um instante ali, apenas sendo uma, guardando tudo na memória, e então nos viramos para encarar o mais velho dos Anciões, que havia saído das sombras e se juntado a nós do outro lado da mesa de pedra. Ele anunciou:
– Comecemos.
Enquanto os convidados se sentavam de novo, Alexandru Fabray, o vampiro que presidiria a cerimônia, estendeu os braços e pôs as mãos, que tremiam por conta da idade, na nossa testa. Então Quinn e eu abaixamos a cabeça ligeiramente enquanto ele anunciava às nossas famílias a bênção inicial da cerimônia.
– Estamos reunidos esta noite para unir, por toda a eternidade, o princesa Quinn Fabray e a princesa Anastácia Dragomir e lhes oferecer a bênção de nossos clãs – disse ele, os dedos surpreendentemente firmes em minha cabeça. – A partir deste dia, como foi prometido pelo pacto selado quando nasceram, elas viverão e governarão como uma só.
Então ele retirou as mãos e Quinn e eu erguemos a cabeça. Tive a certeza de que aquela era a primeira das duas únicas vezes em que Quinn Fabray se curvaria diante de outro vampiro, mesmo que se tratasse de um Ancião venerável, sábio ou poderoso. A próxima vez que Quinn baixasse a cabeça seria em nossa coroação como rainhas. Se esse dia chegasse...
Olhei ligeiramente para o lado para ver Quinn de perfil, o nariz reto, o queixo forte e a mecha do cabelo loiro recém-cortado que caía em sua testa, como se ela não pudesse conter esse seu lado impossível de ser governado, mesmo no nosso casamento.
Quinn, que seria a mulher da minha vida por toda a eternidade e provavelmente mãe dos meus filhos, os próximos príncipes e princesas...
– Mas primeiro – disse Alexandru, atraindo minha atenção de novo, de modo que me peguei espiando seus olhos, que eram verdes e familiares, os olhos dos Fabray, que tinham visto séculos, talvez milênios, de casamentos, nascimentos... e destruições. – Primeiro vocês devem aceitar uma a outra como esposas, diante de suas testemunhas.
Foi minha vez de apertar a mão de Quinn, os dedos automaticamente se contraindo em volta dos dela, e respirei trêmula.
Esta era a parte mais importante da cerimônia. Mesmo sabendo que Quinn queria se casar comigo, senti meu estômago revirar, apreensiva e nervosa, porque a pergunta que seria feita a seguir não era mera formalidade. No mundo em que eu estava entrando, onde as uniões eram mesmo eternas, as próximas palavras davam aos noivos uma última chance de reconsiderar, antes que o elo fosse forjado para sempre.
– Quinn Fabray – disse Alexandru, quase como um agouro –, você aceita Anastácia como sua esposa, enquanto você existir?
Quinn e eu nos viramos uma para a outra e ela segurou minhas duas mãos. No momento em que vi seu rosto, minha apreensão desapareceu. Não somente sua expressão continuava aberta, sem reservas, para mim, mas vi de novo nos seus olhos o amor profundo que agora sempre estava ali – às vezes um pouco escondido atrás do riso, da frustração ou das outras emoções mais complexas de minha princesa, mas sempre ali. E naquela noite, tudo o que vi foi o amor enquanto Quinn, falando aos nossos convidados e ao mesmo tempo só para mim, disse séria, reverente:
– Sim, aceito Anastácia como esposa, agora e sempre, enquanto eu existir.
Mesmo sabendo de coração que Quinn me aceitaria e que meu temor momentâneo não tinha fundamento, fiquei aliviada – e emocionada a ponto de chorar – por ouvi-la dizer essas palavras em voz alta.
Ela me queria, para sempre...
Então, enquanto Quinn e eu permanecíamos viradas uma para a outra, com as minhas mãos nas dela, Alexandru Fabray falou meu nome e fez a mesma pergunta.
– Anastácia Dragomir, você aceita Quinn como sua esposa, enquanto você existir?
Nem esperei que a voz do velho vampiro se esvaísse na noite silenciosa. Abri a boca para responder, certa de que não precisava pensar. Claro que eu sabia qual era a resposta...
Mas antes que as palavras saíssem da minha boca, Quinn apertou minha mão de um modo que eu entendi que se destinava a me silenciar. Então ela baixou os olhos, fechando-se para mim.
Esperei, insegura, sem entender o que ela estava fazendo.
E quando ela ergueu os olhos de novo, vi a última parte, a mais escondida, da alma de Quinn. Tive um vislumbre de um lugar dentro dela que nunca esperava ter permissão de ver, nem mesmo se realmente vivêssemos para sempre.
Nos últimos momentos antes de eu me comprometer a ser dela – a ser parte dela – para todo o sempre, Quinn me permitiu ver aquele lado sombrio, ferido, que um dia a levara a encostar uma estaca em meu peito antes de desmoronar e gritar com fúria e desespero: “Tudo à minha volta é destruição!”
Encarei-a abalada, mas me recusando a afastar os olhos, apesar de aquele aspecto de Quinn ser aterrorizante. Eu sabia que nunca mais veria essa parte dela – pelo menos não daquele jeito – e quis tentar entendê-la antes de nos unirmos eternamente.
Enquanto examinava seus olhos, vi não somente a princesa vampira que quase havia me destruído, que havia destruído o tio e que poderia tirar vidas no futuro, mas também a órfã criada com surras em vez de amor. Foi como se toda a história de Quinn se desdobrasse à minha frente, revelando-se ao mesmo tempo a origem de sua força, de sua capacidade de suportar a dor, de governar uma nação de vampiros e de sacrificar até mesmo a própria existência, se necessário, e o motivo de seu poder ser sempre perigoso.
– Ah, Quinn... – murmurei seu nome, esquecendo a cerimônia, esquecendo totalmente os convidados. – Quinn...
Ela estava me dando mais uma chance de fugir, como havia oferecido na noite em que provou meu sangue. A última chance de fugir...
Mas ver aquele lado de sua alma só me fez desejá-la ainda mais.
Ela confiava em mim o bastante para revelar sua natureza mais sombria. Apesar de amar ser novidade para ela, Quinn acreditava que nosso amor era forte o suficiente para impedir que eu jamais lhe desse as costas.
Ficamos em silêncio por longo tempo, com o sangue que fluía entre nossas palmas engrossando, colando-nos mais ainda. Nossos convidados não faziam ideia do que se passava entre nós e provavelmente se perguntavam se eu iria cancelar o casamento.
E, então, sem hesitar e ainda olhando nos olhos de Quinn, confrontando a dor profunda e o poder incrível que ela lutava para controlar, eu disse a todo mundo, e no entanto somente a Quinn, como ela havia me dito:
– Sim, aceito Quinn como minha esposa, agora e sempre, enquanto eu existir.
Quinn baixou os olhos de novo e eu tive a certeza de que ela jamais me revelaria aquele seu lado de novo, de modo tão aberto. Que eu não deveria vê-la de novo. Que, como a estaca que ela havia apontado para mim e que desaparecera, eu deveria aceitar que essa parte de Quinn existia, fora do meu alcance e sempre capaz de vir à tona.
Quando ela me deixou ver seus olhos de novo, tudo o que havia neles era felicidade – a volta da vampira que eu tinha passado a amar, em toda a sua glória arrogante, maravilhosa, espirituosa, terna, dominadora. Seus olhos tinham somente uma leve sombra daquele lugar escuro que eu sempre reconheceria, juntamente com o amor que eu via em seu olhar.
Eu jamais iria rever a escuridão que ela abrigava, mas sua fonte nunca estaria totalmente escondida de mim. E, como sua noiva, achei que isso era certo.
Os cantos dos lábios de Quinn se ergueram com um sorriso e eu sorri também, sabendo que sentíamos o mesmo. Ambas acreditávamos que, apesar de a cerimônia ainda não estar terminada, no momento em que eu aceitei Quinn e ela me aceitou, tínhamos nos tornado esposas. Eu mal podia esperar para beijá-la e selar a nova aliança entre nós.
Continuamos nos encarando, compartilhando a felicidade e uma paz nova e maravilhosa.
Foi necessário esforço para parar de encarar Quinn, para pararmos de sorrir uma para a outra, mas por fim soltamos as mãos que não tinham cortes e nos viramos de novo para Alexandru, que assentiu primeiro para Samuel, depois para Mindy, sinalizando que deveriam pegar as taças.
Ainda que eu tentasse me lembrar de cada detalhe do restante da cerimônia com tanta clareza quanto me lembrava do instante em que percebi que Quinn era mesmo minha mulher, só conseguiria capturar algumas cenas que vieram em seguida.
O momento em que Mindy – com uma expressão estranha, quase perturbada nos olhos, em vez das lágrimas sentimentais que eu esperava – me passou a taça de prata para que eu pudesse oferecer meu próprio sangue a Quinn e o modo como ela fechou os olhos ao aceitá-la da minha mão, levá-la aos lábios e beber.
E eu me lembraria de finalmente ter notado Samuel – percebendo que de algum modo Quinn tinha conseguido fazer seu padrinho tomar banho e se enfiar num smoking, de forma que ele parecia adequadamente régio ao entregar a Quinn sua taça.
E nunca esqueceria o peso da prata enquanto eu aceitava a taça e a levava aos lábios, a mão tremendo só um pouco de nervosismo e expectativa. A sensação de ter aquele cálice antigo em meus lábios ficaria para sempre na minha memória, tão fundo quanto o F gravado nele, um precursor rústico das elegantes iniciais desenhadas no marcador de livro que Quinn havia me dado.
E não me esqueceria do gosto de seu sangue – aquela essência doce, fria, incrível, da própria Quinn, pela qual eu havia ansiado tanto tempo. A taça não tinha o suficiente para me satisfazer e nem deveria, mas eu sabia que beberia mais.
Claro que eu também me lembraria, sempre, de Quinn dizendo, em sua voz profunda:
– Ofereço-lhe nada menos do que o meu sangue, Anastácia, nada menos do que a mim mesma.
Também houve imagens vívidas de Alexandru buscando a árvore genealógica que Quinn havia me mostrado meses atrás e apoiando-a sobre a mesa para que eu pudesse colocar meu nome ao lado do da minha mulher.
Antes de encostar a pena no papel, eu me virei para olhar os convidados. Minha mãe parecia corajosamente feliz, meu pai chorava, os olhos de Dorin brilhavam e Claudiu se recusava a olhar, seu rosto virado enquanto eu colocava minha assinatura com cuidado e Quinn escrevia a data do nosso casamento acima do espaço onde um dia os nomes dos nossos filhos seriam escritos com a mesma tinta preta.
Todas essas coisas aconteceram depressa demais, até o momento em que Quinn colocou uma aliança brilhante no meu dedo e eu fiz o mesmo com ela, consciente de um modo maravilhoso e desavergonhadamente egoísta de que isso, mais do que a marca na palma da mão dela, diria ao mundo que ela me pertencia. Só os vampiros entenderiam o simbolismo da cicatriz na mão, mas uma aliança de ouro tinha significado universal.
Ninguém mais poderia tê-la agora.
Quinn olhou para o meu rosto e me estendeu a mão esquerda, rindo um pouco por eu estar tão ansiosa por reclamá-la publicamente para mim, e senti a força de seus dedos enquanto empurrava a aliança até o final.
Então, quando as alianças estavam no lugar, Alexandru Fabray disse as palavras que eu jurava que não aguentaria esperar mais um segundo para ouvir:
– Quinn, pode beijar a noiva.
Quinn segurou minhas mãos outra vez e, ainda que, no decorrer da cerimônia, eu tivesse ficado consciente dos convidados ao redor, todo mundo pareceu sumir de novo, como se Quinn fosse uma mágica capaz de convocar e dispensar multidões ao seu bel-prazer. Naqueles olhos profundos e verdes havia espaço suficiente para esconder todo um jardim e muitos outros truques maravilhosos também, eu tinha certeza...
– Beije-me, minha esposa – disse ela baixinho, rompendo o protocolo ao falar. Mas àquela altura nenhuma de nós se importava mais com o decoro.
– Beije sua mulher.
Os olhos dela ainda estavam cheios de amor, mas também havia malícia – uma das características de Quinn de que eu mais gostava – quando ela deu um passo na minha direção. Eu me peguei sorrindo, quase gargalhando, dominada por uma alegria que ficava guardada no fundo, bem no fundo de mim e que eu experimentava em silêncio, mas que de repente borbulhou livre, não podendo mais ser controlada, ao som da ordem provocante de Quinn.
Beije sua mulher...
Ela chegou mais perto ainda, encostando seu corpo forte no meu, e passou o braço pela minha cintura, me puxando. Inclinei a cabeça para trás a fim de encará-la e, no último segundo antes que seus olhos se fechassem, vi a malícia provocante ser substituída por uma promessa solene. Meu riso sumiu também enquanto ela subia as mãos e segurava meu rosto, virando-o para sussurrar no meu ouvido, os lábios roçando a pele enquanto dizia:
– Eu te amo mais a cada instante, Rachel. E isso é só o começo.
Com lágrimas brotando nos olhos, deixei que Quinn virasse meu rosto de volta para ela e encostasse a boca na minha para nos beijamos pela primeira vez como esposas – um beijo que resumia tudo que tínhamos vivido juntas. O nervosismo, a expectativa, a visão arrebatadora da outra e o espanto com o momento em que nós duas soubemos que éramos uma só.
Ela pressionou os lábios com mais força contra os meus, que se abriram só um pouquinho, o bastante para que uma saboreasse o sangue que restava na língua da outra e para que eu sentisse que os caninos dela estavam começando a crescer, assim como os meus.
Então, como não estávamos sozinhas, recuamos, e Quinn encostou a testa na minha, nós duas sorrindo de novo. O beijo meio que continuou nos nossos olhos, mais particular, com a promessa de tudo o que viria. Foi quando alguém – provavelmente Mindy – começou a aplaudir.
***
Fale com o autor